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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Preferia que não


Confesso que, como o escrivão Bartleby, célebre e desconcertantemente desobediente personagem criada por Herman Melville, «preferia que não», preferiria não o fazer. Peço então desculpa por maçar o leitor com excertos representativos do manifesto do recém-criado Instituto Progresso, liderado por Miguel Costa Matos, deputado do PS. 

«Mais do que um think-tank, queremos ser um do-tank (...) A nossa ambição é que Portugal seja um país livre, soberano, próspero, inclusivo e justo, capaz de transformar os desafios do presente em oportunidades para o futuro (...) A economia nacional continua marcada por baixos níveis de produtividade, o que limita o crescimento dos salários reais e a capacidade de evolução para setores de maior valor acrescentado». 

Em primeiro lugar, comecemos pela tão simbólica praga dos anglicismos e dos seus trocadilhos, em modo lero lero de consultora, think, do, pensar, fazer, como se uma coisa não implicasse a outra. 

Em segundo lugar, é como se dissessem: “queremos coisas boas e não queremos coisas más”. Mais seriamente, estes contumazes europeístas têm de saber que Portugal não é em grande medida, materialmente, um país soberano e livre, dada a perda de instrumentos vitais de política económica – pura e simplesmente desapareceram ou foram transferidos para distantes instituições da UE, com escasso ou nenhum escrutínio democrático, tudo parte do ADN deste processo de integração retintamente capitalista e logo crescentemente autoritário. 

Tudo fizeram para tornar a fronteira política economicamente irrelevante e os resultados estão à vista: neste vazio, ascende a perversa fronteira etno-cultural, promovida pela extrema-direita, cavalgando a impotência democrática gerada pela incapacidade estatal de dirigir a economia com propósitos de desenvolvimento, de capacitação individual e coletiva. 

Em terceiro lugar, no último quarto de século, os salários reais cresceram abaixo do crescimento da produtividade e não são tautologias que, obscurecendo o facto, o mudam: se a produtividade fosse maior estávamos em setores mais produtivos e se estivéssemos em setores mais produtivos éramos, isso mesmo, mais produtivos. 

O círculo vicioso, pelo contrário, é claro: transferências sistemáticas de direitos dos trabalhadores para os patrões, economia de baixa pressão salarial, mercado interno comprimido, menos incentivos ao investimento e logo menor crescimento da produtividade, tudo agora dificultado pela turistificação entranhada. É um setor estruturalmente pouco produtivo, que foi impulsionado a golpes de política, com consequências deletérias, incluindo na habitação. 

Entretanto, não há um único sindicalista na lista de subscritores do Instituto, mas sobram “empreendedores” e pessoas com “profissões” escritas em inglês, o que dá muito mais estilo. A classe conta: é um tão relevante quanto invisível teto de vidro. 

Só podemos então e infelizmente esperar um “António-Costismo” tardio, uma “social-democracia”. Tem mesmo que ter aspas, em modo euro-social-liberal-armado, mais do mesmo, com menos força. Tudo o resto exigiria uma confrontação séria com o passado mais ou menos recente, do regime austeritário da UE às privatizações, passando pela perpetuação, cada dia mais intensificada, da lógica capitalista na habitação ou pela ambiental e socialmente destrutiva promoção da corrida armamentista. 

Costa Matos disse, com pouco sentido de oportunidade político-ideológica, que se inspirou no exemplo do chamado Mais Liberdade (para explorar e especular). Isto levou o deputado da IL, Carlos Guimarães Pinto, o que fala na televisão como se fizesse uma perninha como vendedor de seguros, a saudar no Twitter a iniciativa, num aparente espírito de pluralismo. Como se houvesse, pudesse ou devesse haver um “mercado de ideias”, como estes neoliberais gostam de alardear. 

O stink-tank – não são os únicos a brincar com anglicismos – da IL é maciçamente suportado, com centenas de milhares de euros anuais, por alguns dos capitalistas mais ricos de Portugal. Serve para as cruzadas ideológicas e, suspeita-se, para o financiamento dos liberais até dizer chega, contornando a lei dos partidos. É parte de um complexo mais vasto de institutos e fundações, autêntica infraestrutura intelectual do capital e para o capital. 

Não há de facto fartos repastos ideológicos grátis. Como disse E. E. Schattschneider, no livro The Semi-Sovereign People, de 1960, «a falha do paraíso pluralista é que o coro celestial canta com um forte sotaque de classe alta». 

Temos então de estar atentos, entre outras produções, aos relatórios de contas destes tanques de ideias mais ou menos malcheirosos. Lá está, há muitas razões para dizer «prefiro que não».

Artigo publicado no AbrilAbril.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Reciprocidade


Na boa lógica da reciprocidade, se insiste em regredir e em voltar a tratar-me por “os ladrões”, agora no debate do sistema de pensões, eu passo a tratá-lo por Pedro Santa Claude, até para voltar a sublinhar o mau exemplo para a juventude das suas práticas atuais de “escrita”. 

Estou convencido, os leitores dirão se tenho ou não razão, que basta romper um elo da sua cadeia para tudo o resto soçobrar, até porque foi o mesmo que chegou a achar, em anterior polémica, que o Estado entra em bancarrota ou que gasta PIB. Já não acha. 

Diz agora Santa Claude: “A diferença é que um [sistema de capitalização] diversifica o risco através de ativos produtivos; o outro [sistema de repartição] concentra-o na demografia, nos salários e na capacidade fiscal futura do país”. 

Isto é lero lero, serve apenas para mascarar a realidade. Ambos os sistemas de pensões dependem em termos macroeconómicos exatamente das mesmas três variáveis, por ordem alfabética: demografia, emprego e produtividade; nem mais, nem menos. 

Um professor de finanças da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, com a cátedra Millenium BCP e tudo, sabe certamente isto, sabe certamente que não há almoços grátis em termos agregados na esfera da circulação financeira, não precisa de ser marxista para o reconhecer. 

E um praticante de finanças tem de saber que há uma diferença avassaladora entre a ilusão, passível de modelização, do risco (probabilístico) e a realidade histórica da incerteza radical, em que o futuro não é uma continuação estatística do passado (lembro só 2007-2008, 2020, quiçá 2026...). 

Neste contexto, dados os incentivos, pode não querer saber o seguinte: o sistema de repartição é menos desigual, é mais transparente no enfrentamento das escolhas políticas, é um redutor da incerteza, não tem parasitas a desviar parte dos fluxos de rendimento e coloca alguma areia macroeconómica na engrenagem da finança desgraçadamente liberalizada e tão propensa a crises e a contribuições para gigantescas destruições de capital. 

O que os chamados neoliberais – liberais há muitos, onde andam por cá os discípulos de Keynes ou de Beveridge? – apodaram de “repressão financeira” foi (em países como a China ainda é) outro arranjo redutor da incerteza, feito de controlos de capitais, em muitos casos de banca pública robusta, regulação contrária a certas práticas de mercado ou subordinação do banco central ao tesouro. Contribuiu para a estabilidade financeira, para o pleno emprego e para o crescimento da produtividade com ganhos mais partilhados (basta olhar para história do Atlântico Norte do pós-guerra aos anos 1970-80; em Portugal, este arranjo durou até ao início dos anos 1990).

Adenda. Uma vez mais, respondeu prontamente ao texto acima. Por uma vez, respondo no mesmo dia e num só parágrafo final. Lá reconheceu as três variáveis, cuja evolução determina a trajetória de qualquer sistema de pensões, seja de repartição, seja de capitalização – demografia, emprego, produtividade – e até colocou uma referência. Perante isto, decidiu deslocar a discussão para a “economia aberta”, oportunidade para mais lero lero. Aparentemente, tem um projeto misterioso para transformar o país num recetor financeiro líquido do valor gerado no resto do mundo nas próximas décadas. Afinal, para lá de unicórnios hoje, descobriu-se mesmo petróleo no Beato nos anos 1980. Haja paciência para este liberalismo artificial até dizer chega.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Mais uma campanha da economia do medo


É oficial: começou mais uma campanha da economia do medo, destinada a transferir rendimentos para o capital financeiro, à boleia da fraude da “falência” da Segurança Social ou da converseta sobre almofadas, como se os mercados financeiros gerassem valor. A fraude é promovida pelo mesmo Governo que apostou na acentuação da transferência de rendimentos do trabalho para o capital, vulgo pacote laboral. Foram derrotados. Terão de ser outra vez. 

Entretanto, os economistas do medo, que lideram intelectualmente estas campanhas governamentais-mediáticas, com as suas previsões tão inúteis quanto catastrofistas, deviam vir com um aviso, como os produtos tóxicos. Quais são os seus incentivos, quem lhes paga? Esta pergunta aplica-se aos que propagam a fábula do mercado e do homo economicus.

A segurança social pública, por definição, não vai à “falência”. Depende sempre, mas sempre, da repartição solidária de rendimentos entre quem está a criar valor e quem já o criou, numa lógica de reciprocidade sem fim, centrada nos valores do trabalho com direitos, devendo, neste contexto, o salário real pelo menos acompanhar a evolução da produtividade, o que não tem acontecido globalmente acontecido em Portugal no último quarto de século. 

A repartição entre quem está a trabalhar e quem já trabalhou, subjacente à segurança social, é sempre feita em cada momento do tempo, sublinho este ponto muito importante. No sistema de repartição público, as decisões são politicamente mais transparentes e eficientes do que num sistema dito de capitalização, até porque não existem parasitas financeiros a sugar rendimentos por serviços inúteis. Os parasitas financeiros sonham estar no meio de fluxos de rendimentos... 

Creio que estes pontos singelos podem ser um dos pontos de partida para combater os economistas do medo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Mais uma voltinha, mais uma viagem


Para não variar, Pedro Santa Clara mandou o Claude responder à minha resposta rapidamente, dizendo agora para este me tratar por “senhor” ao invés de “ladrões”. Trato as pessoas pelo seu nome por uma questão de reconhecimento básico no debate público direto e lamento sempre quando não há reciprocidade. Agora demorei mais a responder e este, que é talvez o meu texto final nesta polémica, ficou ainda mais longo. Ontem foi dia de eclipse. E qual é a pressa? 

Comecemos pela acusação velada de desonestidade, porque eu disse que Santa Clara é fã de Ayn Rand, da sua apologia desvairada do egoísmo, tendo assim supostamente imaginado a sua biblioteca: “Ayn Rand descreveu o que acontece quando uma sociedade trata o sucesso como uma dívida em vez de um mérito: um dia, os que produzem pousam o peso” (Pedro Santa Clara/Claude, 1 de julho de 2026). 

Já que estamos a falar de autores, concluo a discussão sobre Smith: sim, eu leio e aprendo com a tradição da economia política liberal, sobretudo a que é séria e não separa a economia da política ou da moral ou da história, reconhecendo falhas internas, contradições, num sistema que evolui, abrindo caminho a críticas mais radicais, com soluções progressistas, seja no espírito da reforma ou da revolução ou da reforma revolucionária. O mesmo não tende a acontecer com os liberais até dizer chega de hoje: há crescimento económico, então é liberalismo; é liberalismo, então haverá crescimento económico. Um jogo fácil, mas onde não se aprende nada. A falta de pluralismo doutrinário no espaço público, o apoio do maciço do capital, amolece-os. 

Continuemos pela contumaz falta de rigor concetual. Para reafirmar o seu apoio à agressão da troika, neoliberalismo em estado puro, usa a palavra bancarrota: “Portugal teve uma bancarrota em 2011”. É do mesmo quilate da afirmação, que já corrigiu, segundo a qual o Estado “gasta” PIB. 

Em rigor, um país nunca vai à falência. E Portugal não incumpriu no serviço da dívida e podia tê-lo feito. Teve, isso sim, uma crise de balança de pagamentos e de liquidez numa moeda que não emite, o que é outra coisa. De resto, na ausência da troika, o Estado tinha liquidez para satisfazer os seus compromissos com pagamentos de salários e pensões, mas não tinha para satisfazer totalmente os credores, como aqui se indica. Teria sido compelido a fazer uma reestruturação da dívida por iniciativa própria e eventualmente a sair do euro, recuperando instrumentos de política perdidos. 

Entretanto, um facto que não pode ser contornado: as taxas de juro não caíram por causa da austeridade imposta, caíram em julho de 2012, quando o presidente do BCE disse aos “mercados” que iria fazer tudo para salvar o euro “e acreditem será suficiente”. Se o problema fosse de “solvência”, estas palavras não a tinham resolvido; se era o preço fixado por um banco central que se tinha recusado a fazer o seu trabalho de prestamista de último recurso, então o problema de liquidez foi uma escolha política de Frankfurt. Atente-se neste gráfico que fala por si, retirado de um artigo no Le Monde diplomatique – edição portuguesa, escrito em coautoria com Paulo Coimbra: 


E por falar em falta de rigor: “Pagamos sempre nós: impostos agora ou dívida depois. É contabilidade”, afiança Santa Clara. Se o Estado contribui para o PIB, como acabou por ter de conceder (contabilidade, lá está), e aceitando momentaneamente os seus termos, é como dizer que pagamos às empresas privadas os bens e serviços que consumimos, incluindo através do endividamento. É claro que há diferenças cruciais, mas estas, creio, são favoráveis a quem defende no presente contexto histórico uma economia mista. 

Uma das diferenças cruciais do papel do setor público a sério é que o pagamento é socializado, sendo os impostos idealmente progressivos (o que tende a não acontecer em Portugal), e os serviços são idealmente gratuitos no ponto do utilizador. Ambas as facetas são fortemente redistributivas, garantindo o acesso democrático a múltiplos bens e serviços cruciais, da saúde à educação, por exemplo, com efeitos positivos por todo o lado, incluindo na geração de confiança social, associada a igualização básica de potencialidades humanas. E existe o chamado paradoxo da redistribuição: quanto maior é a universalidade igualitária no acesso, melhor. O que se passa na habitação, onde tudo foi entregue ao mercado, é ilustrativo da falta que faz um poder público que opere como em Viena de Áustria, por exemplo, onde uma parte substancial está em mãos públicas e cooperativas. 

Mas há mais diferenças, agora do ponto de vista estritamente macroeconómico: ao contrário de qualquer outro agente individual, as ações públicas, de política económica, têm sempre impactos gerais, num plano que não se confunde com o da microeconomia. 

Olhemos de novo, neste contexto, para a experiência da troika, superando o liquidacionismo depressivo de Santa Clara – “a troika pecou por defeito: doeu sem ensinar”: o corte na chamada despesa pública implicou automaticamente uma quebra de rendimentos. Dada a dimensão dos efeitos multiplicadores orçamentais, que o FMI reconhecidamente subestimou, a austeridade contribuiu decisivamente para uma recessão cavada e para a subida infernal do desemprego. Por definição, isto não ensinou, destruiu vidas, é “a economia que mata”: quando lerem Santa Clara, lembrem-se disto, o seu programa de motosserra passa pela repetição disto

E há, neste contexto, um facto que arruína a sua versão pretensamente pedagógica: o rácio da dívida subiu de cerca de 99% do PIB, em 2010, para 132%, em 2014. O programa falhou pelo seu próprio critério, porque o denominador se afundou. Ao invés, quando o Estado faz o que lhe compete em tempos de crise, injetando rendimento na economia, os efeitos multiplicadores podem garantir um crescimento que não implica mais impostos futuros ou mais dívida em percentagem do PIB. 

Já agora, e para não diabolizar a dívida pública, faça-se contabilidade: o défice público é, ao cêntimo, o excedente financeiro do sector não-público. A dívida pública é riqueza financeira líquida privada, não sendo indiferente se a detêm nacionais e estrangeiros ou se está denominada numa moeda controlada pelo Estado: veja-se o Japão. Não pode invocar a contabilidade quando lhe convém e ignorá-la quando ela lhe diz que o ativo de alguém é sempre o passivo de outrem. 

E depois há a ironia final: o que a austeridade destruiu foi exatamente aquilo de que sente falta. De facto, o investimento total caiu quase 30%, entre 2010 e 2103, e a taxa de investimento portuguesa demorou muitos anos a recuperar, ficando muito abaixo da média da UE, colocando-nos na sua cauda. Descapitalizou-se o país em capital fixo, trabalho morto, e quebrou-se o trabalho vivo. Agora pergunta-se por que razão a produtividade não converge. 

Isto leva-nos para a teoria do valor: “Porque é que as mesmas mãos produzem cinco vezes mais na Alemanha?”. Porque não são “as mesmas mãos”: julga que ao falar da importância do investimento e da acumulação de capital, está a valorizar o que os capitalistas supostamente aportam ao processo produtivo, que se “mistura” com trabalho numa qualquer função de produção. Marx foi dos autores que mais atento esteve às reais e instáveis dinâmicas da acumulação de capital, como reconheceu o insuspeito Schumpeter, difundido de resto a palavra capitalismo, descobrindo a especificidade única da mercadoria força de trabalho: gera valor novo na produção superior aos seus custos, sendo que as mercadorias produzidas têm de dar “um salto mortal” na esfera da circulação, realizando esse valor. Essa força de trabalho, esse trabalho socialmente necessário, não opera num vácuo: a força produtiva do trabalho depende da escala, da cooperação, da ciência incorporada nos meios de produção, dos processos de trabalho anteriores. Na Alemanha, dado a o perfil de especialização, a tal divisão internacional do trabalho construída a partir de relações de poder, a força de trabalho cria ali mais valor. Como Smith disse, tudo depende dos “poderes produtivos do trabalho”. 

Concluamos com os ciclos económico-políticos da democracia: o “ciclo da democracia (1974-1983)”, para usar o importante livro de José Reis, foi um período de criação de emprego sem precedentes históricos, no setor público e privado, com o investimento e os serviços públicos a servirem de vetores de modernização e ancoragem democráticas, dadas as alavancas de que se passou a dispor, com o emprego a evoluir “até ao patamar dos 4,3 milhões, sabendo-se que era 3,5 milhões em 1973”. Sim, o crescimento foi aí mais baixo do que no período cavaquista, mas as circunstâncias internacionais desfavoráveis, que coincidiram com a revolução, são conhecidas. E o crescimento não é tudo: pense-se só que existiam 57 mil professores, do primeiro ciclo ao secundário, em 1973/1974, e que, em 1976/1977, já eram cerca de 81 mil. O desenvolvimento humano intensificou-se decisivamente: vidas mais longas, mais saudáveis e mais instruídas em liberdade que se queria a sério. 

Na década do cavaquismo, de facto, com circunstâncias internacionais particularmente favoráveis, houve um crescimento económico médio anual de 5,6 % ao longo de cinco anos (1986-1990), seguidos de cinco anos muito diferentes, quando as circunstâncias mudaram: 1,18% ao ano, entre 1991 e 1995. Entretanto, os défices orçamentais da década cavaquista registaram uma saudável média anual de mais de 4% do PIB. 

Como defendi no livro O neoliberalismo não é um slogan, tratou-se de um neoliberalismo incrustado: as “reformas da década”, neoliberais, a maioria das quais institucionalizadas a partir da revisão constitucional de 1989, foram almofadadas e até certo ponto legitimadas por modernização infraestrutural, com investimento público elevado, servido também por fundos europeus particularmente elevados. Só que estas reformas, aceites pelo guterrismo e culminando na adesão ao euro, lançaram as sementes da estagnação posterior. 

De facto, o país perdeu a sua moeda e logo a política cambial e monetária, sendo que esta última deixou de estar articulada com a política orçamental; perdeu a autonomia orçamental por via do Pacto de Estabilidade e da restante tralha legal euro-austeritária; alienou o essencial do sector empresarial do Estado — EDP, GALP, REN, Brisa, ANA, CTT, o controlo maioritário da banca... – outros tantos instrumentos, numa economia mista, para pilotar o processo de transformação e para subordinar o poder económico ao poder político, excluindo-o de setores rentistas (Santa Clara insiste em dividir esses ativos pelos portugueses, como se tratasse de estes serem seus acionistas); e o país desinvestiu: o investimento público caiu de cerca de 4% a 5% do PIB, no final dos anos 90, para valores em torno de 1,8% a 2% em meados da década de 2010, dos mais baixos da União Europeia. O investimento público tem efeitos multiplicadores... 

Reconhecendo que a experiência “já se fez”, concluamos: um Estado sem grandes instrumentos macroeconómicos, praticamente sem ativos empresariais e com escasso investimento. O resultado foi de facto 9% de crescimento total na primeira década do milénio e 8% na segunda, com uma crise financeira sem precedentes desde 1929, fruto da liberalização financeira, pelo meio, bem como uma pandemia no fim. 

E haja ética da responsabilidade por parte de quem detém a hegemonia no campo das ideias desde meados da década de 1980 até à atualidade, sem falar nas cumplicidades e entrosamento de tantos liberais com o fascismo...

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O país não é uma boutique


Pedro Santa Clara mandou o Claude responder ao meu texto num ápice. Como não uso IA para escrever, respondo um dia depois. Curiosamente, não teve tempo para mandar incluir a indecorosa entrevista de Miguel Guedes de Sousa em defesa do “país-boutique”, que motivou o meu texto, começando antes por contar uma historieta sobre a família Amorim que não incluiu fortes suspeitas de fraudes a fundos europeus (a justiça de classe, lá está...) ou os benefícios retirados da ruinosa privatização de uma petrolífera. Esta deve acabar em mãos estrangeiras, provando-se que na periferia setores estratégicos em mãos nacionais só com propriedade pública, ao contrário do que disseram tantos desde que Cavaco iniciou um dos mais intensos ciclos privatizadores. Hoje, o Estado português é dos que detém menos ativos empresariais em percentagem do PIB na UE e dos mais dependentes. A ideologia dita liberal também serve para ofuscar estas inconveniências, apresentado-se como se nunca tivesse sido tentada, uma fraude. 

É uma constante: os que mais falam de “mérito” e mais se queixam de imaginários preconceitos em relação aos ricos são os que ganharam a lotaria familiar, ficando muito incomodados quando o tópico das verdadeiras redes sociais vem à baila, sendo que os estudos sobre desigualdades, sempre atentos à história, dizem que este é o tempo das desigualdades pornográficas e logo o tempo por excelência do capitalismo de herdeiros. 

É claro que, entretanto, Santa Clara julga que tem um qualquer segredo sobre a riqueza das nações, ele que, defensor da evitável troika e da austeridade associada, ainda recentemente acusou sadicamente a própria troika de ter pecado por defeito; se as pessoas tivessem ficado sem salários uns três ou quatro meses tinham aprendido a lição e dado mais ao punho, etc. O resto é a receita refutada uma e outra vez: baixar os impostos aos mais ricos, privatizar o que falta e reduzir proteções ambientais, laborais, etc. 

Não lhe chegou, portanto, a política da troika: a taxa de desemprego no dobro do máximo histórico anterior, as privatizações ruinosas, o colapso do investimento público e privado, a maior vaga de emigração desde os anos 1960, o legado de um país excessivamente especializado no turismo, se é que podemos ainda apodar isto de país, no sentido da soberania básica, na ausência de tantos e tão relevantes instrumentos de política furtados e perdidos na integração euro-liberal. O turismo é um setor estruturalmente pouco produtivo, sendo que piores só os associados e improdutivos rentismo fundiário e especulação imobiliária. 

Este liberalismo só serve para gerar estagnação e transferência de rendimentos de baixo para cima e de dentro para fora e de custos sociais em sentido oposto. E ainda diz que faz contas, dividindo a fortuna de Amorim pelo conjunto da população, uma sofisticação que vem da mesma máquina de produzir textos que afiança que o Estado “gasta” PIB. 

Na realidade, o Estado contribui para o PIB, é um facto contabilístico, por exemplo através da provisão de serviços como a saúde ou educação, sendo o pagamento destes serviços socializado através de impostos. É como dizer que as empresas privadas gastam X% do PIB. E uma parte substancial do “gasto” é constituída por simples transferências, umas vezes regressivas e outras progressivas, de rendimentos entre grupos sociais. No seu melhor, opera aqui em modo de seguro social, um serviço mais transparente e eficiente do que a alternativa privada que querem impor para enriquecer agentes financeiros, os que se revelaram incompetentes para gerir os seus fundos de pensões, transferindo esse encargo para a segurança social. 

Enfim, a falta de rigor alastra à confusão entre Estado e Governo. Eu falei de Governo (o Estado é sempre mais complexo, dado que é uma cristalização de lutas sociais), deste Governo que está objetiva e subjetivamente ao serviço dos ricos, ainda que sofra derrotas, como felizmente se viu com o pacote laboral, medida que pretendia aprofundar uma linha de contrarreformas laborais geradoras de um padrão conhecido: no último quarto de século dominado por iniciativas liberais até dizer chega, graças também à blindagem de outras políticas estruturais imposta pelo euro, os salários reais cresceram abaixo da produtividade. 

Termino com Adam Smith: Santa Clara fala da omissão da condenação de Smith em relação ao ressentimento face aos ricos, sendo que a crítica ao apoucamento dos pobres e à adulação dos ricos é clara. Smith é sempre mais complicado do que os resumos da IA. Segundo Smith, o ressentimento em geral, mesmo podendo ser uma paixão antissocial, tem um lugar na experiência moral, ligado a avaliações de justiça e de injustiça. Smith fala do ressentimento que os pobres podem ter em relação aos ricos, mas em A Riqueza das Nações, por exemplo, dilui esse sentimento numa realista análise de classe do Estado do seu tempo (este serve basicamente para proteger os ricos em relação aos pobres, dadas as desigualdades existentes). Sim, há classes sociais em Smith e o Estado nunca é neutro. 

Santa Clara, por seu lado, é reveladoramente fã de Ayn Rand, uma autora medíocre de romances de cordel para adolescentes norte-americanos em busca de justificações para o mais puro egoísmo, num mundo de maus e bons. Pelo contrário, Smith é um pensador das motivações complexas, da realidade da sociedade e dos seus efeitos mais ou menos arbitrários no desenvolvimento desigual de potencialidades humanas igual e universalmente repartidas até uma certa idade, considera. 

Smith alinha com os mais pobres as mais das vezes, particularmente quando sublinha os efeitos embrutecedores da divisão do trabalho, o desequilíbrio estrutural entre quem compra e quem vende a força de trabalho, sendo que é o trabalho que gera o valor para um escocês que abriu caminho a um real progresso na economia sempre política e moral. 

Sem Smith não teria havido Ricardo e sem estes Marx não tinha escrito a sua crítica da economia política. Santa Clara diz que um “operário da Corticeira Amorim é produtivo porque trabalha com máquinas, processos e mercados que alguém teve de construir e arriscar”, achando assim que refuta a teoria do valor centrada no trabalho, quando obviamente estamos a falar de instrumentos de produção que resultam de anteriores processos de trabalho, sendo agora trabalho morto. O que cria tudo o que tem valor novo é mesmo o trabalho, sendo que, como acima implicitamente indiquei, discordo de algumas interpretações que, nesta senda, consideram o setor público improdutivo.

Agora é que concluo mesmo: Smith é um pensador atento à história, que reconhece as profundas contradições da “sociedade comercial” do seu tempo, da qual é sem dúvida um defensor, um sofisticado ideólogo, reconhecendo-lhe também falhas internas, eventualmente remediáveis, num espírito muito diferente, portanto, dos liberais até dizer chega destes novos anos vinte.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Quanto custam as ondas de calor?

O verão do ano passado ficou nos registos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera como o mais quente desde 1931. Portugal registou três ondas de calor com temperaturas pelo menos 5 °C acima da média para a época, uma onda que durou 20 dias consecutivos entre o final de julho e meados de agosto e um recorde absoluto de 46,6°C em Mora, no distrito de Évora.

O cenário mantém-se este ano: o país atravessou cinco ondas de calor entre janeiro e junho, num total de 59 dias, e a última semana voltou a ser marcada por temperaturas em torno dos 40°C. Na Europa, a atual onda de calor é a pior de que há registo. Foi batido o recorde de temperatura na Alemanha, Polónia, Eslováquia, Chéquia e Hungria e o calor anormalmente elevado também atingiu França, Bélgica e Países Baixos, onde a temperatura está associada a um excesso de mortalidade significativo.

Para lá dos impactos óbvios que as ondas de calor mais frequentes e intensas têm no dia-a-dia da maioria das pessoas, desde as casas com fraco isolamento térmico aos locais de trabalho mais expostos à temperatura ou às deslocações em transportes sem climatização, é importante olhar para as consequências económicas do aquecimento global e perceber por que razão a maioria dos economistas as tem subestimado.

O que entra na fatura das ondas de calor?

O impacto mais direto do calor extremo prende-se com o trabalho. Os períodos de temperaturas anormalmente elevadas afetam a capacidade de trabalhar nos setores mais expostos, como a agricultura, a construção e algumas atividades industriais. De acordo com um relatório da Organização Internacional do Trabalho, em 2030, estima-se que mais de 2% das horas trabalhadas sejam perdidas devido ao calor extremo, com impacto negativo na produtividade, quer porque as condições tornam o trabalho impossível, quer porque obrigam a um ritmo mais lento.

Este custo não se distribui de forma igual e atinge sobretudo os trabalhadores da agricultura e da construção (com elevada exposição ao calor e condições de trabalho mais precárias), ao passo que a quebra de produtividade em escritórios climatizados é comparativamente menor. A mesma onda de calor tem, assim, um preço muito diferente consoante o lugar que se ocupa no mundo do trabalho.

A crescente procura por ar condicionado e sistemas de arrefecimento leva-nos ao segundo impacto: o dos preços da eletricidade. Além de aumentar a procura de energia, o aumento das temperaturas também reduz a oferta, já que várias centrais de produção são forçadas a reduzir a atividade por não conseguirem garantir a refrigeração. Maior procura e constrangimentos do lado da oferta levam a aumentos de preços da eletricidade, como já se tem verificado em vários países europeus.

Para a economia como um todo, a partir de certo limiar de temperatura, os prejuízos aumentam de forma não linear. Por um lado, o calor intenso reduz a produtividade dos trabalhadores e obriga a abrandar ou interromper a atividade em alguns setores. Por outro, a maior necessidade de arrefecimento faz subir o consumo de energia, encarecendo os custos das empresas. Resultado: projeta-se que a crescente intensidade das ondas de calor provoque perdas de centenas de milhares de milhões de euros nas principais economias europeias.

Além disso, o impacto nos preços não se resume à energia. Um estudo publicado por economistas do Banco Central Europeu concluiu que a onda de calor que atingiu a Europa em 2022 levou a um aumento dos preços dos bens alimentares entre 0,43 e 0,93 pontos percentuais. Na verdade, há cada vez mais sinais de que as alterações climáticas e os eventos meteorológicos extremos - nos quais se incluem as ondas de calor - têm impacto significativo nos preços dos alimentos.

 
Fonte: BCE

Nos últimos anos, este tipo de fenómenos esteve associado ao aumento dos preços de diversos produtos. A seca no sul da Europa fez disparar o preço do azeite; as colheitas afetadas pelo calor no Brasil e na África Ocidental fizeram aumentar o custo do café e do cacau. São produtos cujo preço passou a incorporar, de forma cada vez mais visível, a instabilidade do clima nas regiões que os produzem. Como o peso dos bens alimentares no orçamento das famílias é tanto maior quanto menor é o rendimento, este é um dos canais pelos quais o custo do aquecimento recai desproporcionalmente sobre quem ganha menos.

Nada de novo debaixo do sol?

As ondas de calor são a face mais visível de um fenómeno mais vasto. O aquecimento global traduz-se também em secas mais prolongadas, chuvas mais intensas e cheias mais frequentes que afetam a economia. Apesar dos custos até aqui descritos serem facilmente observáveis, a verdade é que têm sido frequentemente negligenciados na análise económica. Durante décadas, a avaliação económica das alterações climáticas foi dominada por modelos que procuram quantificar o custo do aquecimento global em termos de perdas de PIB. O mais influente foi desenvolvido pelo economista William Nordhaus, que recebeu o equivalente ao Nobel da Economia em 2018. Nordhaus foi o primeiro economista a tentar quantificar o custo do aquecimento global, tendo construído o modelo DICE (Dynamic Integrated Climate-Economy model), que se tornou a referência dos manuais que ensinam economia do clima.

 
Esquema ilustrativo da lógica do modelo DICE. Fonte: Nordhaus (2018)

Neste modelo, o efeito de um clima mais quente é medido como uma perda percentual de PIB e segue-se a lógica das análises custo-benefício, com o objetivo de encontrar o nível ótimo de redução de emissões: aquele em que o custo de reduzir emissões, medido como o crescimento de que se abdica para conter as emissões de carbono, iguala o benefício de evitar danos futuros. Nordhaus concluiu que o ponto de adaptação ótima seria um aquecimento de cerca de 3°C. De acordo com o modelo, os danos associados a este aumento da temperatura média do planeta seriam geríveis e uma redução gradual das emissões seria o suficiente para os conter.

Neste contexto, as emissões são tratadas como uma externalidade negativa, um custo que quem polui impõe a terceiros sem o pagar, e a solução que daí decorre é conhecida: um preço para o carbono que corrija a falha de mercado. Foi este raciocínio que valeu a Nordhaus o reconhecimento da disciplina e um lugar central na forma como o IPCC e os governos passaram a pensar o problema. No entanto, as suas conclusões assentam em pressupostos que não resistem a um escrutínio sério.

Primeiro, Nordhaus excluiu 87% da economia americana de qualquer impacto climático, com o argumento de que essas atividades decorrem em "ambientes cuidadosamente controlados". Por outras palavras, tudo o que acontece dentro de portas estaria a salvo. A lista do que ficou de fora inclui a indústria transformadora, a construção, os transportes, o comércio, a banca, os seguros e os serviços públicos. A ideia de que a indústria e os serviços estão a salvo por decorrerem em ambientes climatizados ignora que dependem por inteiro de cadeias de abastecimento, de energia e de matérias-primas que não decorrem dentro de portas.

Não faltam exemplos recentes que mostram como este pressuposto é irrealista. Em 2023, a Autoeuropa foi obrigada a parar a produção durante semanas apesar da fábrica de Palmela se encontrar intacta, visto que um fornecedor esloveno essencial ao fabrico dos motores tinha sido devastado pelas cheias que atingiram a Eslovénia nesse verão. Já este ano, a depressão Kristin que atingiu o país afetou a maioria das empresas na região centro do país. Além das indústrias de moldes, vidro, cerâmica e plásticos, duas fábricas de peças para automóveis ficaram completamente destruídas, ao ponto de ameaçarem parar uma linha da Porsche na Alemanha. Ou seja, não só os eventos meteorológicos extremos afetam a maioria das atividades económicas, quer estas ocorram dentro ou fora de portas, como podem afetar indústrias em locais que não foram atingidos por estes, devido às ramificações das cadeias de produção.

Depois, para estimar o efeito do aquecimento sobre o PIB, Nordhaus e os economistas que o seguiram observaram como varia hoje o rendimento entre regiões com temperaturas diferentes e assumiram que essa relação no espaço se aplica igualmente ao longo do tempo. Só que a causa da variação no espaço nada tem a ver com a causa da variação no tempo. As diferenças atuais de riqueza entre regiões com temperaturas mais altas e mais baixas dizem-nos muito pouco sobre o que acontece quando se retém na atmosfera energia suficiente para aquecer o planeta inteiro.

Além disso, Nordhaus optou por descrever a relação entre temperatura e os danos provocados através de uma função que não admite descontinuidades ou pontos onde a relação se quebra. No entanto, a investigação sobre alterações climáticas aponta para a existência de pontos de inflexão: limiares a partir dos quais o sistema muda de estado de forma abrupta e por vezes irreversível, como o degelo do Ártico ou o colapso da floresta da Amazónia. Os modelos subestimam os riscos porque assumem que os ecossistemas são substituíveis e porque não captam os efeitos irreversíveis associados aos pontos de inflexão. Se a floresta da Amazónia ou os recifes de coral desaparecerem, não existe nenhuma tecnologia que permita substituir os serviços que estes ecossistemas prestam (desde a regulação hídrica à proteção costeira). Modelos que assumem o contrário produzem projeções de danos que dificilmente se podem considerar realistas.

Voltando às previsões do modelo: Nordhaus concluiu que o ponto de adaptação ótima seria um aquecimento de cerca de 3°C, que, segundo o modelo, produziria danos geríveis com uma redução gradual das emissões. O problema é que, de acordo com o amplo consenso científico existente, este nível de aquecimento do planeta estaria associado a ondas de calor sem precedentes nos trópicos, à inundação de cidades costeiras e a riscos sérios para a produção de alimentos.

Se o modelo subestima os danos, também subestima a dimensão da resposta necessária para os evitar. Ao tratar o aquecimento global como uma falha de mercado, a implicação que se retira é que basta definir um preço para as emissões de carbono e deixar que o mercado se ajuste. No entanto, apesar dos mercados de carbono terem sido adotados por boa parte dos países nas últimas décadas, o preço continua a ser, em geral, demasiado baixo para desincentivar as emissões e cumprir as metas do Acordo de Paris.

 
Fonte do gráfico: Bloomberg

A dependência dos combustíveis fósseis não se explica apenas pelos preços, mas sobretudo pela forma como estão organizados os sistemas de energia, de transporte, de produção industrial e de alimentação. Um sinal de preço pode produzir alterações marginais nesses sistemas, mas não é suficiente para promover as transformações necessárias. Confiar apenas no mecanismo do preço tende a produzir aquilo a que os economistas Daniela Gabor e Benjamin Braun chamam terapia de choque do carbono: deixar que a energia cara elimine as atividades que dela dependem, com o custo de destruir capacidade produtiva e emprego sem uma transição socialmente justa.

O que fazer numa economia sobreaquecida?

Durante quase quarenta anos, entre a década de 1980 e a pandemia da COVID-19 em 2020, as economias ocidentais viveram um período de inflação baixa e estável a que os economistas deram o nome de Grande Moderação. Essa estabilidade assentou num conjunto de condições estruturais que hoje parecem estar a reverter-se, entre as quais a dimensão ambiental: os fenómenos meteorológicos extremos eram suficientemente raros para não perturbarem de forma sistemática a produção agrícola e industrial e, com isso, os preços dos produtos.

No entanto, as alterações climáticas colocam em causa as condições estruturais que estiveram na base da Grande Moderação. Numa era em que ondas de calor, secas e cheias se tornam mais frequentes, a economia passa a enfrentar constrangimentos persistentes do lado da oferta e deixa de se poder contar com a disponibilidade permanente de recursos. O economista Jo Michell, que se tem debruçado sobre a macroeconomia no fim da “era da abundância”, defende que estas mudanças obrigam a repensar de raiz a política macroeconómica para aprender a lidar com maior instabilidade da oferta.

Gerir a procura através da política monetária dos bancos centrais, que descem ou sobem as taxas de juro consoante pretendem estimular ou arrefecer a economia, tem muito pouca utilidade neste cenário. A subida dos juros não repõe as colheitas perdidas ou as fábricas e infraestruturas destruídas por eventos meteorológicos extremos. Uma seca que destrói um terreno agrícola faz subir o preço dos alimentos independentemente do que acontece à taxa de juro.

Se os choques climáticos vieram para ficar, é necessário planear a economia para lidar com estes de forma socialmente justa. A curto prazo, há instrumentos disponíveis para limitar o impacto distributivo dos choques de preços climáticos: constituir reservas estratégicas de matérias-primas alimentares para evitar oscilações da oferta, além de regular preços e/ou margens em bens essenciais. A médio prazo, o caminho passa pela redução das vulnerabilidades estruturais através de investimento público em adaptação: reabilitação energética de edifícios, eletrificação dos transportes ou melhoria da eficiência na irrigação dos terrenos. Embora nenhuma medida isolada seja suficiente para resolver o problema do aquecimento global, a combinação destas ajuda a mitigar os seus efeitos e a distribuir os custos.

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domingo, 14 de junho de 2026

Amanhã, videoconferência Práxis sobre Democracia no Trabalho

«Em fevereiro, foi apresentado em Espanha o Relatório sobre Democracia no Trabalho, produzido por uma comissão internacional de doze peritos convidados pela ministra do Trabalho, Yolanda Díaz. O ponto de partida é o exame das formas de aplicar, na economia e nas empresas, o artigo 129.2 da Constituição espanhola que estabelece que "os poderes públicos promoverão eficazmente as diversas formas de participação na empresa e fomentarão, mediante uma legislação adequada, as sociedades cooperativas. Também estabelecerão os meios que facilitem o acesso dos trabalhadores à propriedade dos meios de produção".
O relatório faz o diagnóstico da realidade espanhola e das experiências europeias quanto à democracia no trabalho. Analisa os estudos existentes que confirmam o impacto positivo da participação dos trabalhadores na inovação, na produtividade, no emprego a na proteção ambiental».

Em mais uma videoconferência promovida pela Práxis, a oportunidade de comparar a nossa realidade laboral com a realidade espanhola, no âmbito da discussão aberta pelo relatório solicitado pela ministra Yolanda Díaz, com a participação de Bruno Estrada (economista e presidente presidente da PxDE - Plataforma por la Democracia Económica) e Isabel Gemma Fajardo-García (professora de Direito da Universidade de Valência e da Comissão de Peritos do Relatório sobre Democracia no Trabalho). A apresentação do tema estará a cargo de Ulisses Garrido (Práxis) e a moderação do debate a cargo de Luís Simões (jornalista e presidente do Sindicato de Jornalistas). A sessão é aberta a todos os interessados, mediante inscrição prévia aqui.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Vibecession: a crise do custo de vida é só uma sensação?

Em Janeiro de 2021, enquanto as medidas de confinamento voltavam a apertar, a The Economist anunciava o fim de uma era de pessimismo económico. Tal como na década de 1920, quando a gripe espanhola deu lugar à era do consumo de massas, a pandemia poderia desencadear um ciclo de inovação e melhoria dos níveis de vida, de acordo com a revista. Os avanços da inteligência artificial, o investimento privado em tecnologia e software e a rapidez com que o mundo adotou o teletrabalho e o comércio eletrónico eram vistos como sinais de que a crise podia funcionar como motor de progresso e fonte de otimismo generalizado: uma espécie de novos “loucos anos vinte”.

Ultrapassada metade da década, é justo dizer que o cenário é bastante diferente. O índice de sentimento dos consumidores dos EUA caiu a pique a partir de 2022 e atingiu o valor mais baixo de sempre desde que o inquérito começou a ser realizado, primeiro em Junho de 2022, no pico da inflação, e novamente em 2026, após o início da guerra no Médio Oriente. O mais surpreendente é que este pessimismo reverte uma tendência de décadas em que a confiança dos consumidores acompanhava de forma previsível os principais indicadores económicos, como o desemprego, a inflação ou o valor das ações nos mercados financeiros. Desde a pandemia, essa relação deixou de se verificar e a generalidade das pessoas passou a estar mais pessimista do que os indicadores convencionais sugeririam.

 

Em 2022, a economista Kyla Scanlon cunhou o termo vibecession, numa combinação dos termos “vibes” (sensações) e “recession” (recessão), para descrever este aparente paradoxo: uma situação em que os indicadores apontam para um bom desempenho da economia, mas a perceção das pessoas é a de uma crise. O conceito ganhou tração e entrou no debate público no contexto das eleições norte-americanas de 2024. No New York Times, o economista Paul Krugman, vencedor do Nobel da disciplina, garantia que “todas as boas notícias económicas validam [o governo de] Biden”. Na The Economist, chegou a ler-se que os eleitores estavam a demonstrar um “pessimismo irracional”.

Uma das explicações avançadas, tanto nos EUA como na Europa, foi um fenómeno a que os economistas dão o nome de “ilusão monetária”: a tendência que as pessoas têm para avaliar o rendimento em termos nominais (o salário que aparece no recibo de vencimento) em vez de reais (o que esse número consegue efetivamente comprar, tendo em conta a evolução dos preços). A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, tocou neste ponto numa entrevista ao Financial Times, argumentando que os dados indicavam uma recuperação do poder de compra, mas que muitas pessoas não a reconhecia. O pessimismo seria, por isso, resultado de uma perceção errada. No entanto, há motivos para pensar que o problema está nos impactos desiguais da inflação, que são negligenciados pelos indicadores normalmente utilizados.

O problema é a perceção ou a distribuição?

Nos primeiros anos após a pandemia, a recuperação da economia teve características particulares. Com a reabertura da maioria das atividades a acelerar a procura das empresas por trabalhadores, o desemprego diminuiu de forma acentuada e muitos setores começaram a falar em escassez de mão-de-obra. Isso deu origem ao que o economista Arindrajit Dube classificou como a “compressão inesperada”: a redução do desemprego reduziu o poder dos empregadores e forçou-os a pagar salários mais altos nos setores onde estes eram mais baixos à partida, reduzindo a diferença entre o fundo e o topo da distribuição.

A trajetória de recuperação salarial foi mais intensa entre os escalões de rendimento mais baixo, o que contribuiu para a ideia de que a maioria das pessoas deveria estar satisfeita com o desempenho da economia. Contudo, as pistas para compreender o descontentamento começam a surgir quando se parte para uma análise mais detalhada.

O economista Servaas Storm e o cientista político Thomas Ferguson publicaram um par de artigos (aqui e aqui) em que procuram explicar o desempenho da economia norte-americana até 2024, com base numa análise exaustiva dos dados disponíveis. As conclusões são diferentes: não só não se verificou uma recuperação do poder de compra para a maioria das pessoas após o choque inflacionista de 2022, como o crescimento salarial ficou aquém do que se tinha verificado no primeiro mandato de Trump (ainda que os ganhos de 2017-2020 não se devam necessariamente à política económica deste).

Por um lado, o salário mediano, que representa o que é ganho pelo trabalhador típico, praticamente estagnou desde 2021 e a maioria das pessoas perdeu poder de compra face ao período pré-inflação. Por outro lado, embora o salário por hora tenha registado um aumento considerável, o número de horas trabalhadas por semana diminuiu de forma persistente desde a pandemia. Resultado: entre 2021 e 2023, 9 em cada 10 pessoas perderam poder de compra apesar dos aumentos salariais.

A isto junta-se um problema de distribuição. O índice de preços convencional calcula-se com base num cabaz de consumo médio, mas os padrões de consumo variam muito consoante o rendimento. Os 20% mais pobres dos americanos gastam quase um terço do seu rendimento em alimentação, muito acima da média. Como a subida dos preços foi mais intensa precisamente nos bens essenciais - os que pesam mais no orçamento de quem ganha menos -, a inflação real sentida pelas famílias de rendimento mais baixo foi superior à inflação oficial, de acordo com uma análise dos dados do Instituto de Estatísticas do Trabalho dos EUA.

 

O próprio Dube regressou ao tema recentemente, reconhecendo que, se analisarmos o poder de compra dos diferentes escalões de rendimento com base na respetiva taxa de inflação, em vez de usar o indicador agregado, as conclusões alteram-se. Corrigindo para a inflação desigual por decil de rendimento, a compressão salarial entre 2019 e 2025 passa de 8,4 para 4,8 pontos percentuais. Por outras palavras, a redução da desigualdade foi bastante menor do que parecia.

E isso é apenas uma parte da história, porque há outras dimensões que escapam a esta análise. Um estudo de Evan Wasner, que analisa dados sobre compras de supermercado de cerca de 200.000 famílias nos EUA, apresenta taxas de inflação específicas para cada família (baseadas nos produtos que cada uma efetivamente compra). Conclusão: no pico da inflação pós-pandemia, menos de um quarto das famílias experienciou uma taxa de inflação próxima da oficial. A dispersão foi significativa e alargou-se precisamente nos momentos em que a inflação era mais elevada. Para os trabalhadores do decil mais baixo, quase metade viu o seu poder de compra alimentar cair entre 2019 e 2023, apesar de os dados agregados indicarem ganhos.

Finalmente, o indicador usado para medir a inflação subestima o custo de vida ao não incluir no seu cálculo as prestações do crédito à habitação ou ao consumo, o que faz com que deixe de fora uma parte importante da despesa mensal das pessoas. No caso dos EUA, até 1983, estes custos eram incluídos no cálculo, tendo sido removidos no contexto do choque de Volcker, o que mascarou o efeito que a subida agressiva dos juros tinha sobre a inflação que supostamente se destinava a combater. Um estudo publicado por Larry Summers (ex-secretário do Tesouro dos EUA) e co-autores demonstrou que, se a metodologia anterior ainda se aplicasse, a inflação teria atingido 18% no pico de 2022, em vez dos 9,1% oficialmente registados.

Para além dos dados sobre os rendimentos, os padrões de consumo confirmam a experiência desigual nos últimos anos. Desde 2023, o crescimento do consumo privado tem sido impulsionado sobretudo pelos mais ricos, de acordo com um estudo da Reserva Federal de Nova Iorque. Os autores identificam dois motivos principais: a inflação, que pesou desproporcionalmente sobre quem ganha menos, e a valorização dos ativos financeiros, que beneficiou quase exclusivamente o topo da distribuição.

A bolha da inteligência artificial ajuda a explicar este padrão: o investimento massivo e o aumento das cotações das multinacionais tecnológicas, que são responsáveis por quase toda a subida da bolsa norte-americana, beneficia essencialmente os 10% mais ricos do país, que detêm 87% das ações, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 1%. No outro lado do espetro, 43% das famílias no país não ganham o suficiente para conseguir suportar os custos com a habitação, alimentação, saúde e transportes, de acordo com uma análise do Brookings Institute.

O custo de vida é um problema novo?

Embora o período pós-pandémico tenha sido marcado pelo regresso da inflação a valores que já não eram observados há várias décadas, é preciso ter em conta que a crise do custo de vida tem raízes profundas e é o culminar de uma longa trajetória de estagnação dos rendimentos. Entre 1979 e 2019, a produtividade da economia norte-americana cresceu 73%, mas os salários medianos cresceram apenas 23%. No mesmo período, os rendimentos do 1% mais rico subiram 169%.

 
Fonte: Economic Policy Institute (aqui e aqui)

O mecanismo desta transformação foi a financeirização da economia. Desde a década de 1980, grande parte da atividade económica passou a girar em torno da valorização de ativos financeiros, que substituiu o investimento produtivo. A desregulação financeira e a expansão acelerada do crédito fizeram disparar o preço dos ativos (ações, obrigações, imóveis) e estabeleceram as bases para um sistema em que a extração de lucros se desligou da produção real. Acumular riqueza através da valorização de ativos passou a ser muito mais rentável do que acumulá-la através do trabalho.

Ao mesmo tempo, fatores como a queda das taxas de sindicalização, a erosão da negociação coletiva, a facilitação do recurso à contratação precária ou ao outsorcing e a globalização (com a possibilidade de deslocalização das empresas) funcionaram como instrumentos de supressão salarial. A maximização do retorno para os acionistas tornou-se o objetivo fundamental das empresas e os ganhos de produtividade foram canalizados para os dividendos e a recompra de ações, em detrimento dos salários.

Storm recupera o conceito de economia dual, formulado nos anos 50 para descrever países em desenvolvimento, e aplica-o aos EUA: de um lado, um setor dinâmico (tecnologia, finanças, serviços profissionais) com produtividade elevada e a crescer; do outro, um setor estagnante (restauração, limpeza, cuidados, retalho) com produtividade baixa que absorve os trabalhadores que saem do setor dinâmico à medida que este se automatiza. O diferencial salarial entre os dois setores passou de 35% em 1950 para quase 60% em 2015. À medida que o setor dinâmico automatiza, os trabalhadores acumulam-se no setor estagnante, onde o excesso de mão-de-obra deprime os salários e comprime ainda mais a produtividade.

Ainda assim, existe uma pressão para que os salários subam nos setores de menor produtividade, sob pena de ninguém aceitar trabalhar neles. Existe, por isso, uma tendência para que os serviços intensivos em trabalho e difíceis de automatizar se tornem mais caros, como se tem verificado em áreas como a saúde, a educação ou os cuidados. Uma consulta médica continua a exigir um médico; uma creche precisa de educadoras por cada grupo de crianças, uma universidade (ainda) não funciona sem professores. Durante grande parte do século XX, os países ocidentais lidaram com este problema socializando os seus custos, através do investimento nas creches, escolas e hospitais públicos ou da subsidiação do acesso à universidade. Nas últimas décadas, a privatização progressiva destes setores e o desinvestimento público traduziram-se numa transferência progressiva dos custos para as famílias, degradando as condições de acesso.

 

Além dos serviços de educação e saúde, o acesso à habitação também se deteriorou de forma significativa, devido ao processo de financeirização que a tornou um ativo particularmente apetecível para grandes investidores. Como estes serviços são precisamente os que mais pesam no orçamento das pessoas e aqueles em que houve maior desinvestimento do Estado nas últimas décadas, facilmente se percebe que a crise do custo de vida tem raízes mais profundas do que o choque inflacionista de 2022.

Portugal: crescimento para quem?

O debate sobre o os indicadores convencionais e a experiência concreta das pessoas também chegou a Portugal. No verão de 2024, uma reportagem do Expresso aludia à vibecession de características portuguesas, sublinhando o “desfasamento entre os indicadores e a perceção pública” num contexto em que “o consumo dos portugueses está a recuperar para níveis pré-pandemia [e] os salários estão novamente a ganhar a batalha à inflação”.

 
Fonte: Expresso

O caso português é especialmente merecedor de análise, uma vez que o país tem sido repetidamente apontado como um caso de sucesso económico. Há pouco mais de dois anos, Paul Krugman classificou a experiência portuguesa como “uma espécie de milagre económico”. Dois anos antes, Adam Tooze, historiador económico da Universidade de Columbia, já tinha afirmado que “Portugal era o modelo para manobrar de forma muito inteligente dentro do sistema da UE” e que “ninguém o fez como os portugueses”. No final do ano passado, a The Economist distinguiu Portugal como a “economia do ano”, o que não impediu os portugueses de continuar a referir o custo de vida como a principal preocupação nos inquéritos mais recentes.

No caso português, o desempenho da economia e a crise do custo de vida são duas faces da mesma moeda: o modelo de crescimento das últimas décadas. Desde a adesão ao euro, que desencadeou uma apreciação real da taxa de câmbio e prejudicou a competitividade da indústria, o peso da indústria foi sendo progressivamente reduzido enquanto a economia se especializou em setores de baixo valor acrescentado: primeiro a construção e o imobiliário, depois o turismo e os serviços associados. O crescimento deste tipo de setores intensivos em trabalho é determinante para os elevados níveis de emprego que o país regista atualmente, mas o emprego gerado é maioritariamente precário, sazonal e de baixos salários. Portugal também exibe características de uma economia dual, com um peso crescente do emprego no “setor estagnante” composto pelo turismo, restauração e serviços de baixa produtividade.

Além disso, a expansão do turismo levou a uma recomposição da oferta de casas para satisfazer a procura externa, através do crescimento dos hotéis e do alojamento local, que contribuíram para alargar o fosso entre os preços das casas e o rendimento dos residentes. Essa é uma conclusão a que a própria Comissão Europeia chegou no relatório Housing in the European Union, publicado recentemente, onde Portugal é destacado como “o país da UE onde o turismo teve maior impacto sobre os preços das casas”.

Tendo em conta que o indicador usado para medir a inflação não inclui as despesas com prestações, que duplicaram entre 2021 e 2024 com a subida das taxas de juro, percebe-se que dê uma ideia muito incompleta da evolução do custo de vida no país. Um estudo de economistas do FMI estimou que Portugal foi o país onde as famílias tiveram o maior aumento anual da despesa com juros após 2022, correspondendo a cerca de 1,2% do PIB. Não é possível avaliar o poder de compra de quem tem crédito à habitação sem ter em conta este custo. Como, além disso, o indicador da inflação atribui um peso muito reduzido às rendas (dada a baixa percentagem de arrendatários no país), também acaba por subestimar o custo de vida de quem arrenda a casa.

Mesmo usando este indicador, se olharmos para a inflação por escalão de rendimento, o que vemos é que o surto inflacionista de 2022 não afetou todos da mesma forma. No pico do surto, a inflação sentida pelos 20% com rendimentos mais baixos foi sobretudo determinada pela subida dos preços dos alimentos e da energia, ou seja, bens essenciais dos quais não é possível abdicar. Para os 20% com rendimentos mais elevados, a inflação teve um contributo maior de categorias como o alojamento e a restauração, que são despesas mais facilmente substituíveis ou adiáveis. O mesmo choque inflacionista produziu experiências muito distintas.

Para lá das vibes

Há uma tendência na análise económica convencional para olhar mais para a média do que para a distribuição, colocando o foco em questões como o crescimento do PIB e a evolução da inflação sem prestar atenção suficiente à forma como diferentes tipos de crescimento e diferentes preços afetam diferentes grupos. Com a desigualdade a crescer há décadas, as médias são um indicador cada vez mais incompleto. Uma economia em que os ganhos se concentram no topo e os choques de preços afetam sobretudo quem ganha menos pode crescer enquanto o custo de vida se deteriora para a maioria.

Utilizar a taxa de inflação para avaliar o poder de compra de todos os escalões de rendimento implica uma escolha sobre o que se mede e o que é excluído. Essa escolha tem consequências na determinação dos aumentos de pensões e apoios sociais, nas negociações de salários entre sindicatos e empresas e nas conclusões que se retiram sobre o grau de sucesso das políticas públicas adotadas para lidar com a inflação.

Em vez de tratar a preocupação das pessoas com o custo de vida como irracionalidade ou ilusão monetária, procurando responsabilizá-las por não “lerem corretamente” indicadores que não representam a sua experiência efetiva, o debate económico tem de ser feito com instrumentos que reflitam a heterogeneidade existente: índices de preços desagregados por nível de rendimento e relação com a habitação e maior foco na forma como os ganhos (e os custos) do crescimento são distribuídos.

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quinta-feira, 7 de maio de 2026

A ideologia dominante faz gala...


No Twitter, um anónimo designou-a por «espetáculo insano protagonizado por sociopatas ricos e alienados». Nela houve espaço para a atriz-milionária Sarah Paulson enfrentar os poderosos. Fê-lo num vestido de tule cinza da coleção Outono/Inverno 2026, reveladoramente chamada The One Percent, da Matières Fécales, previamente apresentada nas passerelles de Paris, complementando o vestido com uma nota de um dólar transformada em mascarilha, metáfora da cegueira do dinheiro. 

Este foi um dos momentos marcantes da Met Gala, que anualmente se realiza no icónico Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque e cuja entrada custa cem mil dólares por pessoa (trezentos e cinquenta mil dólares por mesa). Trata-se da expressão máxima do consumo conspícuo na era das desigualdades pornográficas, o que já apodei de porno-riquismo (Le Monde Diplomatique – edição portuguesa, março de 2018). 

Já não é a primeira vez que alguém se coloca naquela gala em preparos pretensamente críticos, mas tão funcionais que se não existissem tinham de ser inventados pelo sistema. A cada vez mais integrada Alexandria Ocasio-Cortez já ali se pavoneou, em plena pandemia, de vestido branco, com uma garrida inscrição a vermelho: «tax the rich» (taxar os ricos). 

O sistema não absorve todas as críticas, ao contrário do que pareceu afiançar uma certa «teoria crítica», de resto sob suspeita, cada dia mais fundada, de não ter passado de uma racionalização bem financiada da impotência coletiva. Adora, isso sim, todos os seus simulacros performativos, tão fáceis de mercadorizar. O poder do capital requer exibição para ser material; a componente mediática de ofensiva ideológica destina-se a alimentar aspirações e sonhos impossíveis, a criar desejos inúteis e fúteis, já o sabemos há muito. Uma certa dissensão performativa ajuda ao espetáculo, dando-lhe um certo drama, uma ilusão de acomodação plural. 

Patrocinada pelo bilionário Jeff Bezos e pela esposa, que terão comprado por dez milhões de dólares o direito de serem seus presidentes honorários este ano, a gala é todo um documento cultural despudorado da civilização-barbárie capitalista, sinal poderoso da validade da fórmula de Warren Buffet: «tem havido uma luta de classes e a minha classe venceu». 

Esta declaração realista foi feita precisamente a propósito da substancial redução da progressividade fiscal nos EUA. De facto, no período de maior crescimento da produtividade da história do país, a seguir à Segunda Guerra Mundial, a taxa marginal do imposto, que incidia sobre o último escalão do rendimento, chegou a um máximo de 91%, em 1960, até descer, meio século mais tarde, para os 35%, como bem assinalou o economista social-democrata Robert Reich.

O resto do artigo pode ser lido no AbrilAbril

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Debater, debater, debater sempre


Hoje de manhã, entre as 10h e as 12h, tive a oportunidade de participar num debate sobre o pacote laboral na Antena 1, expondo meia dúzia de ideias. 

Em primeiro lugar, denunciei a manipulação ideológica liberal, a que consiste em dizer que é flexível, termo com conotação positiva, um arranjo que confere mais direitos aos patrões e logo menos aos trabalhadores e que é rígido um arranjo que confere mais direitos aos trabalhadores e logo mais deveres aos patrões. Ninguém é neutro, mas podemos e devemos ser objetivos. Tudo começa pelo enquadramento. 

Em segundo lugar, a lógica global do pacote laboral é socialmente regressiva; se for aprovado, terá impactos negativos na economia portuguesa: economia de ainda menor pressão salarial, mercado interno mais comprimido, menores incentivos ao investimento modernizador. 

Em terceiro lugar, ao enfraquecer os sindicatos, a negociação coletiva, fomentando a precariedade, a imposição patronal, por exemplo com o banco de horas, o pacote laboral acentua desequilíbrios estruturais que vêm do passado, das contrarreformas de 2003 e da troika, responsáveis por este padrão: no último quatro de século a produtividade do trabalho cresceu 21% e os salários reais 15%, ou seja, ocorreu uma transferência do trabalho para o capital. 

Em quarto lugar, os patrões não são todos iguais: esta proposta é recortada para os mais retrógrados, concentrados em setores estruturalmente menos produtivos, como o turismo, desejando uma força de trabalho barata e descartável. 

Em quinto lugar, o pacote laboral entroniza estes setores e nenhum empresário de setores avançados o pediu. 

Em sexto lugar, porque factos e valores estão sempre entrelaçados, apelei à participação de todos os trabalhadores na jornada do Primeiro de Maio. Esta jornada será a continuação da luta persistente dos trabalhadores contra o pacote laboral. Tem raízes históricas e sementes de presente e futuro. Lá estarei, lá estaremos.

Adenda. Quem quiser conhecer a lista das malfeitorias deste pacote, pode ler com proveito este documento da CGTP, por exemplo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

É um Avillez, ouça


O que dizer quando alguém decide colocar no mesmo saco uma economista política competente e corajosa chamada Mariana Mortágua e um cobarde fascista chamado Ventura? Direis que se trata de um idiota liberal, no sentido etimológico dos termos, e eu não vos vou contrariar. 

Martim Avillez tem o apelido certo, um dos que abre portas em Lisboa, incluindo no Público, jornal que deixei de pagar para ler em papel há poucos anos e que leio com cada vez menor regularidade, sentindo que perco cada vez menos; como se já não houvesse suficientes da laia dele por ali. 

Enfim, quando eu colaborava com o jornal i, ali para os idos de 2009, contaram-me que ele e os seus dois subdiretores chegaram a ganhar juntos mais do que toda a restante redação. Seja como for, é sempre por “mérito”, pela produtividade marginal, que são determinados os rendimentos, não vos esqueceis, caso não frequenteis madraças de uma certa economia e gestão, as que estão ao serviço do 1%.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Portugal é a “economia do ano” para quem?

Portugal é a “economia do ano”, segundo a The Economist. O anúncio feito pela revista britânica na semana passada deu origem a várias reações na imprensa nacional. Apesar do tom leve adotado pela revista na divulgação deste ranking, a classificação foi recebida com entusiasmo pelo governo. Na rede social X/Twitter, o primeiro-ministro Luís Montenegro destacou o “reconhecimento internacional excepcional de Portugal” e procurou associá-lo ao trabalho do governo, sublinhando a importância de “seguir o rumo que nos trouxe até aqui nos últimos meses”.

No entanto, nem todos parecem partilhar o otimismo. Os dados do Eurobarómetro realizado a meio do ano mostram que o custo de vida continuava a ser referido como a segunda principal preocupação das pessoas. Parece haver um desfasamento entre os indicadores elogiados internacionalmente e a experiência de muitos dos que vivem e trabalham no país. Como acontece frequentemente quando se discutem rankings internacionais, é preciso perceber o que está efetivamente a ser medido e que conclusões é que podemos retirar a partir dos indicadores usados.

O que (não) mede o ranking?

O ranking da The Economist baseia-se em cinco indicadores: a inflação subjacente (i.e. inflação excluindo preços da energia e dos alimentos), a amplitude da inflação (a percentagem de bens e serviços cujos preços subiram mais do que 2% ao longo do ano), o PIB, o emprego e o desempenho do mercado bolsista. A revista recolhe estes dados para cada país e combina-os num índice sintético que permite ordenar as economias de acordo com o seu desempenho agregado ao longo do ano.

A escolha das variáveis incluídas e o peso que se atribui a cada uma destas são discutíveis e envolvem uma grande dose de subjetividade. Além disso, o método utilizado para chegar ao resultado final não é especificado no artigo, o que torna difícil interpretar as conclusões. Isso torna-se claro quando olhamos para os dados de 2025. No caso do PIB, Portugal registou um crescimento de 2,4% no terceiro trimestre do ano, o que, apesar de significativo, é inferior ao de Espanha (2,8%), da Suécia (2,5%), da Chéquia (2,8%), da Polónia (3,8%) ou da Irlanda (mesmo usando uma métrica mais adequada para evitar as distorções do PIB neste país). Em relação ao desempenho das ações, o crescimento de 20,9% registado na economia portuguesa fica bastante aquém de muitos dos países apresentados, como se vê no gráfico.

 

O caso da inflação, em que Portugal se destaca com um dos menores desvios face aos 2% definidos como objetivo pelo Banco Central Europeu, merece alguma atenção. O indicador utilizado (inflação subjacente) exclui do cálculo os preços dos alimentos e da energia. O que isto significa é que pode ser usado para perceber como evoluem os preços de setores menos voláteis, mas tem pouca utilidade como indicador do custo de vida. Embora a taxa de inflação dos alimentos em Portugal esteja em linha com a média europeia, há um fator que nos distingue: a fatia da despesa total que os portugueses dedicam à alimentação está entre as mais elevadas da União Europeia, apenas superada por países do leste europeu, o que sugere que Portugal é dos países em que a subida dos preços dos alimentos tem um impacto maior na carteira das pessoas.

Isto junta-se a um outro problema, discutido nesta página ao longo dos últimos meses (aqui ou aqui), que se prende com as limitações do indicador da inflação no que diz respeito aos custos da habitação. O indicador da inflação, que é usado para medir o poder de compra das pessoas, subestima de forma significativa o impacto dos preços das casas, uma vez que não inclui a despesa das famílias com prestações de empréstimos e atribui um peso muito pequeno às despesas com rendas.

Como as prestações e as rendas têm subido a um ritmo bastante superior ao da média dos preços na economia (medida pela inflação), há uma parte importante do custo de vida de muitas pessoas que está a ser subestimada pelos indicadores. Neste aspeto, a economia portuguesa destaca-se claramente, mas pela negativa. Portugal foi o país da União Europeia em que o fosso entre os rendimentos e os preços da habitação mais aumentou ao longo da última década, o que significa que foi o país onde o acesso à habitação mais se degradou.

 
Fonte: Eurostat

Ao elogiar o crescimento da economia portuguesa, a The Economist sublinha que “o turismo disparou [e] muitos estrangeiros ricos estão a mudar-se para o país para aproveitar as suas baixas taxas de imposto”. Mas a expansão do turismo não tem apenas efeitos positivos sobre o emprego e o PIB. O relatório Housing in the European Union, publicado recentemente pela Comissão Europeia, indica que “Portugal é o país da UE onde o turismo teve maior impacto sobre os preços das casas”, destacando o impacto das procuras externas e, em particular, a expansão do alojamento local, que desvia um número crescente de casas do mercado de arrendamento para o da procura turística. O que é lido como sinal de sucesso por uns contribui para agravar o custo de vida para outros.

O sul da Europa é o novo norte?

Um dado relevante deste ranking é que, desde a pandemia, a distinção de economia do ano tem sido atribuída a países do sul da Europa. Depois da Grécia ter ficado no topo do ranking em 2022 e 2023, Espanha subiu ao primeiro lugar em 2024 (num ano em que o saldo orçamental fazia parte dos indicadores). Em 2025 é a vez de Portugal, o que é apresentado pela revista como “mais boas notícias para o sul da Europa”. No fundo do ranking, além de algumas economias do leste europeu, encontramos várias das economias do norte da Europa (Finlândia, Áustria, Noruega ou Suécia).

Desde a pandemia, Espanha tem sido repetidamente elogiada pelo desempenho da sua economia nos últimos anos. A economia espanhola tem crescido a um ritmo muito superior à média europeia desde a pandemia, partilhando alguns traços comuns com a portuguesa, como o crescimento robusto do emprego, o aumento da imigração e o dinamismo de setores como o alojamento, a restauração e a construção. Numa linha semelhante à The Economist, o Financial Times considera que Espanha é a “economia europeia que mais se destaca”.

Portugal também tem sido bastante elogiado nos meios internacionais: há dois anos, Paul Krugman, economista norte-americano e prémio Nobel da Economia em 2008, classificou a experiência portuguesa como “uma espécie de milagre económico” e dizia que é “um pouco misterioso como é que as coisas correram tão bem” a Portugal depois da última crise financeira; dois anos antes, Adam Tooze, historiador económico da Universidade de Columbia, já tinha afirmado que “Portugal era o modelo para manobrar de forma muito inteligente dentro do sistema da UE” e que “ninguém o fez como os portugueses”.

A recuperação do crescimento no sul da Europa traduz uma mudança significativa na tendência da Zona Euro. Desde a entrada em vigor do euro no início do século, o debate tem-se centrado na divisão entre as economias do norte e do sul da Europa. As economias do norte (Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia e Países Baixos), com uma indústria mais robusta e de maior valor acrescentado, contrastava com a experiência dos países do sul (Itália, Espanha, Portugal e Grécia). Os primeiros anos do euro foram marcados por um desequilíbrio estrutural entre os dois blocos: os países do norte acumularam excedentes comerciais enquanto os países do sul, prejudicados por uma moeda sobrevalorizada, acumularam défices e viram a sua dívida externa subir de forma acentuada.

 
Fonte: AMECO (Comissão Europeia)

Após o início da crise financeira, as medidas de austeridade impostas aos países do sul comprimiram a sua procura interna e acentuaram a vaga de falências e o aumento do desemprego, o que acabou por agravar a recessão e traduzir-se numa década de estagnação. No entanto, desde a pandemia, a tendência inverteu-se: as economias do sul estão a superar as do norte em termos de crescimento e até há quem fale numa “vingança do Mediterrâneo”.

Esta inversão foi desencadeada pela crise energética. A invasão russa da Ucrânia fez com que os preços do petróleo e do gás disparassem na Europa. A Alemanha e os países de leste foram particularmente expostos a este choque. Além da proximidade à Rússia e da dependência do gás importado, as características das economias também influenciaram a vulnerabilidade a este choque. O elevado custo da energia veio agravar um cenário que já era adverso para a indústria europeia, ameaçada pela concorrência da China e pela emergência de tarifas. Isso significa que os países do norte e alguns do leste europeu, com uma estrutura produtiva mais assente em setores como o automóvel ou a indústria pesada e maior peso da indústria intensiva em energia, foram mais afetados pelo choque do que os países do sul, mais assentes em serviços.

 
Fonte: Eurostat. Nota: A linha “Itália, Espanha, Portugal e Grécia” representa o valor agregado das quatro economias

No entanto, as características do crescimento atual dos países do sul também apontam as suas fragilidades. As reformas estruturais do período da austeridade tinham como principal objetivo a desvalorização interna (i.e. redução dos custos do trabalho) como forma de promover as exportações. Essa é uma estratégia limitada: por um lado, nem todos os países podem ter excedentes comerciais ao mesmo tempo, pelo que o modelo da Alemanha antes da pandemia não é replicável por todos; por outro lado, a competitividade das exportações alemãs tinha mais a ver com a qualidade do que produzem do que com os preços, algo que nenhum país consegue replicar quando opta pela desvalorização interna em vez do investimento e da aposta na inovação. Sem surpresa, o crescimento das exportações dos países do sul esteve associado a bens menos sofisticados e de serviços de baixo valor acrescentado, como o turismo.

É certo que, na última década, Portugal registou um aumento do peso das exportações de bens de alta-tecnologia, que incluem equipamentos eletrónicos e de telecomunicações, produtos farmacêuticos e outros equipamentos com elevado conteúdo tecnológico: representavam 4,5% das exportações totais em 2015 e passaram para 7,4% em 2024. Observa-se uma tendência semelhante no caso dos serviços, que à primeira vista parece positiva. Contudo, se olharmos para a evolução da economia mundial, vemos que o peso das exportações de bens de alta-tecnologia aumentou consideravelmente na última década de uma forma generalizada. Se olharmos para os dados do Banco Mundial, as exportações de bens de alta-tecnologia a nível mundial representavam 20% do total em 2015 e subiram para valores próximos dos 23% em 2023; na União Europeia, passaram de 17% para 19% neste período.

A tendência de maior incorporação de tecnologia na indústria e nos serviços é comum à generalidade das economias. Isto não significa que não haja melhorias na economia portuguesa, mas sugere que estamos longe de ser um “milagre económico” neste período. Em sentido contrário, o que aumentou a um ritmo assinalável na economia portuguesa foi o peso do turismo. O turismo representava 15,7% das exportações em 2015 e, uma década depois, atingiu os 20,8% - ou seja, em 2024, foi responsável por um quinto das exportações totais do país.

O problema que se coloca é o de saber até que medida o desenvolvimento dos diferentes setores pode entrar em colisão. A expansão do turismo tem alimentado a subida acentuada dos preços das casas em Portugal, o que aumenta não apenas o custo de vida das pessoas, mas também os custos para os outros setores, que enfrentam rendas mais caras e maior dificuldade em atrair trabalhadores para as áreas onde os preços mais crescem. Na área metropolitana de Lisboa, a especialização em atividades turísticas ao longo da última década ocorreu em detrimento de setores mais inovadores: a indústria e os serviços de informação e comunicação perderam importância relativa e houve uma queda da produtividade por trabalhador, como conclui um estudo publicado pela Causa Pública.

Além disso, esta visão ignora a distribuição dos ganhos do crescimento. O modelo de crescimento dos países do sul da Europa gera impactos desiguais. A subida dos preços das casas beneficia essencialmente quem tem património acumulado e consegue extrair rendas: proprietários que detêm e exploram múltiplas casas (tanto para arrendamento, como para alojamento local), plataformas digitais e fundos de investimento. Pelo contrário, quem arrenda e quem vive em zonas mais pressionadas pela gentrificação é prejudicado pela subida das rendas e dos preços dos serviços, que representa um agravamento significativo do custo de vida.

A economia dos próximos anos

Não é surpreendente que a distinção de “economia do ano” tenha sido recebida com entusiasmo pelo governo, sobretudo tendo surgido a poucos dias da greve geral marcada pelos sindicatos. Apesar dos sinais de contestação, o governo parece confortável com a estratégia e o apoio explícito ou implícito de uma maioria dos deputados no parlamento. Sobre os planos para a economia dos próximos anos, o ministro da Economia e Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, explicou recentemente que o objetivo do governo passa por colocar Portugal entre os dez destinos turísticos mundiais mais procurados (atualmente, o país ocupa um honroso 12º lugar).

Embora não se possa resumir o tecido produtivo da economia portuguesa ao turismo, não deixa de ser verdade que a expansão do turismo e o desempenho dos serviços associados (como o alojamento e a restauração) são responsáveis por boa parte do crescimento dos últimos anos. O facto dos preços do turismo em Portugal terem subido bastante acima da média dos restantes países do mediterrâneo desde a pandemia indica que o setor pode ter dificuldade em manter o ritmo de crescimento.

Depois de uma fase em que o crescimento assentou no endividamento externo, a economia portuguesa passou a depender de atividades ligadas ao turismo e ao mercado imobiliário. Ambos estão fortemente dependentes da procura internacional e tornam a economia portuguesa vulnerável às suas oscilações, como a pandemia tornou claro. Além disso, este modelo gera impactos desiguais: beneficia principalmente quem acumula património que se transformou num mecanismo de extração de rendas, enquanto agrava o custo de vida para quem arrenda e para quem vive nas zonas mais afetadas pela gentrificação.

O problema de fundo está em confundir crescimento com desenvolvimento. A “economia do ano” não é igual para todos. Este tipo de rankings internacionais diz-nos muito pouco sobre a forma como o desempenho da economia se traduz nas condições de vida de quem vive e trabalha no país. É pouco útil falar em crescimento e criação de riqueza sem discutir a forma como esta é distribuída.

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