quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Solidariedade e sensatez

«Nós não temos uma situação parecida com a da Grécia», assegura Passos Coelho. O importante é evitar os «efeitos de contágio nefastos», adverte Luís Montenegro. «Portugal não é a Grécia», sentencia Paulo Portas, sacudindo a peçonha. «Ninguém faz comparações entre Portugal e a Grécia», diz Miguel Relvas, em meio tom de intimação.

E enquanto as preces são cerzidas umas às outras, para que em uníssono formem uma oração mais poderosa, alguém tenta sondar mais de perto as divindades, para que, caso o exorcismo falhe (não vá o diabo tecê-las), se garanta alguma ajuda lá do alto. A ladaínha, seja como for, não deve parar: «Portugal não é a Grécia, Portugal não é a Grécia, Portugal não é a Grécia».

É no meio deste pânico, em que se crê poder esconjurar o naufrágio renegando o passageiro mais exposto, que alguém com a decência e a lucidez que se impõem lembra o facto de, apesar das diferenças, todos se encontrarem no mesmo barco. De passagem por Lisboa, a ministra irlandesa dos Assuntos Europeus, Lucinda Creighton, sublinha que «seria errado tentarmos demarcar-nos da Grécia ou de outro país que esteja a atravessar dificuldades», invocando assim um dever de solidariedade que decorre, desde logo, da circunstância de os três países estarem nas melhores condições para demonstrar uma «grande compreensão em relação às dificuldades que enfrentam».

E quanto à possibilidade de saída da Grécia da Zona Euro, Creighton é lapidar: «não podemos tolerar essa eventualidade. (...) Temos de ser solidários com a Grécia e mantê-la no euro. Não há alternativa.» À dignidade e sensatez de uma ministra «cautelosamente confiante» contrapõe-se pois o fanatismo medroso dos que se orgulham, irresponsavelmente, de desbravar os mares que ficam «para além da troika».

(A imagem corresponde, como está bem de ver, a mais uma genial criação da Gui Castro Felga).

3 comentários:

Luís Coelho disse...

Sempre deram o dito pelo não dito e as promessas ficaram por cumprir.
Se depois Portugal estiver por que a Grécia a culpa é dos macacos...
Pois tem de culpar alguém ...e nesta altura é melhor que sejam os macacos pelos malabarismos que fazem para sobreviver.............

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

A falta de solidariedade sempre foi coisa de cobardes. E de estúpidos, porque tudo o que se ganha com ela é um pouco de tempo.

rocha disse...

Para me divertir nem preciso de voltar ao Eça e ao Camilo. Temos aí os Alípio Abranhos,os Benavides Barbuda, os Eusébio Macário
os Gonçalo Ramires etc.