sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Pluralismo


Há cerca de dois anos, um conjunto de cidadãos, indignados com o transbordante monolitismo de opinião no debate político-económico promovido pelos órgãos de comunicação social (particularmente pelas televisões), subscreveram uma petição que seria posteriormente enviada às direcções de informação dos diferentes canais, aos grupos parlamentares e à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).

Para os seus promotores e subscritores, estava em causa um incompreensível empenho dos meios de comunicação social - «por ignorância, preguiça, hábito, desconsideração deliberada ou manifesto servilismo» - em mostrar a inevitabilidade das medidas de austeridade então anunciadas, bem como (e sobretudo) o silenciamento a que assim eram sujeitos outros pontos de vista, oriundos de diversos sectores político-sociais e expressos por reputados economistas, que alertavam - já nessa altura - «para o resultado nefasto de receitas semelhantes aplicadas em outros países».

O afunilamento dos termos do debate significava, para os peticionários, um grave problema de democracia e um alarmante entrave a uma discussão plural e aberta da crise e dos caminhos alternativos para a sua superação. A ERC esquivou-se, contudo, a proceder a uma análise competente e aprofundada das questões que lhe foram colocadas nesse contexto, como demonstra a deliberação produzida em Março de 2011 e a que os promotores da petição responderam, através de um comunicado que denunciou as insuficiências, contradições e manobras evasivas da entidade reguladora.

Tem sido, de facto, a própria realidade - face à evidência crescente e cada vez mais generalizada do fracasso colossal da via austeritária - a contribuir de modo mais relevante para o surgimento de alguns sinais (sempre ténues, pontuais e insuficientes) de mudança no panorama da discussão político-económica em espaços de debate televisivo não reservados à representação partidária. Mas sem que, contudo, muitos dos habituais tele-economistas tivessem perdido os privilégios de acesso às televisões ou começassem a ser devidamente confrontados com os resultados reais das medidas que insistente e recorrentemente advogaram (naquilo a que, da parte do papel da comunicação social, José Vítor Malheiros designa, de forma certeira - por jornalismo de «pé de microfone» ou de «pé de câmara»).

Mas há de facto excepções. E uma delas teve lugar ontem de manhã na SIC Notícias, com a participação do Alexandre Abreu no programa «Opinião Pública» (conduzido pela jornalista Carla Jorge de Carvalho). Recomendo que o vejam na íntegra (pois são também interessantes, deste ponto de vista, algumas opiniões dos espectadores). Mas não percam, sobretudo, a excelente intervenção inicial do Alexandre.

8 comentários:

Diogo disse...

Excelente a intervenção de Alexandre Abreu!

joaquim silva disse...

muito bom

pvnam disse...

A liberdade de expressão traz perigos, sim... mas... a implementação do lápis azul (vulgo censura) traz perigos muito muito maiores!

Anónimo disse...

Como contraponto à excelente e invulgar intervenção do economista Alexandre Abreu, registo a fraca qualidade da generalidade das intervenções dos telespectadores: essas concentram-se na sua maioria nas "regalias da classe política", ignorando que essas são uma pequena parte do autêntico assalto que está em curso no nosso país, como explica o economista melhor do que mais ninguém que eu tenha acompanhado recentemente.

É com isso que conta quem nos governa: que deixemos todos de acreditar na política e os políticos, para que no fim de contas continuemos mansos, ignorantes e à mercê de quem realmente está a lucrar com a nossa desgraça colectiva. Tempos negros estes.

adão contreiras disse...

Tempos negros muito Negros
Trás o sol empoeirado,
Acaso a revolta soçobre
Não fique o lápis calado.

cumprimentos às vozes que nos enriquecem e não se calam ...Adão C.

D., H disse...

A intervenção deste Ladrão foi uma lufada de ar puro no meio de “tanta porcaria”. A imagem do “jornalismo de pé de microfone” de JV Malheiros é muito feliz. Será que há bons entendedores?

Anónimo disse...

Está ali "tudo" e toda a gente percebe.
Excelente!

Anónimo disse...

ainda por cima é giro.