sexta-feira, 6 de junho de 2008

Não ao Tratado de Lisboa

A UE está hoje refém de um anti-democrático vanguardismo liberal que pode acabar por minar qualquer ideia de projecto europeu. A lógica que presidiu à aprovação do Tratado de Lisboa ilustra isto na perfeição. Felizmente existe a Irlanda, onde o referendo é obrigatório. Uma sondagem revela agora que o não ao Tratado está pela primeira vez à frente do sim. Boas notícias. É um paradoxo que já assinalámos várias vezes neste blogue: a UE, podendo dotar-se de instrumentos valiosos para regular a globalização neoliberal, continua a constituir-se como elemento da sua expansão, promovendo um processo de aproximação a um modelo de capitalismo cujas fragilidades socioeconómicas se tornam agora particularmente evidentes (os argumentos que suportam esta tese são desenvolvidos aqui, aqui ou ainda aqui). Perante isto, a atitude da esquerda socialista também tem de ser paradoxal: lutar por um aprofundamento democrático e progressista da integração europeia pressupõe travar uma luta sem quartel contra os Tratados que consolidam os arranjos da actual UE.

De facto, só uma derrota do europeísmo neoliberal pode abrir caminho a outras soluções. A social-democracia tem de perceber que as suas opções europeias, sobretudo desde o final da década de oitenta, explicam grande parte da profunda crise política e ideológica em que se encontra. A social-democracia pensou que a moeda única e o mercado interno, como que por uma mão invisível, criariam a vontade política para voos progressistas. Pagamos todos os dias um preço elevado por esta utopia. Lembrem-se disto quando o blindado BCE decidir subir as taxas de juro, quando o governo tiver que cortar o investimento público para atingir o objectivo irresponsável do défice zero em 2010, quando se decidirem novas privatizações ou quando a concorrência fiscal na UE corroer os impostos directos sobre os grupos privilegiados ou sobre as empresas.

5 comentários:

Anónimo disse...
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MFerrer disse...

Sob um ponto de vista português e do estágio de "desenvolvimeto" das nossas forças produtivas e das qualificações da mão-de-obra, os benefícios superam largamente alguns inconvenientes. Não podemos é querer uma política liberal e subsídiária para nós, e contributivo-restritiva para os outros. Também não se pode pedir aos alemães, holandeses, etc, que em vista do atraso dos países do sul e dos egoismos da Inglaterra, abandonem as suas economias de exportação e de intervenção económica para atenderem apenas ao problema do "sul".
Qual seria então o paradigma do desenvolvimento? Regressaríamos a uma economia planificada e socializante? Comunista, mesmo? ou em Portugal teríamos que forçar a população a regressar ao campo e a vender a sua força de trabalho à agricultura sem qualidade e sem rentabilidade?
Para alguém se apropriar do que fosse produzido nessas circunstâncias?
E o que fazer à velha indústria voltada para as matérias primas e mercados coloniais?
?E às que aqui se instalaram pós 25A a coberto de subsídios cegos e de salários 3ºmundistas?
Tem uma resposta para estas questões ou o papão neo-liberal europeu não permite um momento de calma reflexão?
Sem ofensa pf!
MFerrer
http://homem-ao-mar.blogspot.com

Anónimo disse...

Caro João,
Agradeço ter trazido o assunto aqui à discussão e aproveito para anunciar o fecho do blogue "uni-post" e temporário que criei com intenção de fazer chegar aos irlandeses um pouco da voz dos europeus amordaçados.
http://notolisbontreaty.blogsome.com

O blogue será dado como oficialmente encerrado durante o dia de amanhã, com um último comentário por minha própria mão, sendo logo a seguir enviada a notícia a alguns bloguers irlandeses com quem estabeleci contacto para que eles divulguem o seu conteúdo entre as suas redes de conhecimentos. Contudo, mesmo depois do encerramento oficial qualquer pessoa poderá ainda comentar, até ao dia 11 de Junho, a véspera do referendo irlandês, pois eu irei continuarei a administrar diariamente os comentários até essa data. Não juntarei, no entanto, mais nenhum documento ou notícia - a não ser que seja coisa de extraordinária importância.
Não sei se o texto da declação no blogue cria de algum modo a impressão que o seu autor é anti-europeísta. Não era essa a minha intenção, porque de facto não sou. Mas como também não sou anti-democrático, nem anti-nacionalista, acredito que uma federação de estados só pode e deve construir-se ouvida a vontade inequívocamente expressa das nações respectivas. Sei demasiada História para me não inquietar profundamente com a forma pouco clara e honesta como está a ser conduzido este processo. Os "iluminados" que "querem o bem do povo" demonstraram-se ao longo da História da Europa (e não só) os mais perigosos causadores de guerras, sofrimento e injustiça.
Gostaria de ser, voluntariamente, um cidadão de uma Europa em que todos os cidadãos são chamados a eleger aqueles que vão legislar, decidir sobre a sua vida e o seu futuro. Assim NÃO, e é com facilidade que profetizo que vai dar mau resultado.
Isto já vai longo, mas gostaria de dizer qualquer coisa ao comentador mferrer. Não consigo perceber o que diz: "economia planificada e socializante", "comunista", "mercados coloniais", "regressar ao campo"? Meu caro: Você está a falar de quê?
Dê uma espreitadela aos documentos que coloquei lá no blogue cujo link indico acima, leia, veja alguns videos, por favor. Se não tiver paciência ou tempo para tanto, deixo aqui mais um link de um vídeo que sumariza razoavelmente a questão (desde que perceba inglês falado, porque uma grande parte não está legendado):

http://video.google.com/videoplay?docid=-4291770489472554607&hl=en

Pedro Sá disse...

Irresponsável é dizer que os Tratados consagram qualquer vanguardismo liberal. Como o seria dizer que consagram opções social-democratas.

E irresponsável é defender outro défice que não o zero. Isso é a exaltação do endividamento. Ora, quanto menos endividado está o Estado menos endividado está o povo.

Anónimo disse...

"lutar por um aprofundamento democrático e progressista da integração europeia"

Embora não da melhor forma a verdade é que existe um aprofundamento democrático com este Tratado. Julgo que este argumento é um pouco enganoso quando se discute este tratado!