terça-feira, 20 de novembro de 2012

Repetir

Público de hoje

A troika fez mais uma autoavaliação positiva. Trata-se, afinal de contas, do seu governo. Os fracassos políticos são naturalizados no comunicado com a metáfora dos “ventos contrários”. Nada há de natural no que é conhecido: taxa de desemprego crescente e recessão cada vez mais profunda, mecanismos para destruir o que sobra da economia política do 25 de Abril, aproveitando a oportunidade para promover a contraproducente concorrência fiscal inscrita nesta integração europeia assimétrica, para criar condições financeiras mais favoráveis para os bancos ou para reforçar a austeridade destruidora das funções sociais do Estado e da economia, dada a quebra na procura assim engendrada e que não é contrariada. Daqui até à sétima autoavaliação há um trabalho ideológico que requere toda a mobilização dos aparelhos ideológicos disponíveis. Trata-se sempre de tentar naturalizar os cortes, a lógica da inevitabilidade, porque a “economia”, vejam lá, não aguenta as funções sociais que resistem, uma coisa que lhe deu. O guião está escrito. É uma prática política que se repete, sempre como tragédia para uma imensa maioria.

6 comentários:

D., H disse...

Pois é, João, a história repete-se, enquanto o desespero cresce.
As centrais de propaganda – certa media, opinadores para todo o serviço, “analistas de economia” e demais “especialistas da vidinha” – já começaram, hoje mesmo, a “campanha de sensibilização” para mais austeridade e para o alargamento do exército de reserva (de desempregados, claro). É o killer instinct!
Como se a Troika tivesse deixado trabalho de casa para este governo sem vergonha (e que já se tornou ilegítimo!), antes de mais um número da avaliação, lá para Fevereiro de 2013.
Será que estamos condenados a viver num país miserável e de trapaceiros, integrado numa farsa chamada União Europeia? Era o que faltava…

Diogo disse...

«Os fracassos políticos são naturalizados no comunicado com a metáfora dos “ventos contrários”»


Não há fracassos políticos. O que há é isto:

Paulo Morais, professor universitário - Correio da Manhã – 19/6/2012

[...] "Estas situações de favorecimento ao sector financeiro só são possíveis porque os banqueiros dominam a vida política em Portugal. É da banca privada que saem muitos dos destacados políticos, ministros e deputados. E é também nos bancos que se asilam muitos ex-políticos." [...]

[...] "Com estas artimanhas, os banqueiros dominam a vida política, garantem cumplicidade de governos, neutralizam a regulação. Têm o caminho livre para sugar os parcos recursos que restam. Já não são banqueiros, parecem gangsters, ou seja, banksters."

J. Saro disse...

"(...) mecanismos para destruir o que sobra da economia política do 25 de Abril(...)"

Não discutindo tudo o resto, sou só eu que acho estranho esta frase? É suposto haver mesmo uma política programática do 25 de Abril?

E a economia que temos é mesmo do 25 de Abril ou do que o 25 de Abril permitiu fazer? É que não é a mesma coisa.

Lowlander disse...

"Não discutindo tudo o resto, sou só eu que acho estranho esta frase?"

Sim.

"É suposto haver mesmo uma política programática do 25 de Abril?"

Nao e suposicao. Existiu de facto uma politica programatica das forcas que conduziram o 25 de Abril.
Quando se fala da politica programatica do 25 de Abril, esta obviamente implicito que se esta a usar uma metafora das forcas politicas que conduziram esse processo revolucionario.
Uma vez que o 25 de Abril e uma data do calendario onde calhou uma revolucao que depos um determinado governo (e sua respectiva economia politica) e o substituiu por outro.

"E a economia que temos é mesmo do 25 de Abril ou do que o 25 de Abril permitiu fazer?"

A pergunta nao faz sentido.

Anónimo disse...

Mas afinal de contas quem é que votou no "Seilasié"(o original foi corrido da Etiopia e este também há-de ser corrido de Portugal) e na restante corja para o fulano estar a botar discurso!?
Claro que o P.Coelho (que há-de ser conhecido pelo cognome "O Coveiro ") esfrega as mãos de contente pois, sendo ele, como é um servil engraxador(sem menosprezo para os próprios)tudo o que seja para dar cabo dos cidadãos que ele despreza, é bem vindo.
Não sei se será viável ou não, mas creio que está na hora de alguém apresentar queixa crime contra estes individuos ( o governo e a troika) uma vez que das medidas que têm tomado têm resultado consequências completamente desastrosas para todo o país.

O faroleiro disse...

Para o BE (no seu ramo trotzkista)

OCDE prevê que a Alemanha seja uma das principais vítimas da globalização. Num paper em que se encontra escrito a dada altura:

"Sustained improvements in the combined productivity of inputs into production (e.g. different kinds of capital and labour) will be the main driver of growth over the next 50 years. Average annual productivity growth is projected to be 1.5% globally. But countries with comparatively low productivity levels now – such as India, China, Indonesia, Brazil and Eastern European countries – are projected to grow faster than more developed economies."

(http://www.oecd.org/economy/economicoutlookanalysisandforecasts/2060%20policy%20note%20FINAL-1.pdf)

Eis agora a tradução (minha) de um excerto de uma palestra dada por um trotzkista australiano, Nick Beams, secretário nacional do Partido da Igualdade Socialista (Socialist Equality Party—SEP) da Austrália em 2007:

"Para Trotsky, porém, o importante não era simplesmente observar as conquistas da economia soviética, mas prever novos problemas e perigos e apontar para os meios de os superar.
A questão crucial, dizia Trotzky, não era a relação entre o Estado e a indústria privada dentro da União Soviética — por mais decisivo que isso fosse — mas a "bem mais importante" questão da relação entre a economia soviética e a economia mundial como um todo. À medida que a economia soviética entrava no mercado global, não aumentavam apenas as esperanças mas também os perigos.
Isto porque a superioridade fundamental dos Estados capitalistas estava no baixo preço de suas mercadorias — a expressão de mercado do facto de que tinham uma maior produtividade do trabalho. E seria a produtividade do trabalho que determinaria, em última análise, se seria vitorioso o capitalismo ou o socialismo.
"O equilíbrio dinâmico da economia soviética não deveria de forma alguma ser considerado como o equilíbrio de uma unidade fechada e auto-suficiente," escreveu Trozky. "Pelo contrário, conforme passar o tempo, a nossa economia interna será mais e mais mantida pelas conquistas do balanço das nossas importações e exportações. Este ponto deve ser sublinhado pelas suas importantes consequências: quanto mais entrarmos no sistema da divisão internacional do trabalho, mais aberta e diretamente os elementos da economia soviética dependentes do preço e da qualidade de nossos produtos serão afectados pelo mercado mundial." (1925, Leon Trotsky, Towards Capitalism or Towards Socialism? p. 327)