terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Liberais até dizer chega


Quando vejo um beto endinheirado, com apelido e correspondentes conexões, nestes preparos, penso em reclamar direitos de autor sobre o “liberal até dizer chega”. Bugalho é uma alma gémea de Cotrim, da classe às ideias. Afinal de contas, apoia Marques Mendes, um facilitador de negócios, rivalizando com o candidato da IL e com o seu mandatário fascista.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Confirmar


Entre democratas, isto nem deveria exigir grande reflexão. Ainda assim, a resposta é bastante elucidativa. Tal como no passado, quando confrontado com “Cunhal ou Salazar?” e a resposta de Cotrim foi: “não consigo responder”.

Enésima confirmação: o anticomunismo, indissociável da sempre antidemocrática defesa desabrida do capitalismo, abre, objetiva e subjetivamente, caminho ao fascismo. 

Por isso, apodei de liberalismo até dizer chega a ideologia que se tenta apropriar da bela palavra liberdade. Fi-lo no Le Monde diplomatique de abril de 2021, atualizando a análise em junho de 2023: liberais até dizer chega

Os mesmos mecanismos que promovem a oferta do Chega, promovem a da IL, sendo que a oferta cria a sua própria procura neste caso: do financiamento capitalista ao capitalismo televisionado.

A insegura bolha de Cotrim


Seguro andou cheio de iniciativa liberal em 2025...

Cotrim de Figueiredo é uma bolha política, tal como a IA é uma bolha financeira. Cotrim vai implodir mais cedo, a 18 de janeiro, espero. 

Cotrim serve para os apoiantes de Seguro agigantarem papões de Cotrim-Ventura na segunda volta, à boleia de “sondagens” ditas de “tracking”, que, reconhecidamente, só servem para condicionar. 

Apelam assim a um voto inútil, até porque fragilizaria os imprescindíveis, os que, ao contrário de Seguro, não aprovaram cortes de subsídios de Natal e de férias ou de feriados durante a troika, que nunca desertaram, que sempre foram úteis. 

Enquanto Seguro assim procedia, enquanto centenas de milhares de jovens emigravam, Cotrim era nomeado pelo governo da troika para uma sinecura de promoção do turismo, desgraçada especialização deste país assim de salários ainda mais baixos.

Seja como for, existe, em paralelo à chantagem habitual, uma complacência social-liberal em relação a Cotrim, procurando distinguir de Ventura este pinochetista da IL, com um mandatário vindo do terrorismo fascista e que representa a pior escumalha negocista deste país. 

Cotrim é tão ou mais perigoso do que Ventura para as réstias de democracia substantiva neste país, reconhecendo eu que há uma divisão de trabalho social e política entre estas duas encarnações das frações mais reacionárias do capital. 

Na substância programática e ideológica são indistinguíveis no seu fundamentalismo liberal autoritário de recorte anticonstitucional: da brutal redução da progressividade fiscal à distópica transformação da força de trabalho em mercadoria descartável, passando pelo propósito de transformar o que resta de Estado social em Estado-garantia para os negócios, pela forma como mobilizam o populismo triádico, pelo apoio ao imperialismo mais genocida ou pelo negacionismo climático. 

Cotrim disfarça o seu extremismo com aquele assumido toque de classe, o toque que faz com que nesta sociedade a polida burguesia videirinha pareça o cúmulo da sensatez. É mais perigoso do que o boneco de Ventura por causa disso. De resto confundir “carisma” com promoção mediática é de uma desonestidade só ao alcance destes liberais até dizer chega. 

Cotrim tem atrás de si uma poderosa infraestrutura intelectual, maciçamente financiada por milionários, culminando no stink-tank da IL “mais liberdade” (para explorar e expropriar), com a vantagem de não estarem limitados pela lei de financiamento dos partidos. Curiosamente, Seguro tem-no frequentado, confirmando que pertence ao “consenso neoliberal”, tal como denunciado por António Filipe. 

Perante estes selvagens, sonso e complacente, Seguro chegou a dizer que não conhecia nenhum candidato que fosse contra o SNS, apelando a pactos vagos. Desmemoriado, esquece-se de uma história política que mergulha na aprovação do SNS por socialistas e comunistas. Está mesmo muito longe de Arnaut e assim. Não há ali réstia do antifascismo militante de que precisamos.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Do crime sistémico


Com o seu deliberado desmantelamento do SNS, da infraestrutura de saúde pública, este governo leva longe o conceito de “capitalismo do crime sistémico”, forjado por António Avelãs Nunes no seu último livro, que tive o prazer de apresentar em Coimbra. 

A notícia da não reativação do reforço de ambulâncias neste inverno é só uma pequena parte de um plano mais vasto de promoção do capitalismo da doença. 

Tudo começa num orçamento do Estado que, e já não é de agora, canaliza cerca de metade dos recursos para aí e acaba na austeridade tão perpétua quanto socialmente seletiva. Não, não é incompetência. Como disse o sempre lapidar Capitão Gancho: “Nunca tomes por incompetência aquilo que pode mais elegantemente ser explicado por liberalismo”. 

Sim, sabemos há décadas, graças à investigação dos determinantes sociais da saúde, que o liberalismo mata e que o imperialismo liberal mata ainda mais. Isto está mesmo tudo sistemicamente ligado.

Adenda. É como se Adriana Varejão, notável artista brasileira, estivesse a pensar nesta política. Conheci-a numa exposição na Gulbenkian, em Lisboa, no ano passado, em que esteve num inesquecível e interminável diálogo com Paula Rego.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Intervenção


Num blogue politicamente plural, partilho a minha intervenção, enquanto mandatária distrital da candidatura de António Filipe em Coimbra, no comício que teve lugar ontem, num auditório cheio do Instituto Português do Desporto e Juventude.

Boa noite, 

Vivemos um tempo politicamente exigente. 
Um tempo em que se tenta convencer o país de que não há alternativas. 
De que a desigualdade é natural. 
De que a precariedade é inevitável. 
De que a dependência externa é uma fatalidade. 
De que a autodedeterminação dos povos é uma quimera. 

Mas a história do nosso povo mostra exatamente o contrário, não estamos condenados a este sombrio presente e a um ainda mais sombrio futuro. E é por isso que a candidatura de António Filipe é necessária. 

Não por oportunismo político. 
Mas por exigência soberanista e, logo, democrática. 

A candidatura de António Filipe não é uma candidatura de circunstância. É uma candidatura de coerência e de compromisso com um país e o seu povo. Afirma algo simples, mas hoje profundamente subversivo: que o Presidente da República deve cumprir e fazer cumprir a Constituição, defender os valores de Abril e estar do lado de quem trabalha e vive do seu trabalho – e não dos interesses dominantes. 

Afirma também algo essencial: que a Presidência da República não é um lugar de silêncio confortável, nem de comentários ocasionais, selfies permanentes ou gestão de consensos anticonstitucionais. 

Num momento em que a direita concentra poder institucional e pressiona para o retrocesso em direitos sociais, esta candidatura recusa-se a ser cúmplice. É preciso tomar posição quando os direitos dos trabalhadores, os serviços públicos, a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde e a Segurança Social são enfraquecidos. É preciso ser espaço de resistência quando a democracia é atacada. 

Aceitei ser mandatária distrital por Coimbra porque acredito profundamente nesta candidatura. Porque acredito que a democracia não se defende sozinha. Mas também porque acredito no nosso distrito. 

Coimbra é muitas coisas ao mesmo tempo. É cidade universitária, mas também é território de trabalho precário. É ciência e conhecimento, mas também é interior esquecido. É serviços, indústria, agricultura, cuidados, cultura. E é precisamente por isso que Coimbra – e o país – precisam de um Presidente da República que não fale apenas para uma parte da sociedade, mas que seja capaz de representar quem vive do seu trabalho, independentemente da profissão, da idade ou do percurso de vida. 

Aquilo que temos visto no distrito de Coimbra nesta campanha confirma isso mesmo. Os apoiantes desta candidatura são pessoas de várias idades, géneros, profissões e trajetórias. Trabalhadores da saúde, da educação, dos serviços, da indústria, da administração pública, da cultura, da ciência. Reformados e estudantes. Gente que vive realidades muito distintas, mas que partilha uma mesma recusa da resignação. 

Isto não é um detalhe. 
Isto é política no seu sentido mais profundo. 

Mostra que esta é uma candidatura ampla, inclusiva, popular. Uma candidatura que fala para quem vive do seu trabalho, para quem sente as dificuldades no dia a dia, para quem não aceita a ideia de um país adiado. Uma candidatura que convoca democratas, trabalhadores, todos os que querem um país mais justo e mais digno. 

Falo também enquanto mulher jovem e independente. Não venho da política profissional – e isso não me coloca à margem desta candidatura. Pelo contrário, aproxima-me dela. Porque esta é uma candidatura que não pertence a uma geração, nem a um percurso único. É uma candidatura aberta, plural, onde cabem diferentes idades, experiências e formas de participação política. 

No distrito de Coimbra, esta campanha tem sido feita no terreno: a divulgar o comício, a contactar a população, a falar com trabalhadores, a ouvir problemas concretos. Sem promessas vazias, sem discursos ensaiados para a televisão, sem distância. Porque é assim que se faz política séria: com contacto direto, com respeito, com escuta. 

E esta forma de estar diz muito sobre o próprio candidato. António Filipe tem feito uma campanha de proximidade, de diálogo, de presença junto de trabalhadores, associações, estudantes, movimentos sociais. Uma campanha que não se orienta por sondagens, nem por cálculos de “voto útil”, mas por convicções políticas claras e por confiança no povo português. 

Falo-vos também a partir da minha experiência pessoal. 

Sou ex-investigadora científica. Trabalhei vários anos na academia portuguesa e conheço bem a realidade de milhares de trabalhadores científicos que vivem numa situação de precariedade permanente. Sei o que significa trabalhar num sistema científico e tecnológico que precisa do nosso trabalho, mas não o reconhece como tal – e nos trata como se fôssemos descartáveis. 

Portugal continua a formar pessoas altamente qualificadas para depois as empurrar para a insegurança laboral: bolsas sucessivas, contratos a prazo, ausência de direitos, instabilidade constante. Muitas acabam por sair do país. Outras desistem da ciência, porque não têm alternativa – como foi o meu caso. 

E o país perde conhecimento, capacidade crítica e autonomia. 

Isto não é apenas um problema da ciência. 
É um problema da democracia. 

Porque quando um país investe na formação dos seus jovens e depois os obriga a emigrar ou a desistir, está a desperdiçar futuro. Está a transferir para outros países aquilo que foi construído coletivamente. E está a fragilizar a sua capacidade de decidir, de inovar e de responder às questões sociais. 

A ciência é um bem público. Tal como a escola pública, o SNS ou a segurança social. E o Presidente da República não pode ser neutro quando estes pilares são atacados. 

O mesmo vale para a política externa. Defender a Constituição é também defender a paz, o diálogo e a cooperação entre os povos. É recusar a normalização da ingerência externa e da guerra, da escalada militar e do confronto entre povos. 

Esta candidatura afirma uma visão de futuro assente na paz, na justiça social, nos direitos e na participação democrática. Por isso, esta candidatura importa. 

Porque recusa o medo. 
Porque recusa a política do mal menor que agiganta o mal maior. 
Porque confia no povo português, na sua inteligência coletiva e na sua capacidade de lutar por um país mais justo. 
Porque acredita que a democracia se fortalece quando as pessoas participam, quando escolhem por convicção e quando não abdicam dos seus princípios. 

Esta é uma candidatura que olha para o futuro com esperança ativa. Uma esperança que se constrói com direitos, com trabalho digno, com serviços públicos fortes, com cultura, com ciência e com democracia real em todas as esferas da vida. 

É essa esperança que hoje afirmamos aqui. 

E com o voto em António Filipe vamos longe. 

Viva Portugal. 

Muito obrigada.

Para lá da paródia


A linha editorial do Público já está para lá da paródia. Quem diria? Na secção de opinião deste jornal euro-liberal, talvez só os sintomaticamente quinzenais Ricardo Paes Mamede e Manuel Loff. Quem diria fora do Público, um jornal onde militante comunista já não entra? A Soeiro Pereira Gomes e assim, onde reside o melhor intelectual coletivo nacional...

Notas com sabor a cinza


1. Alegrai-vos. Graças à máquina de liberalização que é a UE, vamos comer picanha mais barata, com vinho argentino para empurrar, enquanto vemos na TV a Amazónia a arder ainda mais, com os nossos campos esvaziados a serem pasto, mas só para mais fogos igualmente televisionados. Haverá cada vez mais fumo e não será branco. 

2. Sim, o social-democrata Lula também erra e de forma crassa, como os setores estruturalistas brasileiros, na tradição de Celso Furtado e de Maria da Conceição Tavares, sabem. É de facto um “tratado [UE-Mercosul] ultrapassado e neoliberal”. A poderosa bancada brasileira do “boi, bala e bíblia” agradece. 

3. As multinacionais do centro europeu terão mais mercados para escoar o que os chineses já não precisam, uma distopia liberal sem fim. Agora é mascarada de sabedoria geopolítica, como se esta pudesse ser desligada dos impactos assimétricos deste protecionismo dos mais fortes a que chamam convencionalmente de “comércio livre”. 

4. Por cá, os neoliberais de quase todos os partidos, do chamado centro-esquerda à extrema-direita, autênticos vende-pátrias, saúdam mais esta abdicação de soberania económica. Não lhes bastou todas as outras. As mãos só invisíveis para quem ainda distraído acabarão de escavacar e de sucatear os circuitos mais curtos da produção nacional.

Adenda. A fotografia é de Lalo Almeida, parte da sua Distopia Amazônica, e pode ser vista na magnífica exposição Complexo Brasil, patente na Gulbenkian, em Lisboa, até fevereiro.  

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A falta de escrúpulos tem um padrão


Hora de dizer não?


Augusto Santos Silva abandonou há muito qualquer referência marxista e agora tem de redescobrir muito apressada e seletivamente a crítica ao imperialismo, sem análise sistémica, sem história, sem quase nada. Sobram atoleiros e assim. Estou a pensar no seu artigo que saiu no Público, cujo título está incompleto e deve de ser corrigido: hora de aparentemente dizer não, depois de tanto tempo a dizer sim.

Há aí misteriosos interesses e também há valores, mas que são negados pela prática do Consenso de Bruxelas-Frankfurt. O essencial começou agora, com Trump e daí a hora. 

Paradoxalmente, é ainda como se vivêssemos num eterno presente, dado que o passado desaparece e o futuro aparenta ser um prolongamento dos estados de alma atuais. Um historiador chamado François Hartog apodou esta experiência do tempo de presentismo, de resto indissociável do domínio mercantil absolutamente prevalecente. 

Santos Silva é historiador de formação e tem a obrigação de fazer melhor, mas não pode. Afinal de contas, estamos a falar do ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo que reconheceu como Presidente um venezuelano, saído da enésima tentativa de golpe, com mão visível de fora, já ninguém se lembra do seu nome: Guaidó, ou lá o que era. Haja história e memória, nem é preciso recuar muito. 

Nem falemos da NATO, ele próprio reconhece que está emaranhado nas suas contradições. A contradição é sempre produtiva, se for real, mas neste caso não é: sob a aparência de mudança, o mesmismo. Os EUA podem fazer o que quiserem. Nesta relação de forças, a NATO está de pedra e cal. 

Santos Silva tem, claro, demasiada inteligência tática para vir agora com o “Maduro é ditador”, ao contrário da sua tropa fandanga, mas agarra-se, como sempre, a uma UE inventada. A sua UE realmente existente faz há muito parte do problema do neoliberalismo, do federalismo e do militarismo, indissociáveis da subalternidade histórico-institucional em relação aos EUA, retórica oportunista à parte. 

Mais Lénine, menos, muito menos, Schuman, por favor, sobretudo na análise da UE, na linha de argutos excertos do líder bolchevique, a quem nunca devemos dizer adeus, mobilizados por João Ferreira há uns tempos:

“Naturalmente, são possíveis acordos temporários entre os capitalistas e entre as potências. Neste sentido são possíveis também os Estados Unidos da Eu­ropa, como acordo dos capitalistas europeus... sobre quê? Unicamente sobre como esmagar conjuntamente o socialismo na Europa, defender conjuntamente as colónias roubadas...”

Sim, a UE, acordo capitalista sem igual forjado em Maastricht, transformando o movimento neoliberal em ordem, foi institucionalizada para proscrever qualquer avanço socialista e para fazer recuar brutalmente tudo o que tinha sido conquistado. Alimentou, pelo enfraquecimento decisivo dos freios e contrapesos institucionais ao capitalismo, o regresso do fascismo, hoje totalmente ambientado a essa escala. Qualquer aprofundamento da integração capitalista só vai gerar mais do mesmo, dado que esta não é neutra do ponto de vista de classe. 

E, de resto, sabemos que vivemos numa subcolónia, com uma elite intelectualmente colonizada, incapaz de pensar para lá de um centro manifestamente imaginário, lugar de um nós sem povo. Os povos estão nos países soberanos. Voltaremos a ser um país soberano, estou certo. 

Nota de rodapé. Pedro Adão e Silva, o do silêncio de meses em pleno genocídio do povo palestiniano, cita melancolicamente Obama, o da “paz”, como a fascista Corina. Obama destruiu a Líbia, transformando um Estado funcional num inferno balcanizado do tráfico humano internacional. E a política económica de Obama contribuiu para Trump. A opinião social-liberal do Público não tem memória, não tem emenda. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Meia dúzia de notas, não são de dólar


1.
Nuno Severiano Teixeira é historiador das relações internacionais, mas finge que desconhece a história do sistema imperialista liderado pelos EUA, substituindo-a pela fábula da “ordem baseada em regras”. 

 2. As regras da desordem imperial assentam há muito na coerção militar, na compulsão sancionatória, no incentivo pecuniário e na propaganda ideológica. 

3. A compulsão sancionatória matou mais de 560 mil pessoas por ano, só entre 2011 e 2021, estima um estudo para o período 1971-2021, saído na The Lancet, no ano passado, sobre os efeitos na saúde das sanções há muito decretadas pelos EUA e pela UE, atingindo um quarto da economia mundial na última década considerada: “É difícil pensar noutras intervenções políticas com efeitos tão adversos na vida humana e que continuem a ser utilizadas de forma generalizada.”

4. Apesar dos factos ululantes, é mais fácil viver num eterno presente, onde o que agora apoda de “imperialismo predatório”, a chuva que chove, acabou de começar e o subimperialismo da UE nunca existiu. 

5. Concordando umas vezes, discordando noutras, mas aprendendo sempre, a falta que faz José Medeiros Ferreira, historiador das relações internacionais. 

6. Felizmente, temos historiadores do fascismo e da memória antifascista, como Manuel Loff, exceção que confirma a regra no Público: não começa o seu artigo com “Maduro é ditador” e usa a história ao serviço de comparações e analogias esclarecedoras.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Será que temem o debate?


«Transformar o Trabalho» é o título de um evento que o Conselho Estratégico de Liderança do ISEG Alumni Económicas, agendou para o próximo dia 13, em Lisboa. Consulta-se o programa e constata-se, com mais perplexidade do que propriamente surpresa, que à abundância de oradores CEO, advisors, seniors e partners, corresponde uma total ausência de representantes de organizações sindicais.

Esta iniciativa não tem lugar num momento qualquer. Realiza-se quando há um debate público e negociações em curso sobre o anteprojeto de reforma da legislação laboral aprovado pelo governo, orwellianamente apodado de «Trabalho XXI». Não será por acaso, aliás, que o dito evento tem, como «main keynote speaker», Maria do Rosário Palma Ramalho, ministra do Trabalho.

Acresce, ainda, que a iniciativa não parte de uma qualquer organização do mundo patronal. Um debate que excluísse as perspetivas do mundo do trabalho seria sempre pobre, mas compreendia-se melhor o enviesamento. Não, trata-se de uma iniciativa de uma entidade académica, com responsabilidades intrínsecas em assegurar as condições e os termos de uma reflexão que, não sendo plural, não é uma verdadeira reflexão nem um debate. É outra coisa.

Mais contrastes


“Não se deve dizer com leveza que os EUA estão a fazer na Venezuela o que Putin fez na Ucrânia. Na verdade o que os EUA estão a fazer na Venezuela é o que os EUA fizeram na Ucrânia. Ambos são provocados pelos EUA.”
 
Quem o diz é Jeffrey Sachs, um liberal no sentido norte-americano, afirmando o que, com as pouquíssimas excepções permitidas, o comentariado nacional, de Daniel Oliveira a Francisco Pereira Coutinho, não tem capacidade ou coragem para afirmar. 

Sachs fez também uma lúcida intervenção no Conselho de Segurança da ONU onde fez ouvir que a “questão que se coloca hoje ao conselho não é a natureza do governo da Venezuela”. 

“[A] insistência numa ameaça russa existencial funciona não apenas como uma avaliação estratégica, mas como uma cobertura política para uma mobilização industrial massiva que os líderes da UE esperam que restaure a competitividade económica europeia. 

Concordo que a Europa precisa de novas fontes de crescimento, mas a tentativa de introduzir sub-repticiamente uma política industrial sob a bandeira de uma situação de guerra — cultivando o medo e exagerando as ameaças — não é honesta nem aceitável. Criar uma mentalidade belicista para legitimar a renovação económica pode ser politicamente conveniente, mas corrói o debate democrático e corre o risco de prender a Europa numa militarização perpétua que pouco tem a ver com os seus verdadeiros desafios económicos.”

O texto acima, de Robert Skidelsky, principal biógrafo de Keynes, é só outra das formas de perceber o decadente e perigoso estado da propaganda que nacionalmente nos é servida. 

Contrastes


“A história das intervenções externas dos EUA é uma história de caos, instabilidade e miséria”: quando leio um social-democrata anti-imperialista fora da UE, como Jeremy Corbyn, o meu desprezo intelectual e político pela trupe oportunista, a que inicia as suas intervenções com “Maduro é ditador”, só aumenta. 

Relembrando o Iraque, ele sabe o que está em jogo e não perde o fito, pena que tenha falhado o encontro com o Brexit, logo ele que era da tradição eurocética a partir dos esperançosos anos 1970. Quando era líder, entregou este dossiê a Starmer, à pior escumalha blairista. Errar é humano e ser imprescindível também.

Brutalmente claro, brutalmente simples


John Lonsdale, um dos cofundadores da Palantir, é brutalmente claro, em linha com Peter Thiel ou Alex Karp. 

A Palantir é uma das mais poderosas e perigosas empresas tecnológicas do complexo militar-industrial-securitário norte-americano com escala global, embora na China e assim não entrem, felizmente.

O capitalismo das plataformas cruza-se com o capitalismo da vigilância, ao serviço do sistema imperialista liderado pelos EUA. 

E é tudo brutalmente simples: quem não quiser falar dos perigos do anticomunismo, deve calar-se sobre o fascismo, indissociável do capitalismo. Sem os comunistas, não há antifascismo digno desse nome.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Lapidar


há as veias abertas da américa latina
depois há as espinhas dobradas da esquerda europeia

Da coragem, da dignidade


Soy el presidente de Venezuela y me considero prisionero de guerra. Me capturaron en mi casa de Caracas. No soy culpable, soy un hombre decente, sigo siendo el presidente de mi país. 

Ela exigiu ser levada com ele. Cilia Flores e Nicolás Maduro já revelaram mais coragem e dignidade num dedo mindinho do que toda a cambada que anda para aí nas televisões ou nos teclados, regurgitando vulgaridades liberais, quando não mesmo fascistas. 

Na Venezuela ficou Delcy Rodríguez, mulher de grande firmeza e inteligência: não percais esta lição da Presidenta interina sobre as sanções que podem ser impostas a quem resiste ao sistema imperialista.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Conselhos de graça a um jovem


Jovem, queres ter lugar de tudólogo na comunicação social dominante e ganhar muito mais do que um jornalista a sério, o que também não é difícil? 

Vou dar-te conselhos de graça, no contexto da agressão imperialista à Venezuela: tens de começar por dizer muitas vezes, Maduro ditador, Maduro ditador. Deves falar do Governo da Venezuela como o “regime”. 

O estudo concreto da situação concreta, o conhecimento da história da economia política e assim só atrapalham. Se falares muito ninguém se lembra, tirando uns chatos. 

Isto pode não bastar, no entanto. Convém teres contactos, um apelido ajuda muito, tipo Bugalho e assim. Acumular capital social, dizem os da teoria da escolha racional. 

E, claro, não podes ser comunista ou socialista (não confundas com o P sem o S, a coisa que passa por PS). Até podes dizer que és de esquerda, dá jeito uma ou outra cereja no bolo, mas só se ajudares na campanha contra a esquerda soberanista e anti-imperialista, ou seja, contra a esquerda. Tens de ser um social-liberal, na melhor das hipóteses. 

Estás a ver? É fácil até. Posso dar-te contactos e mais dicas, mas não há almoços grátis a partir daqui, jovem.

Impasses


Nada sei sobre a ilegitimidade de Nicolás Maduro, chefe de Estado da Venezuela, reconhecido pela esmagadora maioria do mundo, Ana Sá Lopes. O que sei é que o seu artigo de hoje revela bem os impasses do euro-liberalismo no Público.

O Presidente chinês tem por objetivo legítimo confirmar a reunificação de todo o país, o que quase ninguém coloca em causa, dado que Taiwan não é um Estado. Colocá-lo no mesmo plano do Presidente dos EUA, de qualquer Presidente dos EUA, revela desconhecimento do que tem sido a ascensão pacífica da República Popular desde 1979 (ano da última guerra em que esteve envolvida).

Sim, o criminoso Trump perturba muito os esquemas. Tem uma única virtude e é epistémica, para quem sabe alguma coisa de história do sistema imperialista: revela a natureza da sua economia política internacional, a sua natureza, sem qualquer disfarce. Talvez tenha uma diferença qualitativa, concedo: no plano retórico e do simbolismo, trata este lado do Atlântico como os EUA sempre trataram a América Latina, por exemplo.

De resto, não é preciso que Trump venha atacar essa flagrante contradição nos termos que é a “democracia liberal” deste lado. Insisto contra o uso deste termo: a nossa Constituição, mesmo tantas vezes revista e adulterada, não tem qualquer referência ao liberalismo. 

O euro-liberalismo, o do euro e do mercado único, já esvaziou as democracias dos Estados da UE, em particular as dos periféricos, como sabe. Os novos rostos do fascismo emergem deste facto. Uma palavra e um ano: Grécia, 2015. Outra palavra para a UE, com uma foto a acompanhar e tudo: subimperialismo.

Eternos


Honor y gloria a los bravos combatientes cubanos [32 combatentes cubanos mortos] que cayeron enfrentando a terroristas en uniforme imperial, que secuestraron y sacaron ilegalmente de su país al Presidente de Venezuela y esposa, cuyas vidas ayudaban a proteger los nuestros por solicitud de esa hermana nación. Comparto dolor e indignación con nuestro pueblo y especialmente con los seres queridos de nuestros valerosos compañeros. Al abrazar a sus familiares y amigos, en esta hora infausta, reitero mi gran afecto, admiración y orgullo por ellos y su heroico comportamiento.

Miguel Diaz-Cánel, Presidente da heróica República de Cuba.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Da infâmia


Esta é uma capa para a história da infâmia jornalística liberal em Portugal. Numa redação onde abunda o trabalho precário e mal pago, há quem seja principescamente pago para decidir pespegar um trocadalho do carilho destes na capa. Também isto é liberalismo. 

Um chefe de Estado foi raptado por fascistas no comando da potência mais perigosa do planeta (Nelson Mandela sabia-o). Não aprendem nada. Lembro-me de uma palavra para lá de Venezuela: Iraque. Outra, vá: Líbia. A história da infâmia jornalística liberal é já longa neste século. 

De resto, neste início do ano, este jornal que se diz de referência inadvertidamente confirma que é um passo curto do classismo ao imperialismo, indissociáveis do seu liberalismo de sempre.

Adenda. Sofia Serra-Silva chama a atenção para o mais importante, a foto: “À luz das Convenções de Genebra, é vedada a divulgação de imagens que submetam prisioneiros, incluindo um chefe de Estado sequestrado, a humilhação, degradação ou exposição pública sem consentimento...”

Mobilização anti-imperialista em Lisboa


Em linha com o que já está a acontecer um pouco por todo o mundo: haja internacionalismo. 

sábado, 3 de janeiro de 2026

Solidariedade


Ainda a agressão militar imperialista não se tinha dado e já os pinochetistas da IL cheiravam sangue, em linha com toda uma tradição liberal realmente existente, que mergulha nos longo século XIX, no breve século XX e no sombrio século XXI. 

Entretanto, intelectuais euro-liberalizados, que ainda se dizem de esquerda e que apoiam Seguro, agarram-se desesperadamente às suas posições numa comunicação social cada vez mais patronal. As adversativas e as teorias liberais da ferradura servem o propósito de sobrevivência neste sombrio contexto. 

Sim, o marxismo mais simples explica o essencial das determinações materiais das diferentes declinações da ideologia dominante. No caso da Venezuela, tudo se resume a uma palavra: petróleo. O mais importante é isto: solidariedade com a Venezuela, sem mas, nem meio mas.

Adenda: haja quem não abdique do anti-imperialismo à esquerda.

Ladrões em 2025


De acordo com a contabilidade do blogger, o Ladrões de Bicicletas atingiu, em 2025, mais de 2,1 milhões de visualizações, mantendo assim a tendência de crescimento que se verifica desde 2023. Com cerca de 13 mil seguidores no facebook, quase 8 mil no twitter e aproximadamente 4,7 mil no instagram, a presença nas redes continua a ser essencial na vida do blogue. Com períodos de maior e menor assiduidade, cá continuaremos, portanto, a pedalar em 2026. Os tempos, complexos e difíceis, assim o exigem também.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

É isto andais a festejar?


“Não é Portugal que entra na CEE, é a CEE que entra em Portugal”, avisava Carlos Carvalhas em 1985. Haja razão comunista e iluminismo radical:

Desde a adesão à CEE que os comunistas portugueses alertam para os efeitos desindustrializadores da integração de feição neoliberal desta periferia com economias estruturalmente mais capazes, ainda para mais num quadro de europeização com mecanismos de compensação manifestamente insuficientes. O chamado comércio livre nunca passou do protecionismo dos mais fortes, sabemo-lo bem desde o século XIX, graças à melhor teoria económica prática de que os comunistas nunca prescindiram.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Começar o ano com classe


“Perguntámos aos jovens o que esperam de 2026. Estas foram as respostas”. No universo de classe do Público, onde o particular passa por universal, não há jovens operários na Autoeuropa ou operárias têxteis, não há jovens assistentes operacionais ou mecânicos, não há jovens trabalhadores da recolha do lixo ou caixas do supermercado. 

Não, no universo de classe do Público, sobram jovens em “gap year” e com profissões em inglês. É quem tem voz. Enfim, em linha com esta orientação editorial, tem três novos/velhos colunistas CEO de direita, passe a redundância, com apelidos sonantes: Bessa, Avillez e Arroja. 

É o euro-liberalismo de um perdócio em declínio, tal como a ideologia que o sustenta desde sempre.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

2026


Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes.
 

Como já é tradição, deixo o artigo 1.º da Constituição da República Portuguesa de 1976, com desejos de um excelente 2026.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Relembrar


No nosso artigo sobre a Nova Economia, Pedro Santa Clara tem um lugar de destaque. O grande arquiteto financeiro do campus de Carcavelos; com um pé no público e outro no privado; e proximo da Iniciativa Liberal e do Instituto Mais Liberdade.

No seguimento da nota de crítica à entrevista de Pedro Santa Clara, a República dos Pijamas relembrou oportunamente um excelente artigo do ano passado. No livro O neoliberalismo não é um slogan - Uma história de ideias poderosas, que os pijamas referem generosamente, não menciono este “superliberal”. Agora também gere uma rede ATL com vibes solucionistas. Tendo chegado mais tarde ao centro do neoliberalismo em Portugal, hoje é realmente incontornável. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Nomear

A propósito da irreprimível pulsão antidemocrática de certas frações do capital, sempre com eco previsível, Luís Vieira comenta de forma acutilante: “Se deixarem o empresário português sem supervisão de um adulto durante muito tempo, ele acaba por inovar e criar o Estado Novo a partir de primeiros princípios.”

Aproveito este ensejo para um apelo: evitemos a designação “Estado Novo”. De facto, o poder político ditatorial do capital financeiro puro e duro chama-se fascismo e este perigo é inerente ao capitalismo sem freios e contrapesos à altura. 

Sim, o fascismo existiu entre nós e os seus novos rostos andam por aí, com pesados financiamentos empresariais e apoio mediático sem rival.

Em tempos sombrios, precisamos sempre de um antifascismo militantemente luminoso, que comece por nomear com objetividade o inimigo, evitando designações que este mobilizou para efeitos apologéticos. 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Projeto deseducativo


O à vontadinha de Pedro Santa Clara – “sistema soviético na educação” –, em entrevista ao Público, é um sintoma da atual relação de forças político-ideológica. 

Este liberal até dizer chega é um dos mais apostados, em nome do capital mais agressivo, em destruir a escola pública, no seu caso, e da restante extrema-direita nacional e internacional, à boleia da retórica anticomunista mais grosseira, a que, por exemplo, esquece que foi o sistema de planeamento na educação e não só que permitiu à URSS e a tantos outros países passar de uma posição de atraso imenso para uma posição invejável na educação e ciência. Além disso, paradoxo só aparente, o seu neoliberalismo tem de ser planeado. A questão é sempre quem planeia, para o quê e para quem.

Infelizmente, os financiamentos privados da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (vulgo Nova SBE), através da sua obscura fundação, não têm sido alvo da atenção suficiente por quem de direito, do jornalismo ao Ministério Público. Os milhões para todas as cruzadas político-ideológicas falam mais alto nesta deliberada confusão público-privada, ou seja, nesta cada vez maior diluição da democracia, cada vez mais subordinada ao poder económico, mais puro e duro a cada dia que passa. 

Um detalhe basta para expor a demagogia neoliberal de Santa Clara: o modelo de concorrência com dinheiros público-privados não serve o bem comum, como indica, por exemplo, a longa experiência sueca de declínio educativo reconhecido. A sua irresponsabilidade e o seu fanatismo não cuidam de factos tão ululantes quanto inconvenientes, como se pode ler: fechem-se, fechem-se as escolas. 

O topete de quem alardeia preocupação com as desigualdades educativas é idêntico ao de André Ventura sobre a corrupção: o projeto socioeconómico de Santa Clara só torna as desigualdades mais abismais, tal como o convergente projeto de André Ventura só favorece os setores mais venais da sociedade portuguesa. As desigualdades, é claro, reduzem-se a montante da escola pública, na escola pública e a jusante desta conquista de Abril, sempre contra este liberalismo, desgraçadamente inscrito na lógica da integração.

Entretanto, é sempre a mesma história desde 1917, a da relação objetiva, e tantas vezes subjetiva, destes liberais com o fascismo - Maffeo Pantaleoni e Mussolini ou Milton Friedman e Pinochet. O ideal mais ou menos confessado é sempre um Estado autoritário de classe para guiar a transformação desejada, a regressão planeada. Um dos projetos público-privados de Santa Clara recebeu um prémio de uma fundação do Qatar (em Coimbra, deram-lhe um edifico imenso, antigos CTT, e tudo). É preciso fazer um desenho? 

O resto, o mais importante, a escola pública, tem de ser protegido dos efeitos obscurantistas desta gente perigosa do mais liberdade para explorar e expropriar. Infelizmente, as raposas já mandam no Ministério da Educação, como alertámos desde o início. Haja resistência, haja iluminismo radical.

Insistir no diagnóstico errado e na solução que, por si só, não funciona

A tendência que se desenhava há cerca de um ano converteu-se entretanto numa evidência incontornável: desde que o governo da AD tomou posse, a subida dos preços da habitação acelerou a um ritmo sem precedentes. Entre o 1º trimestre de 2024, com o anúncio eleitoral dos incentivos à procura, e o 3º trimestre de 2025, o Índice de Preços da Habitação (IPH) aumentou cerca de 27%, valor nunca atingido em períodos idênticos anteriores, desde 2009.


Em termos homólogos, trata-se não só da maior subida anual desde que há dados (17,7%), mas também do maior aumento face à variação homóloga anterior (7,9 p.p.), confirmando assim que o efeito de aceleração de preços se acentuou em 2025. Em linha, de resto, com o aumento da avaliação bancária de imóveis, que atingiu um novo recorde em novembro (2.060€ por m2) e a maior variação homóloga anual (18,4%), desde que o INE publica dados (2011).

A ideia de que a atual crise de habitação traduz apenas um mero problema de escassez de oferta - bastando construir mais e dispensando quaisquer medidas de regulação das dinâmicas especulativas associadas às novas procuras - continua a prevalecer no debate público. Mesmo quando essa ideia é contrariada pela realidade. De facto, o aumento gradual da construção de alojamentos nos últimos anos (de cerca de 7 mil fogos em 2015 para cerca de 25 mil em 2024), não teve qualquer efeito na estabilização dos preços, que continuaram a aumentar.

Por isso, e ao contrário do que afirma o ministro Pinto Luz (com as suas rendas moderadas de 2.300€), nada indica que seja «o incentivo do mercado» a fazer baixar os preços, sendo por outro lado difícil perceber em que elementos se baseia o ministro Castro Almeida, adepto da mesma tese (a crise resulta de uma mera falta de casas) e da mesma lógica de incentivos, para assegurar que «vão começar a sentir-se diferenças» no preço das casas no final de 2026.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Nossos desacontecimentos


Ouvi de alguns chefes que a indignação faz mal ao exercício do jornalismo, que bom jornalista não tem causa. Discordo. Indignação só não faz bem para quem tem como única causa a do patrão. 

A arguta Eliane Brum tem toda a razão. E essa razão transcende o jornalismo e alarga-se, por exemplo, à academia. Infelizmente, em cada vez mais áreas, a causa do patrão tem formatado um pensamento que se quer único. Felizmente, há quem não desista de ter outras causas, bem mais universais.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Movimento real


Sem surpresa, António Nogueira Leite, uma das mais representativas encarnações económicas da classe dominante portuguesa, celebra o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, faz hoje 34 anos, julgando que a história terminou. A sua vida ficou provisoriamente mais fácil e por isso o mundo não ficou melhor, antes pelo contrário. 

“Aprender, aprender, aprender sempre”, mas também repetir, repetir, repetir sempre:

Inspirados pelo célebre episódio de A Vida de Brian dos Monty Python, é caso para perguntar não o que os romanos fizeram por nós, mas antes: o que é que os comunistas, por exemplo através da Revolução de Outubro e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, criada em 1922 e extinta em 1991, fizeram por nós? 

Para lá de terem metido medo aos ricos, obrigando-os a integrar os de baixo nas sociedades capitalistas ocidentais, assim menos limitadamente democráticas, para lá de terem dado o contributo decisivo para a derrota do nazi-fascismo ou para lá de terem ajudado a inscrever o anti-imperialismo e o anticolonialismo nas dinâmicas de um sistema internacional eventualmente menos hierarquizado? 

E os seus fracassos e derrotas não impedem outra pergunta: será que o mundo ficou melhor depois de 1991? 

Creio que, em 2025, e perante o ascenso das novas formas de fascismo, de forças políticas neofascistas, indissociáveis do capitalismo realmente existente, a resposta é clara e exige também um combate contra o fomento da desmemória anticomunista. Sem esta desmemória, este ascenso seria mais difícil. 

Felizmente, alguns dos efeitos progressistas das experiências socialistas ainda andam por esse sistema internacional afora. O socialismo é uma realidade tão concreta e espectral como todo o movimento real.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Nick Cave & The Bad Seeds - Joy


Bom Natal


Reparai, quando alguém tem de levantar ou ajudar uma pessoa a levantar-se, que gesto faz? Olha-a de cima para baixo. Trata-se da única ocasião, do único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima para baixo: quando queremos ajudá-la a levantar-se.  

Este é o primeiro Natal sem Jorge, Francisco: “Não é possível haver paz sem um verdadeiro desarmamento!” Foi a sua última mensagem. Faz muito falta, mas ele, como tantos outros, vive em todos os que acreditam ou que acreditam nos que acreditam. Bom Natal.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Bravo, AD!


São cheques ensino, senhores


Vale a pena ver esta declaração de Porfírio Silva sobre a proposta de alargamento do acesso ao alojamento estudantil a alunos não carenciados, apresentada pelo ministro Fernando Alexandre aos reitores e presidentes dos institutos politécnicos. Proposta essa que estes rejeitaram, travando assim a tentativa ministerial de adulteração e privatização de uma resposta essencial no fomento da igualdade de oportunidades e no acesso ao ensino superior.

Há uma frase na intervenção do ministro que é lapidar, de facto, para perceber o verdadeiro alcance e o objetivo da sua proposta: com a atribuição de um voucher a todos os deslocados, independentemente da sua condição económica, «as residências estudantis deixariam de ser o espaço para onde nós empurramos os alunos da ação social de rendimentos mais baixos e passariam a ser espaços que as universidades e os politécnicos teriam que promover, de forma mais competitiva, para atrair alunos, de rendimentos mais baixos e de rendimentos mais elevados».

Está aqui tudo. Da visão elitista e convenientemente pejorativa das residências estudantis públicas («empurramos», senhor ministro?), às lógicas de competição e falsa liberdade de escolha, instigando as instituições a disputar alunos (que alunos e com que meios, senhor ministro?), na transfiguração de um recurso indispensável na democratização do acesso ao ensino superior. Quer diversificar, em termos de origem social, as residências estudantis? Reforçe o seu financiamento e o investimento, para aumentar a oferta e a qualidade. Reforce a provisão pública, não passe cheques.

Conscientes da impopularidade eleitoral do cheque-ensino, que contraria, na prática, a prometida liberdade de escolha, PSD e CDS-PP não têm coragem de o assumir nos programas que levam a eleições, ao contrário do Chega e da Iniciativa Liberal, de onde Fernando Alexandre é realmente oriundo. Mas onde podem, no que podem e quando podem - de forma dissimulada e seguindo o velho manual de instruções - lá vão tentando ganhar terreno, desviando os recursos necessários à provisão pública para financiar e incentivar a expansão das residências privadas.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Conhecimento e reconhecimento


Daniel Oliveira acha que existe quem confunda a atual Rússia capitalista com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), fundada faz hoje 103 anos. Não conheço ninguém que faça esta confusão grosseira, muito menos entre os comunistas portugueses, o alvo histórico do anticomunista grupo Impresa.

Em compensação, conheço demasiadas pessoas de esquerda que se deixaram atrelar à UE e à sua trilogia desgraçada, que de resto só tem servido para enfraquecer os Estados e os seus povos nesta área: federalismo, neoliberalismo e militarismo. Fazem-no sempre em nome de uma sempre ilusória autonomia em relação aos EUA. 

Entretanto, reconheço que o evitável fim da URSS foi uma katastroika ao longo dos anos 1990, da queda abrupta e prolongada de todos os indicadores socioeconómicos, incluindo a esperança média de vida entre os homens, à expansão do imperialismo do Atlântico Norte para leste, até chegar às fronteiras da Rússia. Esta irresponsável expansão só serviu para aumentar a insegurança internacional, em linha com toda a ação dos EUA por esse sistema internacional afora. Não tem havido maior ameaça à paz, nem à Carta das Nações Unidas, sublinho.

Reconheço também que essa União faz muita falta e que a República Popular da China, a mais bem-sucedida economia mista da história, não seguiu o guião que estava escrito nos anos em que se anunciava o fim da história. Apesar de tudo, o mundo é reconhecidamente um lugar melhor graças à recusa anti-colonial chinesa, embora entre a decadente esquerda ocidental sejam raros os intelectuais que reconhecem factos ululantes como estes. Percebe-se bem porquê.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Lixo mediático


Quem não quiser falar de capitalismo de imprensa e televisivo deve calar-se sobre o fascismo tão propagandeado.

Sim, o liberalismo económico, sempre austeritário, desagua com facilidade no fascismo, com muito oportunismo à mistura, até porque os liberais até dizer chega são, na comunicação social, um eco medíocre do patrão com cada vez menos freios e contrapesos. A história não se repete, mas pode rimar.

Quem usa o termo extrema-esquerda para se referir à esquerda já está objetivamente na extrema-direita, disponível para ser cúmplice do racismo e de todo o restante extremismo (não confundir com radicalismo...).  Obviamente, nada disto tem a ver com políticas migratórias, sempre passíveis de discussão racional, mas sim com o esforço para dividir os trabalhadores, tentando levá-los a olhar para o lado e para baixo, ao invés de para cima. 

Os herdeiros de Berlusconi chegaram ao grupo Impresa, entretanto. Desgraçadamente, o marxismo mais simples explica o essencial.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Fernando Alexandre e a universalização da escassez

Fernando Alexandre quis abrir as portas das residências estudantis a alunos deslocados não carenciados, camuflando o seu objetivo com a alusão a uma alegada universalização do acesso. De caminho, insultou os responsáveis por esta resposta de ação social no ensino superior, sugerindo que estes apenas atuam em função das reivindicações dos alunos, e associou um estigma, até aqui inexistente, às próprias residências e aos alunos que delas beneficiam, deixando no ar, de forma leviana e inaceitável, a ideia de que estes, por serem pobres, são os responsáveis pela sua degradação.

Ora, se o ministro da Educação e Ciência quer alargar o acesso das residências estudantis a alunos não carenciados, terá que reforçar muito mais a expansão da oferta prevista (e programada, já agora, pelos governos anteriores), de modo a elevar progressivamente os patamares de acesso, em termos de níveis de rendimento. Em contrário, estará a atuar como um Robin dos Bosques invertido, beneficiando alunos não carenciados, ao mesmo tempo que empurra os estudantes desfavorecidos para um mercado de alojamento estudantil hiperinflacionado. É nisto que dá liberais até dizer chega a acreditar (ou a fingir acreditar) que são social-democratas.

Sejamos claros: a oferta pública de alojamento estudantil é um bem escasso face ao universo das necessidades. Segundo dados divulgados pelo DN, há cerca de 110 mil alunos deslocados e cerca de 40 mil alunos carenciados, que deveriam ter, por isso, acesso prioritário às residências do Estado. Sucede, porém, que estas apenas dispõem de uma capacidade de cerca de 15 mil camas, «pelo que a oferta cobre apenas 32% das necessidades». É este o contexto em que o ministro Fernando Alexandre quer abrir a oferta de alojamento estudantil a todos os alunos deslocados, sem que antes tenha assegurado esta resposta de ação social aos estudantes que dela mais necessitam.


A ideia do ministro, rejeitada por reitores e presidentes dos institutos politécnicos, consistia em atribuir um valor único para apoio ao alojamento a todos os estudantes deslocados, independentemente da sua condição económica, permitindo-lhes, alegadamente, optar por «uma residência pública ou arrendar um quarto particular», como se o custo fosse o mesmo. Sem qualquer garantia, aliás, de que os bolseiros continuariam a ter prioridade no acesso a residências, num quadro de alargamento a todos os deslocados. Ou seja, uma vez mais a fraude dos «cheques» e das «liberdades de escolha»: em última instância seriam, neste caso, as escolas/instituições, e não os alunos, a escolher.

Quer isto dizer que o ministro, com a sua proposta, não alarga, antes restringe, o acesso ao alojamento estudantil por parte dos alunos carenciados. Nada que surpreenda, claro, num governo que preferiu apoiar os jovens que menos precisavam na aquisição de casa própria. De facto, se estivesse genuinamente preocupado com a universalidade dos serviços públicos, Fernando Alexandre não faria parte de um governo tão empenhado, por exemplo, em desmantelar o SNS e financiar os privados. Se quer mesmo universalizar o acesso às residências estudantis, siga a linha dos governos anteriores em matéria de habitação, promovendo a oferta pública para lá das necessidades mais prementes. E não desviar a resposta existente dos que mais para os que menos precisam.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Portugal é a “economia do ano” para quem?

Portugal é a “economia do ano”, segundo a The Economist. O anúncio feito pela revista britânica na semana passada deu origem a várias reações na imprensa nacional. Apesar do tom leve adotado pela revista na divulgação deste ranking, a classificação foi recebida com entusiasmo pelo governo. Na rede social X/Twitter, o primeiro-ministro Luís Montenegro destacou o “reconhecimento internacional excepcional de Portugal” e procurou associá-lo ao trabalho do governo, sublinhando a importância de “seguir o rumo que nos trouxe até aqui nos últimos meses”.

No entanto, nem todos parecem partilhar o otimismo. Os dados do Eurobarómetro realizado a meio do ano mostram que o custo de vida continuava a ser referido como a segunda principal preocupação das pessoas. Parece haver um desfasamento entre os indicadores elogiados internacionalmente e a experiência de muitos dos que vivem e trabalham no país. Como acontece frequentemente quando se discutem rankings internacionais, é preciso perceber o que está efetivamente a ser medido e que conclusões é que podemos retirar a partir dos indicadores usados.

O que (não) mede o ranking?

O ranking da The Economist baseia-se em cinco indicadores: a inflação subjacente (i.e. inflação excluindo preços da energia e dos alimentos), a amplitude da inflação (a percentagem de bens e serviços cujos preços subiram mais do que 2% ao longo do ano), o PIB, o emprego e o desempenho do mercado bolsista. A revista recolhe estes dados para cada país e combina-os num índice sintético que permite ordenar as economias de acordo com o seu desempenho agregado ao longo do ano.

A escolha das variáveis incluídas e o peso que se atribui a cada uma destas são discutíveis e envolvem uma grande dose de subjetividade. Além disso, o método utilizado para chegar ao resultado final não é especificado no artigo, o que torna difícil interpretar as conclusões. Isso torna-se claro quando olhamos para os dados de 2025. No caso do PIB, Portugal registou um crescimento de 2,4% no terceiro trimestre do ano, o que, apesar de significativo, é inferior ao de Espanha (2,8%), da Suécia (2,5%), da Chéquia (2,8%), da Polónia (3,8%) ou da Irlanda (mesmo usando uma métrica mais adequada para evitar as distorções do PIB neste país). Em relação ao desempenho das ações, o crescimento de 20,9% registado na economia portuguesa fica bastante aquém de muitos dos países apresentados, como se vê no gráfico.

 

O caso da inflação, em que Portugal se destaca com um dos menores desvios face aos 2% definidos como objetivo pelo Banco Central Europeu, merece alguma atenção. O indicador utilizado (inflação subjacente) exclui do cálculo os preços dos alimentos e da energia. O que isto significa é que pode ser usado para perceber como evoluem os preços de setores menos voláteis, mas tem pouca utilidade como indicador do custo de vida. Embora a taxa de inflação dos alimentos em Portugal esteja em linha com a média europeia, há um fator que nos distingue: a fatia da despesa total que os portugueses dedicam à alimentação está entre as mais elevadas da União Europeia, apenas superada por países do leste europeu, o que sugere que Portugal é dos países em que a subida dos preços dos alimentos tem um impacto maior na carteira das pessoas.

Isto junta-se a um outro problema, discutido nesta página ao longo dos últimos meses (aqui ou aqui), que se prende com as limitações do indicador da inflação no que diz respeito aos custos da habitação. O indicador da inflação, que é usado para medir o poder de compra das pessoas, subestima de forma significativa o impacto dos preços das casas, uma vez que não inclui a despesa das famílias com prestações de empréstimos e atribui um peso muito pequeno às despesas com rendas.

Como as prestações e as rendas têm subido a um ritmo bastante superior ao da média dos preços na economia (medida pela inflação), há uma parte importante do custo de vida de muitas pessoas que está a ser subestimada pelos indicadores. Neste aspeto, a economia portuguesa destaca-se claramente, mas pela negativa. Portugal foi o país da União Europeia em que o fosso entre os rendimentos e os preços da habitação mais aumentou ao longo da última década, o que significa que foi o país onde o acesso à habitação mais se degradou.

 
Fonte: Eurostat

Ao elogiar o crescimento da economia portuguesa, a The Economist sublinha que “o turismo disparou [e] muitos estrangeiros ricos estão a mudar-se para o país para aproveitar as suas baixas taxas de imposto”. Mas a expansão do turismo não tem apenas efeitos positivos sobre o emprego e o PIB. O relatório Housing in the European Union, publicado recentemente pela Comissão Europeia, indica que “Portugal é o país da UE onde o turismo teve maior impacto sobre os preços das casas”, destacando o impacto das procuras externas e, em particular, a expansão do alojamento local, que desvia um número crescente de casas do mercado de arrendamento para o da procura turística. O que é lido como sinal de sucesso por uns contribui para agravar o custo de vida para outros.

O sul da Europa é o novo norte?

Um dado relevante deste ranking é que, desde a pandemia, a distinção de economia do ano tem sido atribuída a países do sul da Europa. Depois da Grécia ter ficado no topo do ranking em 2022 e 2023, Espanha subiu ao primeiro lugar em 2024 (num ano em que o saldo orçamental fazia parte dos indicadores). Em 2025 é a vez de Portugal, o que é apresentado pela revista como “mais boas notícias para o sul da Europa”. No fundo do ranking, além de algumas economias do leste europeu, encontramos várias das economias do norte da Europa (Finlândia, Áustria, Noruega ou Suécia).

Desde a pandemia, Espanha tem sido repetidamente elogiada pelo desempenho da sua economia nos últimos anos. A economia espanhola tem crescido a um ritmo muito superior à média europeia desde a pandemia, partilhando alguns traços comuns com a portuguesa, como o crescimento robusto do emprego, o aumento da imigração e o dinamismo de setores como o alojamento, a restauração e a construção. Numa linha semelhante à The Economist, o Financial Times considera que Espanha é a “economia europeia que mais se destaca”.

Portugal também tem sido bastante elogiado nos meios internacionais: há dois anos, Paul Krugman, economista norte-americano e prémio Nobel da Economia em 2008, classificou a experiência portuguesa como “uma espécie de milagre económico” e dizia que é “um pouco misterioso como é que as coisas correram tão bem” a Portugal depois da última crise financeira; dois anos antes, Adam Tooze, historiador económico da Universidade de Columbia, já tinha afirmado que “Portugal era o modelo para manobrar de forma muito inteligente dentro do sistema da UE” e que “ninguém o fez como os portugueses”.

A recuperação do crescimento no sul da Europa traduz uma mudança significativa na tendência da Zona Euro. Desde a entrada em vigor do euro no início do século, o debate tem-se centrado na divisão entre as economias do norte e do sul da Europa. As economias do norte (Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia e Países Baixos), com uma indústria mais robusta e de maior valor acrescentado, contrastava com a experiência dos países do sul (Itália, Espanha, Portugal e Grécia). Os primeiros anos do euro foram marcados por um desequilíbrio estrutural entre os dois blocos: os países do norte acumularam excedentes comerciais enquanto os países do sul, prejudicados por uma moeda sobrevalorizada, acumularam défices e viram a sua dívida externa subir de forma acentuada.

 
Fonte: AMECO (Comissão Europeia)

Após o início da crise financeira, as medidas de austeridade impostas aos países do sul comprimiram a sua procura interna e acentuaram a vaga de falências e o aumento do desemprego, o que acabou por agravar a recessão e traduzir-se numa década de estagnação. No entanto, desde a pandemia, a tendência inverteu-se: as economias do sul estão a superar as do norte em termos de crescimento e até há quem fale numa “vingança do Mediterrâneo”.

Esta inversão foi desencadeada pela crise energética. A invasão russa da Ucrânia fez com que os preços do petróleo e do gás disparassem na Europa. A Alemanha e os países de leste foram particularmente expostos a este choque. Além da proximidade à Rússia e da dependência do gás importado, as características das economias também influenciaram a vulnerabilidade a este choque. O elevado custo da energia veio agravar um cenário que já era adverso para a indústria europeia, ameaçada pela concorrência da China e pela emergência de tarifas. Isso significa que os países do norte e alguns do leste europeu, com uma estrutura produtiva mais assente em setores como o automóvel ou a indústria pesada e maior peso da indústria intensiva em energia, foram mais afetados pelo choque do que os países do sul, mais assentes em serviços.

 
Fonte: Eurostat. Nota: A linha “Itália, Espanha, Portugal e Grécia” representa o valor agregado das quatro economias

No entanto, as características do crescimento atual dos países do sul também apontam as suas fragilidades. As reformas estruturais do período da austeridade tinham como principal objetivo a desvalorização interna (i.e. redução dos custos do trabalho) como forma de promover as exportações. Essa é uma estratégia limitada: por um lado, nem todos os países podem ter excedentes comerciais ao mesmo tempo, pelo que o modelo da Alemanha antes da pandemia não é replicável por todos; por outro lado, a competitividade das exportações alemãs tinha mais a ver com a qualidade do que produzem do que com os preços, algo que nenhum país consegue replicar quando opta pela desvalorização interna em vez do investimento e da aposta na inovação. Sem surpresa, o crescimento das exportações dos países do sul esteve associado a bens menos sofisticados e de serviços de baixo valor acrescentado, como o turismo.

É certo que, na última década, Portugal registou um aumento do peso das exportações de bens de alta-tecnologia, que incluem equipamentos eletrónicos e de telecomunicações, produtos farmacêuticos e outros equipamentos com elevado conteúdo tecnológico: representavam 4,5% das exportações totais em 2015 e passaram para 7,4% em 2024. Observa-se uma tendência semelhante no caso dos serviços, que à primeira vista parece positiva. Contudo, se olharmos para a evolução da economia mundial, vemos que o peso das exportações de bens de alta-tecnologia aumentou consideravelmente na última década de uma forma generalizada. Se olharmos para os dados do Banco Mundial, as exportações de bens de alta-tecnologia a nível mundial representavam 20% do total em 2015 e subiram para valores próximos dos 23% em 2023; na União Europeia, passaram de 17% para 19% neste período.

A tendência de maior incorporação de tecnologia na indústria e nos serviços é comum à generalidade das economias. Isto não significa que não haja melhorias na economia portuguesa, mas sugere que estamos longe de ser um “milagre económico” neste período. Em sentido contrário, o que aumentou a um ritmo assinalável na economia portuguesa foi o peso do turismo. O turismo representava 15,7% das exportações em 2015 e, uma década depois, atingiu os 20,8% - ou seja, em 2024, foi responsável por um quinto das exportações totais do país.

O problema que se coloca é o de saber até que medida o desenvolvimento dos diferentes setores pode entrar em colisão. A expansão do turismo tem alimentado a subida acentuada dos preços das casas em Portugal, o que aumenta não apenas o custo de vida das pessoas, mas também os custos para os outros setores, que enfrentam rendas mais caras e maior dificuldade em atrair trabalhadores para as áreas onde os preços mais crescem. Na área metropolitana de Lisboa, a especialização em atividades turísticas ao longo da última década ocorreu em detrimento de setores mais inovadores: a indústria e os serviços de informação e comunicação perderam importância relativa e houve uma queda da produtividade por trabalhador, como conclui um estudo publicado pela Causa Pública.

Além disso, esta visão ignora a distribuição dos ganhos do crescimento. O modelo de crescimento dos países do sul da Europa gera impactos desiguais. A subida dos preços das casas beneficia essencialmente quem tem património acumulado e consegue extrair rendas: proprietários que detêm e exploram múltiplas casas (tanto para arrendamento, como para alojamento local), plataformas digitais e fundos de investimento. Pelo contrário, quem arrenda e quem vive em zonas mais pressionadas pela gentrificação é prejudicado pela subida das rendas e dos preços dos serviços, que representa um agravamento significativo do custo de vida.

A economia dos próximos anos

Não é surpreendente que a distinção de “economia do ano” tenha sido recebida com entusiasmo pelo governo, sobretudo tendo surgido a poucos dias da greve geral marcada pelos sindicatos. Apesar dos sinais de contestação, o governo parece confortável com a estratégia e o apoio explícito ou implícito de uma maioria dos deputados no parlamento. Sobre os planos para a economia dos próximos anos, o ministro da Economia e Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, explicou recentemente que o objetivo do governo passa por colocar Portugal entre os dez destinos turísticos mundiais mais procurados (atualmente, o país ocupa um honroso 12º lugar).

Embora não se possa resumir o tecido produtivo da economia portuguesa ao turismo, não deixa de ser verdade que a expansão do turismo e o desempenho dos serviços associados (como o alojamento e a restauração) são responsáveis por boa parte do crescimento dos últimos anos. O facto dos preços do turismo em Portugal terem subido bastante acima da média dos restantes países do mediterrâneo desde a pandemia indica que o setor pode ter dificuldade em manter o ritmo de crescimento.

Depois de uma fase em que o crescimento assentou no endividamento externo, a economia portuguesa passou a depender de atividades ligadas ao turismo e ao mercado imobiliário. Ambos estão fortemente dependentes da procura internacional e tornam a economia portuguesa vulnerável às suas oscilações, como a pandemia tornou claro. Além disso, este modelo gera impactos desiguais: beneficia principalmente quem acumula património que se transformou num mecanismo de extração de rendas, enquanto agrava o custo de vida para quem arrenda e para quem vive nas zonas mais afetadas pela gentrificação.

O problema de fundo está em confundir crescimento com desenvolvimento. A “economia do ano” não é igual para todos. Este tipo de rankings internacionais diz-nos muito pouco sobre a forma como o desempenho da economia se traduz nas condições de vida de quem vive e trabalha no país. É pouco útil falar em crescimento e criação de riqueza sem discutir a forma como esta é distribuída.

Para ler outros textos como este, pode também subscrever a newsletter Reverso da Moeda.