Francisco Louçã vai passar a ser Professor Catedrático Jubilado do ISEG-UL, a minha alma mater, dado que fez setenta anos. É só uma formalidade, mas tem substância, incluindo a chamada última lição.
Antes de irmos a essa substância, permitam-me que limpe o terreno inicial: Louçã sempre teve várias vidas, incluindo uma bem conhecida, a de militante político, marxista, consistentemente fiel a uma certa tradição trotsquista. Com ele tive e tenho convergências e divergências profundas, aproximações e afastamentos. Sim, isto também é político e pessoal, desculpai, é mesmo a vida toda.
Quero então dar testemunho do Professor e do intelectual público, do Mestre, como se houvesse esferas separadas, como se a política não entrasse – entra, a questão é como entra. Tenho uma dívida intelectual, científica, impagável, a que só se reconhece. Aqui vai.
Antes de ser seu aluno, li A Maldição de Midas, livro que muito me marcou por causa dos debates tão informados e bem sistematizados sobre socialismo, desenvolvimento e cultura num capitalismo que parecia avassalador. Antes de ser seu aluno, entrei em contacto e ele deu-me um conselho que segui à risca e pelo qual lhe estou eternamente grato: “estuda Karl Polanyi”.
Depois fui seu aluno, em 1998/1999, e logo numa cadeira opcional chamada Metodologia da Economia. Foi um exemplo do que é um Professor com p grande: escrupulosamente objetivo, atualizado, sério ao ponto de os mais distraídos confundirem isso com distância, mobilizador das nossas parcas inteligências, ainda para mais logo de manhã, bem cedo.
Ainda hoje me recordo das aulas, da entrada guiada no continente da filosofia da ciência económica, do positivismo de Miltom Friedman ao realismo crítico de Tony Lawson. Afinal de contas, ele tinha escrito uma tese de doutoramento na área – Turbulência na Economia – e continuou a escrever entre a filosofia económica e a história económica, economia política, As Times Goes By...
Eu e um dos meus melhores amigos, um dos que se fazem na faculdade e que são para o resto da vida, fizem um trabalho a dois sobre Economics and Reality, livro de Lawson. Incentivados por Louçã, mandamos-lhe um email com perguntas e eu ainda não tinha grande hábito de o fazer. Lawson respondeu e isso enriqueceu o trabalho.
António Avelãs Nunes, outro raro académico marxista, contou-me uma vez uma história, que ocorreu com o seu Mestre Teixeira Ribeiro: um estudante disse-lhe um dia que sabia, quando ainda não era tão conhecido, que era de esquerda, porque era o único professor que não fazia política na sala de aulas, verdadeira revelação de uma vocação a mimetizar nos dias de hoje. Esta história aplica-se a Louçã.
Por tudo isto e por muito mais, incluindo o privilégio de com ele e com a imprescindível Ana Costa cocoordenar, desde 2019, o bem-sucedido e interinstitucional Doutoramento em Economia Política, digo: muito, muito, obrigado pelas lições, Professor Francisco Louçã.


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