Quando vejo um beto endinheirado, com apelido e correspondentes conexões, nestes preparos, penso em reclamar direitos de autor sobre o “liberal até dizer chega”. Bugalho é uma alma gémea de Cotrim, da classe às ideias. Afinal de contas, apoia Marques Mendes, um facilitador de negócios, rivalizando com o candidato da IL e com o seu mandatário fascista.
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Liberais até dizer chega
Quando vejo um beto endinheirado, com apelido e correspondentes conexões, nestes preparos, penso em reclamar direitos de autor sobre o “liberal até dizer chega”. Bugalho é uma alma gémea de Cotrim, da classe às ideias. Afinal de contas, apoia Marques Mendes, um facilitador de negócios, rivalizando com o candidato da IL e com o seu mandatário fascista.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Confirmar
Entre democratas, isto nem deveria exigir grande reflexão. Ainda assim, a resposta é bastante elucidativa. Tal como no passado, quando confrontado com “Cunhal ou Salazar?” e a resposta de Cotrim foi: “não consigo responder”.
A insegura bolha de Cotrim
domingo, 11 de janeiro de 2026
Do crime sistémico
Com o seu deliberado desmantelamento do SNS, da infraestrutura de saúde pública, este governo leva longe o conceito de “capitalismo do crime sistémico”, forjado por António Avelãs Nunes no seu último livro, que tive o prazer de apresentar em Coimbra.
sábado, 10 de janeiro de 2026
Intervenção
Num blogue politicamente plural, partilho a minha intervenção, enquanto mandatária distrital da candidatura de António Filipe em Coimbra, no comício que teve lugar ontem, num auditório cheio do Instituto Português do Desporto e Juventude.
Para lá da paródia
A linha editorial do Público já está para lá da paródia. Quem diria? Na secção de opinião deste jornal euro-liberal, talvez só os sintomaticamente quinzenais Ricardo Paes Mamede e Manuel Loff. Quem diria fora do Público, um jornal onde militante comunista já não entra? A Soeiro Pereira Gomes e assim, onde reside o melhor intelectual coletivo nacional...
Notas com sabor a cinza
1. Alegrai-vos. Graças à máquina de liberalização que é a UE, vamos comer picanha mais barata, com vinho argentino para empurrar, enquanto vemos na TV a Amazónia a arder ainda mais, com os nossos campos esvaziados a serem pasto, mas só para mais fogos igualmente televisionados. Haverá cada vez mais fumo e não será branco.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Hora de dizer não?
Augusto Santos Silva abandonou há muito qualquer referência marxista e agora tem de redescobrir muito apressada e seletivamente a crítica ao imperialismo, sem análise sistémica, sem história, sem quase nada. Sobram atoleiros e assim. Estou a pensar no seu artigo que saiu no Público, cujo título está incompleto e deve de ser corrigido: hora de aparentemente dizer não, depois de tanto tempo a dizer sim.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
Meia dúzia de notas, não são de dólar
1. Nuno Severiano Teixeira é historiador das relações internacionais, mas finge que desconhece a história do sistema imperialista liderado pelos EUA, substituindo-a pela fábula da “ordem baseada em regras”.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
Será que temem o debate?
«Transformar o Trabalho» é o título de um evento que o Conselho Estratégico de Liderança do ISEG Alumni Económicas, agendou para o próximo dia 13, em Lisboa. Consulta-se o programa e constata-se, com mais perplexidade do que propriamente surpresa, que à abundância de oradores CEO, advisors, seniors e partners, corresponde uma total ausência de representantes de organizações sindicais.
Esta iniciativa não tem lugar num momento qualquer. Realiza-se quando há um debate público e negociações em curso sobre o anteprojeto de reforma da legislação laboral aprovado pelo governo, orwellianamente apodado de «Trabalho XXI». Não será por acaso, aliás, que o dito evento tem, como «main keynote speaker», Maria do Rosário Palma Ramalho, ministra do Trabalho.
Acresce, ainda, que a iniciativa não parte de uma qualquer organização do mundo patronal. Um debate que excluísse as perspetivas do mundo do trabalho seria sempre pobre, mas compreendia-se melhor o enviesamento. Não, trata-se de uma iniciativa de uma entidade académica, com responsabilidades intrínsecas em assegurar as condições e os termos de uma reflexão que, não sendo plural, não é uma verdadeira reflexão nem um debate. É outra coisa.
Mais contrastes
Contrastes
“A história das intervenções externas dos EUA é uma história de caos, instabilidade e miséria”: quando leio um social-democrata anti-imperialista fora da UE, como Jeremy Corbyn, o meu desprezo intelectual e político pela trupe oportunista, a que inicia as suas intervenções com “Maduro é ditador”, só aumenta.
Brutalmente claro, brutalmente simples
John Lonsdale, um dos cofundadores da Palantir, é brutalmente claro, em linha com Peter Thiel ou Alex Karp.
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
Da coragem, da dignidade
Soy el presidente de Venezuela y me considero prisionero de guerra. Me capturaron en mi casa de Caracas. No soy culpable, soy un hombre decente, sigo siendo el presidente de mi país.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Conselhos de graça a um jovem
Jovem, queres ter lugar de tudólogo na comunicação social dominante e ganhar muito mais do que um jornalista a sério, o que também não é difícil?
Impasses
Nada sei sobre a ilegitimidade de Nicolás Maduro, chefe de Estado da Venezuela, reconhecido pela esmagadora maioria do mundo, Ana Sá Lopes. O que sei é que o seu artigo de hoje revela bem os impasses do euro-liberalismo no Público.
Eternos
Honor y gloria a los bravos combatientes cubanos [32 combatentes cubanos mortos] que cayeron enfrentando a terroristas en uniforme imperial, que secuestraron y sacaron ilegalmente de su país al Presidente de Venezuela y esposa, cuyas vidas ayudaban a proteger los nuestros por solicitud de esa hermana nación. Comparto dolor e indignación con nuestro pueblo y especialmente con los seres queridos de nuestros valerosos compañeros. Al abrazar a sus familiares y amigos, en esta hora infausta, reitero mi gran afecto, admiración y orgullo por ellos y su heroico comportamiento.
domingo, 4 de janeiro de 2026
Da infâmia
Esta é uma capa para a história da infâmia jornalística liberal em Portugal. Numa redação onde abunda o trabalho precário e mal pago, há quem seja principescamente pago para decidir pespegar um trocadalho do carilho destes na capa. Também isto é liberalismo.
sábado, 3 de janeiro de 2026
Solidariedade
Ainda a agressão militar imperialista não se tinha dado e já os pinochetistas da IL cheiravam sangue, em linha com toda uma tradição liberal realmente existente, que mergulha nos longo século XIX, no breve século XX e no sombrio século XXI.
Ladrões em 2025
De acordo com a contabilidade do blogger, o Ladrões de Bicicletas atingiu, em 2025, mais de 2,1 milhões de visualizações, mantendo assim a tendência de crescimento que se verifica desde 2023. Com cerca de 13 mil seguidores no facebook, quase 8 mil no twitter e aproximadamente 4,7 mil no instagram, a presença nas redes continua a ser essencial na vida do blogue. Com períodos de maior e menor assiduidade, cá continuaremos, portanto, a pedalar em 2026. Os tempos, complexos e difíceis, assim o exigem também.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
É isto andais a festejar?
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Começar o ano com classe
“Perguntámos aos jovens o que esperam de 2026. Estas foram as respostas”. No universo de classe do Público, onde o particular passa por universal, não há jovens operários na Autoeuropa ou operárias têxteis, não há jovens assistentes operacionais ou mecânicos, não há jovens trabalhadores da recolha do lixo ou caixas do supermercado.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
2026
Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes.
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Relembrar
No nosso artigo sobre a Nova Economia, Pedro Santa Clara tem um lugar de destaque. O grande arquiteto financeiro do campus de Carcavelos; com um pé no público e outro no privado; e proximo da Iniciativa Liberal e do Instituto Mais Liberdade.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Nomear
domingo, 28 de dezembro de 2025
Projeto deseducativo
O à vontadinha de Pedro Santa Clara – “sistema soviético na educação” –, em entrevista ao Público, é um sintoma da atual relação de forças político-ideológica.
Insistir no diagnóstico errado e na solução que, por si só, não funciona
Em termos homólogos, trata-se não só da maior subida anual desde que há dados (17,7%), mas também do maior aumento face à variação homóloga anterior (7,9 p.p.), confirmando assim que o efeito de aceleração de preços se acentuou em 2025. Em linha, de resto, com o aumento da avaliação bancária de imóveis, que atingiu um novo recorde em novembro (2.060€ por m2) e a maior variação homóloga anual (18,4%), desde que o INE publica dados (2011).
A ideia de que a atual crise de habitação traduz apenas um mero problema de escassez de oferta - bastando construir mais e dispensando quaisquer medidas de regulação das dinâmicas especulativas associadas às novas procuras - continua a prevalecer no debate público. Mesmo quando essa ideia é contrariada pela realidade. De facto, o aumento gradual da construção de alojamentos nos últimos anos (de cerca de 7 mil fogos em 2015 para cerca de 25 mil em 2024), não teve qualquer efeito na estabilização dos preços, que continuaram a aumentar.
Por isso, e ao contrário do que afirma o ministro Pinto Luz (com as suas rendas moderadas de 2.300€), nada indica que seja «o incentivo do mercado» a fazer baixar os preços, sendo por outro lado difícil perceber em que elementos se baseia o ministro Castro Almeida, adepto da mesma tese (a crise resulta de uma mera falta de casas) e da mesma lógica de incentivos, para assegurar que «vão começar a sentir-se diferenças» no preço das casas no final de 2026.
sábado, 27 de dezembro de 2025
Nossos desacontecimentos
Ouvi de alguns chefes que a indignação faz mal ao exercício do jornalismo, que bom jornalista não tem causa. Discordo. Indignação só não faz bem para quem tem como única causa a do patrão.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
Movimento real
Sem surpresa, António Nogueira Leite, uma das mais representativas encarnações económicas da classe dominante portuguesa, celebra o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, faz hoje 34 anos, julgando que a história terminou. A sua vida ficou provisoriamente mais fácil e por isso o mundo não ficou melhor, antes pelo contrário.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
Bom Natal
Reparai, quando alguém tem de levantar ou ajudar uma pessoa a levantar-se, que gesto faz? Olha-a de cima para baixo. Trata-se da única ocasião, do único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima para baixo: quando queremos ajudá-la a levantar-se.
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
São cheques ensino, senhores
Vale a pena ver esta declaração de Porfírio Silva sobre a proposta de alargamento do acesso ao alojamento estudantil a alunos não carenciados, apresentada pelo ministro Fernando Alexandre aos reitores e presidentes dos institutos politécnicos. Proposta essa que estes rejeitaram, travando assim a tentativa ministerial de adulteração e privatização de uma resposta essencial no fomento da igualdade de oportunidades e no acesso ao ensino superior.
Há uma frase na intervenção do ministro que é lapidar, de facto, para perceber o verdadeiro alcance e o objetivo da sua proposta: com a atribuição de um voucher a todos os deslocados, independentemente da sua condição económica, «as residências estudantis deixariam de ser o espaço para onde nós empurramos os alunos da ação social de rendimentos mais baixos e passariam a ser espaços que as universidades e os politécnicos teriam que promover, de forma mais competitiva, para atrair alunos, de rendimentos mais baixos e de rendimentos mais elevados».
Está aqui tudo. Da visão elitista e convenientemente pejorativa das residências estudantis públicas («empurramos», senhor ministro?), às lógicas de competição e falsa liberdade de escolha, instigando as instituições a disputar alunos (que alunos e com que meios, senhor ministro?), na transfiguração de um recurso indispensável na democratização do acesso ao ensino superior. Quer diversificar, em termos de origem social, as residências estudantis? Reforçe o seu financiamento e o investimento, para aumentar a oferta e a qualidade. Reforce a provisão pública, não passe cheques.
Conscientes da impopularidade eleitoral do cheque-ensino, que contraria, na prática, a prometida liberdade de escolha, PSD e CDS-PP não têm coragem de o assumir nos programas que levam a eleições, ao contrário do Chega e da Iniciativa Liberal, de onde Fernando Alexandre é realmente oriundo. Mas onde podem, no que podem e quando podem - de forma dissimulada e seguindo o velho manual de instruções - lá vão tentando ganhar terreno, desviando os recursos necessários à provisão pública para financiar e incentivar a expansão das residências privadas.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
Conhecimento e reconhecimento
Daniel Oliveira acha que existe quem confunda a atual Rússia capitalista com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), fundada faz hoje 103 anos. Não conheço ninguém que faça esta confusão grosseira, muito menos entre os comunistas portugueses, o alvo histórico do anticomunista grupo Impresa.
domingo, 21 de dezembro de 2025
Lixo mediático
Quem não quiser falar de capitalismo de imprensa e televisivo deve calar-se sobre o fascismo tão propagandeado.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Fernando Alexandre e a universalização da escassez
Ora, se o ministro da Educação e Ciência quer alargar o acesso das residências estudantis a alunos não carenciados, terá que reforçar muito mais a expansão da oferta prevista (e programada, já agora, pelos governos anteriores), de modo a elevar progressivamente os patamares de acesso, em termos de níveis de rendimento. Em contrário, estará a atuar como um Robin dos Bosques invertido, beneficiando alunos não carenciados, ao mesmo tempo que empurra os estudantes desfavorecidos para um mercado de alojamento estudantil hiperinflacionado. É nisto que dá liberais até dizer chega a acreditar (ou a fingir acreditar) que são social-democratas.
Sejamos claros: a oferta pública de alojamento estudantil é um bem escasso face ao universo das necessidades. Segundo dados divulgados pelo DN, há cerca de 110 mil alunos deslocados e cerca de 40 mil alunos carenciados, que deveriam ter, por isso, acesso prioritário às residências do Estado. Sucede, porém, que estas apenas dispõem de uma capacidade de cerca de 15 mil camas, «pelo que a oferta cobre apenas 32% das necessidades». É este o contexto em que o ministro Fernando Alexandre quer abrir a oferta de alojamento estudantil a todos os alunos deslocados, sem que antes tenha assegurado esta resposta de ação social aos estudantes que dela mais necessitam.
A ideia do ministro, rejeitada por reitores e presidentes dos institutos politécnicos, consistia em atribuir um valor único para apoio ao alojamento a todos os estudantes deslocados, independentemente da sua condição económica, permitindo-lhes, alegadamente, optar por «uma residência pública ou arrendar um quarto particular», como se o custo fosse o mesmo. Sem qualquer garantia, aliás, de que os bolseiros continuariam a ter prioridade no acesso a residências, num quadro de alargamento a todos os deslocados. Ou seja, uma vez mais a fraude dos «cheques» e das «liberdades de escolha»: em última instância seriam, neste caso, as escolas/instituições, e não os alunos, a escolher.
Quer isto dizer que o ministro, com a sua proposta, não alarga, antes restringe, o acesso ao alojamento estudantil por parte dos alunos carenciados. Nada que surpreenda, claro, num governo que preferiu apoiar os jovens que menos precisavam na aquisição de casa própria. De facto, se estivesse genuinamente preocupado com a universalidade dos serviços públicos, Fernando Alexandre não faria parte de um governo tão empenhado, por exemplo, em desmantelar o SNS e financiar os privados. Se quer mesmo universalizar o acesso às residências estudantis, siga a linha dos governos anteriores em matéria de habitação, promovendo a oferta pública para lá das necessidades mais prementes. E não desviar a resposta existente dos que mais para os que menos precisam.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
Portugal é a “economia do ano” para quem?
Portugal é a “economia do ano”, segundo a The Economist. O anúncio feito pela revista britânica na semana passada deu origem a várias reações na imprensa nacional. Apesar do tom leve adotado pela revista na divulgação deste ranking, a classificação foi recebida com entusiasmo pelo governo. Na rede social X/Twitter, o primeiro-ministro Luís Montenegro destacou o “reconhecimento internacional excepcional de Portugal” e procurou associá-lo ao trabalho do governo, sublinhando a importância de “seguir o rumo que nos trouxe até aqui nos últimos meses”.
No entanto, nem todos parecem partilhar o otimismo. Os dados do Eurobarómetro realizado a meio do ano mostram que o custo de vida continuava a ser referido como a segunda principal preocupação das pessoas. Parece haver um desfasamento entre os indicadores elogiados internacionalmente e a experiência de muitos dos que vivem e trabalham no país. Como acontece frequentemente quando se discutem rankings internacionais, é preciso perceber o que está efetivamente a ser medido e que conclusões é que podemos retirar a partir dos indicadores usados.
O que (não) mede o ranking?
O ranking da The Economist baseia-se em cinco indicadores: a inflação subjacente (i.e. inflação excluindo preços da energia e dos alimentos), a amplitude da inflação (a percentagem de bens e serviços cujos preços subiram mais do que 2% ao longo do ano), o PIB, o emprego e o desempenho do mercado bolsista. A revista recolhe estes dados para cada país e combina-os num índice sintético que permite ordenar as economias de acordo com o seu desempenho agregado ao longo do ano.
A escolha das variáveis incluídas e o peso que se atribui a cada uma destas são discutíveis e envolvem uma grande dose de subjetividade. Além disso, o método utilizado para chegar ao resultado final não é especificado no artigo, o que torna difícil interpretar as conclusões. Isso torna-se claro quando olhamos para os dados de 2025. No caso do PIB, Portugal registou um crescimento de 2,4% no terceiro trimestre do ano, o que, apesar de significativo, é inferior ao de Espanha (2,8%), da Suécia (2,5%), da Chéquia (2,8%), da Polónia (3,8%) ou da Irlanda (mesmo usando uma métrica mais adequada para evitar as distorções do PIB neste país). Em relação ao desempenho das ações, o crescimento de 20,9% registado na economia portuguesa fica bastante aquém de muitos dos países apresentados, como se vê no gráfico.
O caso da inflação, em que Portugal se destaca com um dos menores desvios face aos 2% definidos como objetivo pelo Banco Central Europeu, merece alguma atenção. O indicador utilizado (inflação subjacente) exclui do cálculo os preços dos alimentos e da energia. O que isto significa é que pode ser usado para perceber como evoluem os preços de setores menos voláteis, mas tem pouca utilidade como indicador do custo de vida. Embora a taxa de inflação dos alimentos em Portugal esteja em linha com a média europeia, há um fator que nos distingue: a fatia da despesa total que os portugueses dedicam à alimentação está entre as mais elevadas da União Europeia, apenas superada por países do leste europeu, o que sugere que Portugal é dos países em que a subida dos preços dos alimentos tem um impacto maior na carteira das pessoas.
Isto junta-se a um outro problema, discutido nesta página ao longo dos últimos meses (aqui ou aqui), que se prende com as limitações do indicador da inflação no que diz respeito aos custos da habitação. O indicador da inflação, que é usado para medir o poder de compra das pessoas, subestima de forma significativa o impacto dos preços das casas, uma vez que não inclui a despesa das famílias com prestações de empréstimos e atribui um peso muito pequeno às despesas com rendas.
Como as prestações e as rendas têm subido a um ritmo bastante superior ao da média dos preços na economia (medida pela inflação), há uma parte importante do custo de vida de muitas pessoas que está a ser subestimada pelos indicadores. Neste aspeto, a economia portuguesa destaca-se claramente, mas pela negativa. Portugal foi o país da União Europeia em que o fosso entre os rendimentos e os preços da habitação mais aumentou ao longo da última década, o que significa que foi o país onde o acesso à habitação mais se degradou.
Ao elogiar o crescimento da economia portuguesa, a The Economist sublinha que “o turismo disparou [e] muitos estrangeiros ricos estão a mudar-se para o país para aproveitar as suas baixas taxas de imposto”. Mas a expansão do turismo não tem apenas efeitos positivos sobre o emprego e o PIB. O relatório Housing in the European Union, publicado recentemente pela Comissão Europeia, indica que “Portugal é o país da UE onde o turismo teve maior impacto sobre os preços das casas”, destacando o impacto das procuras externas e, em particular, a expansão do alojamento local, que desvia um número crescente de casas do mercado de arrendamento para o da procura turística. O que é lido como sinal de sucesso por uns contribui para agravar o custo de vida para outros.
O sul da Europa é o novo norte?
Um dado relevante deste ranking é que, desde a pandemia, a distinção de economia do ano tem sido atribuída a países do sul da Europa. Depois da Grécia ter ficado no topo do ranking em 2022 e 2023, Espanha subiu ao primeiro lugar em 2024 (num ano em que o saldo orçamental fazia parte dos indicadores). Em 2025 é a vez de Portugal, o que é apresentado pela revista como “mais boas notícias para o sul da Europa”. No fundo do ranking, além de algumas economias do leste europeu, encontramos várias das economias do norte da Europa (Finlândia, Áustria, Noruega ou Suécia).
Desde a pandemia, Espanha tem sido repetidamente elogiada pelo desempenho da sua economia nos últimos anos. A economia espanhola tem crescido a um ritmo muito superior à média europeia desde a pandemia, partilhando alguns traços comuns com a portuguesa, como o crescimento robusto do emprego, o aumento da imigração e o dinamismo de setores como o alojamento, a restauração e a construção. Numa linha semelhante à The Economist, o Financial Times considera que Espanha é a “economia europeia que mais se destaca”.
Portugal também tem sido bastante elogiado nos meios internacionais: há dois anos, Paul Krugman, economista norte-americano e prémio Nobel da Economia em 2008, classificou a experiência portuguesa como “uma espécie de milagre económico” e dizia que é “um pouco misterioso como é que as coisas correram tão bem” a Portugal depois da última crise financeira; dois anos antes, Adam Tooze, historiador económico da Universidade de Columbia, já tinha afirmado que “Portugal era o modelo para manobrar de forma muito inteligente dentro do sistema da UE” e que “ninguém o fez como os portugueses”.
A recuperação do crescimento no sul da Europa traduz uma mudança significativa na tendência da Zona Euro. Desde a entrada em vigor do euro no início do século, o debate tem-se centrado na divisão entre as economias do norte e do sul da Europa. As economias do norte (Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia e Países Baixos), com uma indústria mais robusta e de maior valor acrescentado, contrastava com a experiência dos países do sul (Itália, Espanha, Portugal e Grécia). Os primeiros anos do euro foram marcados por um desequilíbrio estrutural entre os dois blocos: os países do norte acumularam excedentes comerciais enquanto os países do sul, prejudicados por uma moeda sobrevalorizada, acumularam défices e viram a sua dívida externa subir de forma acentuada.
Após o início da crise financeira, as medidas de austeridade impostas aos países do sul comprimiram a sua procura interna e acentuaram a vaga de falências e o aumento do desemprego, o que acabou por agravar a recessão e traduzir-se numa década de estagnação. No entanto, desde a pandemia, a tendência inverteu-se: as economias do sul estão a superar as do norte em termos de crescimento e até há quem fale numa “vingança do Mediterrâneo”.
Esta inversão foi desencadeada pela crise energética. A invasão russa da Ucrânia fez com que os preços do petróleo e do gás disparassem na Europa. A Alemanha e os países de leste foram particularmente expostos a este choque. Além da proximidade à Rússia e da dependência do gás importado, as características das economias também influenciaram a vulnerabilidade a este choque. O elevado custo da energia veio agravar um cenário que já era adverso para a indústria europeia, ameaçada pela concorrência da China e pela emergência de tarifas. Isso significa que os países do norte e alguns do leste europeu, com uma estrutura produtiva mais assente em setores como o automóvel ou a indústria pesada e maior peso da indústria intensiva em energia, foram mais afetados pelo choque do que os países do sul, mais assentes em serviços.
No entanto, as características do crescimento atual dos países do sul também apontam as suas fragilidades. As reformas estruturais do período da austeridade tinham como principal objetivo a desvalorização interna (i.e. redução dos custos do trabalho) como forma de promover as exportações. Essa é uma estratégia limitada: por um lado, nem todos os países podem ter excedentes comerciais ao mesmo tempo, pelo que o modelo da Alemanha antes da pandemia não é replicável por todos; por outro lado, a competitividade das exportações alemãs tinha mais a ver com a qualidade do que produzem do que com os preços, algo que nenhum país consegue replicar quando opta pela desvalorização interna em vez do investimento e da aposta na inovação. Sem surpresa, o crescimento das exportações dos países do sul esteve associado a bens menos sofisticados e de serviços de baixo valor acrescentado, como o turismo.
É certo que, na última década, Portugal registou um aumento do peso das exportações de bens de alta-tecnologia, que incluem equipamentos eletrónicos e de telecomunicações, produtos farmacêuticos e outros equipamentos com elevado conteúdo tecnológico: representavam 4,5% das exportações totais em 2015 e passaram para 7,4% em 2024. Observa-se uma tendência semelhante no caso dos serviços, que à primeira vista parece positiva. Contudo, se olharmos para a evolução da economia mundial, vemos que o peso das exportações de bens de alta-tecnologia aumentou consideravelmente na última década de uma forma generalizada. Se olharmos para os dados do Banco Mundial, as exportações de bens de alta-tecnologia a nível mundial representavam 20% do total em 2015 e subiram para valores próximos dos 23% em 2023; na União Europeia, passaram de 17% para 19% neste período.
A tendência de maior incorporação de tecnologia na indústria e nos serviços é comum à generalidade das economias. Isto não significa que não haja melhorias na economia portuguesa, mas sugere que estamos longe de ser um “milagre económico” neste período. Em sentido contrário, o que aumentou a um ritmo assinalável na economia portuguesa foi o peso do turismo. O turismo representava 15,7% das exportações em 2015 e, uma década depois, atingiu os 20,8% - ou seja, em 2024, foi responsável por um quinto das exportações totais do país.
O problema que se coloca é o de saber até que medida o desenvolvimento dos diferentes setores pode entrar em colisão. A expansão do turismo tem alimentado a subida acentuada dos preços das casas em Portugal, o que aumenta não apenas o custo de vida das pessoas, mas também os custos para os outros setores, que enfrentam rendas mais caras e maior dificuldade em atrair trabalhadores para as áreas onde os preços mais crescem. Na área metropolitana de Lisboa, a especialização em atividades turísticas ao longo da última década ocorreu em detrimento de setores mais inovadores: a indústria e os serviços de informação e comunicação perderam importância relativa e houve uma queda da produtividade por trabalhador, como conclui um estudo publicado pela Causa Pública.
Além disso, esta visão ignora a distribuição dos ganhos do crescimento. O modelo de crescimento dos países do sul da Europa gera impactos desiguais. A subida dos preços das casas beneficia essencialmente quem tem património acumulado e consegue extrair rendas: proprietários que detêm e exploram múltiplas casas (tanto para arrendamento, como para alojamento local), plataformas digitais e fundos de investimento. Pelo contrário, quem arrenda e quem vive em zonas mais pressionadas pela gentrificação é prejudicado pela subida das rendas e dos preços dos serviços, que representa um agravamento significativo do custo de vida.
A economia dos próximos anos
Não é surpreendente que a distinção de “economia do ano” tenha sido recebida com entusiasmo pelo governo, sobretudo tendo surgido a poucos dias da greve geral marcada pelos sindicatos. Apesar dos sinais de contestação, o governo parece confortável com a estratégia e o apoio explícito ou implícito de uma maioria dos deputados no parlamento. Sobre os planos para a economia dos próximos anos, o ministro da Economia e Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, explicou recentemente que o objetivo do governo passa por colocar Portugal entre os dez destinos turísticos mundiais mais procurados (atualmente, o país ocupa um honroso 12º lugar).
Embora não se possa resumir o tecido produtivo da economia portuguesa ao turismo, não deixa de ser verdade que a expansão do turismo e o desempenho dos serviços associados (como o alojamento e a restauração) são responsáveis por boa parte do crescimento dos últimos anos. O facto dos preços do turismo em Portugal terem subido bastante acima da média dos restantes países do mediterrâneo desde a pandemia indica que o setor pode ter dificuldade em manter o ritmo de crescimento.
Depois de uma fase em que o crescimento assentou no endividamento externo, a economia portuguesa passou a depender de atividades ligadas ao turismo e ao mercado imobiliário. Ambos estão fortemente dependentes da procura internacional e tornam a economia portuguesa vulnerável às suas oscilações, como a pandemia tornou claro. Além disso, este modelo gera impactos desiguais: beneficia principalmente quem acumula património que se transformou num mecanismo de extração de rendas, enquanto agrava o custo de vida para quem arrenda e para quem vive nas zonas mais afetadas pela gentrificação.
O problema de fundo está em confundir crescimento com desenvolvimento. A “economia do ano” não é igual para todos. Este tipo de rankings internacionais diz-nos muito pouco sobre a forma como o desempenho da economia se traduz nas condições de vida de quem vive e trabalha no país. É pouco útil falar em crescimento e criação de riqueza sem discutir a forma como esta é distribuída.















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