No estado em que se encontra o mundo, do gigantesco campo de morte a céu aberto em Gaza, cujo alegado Conselho da Paz, como afirmou Corbyn, não é mais que um Conselho de Ladrões, Conselho que na odiosa encenação política da sua apresentação pública, mereceu a presença de António Costa na qualidade de Presidente do Conselho do Europeu, passando pela perigosa autoimolação da União Europeia na terrível guerra por procuração da OTAN com a Rússia, à podridão pedófila em que se enterram elites governativas e multimilionários dos dois lados do Atlântico, afinal que importância tem o que escreve Susana Peralta, penso para os meus botões. Pensando isto, contudo, aquele texto não me sai da cabeça.
A verdade, a meu ver, é que, infelizmente, esta professora de economia na Nova School of Business and Economics, faculdade de economia cuja designação é todo um programa político-ideológico – a linguagem conta, ó se conta –, está longe de estar sozinha entre os colunistas da nossa praça que se acomodam às arbitrariedades imorais e ilegais da potência imperial, para não começar logo por dizer que para ela produzem consentimento. É isto que me incomoda e é isto que acabou por produzir as linhas baixo.
Jornalista: “Agora em termos do Irão e do impacto... As sanções realmente funcionam?”
Scott Bessent: “O presidente Trump ordenou que o Tesouro e a nossa divisão OFAC (Office of Foreign Asset Control), Gabinete de Controlo de Ativos Estrangeiros, exercessem pressão máxima sobre o Irão, e isto funcionou, porque em dezembro, a economia deles entrou em colapso. Vimos um grande banco ir à falência. O banco central começou a imprimir dinheiro. Há uma escassez de dólares. Eles não conseguem importar. E é por isso que as pessoas foram para as ruas. Portanto, trata-se de uma estratégia económica, sem tiros disparados, e as coisas estão a evoluir de forma muito positiva aqui”.
Acima excerto da prestação pública de Scott Bessent, Secretário de Estado do Tesouro dos EUA, no Fórum Económico Mundial que teve lugar entre de 19 a 23 de janeiro em Davos.
Apesar de ser o próprio centro do sistema imperialista a assumir que fez colapsar a economia iraniana e que foi isso que levou as pessoas à rua, Susana Peralta associa-se à inventona dos 30 mil mortos e ecoa o guião da CIA.
Que o pico da atenção mais que justa à questão do desrespeito pelos direitos das mulheres e às arbitrariedades do regime religioso do Irão coincida com o momento em que os EUA parecem ter decidido mais uma operação de mudança de regime, com risco de acabar num mortífero estatocídio, como no Iraque ou na Líbia, é apenas isso mesmo, uma coincidência. Não?
Que esse regime teocêntrico tenha resultado da oposição à ditadura de um Reza Shah Pahlavi entronizado pelos EUA e pelo Reino Unido, com o golpe que ambos impuseram a Mohammad Mossadegh, o primeiro-ministro democraticamente eleito que procurou acabar com a captura britânica do petróleo iraniano, é um facto histórico não considerado na narrativa de Peralta o que, sendo também uma coincidência (não?), lhe evita a maçada de, tendo denunciado os maus, se ver obrigada a pronunciar-se sobre os bons.
E entre os bons está o filho do deposto ditador Pahlavi, que se passeia por Washington como um capacho vil, apoiando todas as tropelias e arbitrariedades do Império contra o seu próprio povo. “Príncipe herdeiro do Irão” chama-lhe a democraticamente imprestável SIC, como se o filho de um ditador fantoche obrigado ao exílio fosse herdeiro de coisa alguma num regime democrático.
Com tanta e justificada atenção aos direitos das mulheres desrespeitados no Irão, no Império dominado por uma plutocracia amplamente comprometida com standards morais abjetos, a situação das mulheres não recebe uma palavrinha, outro acaso. Não?
E a todas estas coincidências, Peralta adiciona ainda a defesa da decisão da União Europeia (UE) de adicionar a Guarda Revolucionária iraniana à lista de organizações terroristas, decisão da distopia política cujas lideranças não eleitas se fazem fotografar com Abu Mohammad al-Julani o terrorista corta cabeças que EUA e os seus vassalos europeus colocaram na presidência da Síria.
Em abono de Susana Peralta, recordemos no entanto que a esquerda dita liberal permitida na comunicação dita social em Portugal não tem feito diferente. É de um padrão que se trata. O sistema imperialista precisa de amparo, aqui estamos nós. Todos sabemos o que tem de ser dito, o que fatura. E alguns dizem-no. Há contas para pagar.
Quando o Império colocou a sua força militar e política ao serviço dos sionistas israelitas no genocídio do povo palestiniano, Fernanda Câncio carpiu rios de mentira sobre a sórdida fabricação dos bebés alegadamente degolados pelo Hamas.
Quando o Império decidiu avançar até às fronteiras da Rússia, Rui Tavares defendeu que as armas atómicas francesas deviam ser colocadas no tabuleiro da guerra.
Quando o Império decidiu recolonizar a Venezuela, Daniel Oliveira escolheu dizer que Maduro é um ditador e quando o Império decidiu substituir a Dinamarca como potência colonial na Gronelândia descobriu uma ameaça russa àquele território.
Quando o Império foi denunciado pelo Papa Francisco, acusando a sua máquina de guerra, a OTAN, de ter ido ladrar para as portas da Rússia, Pedro Adão e Silva caracterizou o comportamento do chefe máximo da Igreja Católica como “anterior ao nosso tempo e ao nosso mundo” numa tentativa pífia de o esterilizar numa pretensa e desejada excecionalidade a-histórica.
Nenhum destes colunistas, que acerca de tudo (e mais umas botas) escrevem, condenou no entanto o desumano e ilegal cerco a Cuba, mais um crime dos EUA na iminência de causar mais uma catástrofe humanitária. Bastava isto para sabermos que para eles a legalidade internacional e os direitos humanos têm dias, os dias do Império.
É também por isso que, apesar do ordenamento legal na UE proibir que o orçamento comum seja utilizado para “despesas decorrentes de operações com implicações militares ou de defesa”, nenhum destes cronistas encontrou neste imperativo legal razão para se opor à corrida armamentista.
Lá está. A legalidade tem dias e estes podem não ser os mesmos da produção de consentimento de que carece o Império e/ou os seus vassalos. Derrotar o militarismo é necessário mas estar dentro do consenso que distribui colunas de opinião obriga, por exemplo, à defesa de uma "politica comum e coordenada de defesa".
Citando novamente o biógrafo de Keynes, Robert Skideslky, a “insistência numa ameaça russa existencial funciona não apenas como uma avaliação estratégica, mas como uma cobertura política para uma mobilização industrial massiva que os líderes da UE esperam que restaure a competitividade económica europeia. (...) a tentativa de introduzir sub-repticiamente uma política industrial sob a bandeira de uma situação de guerra — cultivando o medo e exagerando as ameaças — não é honesta nem aceitável”.
Cobertura política aos desmandos do Império e dos seus vassalos é tudo a que a esquerda não pode resumir-se, diria, quase concluindo. É preciso pensar o mundo a partir de Portugal. Como se diz aqui, não temos de ser arrastados pelo imperialismo. Não há, assim, unidade possível com os adversários da paz.

2 comentários:
Excelente!
Filipe Diniz
Ainda hoje estou para perceber porque razão esta merda de país só consegue produzir professores de bolhas de sabão. Químicos; físicos, matemáticos, por cá fora com eles. É tudo gente de quantificação aproximada. Certo, certo mesmo é que com esta gente não se vai a lado nenhum.
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