sexta-feira, 15 de maio de 2026

Quem nunca?


O individualismo é em geral produto da sobrestimação do valor próprio e da subestimação do valor dos outros. (...) O individualista tem por vezes a ilusão de que o individualismo é uma manifestação de liberdade individual. A verdade é que, quem pense, decida e actue apenas pela sua cabeça e pela sua vontade individual acaba por ser prisioneiro das suas próprias limitações. Isolado, atrás da aparente liberdade, o indivíduo acaba por ser escravo de si próprio. (...) Ao contrário do que afirmam os defensores do individualismo, a opção pela formação de uma opinião colectiva e de uma actuação colectiva constitui uma afirmação de que o indivíduo se libertou das próprias limitações individuais. Constitui assim uma expressão da liberdade individual. 

Álvaro Cunhal, O Partido com paredes de vidro, Edições Avante!, 1985, pp. 85-86 

No meio deste tempo tão sombrio, acalenta-me o facto de o PCP continuar a ser um objeto de repulsa-desejo tão intenso. 

Do ódio de classe à paixão mais intensa, passando pelo trauma por enfrentar ou pelo amor mais desenfreadamente inconsciente, sob a forma de um paternalismo altivo revelado publicamente e dirigido a quem está há décadas para morrer, a verdade é que muitas pessoas ficam diferentes no engajamento com o PCP, as que interessam para melhor e as mais mediáticas quase sempre para pior, sendo algumas capazes de mentir e de insultar o seu próprio passado. 

Pior, pior, é sempre a indiferença, dadas as tarefas acometidas aos comunistas. 

E é como se o PCP fosse para muitos a expressão político-partidária de uma “condição póstuma” e ao mesmo tempo o baluarte com que secretamente querem contar para se defenderem dela; condição assim descrita por Marina Garcés: “um novo relato, único e linear: o da destruição irreversível das nossas condições de vida”, fazendo do presente “o tempo que resta”. 

Se a experiência própria vale de alguma coisa, arrisco dizer que o trauma ex-comunista de tantos, o nó que aperta, poderia ser superado, desatado, pelo reconhecimento democrático e patriótico: “elaborar o sentido e as condições do vivível”, superar a tal condição póstuma, é tarefa coletiva, de classe, de povo. Requer ação coletiva, ou seja, organização disciplinada e logo livre e autónoma, como os comunistas portugueses nunca se cansaram de insistir e de praticar com coragem ímpar, na esteira de Cunhal. São inimitáveis, mostra a experiência, a que se adquire por comparação. 

Com todas as contradições do que está vivo e resiste na mais dura relação de forças, “rude e tosco instrumento para transformar Portugal” (Manuel Gusmão), o seu centralismo democrático, parte da teoria prática marxista-leninista, revelou ser de facto a melhor forma de organização, de vontade persistente, num tempo de refluxo, desorganizado por um individualismo possessivo, por um simulacro de singularidades impotentes e aprisionadas: eu-eu-eu-eu; o partido, a enésima coisa, sou eu. 

Sabendo distinguir validade e poder, os comunistas são condição necessária, mas não suficiente, para outra condição, mais humana, noutro tempo, com outro relato, com outra potência libertadora: eu-nós-nós-eu; o “educador tem ele próprio de ser educado”, como assinalou Marx. 

 No fundo, sabe-se isto e daí o ódio e o amor, a repulsa e o desejo. Quem nunca?

2 comentários:

Gonçalo Avelãs Nunes disse...

A verdadeira questão para quem já a viveu, e eu já a vivi sendo que eu continuo a identificar-me como comunista, é o tratamento e a posição do PCP em relação aos que foram militantes e ou dirigentes ativos e conhecidos, porque o PCP reconhece respeita quem nunca foi militante mas tem um percurso dentro do que o PCP apelida de "democratas" mas despreza desrespeita e maltrata quem já foi militante ou dirigente e se afastou do PCP. Sendo que efetivamente existe uma enorme diferença entre por exemplo o percurso do Carlos Brito antes e depois de sair do PCP e o percurso por exemplo do Pina Moura, da Zita Seabra e outros.
As pessoas merecem respeito por aquilo que representaram e fizeram e o Carlos Brito não merecia aquele comunicado do PCP.

Anónimo disse...

Só duas observações: uma, que para quem esteja minimamente informado (e ainda mais quem se "identifica como comunista) a primeira generalização é falsa; outra, que fosse o que fosse que o PCP dissesse seria objecto da mesma campanha. Uma campanha até bastante sofisticada, que começou com a apresentação de Carlos Brito como "braço direito de Cunhal". Se este teve "braços direitos", eles estão quase todos em duas famosas fotografias de Eduardo Gageiro. Já agora, os que ficaram tâo sentidos como o comunicado, façam o favor ler o que o "Avante!" desta semana traz sobre o falecimento de Carlos Brito.