«Poder-se-á pensar que por causa de um aumento de quatro cêntimos do preço do bilhete do metro na capital chilena destruíram-se estações e incendiaram-se carruagens e lojas e fizeram-se fogueiras com o entulho das ruas, mas isso é ver apenas a superfície do problema.(...) Lucía Dammert, professora e investigadora na Universidade de Santiago de Chile, explica que "há razões estruturais, relacionadas com as políticas económicas que foram sendo adotadas e que não resolveram os problemas dos mais pobres e da classe média, nem melhoraram a sua qualidade de vida". (...) "A maioria continua a sentir que vive numa sociedade profundamente desigual, em que os privilegiados vêem os seus privilégios ser reforçados e os outros limitam-se a trabalhar para não receber nada de volta".
(...) Cerca de 25% da riqueza do país está concentrada nas mãos de apenas 1% da população e apenas 2,1% em metade das famílias com os rendimentos mais baixos. "No contexto internacional, o Chile é, de longe, o país mais desigual da OCDE", explicou ao mesmo jornal chileno Dante Contreras, docente universitário. (...) Qualquer descrição sobre a vida na capital soa familiar: casas demasiado caras (só na última década o preço da habitação aumentou 150%, tendo os salários aumentado 25%, aponta o “El País”, citando um estudo da Universidade Católica do Chile) e transportes igualmente caros. O salário mínimo é de 301 mil pesos (cerca de 370 euros), mas 70% dos trabalhadores recebem menos do que cerca de 680 euros por mês.
(...) Na opinião de Carlos Huneeus Madge, o atual sistema económico do país, "assente num neoliberalismo extremo que desmantelou o Estado, é incompatível com uma democracia estável". Exemplo disso, diz, são as privatizações, "que abrangeram quase todas as empresas públicas, como as do sector da energia, e estenderam-se depois ao sistema de pensões, educação, saúde e água". (...) As pensões são um tema especialmente fraturante no país, com os seus críticos a afirmarem que o sistema introduzido em 1982, em que os trabalhadores depositam as suas contribuições em contas individuais geridas por entidades privadas, não garante "pensões dignas" e "perpetua as desigualdades".»
Excertos da reportagem de Helena Bento, no Expresso (23 de outubro), a ler na íntegra.































