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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Paralelismos


Vale a pena ler Francisco Louçã – Quanto custa a um economista não perceber a crise – sobre o fracasso de Irving Fisher (1867-1947), um dos mais importantes economistas, em 1929, tomando como pretexto o excelente A Queda de Wall Street.

Assinalo, no entanto, que Fisher redimiu-se, por assim dizer, através de uma análise profunda sobre as causas da depressão, a interacção perversa entre dívida e deflação, por exemplo num artigo de 1933. Tomáramos nós que todos os grandes economistas convencionais tivessem a mesma capacidade no actual contexto.

Deixem-me ser optimista, como se isto fosse uma mera questão intelectual. Talvez assim não fosse tão provável que tantos repetissem, sobretudo na televisão, o mantra que nos leva outra vez para o buraco: mais austeridade para “acalmar” os mercados, vistos quer como predadores hiper-racionais, quer como rebanhos assustados.

Estamos condenados a isto? Creio que enquanto vigorar a mentalidade do Euro, o equivalente contemporâneo da mentalidade do Padrão-Ouro, essa relíquia bárbara, como lhe chamou Keynes (e nisto Fisher e Keynes estavam de acordo), a resposta é clara. E sim, precisamos de um Plano B, e não, não é o do Eurogrupo.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Entre a política económica e a economia política

Se eu tivesse de escolher dois artigos já clássicos de economia muito úteis para os tempos actuais, escolheria o artigo de Irving Fisher, de 1933, sobre a interacção perversa entre a dívida e a deflação como segredo de todas as depressões, ou no presente caso de todas as estagnações, e o artigo de Michal Kalecki, de 1943, sobre a economia política do pleno emprego. Nos últimos anos temo-los referido várias vezes. O primeiro por causa do espectro da deflação em Portugal e não só. O segundo para explicar as bases sociais da deflacionária política de austeridade.

Ambrose Evans-Prichard mobiliza agora Fisher para analisar a forma como a Europa do Sul foi “traída” por uma política deflacionária contrária aos seus interesses, numa “União” sem instrumentos monetários e orçamentais adequados às circunstâncias e sem perspectivas de os vir a ter por razões que um marxista como Kalecki compreenderia bem: o euro era uma utopia monetária e só sobrevive como distopia tecnocrática autoritária.

Basicamente na mesma linha, embora num tom menos caustico e, apesar de tudo, mais esperançoso, Wolfgang Munchau leva também a sério a deflação, que se alimenta da crise de procura e que está vinculada ao perigo da “estagnação secular”, e avança com uma sugestão que remete implicitamente para Kalecki: para lá de uma política monetária bem mais activa, os governos europeus deveriam aproveitar os ataques terroristas em França para dar um impulso orçamental por via do investimento em segurança, usando isso como pretexto para atenuar as regras orçamentais em vigor.

No seu artigo sobre a economia política da política económica, Kalecki tinha alertado para o facto de os capitalistas tendencialmente não apreciarem a política económica de estímulo público centrada no combate ao desemprego em contextos democráticos, dada a força que as classes trabalhadoras assim podem conquistar, desafiando a autoridade patronal. Parte daí para explicar a política económica de estímulo no quadro do fascismo, no quadro de uma economia de guerra.

No actual contexto de esvaziamento da democracia na escala onde esta pôde florescer, a ascensão do Estado penal securitário, que de resto é indissociável do neoliberalismo, estimula sempre uma certa economia, políticamente pouco recomendável.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

É a deflação...

A brutal quebra dos preços de um vasto leque de activos e de produtos aí está a gerar o perigo da deflação e dos seus encadeamentos perversos: dificuldade em pagar as dívidas acumuladas, contracção do crédito, quebra do investimento, falências, aumento do desemprego, novas quebras dos preços. As economias trancadas num ciclo vicioso. Só políticas públicas valem agora. Como indica John Muellbauer, da Universidade de Oxford, a ortodoxia dos bancos centrais na Europa e a ideia de que se pode se pode deixar falir, assim sem mais nem menos, um grande conglomerado financeiro (Lehman Brothers) estão a sair muito caras. As taxas de juro deviam ter sido cortadas há muito na Europa. As forças da deflação actuam à escala internacional. Um corte de dois pontos percentuais é a recomendação.

Tempos radicais exigem uma política monetária e uma política fiscal à altura. E muita regulação e coordenação internacionais. Este é o novo consenso emergente «lá fora»: Martin Wolf, em artigo no FT, não entende a discrepância na orientação da política monetária dos dois lados do Atlântico. Eu também não. É claro que podemos sempre experimentar repetir a Grande Depressão.

É por isso que vale a pena ler os «clássicos». Em 1933, Irving Fisher, um dos mais importantes economistas convencionais da altura, escreveu, no primeiro número da revista académica Econometrica, um artigo intitulado «The Debt-Deflation Theory of Great Depressions». É um texto límpido e muito bem escrito que identifica alguns dos mecanismos possíveis de interacção entre o sobrendividamento e a deflação: «Temos então o paradoxo que, atrevo-me a afirmar, é o maior segredo da maioria, senão de todas, as grandes depressões: Quanto mais os devedores pagam mais eles devem». Segundo Fisher, o fardo da dívida aumenta em termos reais à medida que os preços caem, entre outros factores, como resultado do próprio esforço dos devedores para se desfazerem apressadamente dos activos e produtos que detêm por forma a fazer face aos compromissos previamente assumidos. A insolvência generaliza-se. No longo prazo estamos mesmo todos mortos. No curto e no médio, e na ausência de políticas, estamos desempregados.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Krugman is half-wrong...

Paul Krugman fala sobre Portugal com simpatia e perplexidade: a história mais difícil de explicar da periferia. O peso da dívida pública no PIB era semelhante ao da Alemanha antes da crise, o endividamento privado é elevado, mas as bolhas imobiliárias estiveram ausentes e foi muita a estagnação desde a adesão ao euro. A questão imobiliária é mais complexa, como o Vítor Neves já indicou: bolhas imobiliárias há muitas. Infelizmente, Krugman comete o erro de mencionar o desalinhamento dos custos laborais portugueses com o resto da Zona Euro como um problema. Uma história já desmontada, incluindo pelo próprio Vítor Constâncio. Portugal perdeu competitividade externa nos últimos anos, mas tal deveu-se não às reivindicações dos trabalhadores, mas sim a uma entrada deficiente na moeda única: a chamada convergência nominal, no quadro da aceleração liberal da integração europeia e de abertura à economia global, contribuiu para uma duradoura sobreapreciação da nossa moeda, que se prolongou com o euro. Esta opção enfraqueceu a competitividade do sector de bens transaccionáveis para exportação num período crucial e canalizou muito do esforço empresarial para o sector de bens não-transaccionáveis, como foi o caso da construção. O endividamento privado, que manteve a economia acima da linha de água, também foi canalizado para o consumo, com uma forte componente de importação, graças, entre outras coisas, à imitação dos padrões de consumo da nossa lumpemburguesia. A inflação já foi de facto um problema, mas um problema que a narrativa oficial monetarista nunca conseguiu explicar, como já aqui defendemos. De qualquer forma, Krugman tem consciência das consequências desastrosas do processo deflacionário induzido pela pressão austeritária num contexto de endividamento elevado. É o espectro de um círculo vicioso à Fisher.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Equívocos básicos das autoproclamadas criptomoedas (2)


Os defensores das "criptomoedas" acreditam na história da carochinha que se encontra em todos os manuais de introdução à economia sobre a origem da moeda.

Nessa narrativa, a moeda surge a partir da propensão dos seres humanos para a troca direta. Imagina-se um estado inicial onde não existe moeda, mas, existe essa propensão para evidenciar que a troca direta implica uma série de dificuldades (a principal é necessidade de dupla coincidência de interesses) que a tornam ineficiente e, portanto, de forma espontânea, os indivíduos começam a selecionar uma mercadoria entre as restantes que pelas suas características intrínsecas, assume a função de meio de troca e a partir daí também a de unidade de conta. 


As características ideais para o cumprimento destas funções encontram-se nos metais preciosos, em particular no ouro ou na prata e por isso estes metais são usados há séculos como moeda.

O Estado entra nesta história apenas com o papel de garantir a quantidade e a fineza do metal amoedado, colocando o seu "selo" através da cunhagem. 

Um último passo dá-se quando, recentemente se adota a moeda fiduciária, sem valor intrínseco e garantida apenas pela sua aceitabilidade que se mantém graças aos hábitos e costumes dos indivíduos. 

Paul Samuelson, um dos maiores divulgadores da narrativa convencional

Esta narrativa, cuja origem pode ser encontrada em Aristóteles, que atravessou a era medieval e penetrou na economia moderna através de Adam Smith e foi fortemente divulgada por Stanley Jevons e em particular Carl Menger e Ludwig von Mises é uma ficção. Como afirma o antropólogo David Graeber não existe qualquer prova de que a troca direta alguma vez tenha existido e existe uma enorme quantidade de provas que sugerem que nunca existiu. E citando a antropóloga Caroline Humphrey:

Nenhum exemplo de economia de troca direta, pura e simples, alguma vez foi descrito, quanto mais o surgimento do dinheiro a partir dela; toda a etnografia disponível sugere que nunca existiu tal coisa (tradução livre).

Esta narrativa leva a um equívoco fundamental sobre a própria natureza da moeda, ou seja, a ideia de que a moeda é uma mercadoria (como era o ouro ou prata) ou que, se não for, se deve comportar como uma mercadoria.

Este equívoco não é exclusivo dos defensores das "criptomoedas" já que grande parte da própria teoria monetária convencional assenta nestes pressupostos (por exemplo, daí advém a Teoria Quantitativa da Moeda). No entanto, enquanto os economistas ortodoxos já perceberam há mais de um século que, apesar de tudo, é vantajoso que a oferta de moeda seja relativamente elástica em vez de estar sujeita à quantidade arbitrária de uma qualquer mercadoria, os defensores das "criptomoedas" procuram antes levar a visão da moeda-mercadoria até às últimas consequências. 

De facto, talvez a maior vantagem que se apresenta relativamente ao sistema das "criptomoedas" é o facto de destas conseguirem mimetizar uma mercadoria (i.e. a anonimização, a escassez, etc.). 

Para estes, a adoção de moeda fiduciária, sujeitas ao poder discricionário dos Estados, é uma traição, já que esta, não estando ligada a qualquer metal com valor intrínseco, perde valor constantemente (principalmente pela excessiva emissão de moeda pelos Bancos Centrais). Já vimos como a perda de valor da moeda é um grande problema e um grande equívoco dos defensores das "criptomoedas"

As "criptomoedas" procuram, assim, fazer ressurgir o sonho de von Mises que no início do século XX quando já pouco metal precioso circulava e os restantes economistas procuravam resolver o problema da gestão da emissão de papel-moeda, defendia que

o que os Estados Unidos precisam (…) é do clássico padrão ouro antigo (…). O ouro deve estar nos cofres de todos. Todos devem ver as moedas de ouro a mudar de mãos, devem estar habituados a ter moedas de ouro nos seus bolsos, a receber moedas de ouro quando desconta o seu cheque de pagamento, e a gastar moedas de ouro quando compram numa loja (tradução livre)

Não devia ser dificil entender a enormidade disto. Felizmente os economistas seus contemporâneos, com todos os defeitos que lhes possamos apontar (como Irving Fisher, o principal defensor da Teoria Quantitativa da Moeda) já não estavam nem aí e aprenderam alguma coisa com as turbulências financeiras do século XIX e início do século XX. 

Ludwig von Mises

Hoje, não nos é difícil ver as dificuldades que advinham do padrão-ouro para a gestão monetária e para a estabilidade dos sistemas financeiros e os defensores das "criptomoedas" estão a começar a entendê-las também. 

De facto, talvez a principal consequência deste equívoco seja o completo desconhecimento sobre a própria criação de moeda nas economias modernas, ou seja, sobre o funcionamento dos sistemas monetário e bancário modernos. Os recentes escândalos com "pseudo-bancos", corretoras, fundos de investimento de "criptomoedas" e afins (sendo o mais significativo o da FTX) mostram a dimensão do equívoco e têm feito os seus entusiastas aprender à força aquilo que não quiseram aprender antes. 

Sam Bankman-Fried, o fundador e CEO da corretora de "criptomoedas" FTX, entretanto caído em desgraça (o nome não augurava nada de bom)

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Citação falhada


“Portugal tem escrito uma história de sucesso económico impressionante”

(Olaf Scholz, chanceler alemão, por exemplo aqui)

"(...) não sei bem a que se referiu o chanceler federal, Olaf Scholz, na abertura da feira ontem, quando afirmou que Scholz diz que Portugal “tem escrito uma história de sucesso económico impressionante”. A partir de 2015, viveu-se menos mal em Portugal do que nos anos de chumbo da troika, está certo, graças a alguma recuperação económica e à revogação de medidas tomadas nos anos da troika. Mas "história de sucesso"? Há 30 anos, falava-se na Alemanha de um "milagre económico" graças às políticas de Cavaco Silva, entre as quais as privatizações (será que temos mesmo uma economia de mercado a funcionar?) e à construção de autoestradas, com cheta vinda de Bruxelas, claro. E lá por 2011 ou 2012, foi a própria Angela Merkel a achar que as vias rápidas e os túneis na Madeira não tinham tornado a ilha mais competitiva. Mas a "história de sucesso" de que fala Scholz não devia ter algum reflexo nos salários? Hoje António Costa assina um artigo de opinião no jornal Público, intitulado "Levamos a Hanover o futuro". O PM destaca, com toda a razão, "a qualidade dos nossos recursos humanos" e "a excelência das nossas PME's" (ok, se tivesse dito "de algumas das nossas PME's" teria sido mais correto). Mas não fala nos salários e não explica por que Portugal, aparentemente, só pode fazer valer esta sua excelência com salários baixos e com precariedade. Poupem-me!"

(Thomas Fisher, jornalista alemão e português a viver em Portugal há 39 anos, no Facebook)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Depressão

Paul Krugman remete para o artigo clássico de Irving Fisher, publicado em 1933 na revista Econometrica, intitulado «The Debt-Deflation Theory of Great Depressions», disponível na net e a que já tinhamos várias vezes feito referência neste blogue. É um texto claro e que identifica alguns dos mecanismos possíveis de interacção perversa entre o sobrendividamento e a deflação: «Temos então o paradoxo que, atrevo-me a afirmar, é o maior segredo da maioria, senão de todas, as grandes depressões: quanto mais os devedores pagam mais eles devem». O fardo da dívida aumenta em termos reais à medida que os preços caem, entre outros factores, como resultado do próprio esforço dos devedores para se desfazerem apressadamente dos activos e produtos que detêm por forma a fazer face aos compromissos previamente assumidos. A insolvência generaliza-se, graças também à quebra dos rendimentos. Na ausência de políticas económicas de relançamento, que superem a descoordenação mercantil e travem esta engrenagem, o contrário do que tem sido feito com as políticas de austeridade, o desemprego não cessará de aumentar. É a era da depressão. O euro será uma das suas vítimas.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Do euro à rua


Através do Público, cheguei a um artigo do Financial Times, assinado por um conjunto de economistas europeus e subscrito por personalidades como Delors, Prodi e Fisher, a pedir a imediata e permanente activação do fundo de estabilização financeiro cozinhado em Maio. Até aqui, tudo bem. A activação do fundo permitiria aos estados da zona-euro, em aflição nos mercados internacionais, o acesso a empréstimos com juros bastantes mais baixos. Com juros mais baixos, descem a despesa e o défice, sem qualquer efeito recessivo na economia.

No entanto, ao lermos todo o artigo, percebemos bem quais as motivações por detrás dele. A estabilidade do sistema financeiro europeu e a sobrevivência do euro comandam a proposta. Não há aqui uma palavra sobre crescimento ou coesão. Pelo contrário, o que observamos é um pedido para uma severa “consolidação” orçamental orquestrada pela Comissão Europeia como contrapartida. Os orçamentos de estado passariam assim a ser desenhados por uma entidade não eleita. Mas mais interessante é ver o apelo para que se promova um modelo formal para reestruturações de dívida soberana, indo de encontro ao que escrevi sobre a possibilidade de uma reestruturação liderada pelos credores. Isto, assim, não vai acabar bem…

O euro, como está instituído, bem pode ganhar tempo de vida à custa da recessão dos países periféricos. Contudo, sem uma refundação deste, os problemas estruturais mantêm-se. Hoje, Merkel confessou as vantagens do euro para a economia alemã através do argumento da inexistência de volatilidade cambial na zona euro, o que favorece as suas exportações. Esqueceu-se da outra parte da história. De como graças a taxas de inflação mais baixas, uma maior compressão dos seus trabalhadores e uma política monetária do BCE ao seu serviço, a Alemanha ganhou competitividade face aos restantes países europeus, agora impedidos de se ajustar pelo câmbio.

Dito isto, e contrariando a medina-carneirice reinante, é tempo de mostrar que existem alternativas ao nível europeu, regional e nacional. Mais, é tempo de reivindicar uma Europa ao serviço dos seus cidadãos e não do capital financeiro. Por isso, a jornada de contestação europeia de amanhã, dia 29, a ter lugar por toda Europa, incluindo Porto e Lisboa, pode ser o início de uma mudança da correlação de forças sociais em favor de quem trabalha e mais precisa. Todos à manif.

sábado, 5 de julho de 2025

Falar de um esperançoso lugar comum


Os dias passam e o mal-estar político não diminui, ainda para mais são pessoas que individualmente respeito, por quem tenho admiração e dívidas intelectuais. Custa mais quando assim é. Tenho de escrever mesmo assim, não ficaria de bem com a minha consciência política. 

Faço então uma pergunta longa ao coletivo formado pelos distintos subscritores do texto levantar a nossa humanidade contra a guerra

A 30 de junho de 2025, dia 634 do holocausto palestiniano perpetrado pelo colonialismo sionista, como é possível falar apenas de “atrocidades”, evitando a palavra genocídio e fazendo anteceder essa consideração com uma referência altamente equívoca ao “terrorismo”, embrulhando tudo num caldo surpreendentemente pretensioso sobre a guerra em geral, mas sem sequer referir a perigosa e ilegal corrida armamentista em curso na cúmplice UE? 

A unidade antifascista, insisto, nunca se fez prescindindo da clareza, de distinções e de hierarquizações. Por isso, ao invés de estar para aqui a escrever, vou mas é para a manifestação pela paz, contra o genocídio na Palestina, pela autodeterminação dos povos. Fiquei de falar ali comummente, enquanto subscritor de um manifesto, dinamizado pela iniciativa dos comuns, onde a palavra genocídio aparece, não podia deixar de aparecer, como sublinhei à Visão

Tenho personalidade, como todos, mas não sou, nem serei, uma personalidade, como alguns. E só a ação coletiva, onde estarão muitos milhares, gera bem-estar político neste mundo, só ela liberta e dá esperança. É o melhor antídoto contra as depressões, já dizia o arguto Mark Fisher, que perdeu a esperança de superar o realismo capitalista, infelizmente. Não temos direito a perdê-la, pelo povo palestiniano e por nós.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

É o desastre da deflação...

Em Julho de 2008, quando o BCE, guiado por teorias monetárias bizarras (I e II), ainda andava preocupado com a inflação, já aqui se alertava para os enviesamentos deflacionários das suas políticas e para o desastre das suas escolhas. Agora podemos estar trancados num ciclo vicioso com semelhanças ao que Fisher, aqui lembrado, tinha diagnosticado nos anos trinta. Estamos mesmo em muito maus lençóis: a taxa de inflação homóloga atingiu menos 0,4% em Março. Não estamos sós.

O jornalista Vítor Costa do Público sintetiza bem alguns dos problemas: «[M]esmo os que conservam a sua capacidade de consumo tendem a adiar as suas compras uma vez que têm a expectativa de que os preços irão continuar a descer. Com a quebra do consumo, as empresas, ao não conseguirem vender, são levadas a reduzir a produção e a baixar ainda mais os preços na tentativa de escoar os seus produtos. Mas com menos necessidade de produção são levadas a não aumentar os salários dos seus funcionários ou mesmo a recorrerem a despedimentos. Sem aumentos salariais e com mais desemprego, a tendência é para que haja novos cortes no consumo, criando-se assim um ciclo vicioso de descida continuada dos preços e de abrandamento económico». O desemprego em larga escala segue dentro de momentos.

Que fazer? Ben Bernanke, como já aqui se assinalou, tem uma resposta monetária que já está muito para além do que é convencional: a moeda é uma criação do Estado e é preciso retirar todas as consequências deste facto simples. O controlo central directo dos mecanismos de crédito, associado a nacionalizações do sistema financeiro, também pode ajudar.

Só os poderes públicos podem superar a descoordenação mercantil que, no actual contexto, gera uma dissociação radical entre o que é racional do ponto de vista 'individual' e o que é racional do ponto de vista colectivo em todas as esferas da economia. Combinar por todo o lado aumento dos gastos públicos, nacionalizações dos bancos e capacidade de manter e forjar regras exigentes que diminuam a discricionariedade empresarial. Só um credor, comprador e investidor de última instância pode superar a incerteza radical e forjar novos pontos focais que estabilizem as expectativas dos agentes. Haja vontade porque há poder. Depois disto temos de garantir que as utopias liberais se tornam irrelevantes no campo das políticas públicas por muitos e bons anos. Já basta o que basta.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Depressão


Preços cairão pela primeira vez em décadas. O espectro da deflação é a melhor indicação de que estamos a sair da crise para entrar na depressão. Anos trinta de novo, com a força da troika. Nos anos trinta, Irving Fisher, um economista convencional que tinha subestimado o alcance da crise financeira, forjou a “teoria da dívida-deflação das grandes depressões”, analisando a interacção perversa entre a deflação e a dívida – “quanto mais os devedores pagam, mais os devedores devem”, dado que a queda dos preços, causada pela compressão da procura, significa um aumento do fardo real da dívida e uma situação de insolvência generalizada. Neste círculo vicioso, o que não pode ser pago não será pago.

Também nos anos trinta, Keynes falou do paradoxo da poupança, outro dos muitos paradoxos da economia da depressão em que aqui temos insistido. É então preciso repetir pela enésima vez que quando todos tentam poupar todos podem acabar a poupar menos, em especial quando o Estado se comporta como se fosse uma família em crise: a austeridade, por via do aumento dos impostos, sobretudo quando este é regressivo, e por via do corte da despesa publica, traduz-se numa quebra generalizada dos rendimentos, acentuando a quebra da procura, o que faz com que sobre cada vez menos, até porque a despesa de uns é o rendimento dos outros.

O que dizem agora os moralistas? Silêncio que se vai continuar a aproveitar a depressão para todas as imoralidades no mundo do trabalho transformado em mercadoria cava vez mais barata e facilmente descartável: o embaratecimento dos despedimentos, fazendo com que as indemnizações caiam para metade em menos de um ano, só incentiva o recurso aos mesmos em época de crise da procura, só incentiva ao reforço de uma medíocre economia do medo, uma economia acompanhada por todas as fraudes intelectuais, em que Passos Coelho e companhia se especializaram. Fraudes regressivas são a única coisa que cresce nesta economia da depressão. É que ainda há muito para pilhar à boleia da “liberdade de escolha”, do “mercado livre”, do “crescimento sustentável” e de outros conceitos fraudulentos que se destinam a esconder os grandes poderes que são beneficiados com esta política.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Notas pessoais de dias coletivos

Tenho algumas divergências com os comunistas e com os ecossocialistas, mas tenho muitas mais convergências. Nacionalista de esquerda – “democrata e patriota”, na sua formulação –, sinto-me muito honrado em integrar as listas da CDU às legislativas pelo meu distrito, Coimbra.


Fui tirar a fotografia de candidato ao Centro de Trabalho do PCP, junto a Coimbra A, estação em risco, na semana passada. Na sala de exposições e debates, onde decorreu a sessão fotográfica, estava uma retrospetiva da pintura e desenho de um historiador da minha faculdade, infelizmente já falecido, chamado Jaime Ferreira. Uma proposta de história do pão é a obra de referência de um intelectual que vive no meio da arte e da memória engajadas. Desde os tempos de estudante que pintava e desenhava, muitas vezes sob pseudónimo, chegando a fazer capas para a revista Vértice que o lápis azul marcou. 

Quando cheguei ao Centro onde se faz trabalho político reconheci a outra candidata independente da CDU, que também ia tirar a foto: Vanda Pereira trabalha como operadora de caixa num supermercado onde me abasteço regularmente e é uma valorosa dirigente sindical. É um setor feminizado e onde “sabe bem pagar tão pouco”. Este é o feminismo que conta. Já tivemos oportunidade de falar sobre lutas de classes. O espírito da Constituição da República Portuguesa de 1976 passa por aqui: nunca se desiste da “sociedade sem classes”, da igualdade cidadã baseada nos valores do trabalho com utilidade social, da distribuição ao ensino. 


Entretanto, um admirável intelectual catocomunista convidou-me para escrever um breve artigo para o site Terra da Fraternidade, uma coincidência curiosa, dado que a minha reaproximação a uma certa ideia de comunismo se dá ao mesmo tempo que quero cada vez mais sublinhar as convergências com o cristianismo do Papa Francisco, acreditando tanto nos que acreditam que chego a julgar que esta aí a essência de uma qualquer fé partilhada por todos os que tentam ter boa vontade. Escreverei sobre socialismo cristão e cristianismo socialista, então. 

Na passada sexta-feira, participei no jantar-comício com Paulo Raimundo e Fernando Teixeira, que reuniu meio milhar de pessoas em Arzila, na sede do grupo folclórico: comeu-se uma sopa de legumes, um rancho e um arroz doce muito bons. Como se cozinha assim para tanta gente? Mistérios da criação coletiva. Tive lugar à mesa e isso é o mais importante. Atentai sempre nas mãos visíveis, mas que uns poucos, muito poderosos, querem invisibilizar. Certamente inspiradas pela comida e pelo ambiente, as intervenções tiveram uma toada justa: 103 anos de combate a todas as direitas. No fim cantou-se a Grândola e a Portuguesa. Ninguém passa bem sem rituais. 

Lembrei-me de repente que há mais de um quarto de século, em 1995, acabado de entrar na JCP aos 18 anos, andámos por ali em campanha com Álvaro Cunhal. Falou em cima de uma carrinha de caixa aberta, “o cavalo branco ainda está em forma, bolas”, contaram-me que vociferou alguém, sem simpatia política, mas com admiração pela fibra. Nesse dia, almocei em frente dele na Figueira da Foz. Era setembro e estava aquela luz inconfundível da Figueira. Fui feliz e soube disso.


Ontem, domingo, fiz campanha na Feira de Lorvão, junto ao famoso mosteiro, que já foi hospital psiquiátrico. Estava pouca gente, mas se calhar até por isso deu para conversar calmamente com um concidadão, com quem de outra forma não falaria. Sair da minha bolha: “agradeço ao partido, porque graças a ele não termino em mim mesmo”, já dizia Pablo Neruda. 

Desculpai, mas é que, paradoxalmente, sai-me ultimamente este registo mais pessoal no meio da ação coletiva. O nós, a intencionalidade coletiva, é mais do que a soma de eus, bem sei. 

Também sei por introspeção que, para lá da medicina e da psicoterapia, não há, como magnificamente defendeu Mark Fisher em Realismo Capitalista, melhor antídoto para a melancolia política e a depressão do que a convergência com os outros, abrindo para a esperança mesmo em tempos sombrios: “um homem sozinho não é nada”, já dizia Manuel da Fonseca e disse mesmo bem.

Isto vai, amigos, isto vai.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Exegeses e polémicas

Krugman é importante porque é escutado; e é escutado porque os símbolos contam. O prémio do Banco da Suécia para a ciência económica é um falso Nobel, mas - por mais que seja atribuído por um banco e por mais que a sua galeria de laureados, com raras excepções, seja um monumento à ideologia liberal, à vacuidade intelectual e à sobredeterminação do objecto pelo método - pede emprestado o prestígio dos outros prémios Nobel. Tem por isso peso simbólico, e esse peso simbólico conta na batalha das ideias. Logo, excepto para quem queira limitar-se a pregar aos convertidos, não é de desprezar quando alguém como Krugman se assume como uma das raras vozes com uma audiência considerável que quebra os consensos mediaticamente impostos e publica análises e propostas susceptíveis de apropriação crítica por parte de quem defende posições progressistas. Sublinho, porém, a apropriação crítica - é aí que está o busílis da questão.

No meu último poste, remeti para uma série de exemplos de posições assumidas por Krugman, claramente em contra-corrente face ao discurso hegemónico, que correspondem precisamente a posições progressistas, na medida em que são favoráveis aos interesses dos trabalhadores e das classes populares. Mas também referi que "as suas análises macroeconómicas, que são muitas vezes acertadas, perdem robustez por não serem enquadradas numa análise crítica do desenvolvimento histórico do capitalismo". Com a vantagem da retrospectiva, deveria ter sido mais claro e mais específico: o problema das análises de Krugman é que delas está ausente um entendimento das dinâmicas e conflitos de classe. Tal não impede que Krugman acerte, para dar um exemplo entre muitos, quando interpreta a crise de 2007-? como uma crise de deflação de dívida à Fisher agravada pela austeridade (como muitos marxistas o fazem: ler em todas as crises o colapso iminente do capitalismo por acção da lei da queda tendencial da taxa de lucro não é marxismo, é confundir os desejos com a realidade). Nem impede que as suas propostas políticas favoráveis à recuperação do emprego sejam, lá está, progressistas (a chave para entendermos porque é que o são está não só nos benefícios directos que daí advêm para os trabalhadores como também na economia política do pleno emprego, que o João Rodrigues já aqui tem explicado).

Agora, esta lacuna ontológica e política do pensamento de Krugman tem como consequência, isso sim, a sua incapacidade para entender as dinâmicas político-económicas em curso em Portugal e na Europa enquanto ofensiva levada a cabo por uma aliança de circunstância entre diferentes fracções do capital nacional e internacional: Krugman entende estes processos como resultado de ignorância ou equívoco por parte dos decisores. Como corolário, tem também como consequência o seu entendimento dos governos, nomeadamente os da periferia europeia no contexto actual, como entidades benévolas que procuram maximizar o bem-estar das populações, ainda que, eventualmente, de forma equivocada. E é aqui, ao limitar-se a expor tecnocraticamente o leque de opções à disposição dos governos, assinalando timidamente as vantagens e desvantagens dessas opções, que Krugman expõe o flanco a todas as manipulações e apropriações por parte de todos os Camilos Lourenços desta praça, bem identificadas pelo Sérgio Lavos. Quando Krugman refere a 'desvalorização interna' dos salários e restantes preços como uma alternativa pior a uma política expansionista à escala europeia (essa sim, advogada), está a subestimar não só os constrangimentos estruturais da política à escala europeia como o gigantesco processo de redistribuição do rendimento, do trabalho para o capital, que está em curso em Portugal - e ainda a facilidade com que a sua posição pode ser distorcida. E eu, ao afirmar a expectativa de que Krugman contribuísse de forma mais positiva para os actuais debates e combates, sobrestimei a sua compreensão da situação e a sua inteligência táctica.

No meio do vendaval de exegeses que tem varrido a blogosfera, convém perceber o que esteve e está em causa. De resto, leiam, se ainda não o fizeram, este poste do João Rodrigues. E, como nota final, não posso deixar de sugerir à Raquel Varela (que tenho em boa conta apesar de diversas discordâncias) que estude um pouco mais ou leia um pouco mais deste blogue antes de nos apodar, preguiçosamente e por grosso, de neokeynesianos.