domingo, 18 de janeiro de 2026
Obrigado
Há batalhas em que o mérito está desde logo em travá-las, independentemente dos resultados, como sabe muito melhor do que eu. Disse e bem que sentia a responsabilidade em continuar a luta, incluindo para derrotar este pacote laboral, este consenso neoliberal. Isso é o mais importante, ser-se imprescindível. Obrigado, António Filipe.
Eterna glória antifascista
Quando andei pela Marinha Grande, no verão passado, tirei umas notas: no triste museu do vidro só falam praticamente os patrões, alardeando “responsabilidade social” e tudo; temos de sair dali, para rotunda do vidreiro, para ver a memória da heróica resistência operária, a do 18 de janeiro de 1934.
sábado, 17 de janeiro de 2026
Em dia de reflexão
«Entre junho de 1985, com a queda do governo do Bloco Central e março de 1986, quando Mário Soares se tornou no primeiro civil em sessenta anos a tomar posse como Presidente da República, Portugal viveu um dos períodos mais intensos, participados e surpreendentes da nossa vida democrática. (...) O país dividiu-se em duas metades quase perfeitas, entre esquerda e direita e Soares venceu por uma margem mínima. Naquele mesmo dia, declarou solenemente pretender unir o país. Foi tão bem-sucedido neste seu propósito que, cinco anos mais tarde, havia de ser reeleito com mais de 70% dos votos, um absoluto record na nossa história democrática. Quando a campanha para as presidenciais de 1986 se iniciou, no entanto, tal desenlace não era remotamente previsível».
Lembrar, para quem ainda não tenha visto, a recente série documental, com argumento e realização de Ivan Nunes e Paulo Pena, transmitida na RTP, sobre as presidenciais de 1986. Não percam.
Filme e quadro no dia de reflexão
Como não amar a Revolução, os “dez dias que abalaram o mundo”? Como não amar o jornalista e militante comunista John Reed, o único norte-americano enterrado no Kremlin, e a indómita Louise Bryant, sua companheira até a um fim tão precoce? Como não amar as interpretações de Warren Beatty e da imortal Diane Keaton, o mais luminoso sorriso, num luminoso plano?
Vi o Reds com o meu pai há mais de trinta anos. Vi-o na semana passada com o meu filho e disse-lhe que eles os dois estavam lá, a viver e a relatar um dos mais importantes acontecimentos da história da humanidade, como o meu pai me tinha dito. Cadeia do tempo sem fim.
Assim falou Geliy Mikhailovich Korzhev-Chuvelyov (1925-2012) nos terríveis anos 1990, os da katastroika, informa-nos a sua pobre página na Wikipédia em inglês:
“Nasci na União Soviética e acreditava sinceramente nas ideias e ideais da época. Hoje, consideram-nas um erro histórico. A Rússia atual possui um sistema social diametralmente oposto àquele em que eu, como artista, fui criado. Aceitar um prémio estatal equivaleria a confessar a minha hipocrisia ao longo de toda uma trajetória artística. Peço que se considere minha recusa com a devida compreensão.”
Como não amar a pintura tão rica e tão intensa deste Homem Soviético, como se vê neste “erguendo a bandeira”, de 1957, parte de um tríptico? Se assim já é impressionante, imagine-se ao vivo.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
Sim, sois um bando de intelectuais
Face às excitadas e engraçadinhas reações, eventualmente reveladoras de preferências desinformadas, por parte de intelectuais da direita pura e dura que sintomaticamente apoiam Seguro, venho por este meio informar que o uso da palavra intelectual não contém, por si só, qualquer elogio ou crítica.
Como sublinhou o leninista Antonio Gramsci, todos os indivíduos são intelectuais, na medida em que são compelidos a pensar, mas, na divisão social de trabalho existente, nem todos fazem, predominantemente, do intelecto modo de vida. A palavra predominantemente é crucial aqui, note-se.
E para lá dos intelectuais tradicionais, temos os chamados intelectuais orgânicos. São-no os que organizadamente se inserem na vida socioeconómica e no combate político ao serviço de uma classe ou fração de classe.
Dominando direta ou indiretamente cada vez mais meios de produção intelectual, as burguesias dispõem hoje de um enxame relativamente bem pago na academia, na comunicação social, nos grandes escritórios de advogados e noutras grandes empresas, nos partidos, da extrema-direita ao extremo-centro, nas plataformas, nos stink-tanks, nas fundações, no aparelho de Estado, nas organizações internacionais, etc.
Hegemonia, já agora, é, em Gramsci, a multifacetada liderança de classe, a que idealmente articula coerção minimizada e dirigida e consenso maximizado e difuso, garantindo uma certa congruência entre as sempre interligadas relações sociais de produção e superestruturas político-ideológicas.
A hegemonia neoliberal, tão bem denunciada nas suas declinações nacionais por um esperançoso António Filipe, está a desfazer-se à escala internacional. Também por cá, o agigantamento da economia de guerra, num contexto de crise, mostrará a cada vez mais o papel cada vez maior da coerciva mão direita de um Estado cada vez mais de classe, à medida que se vai erodindo o Estado social.
Haja guerra de posição, a que pode transformar-se em guerra de movimento. Haja objetividade, mas nunca neutralidade. E haja sempre uma fé nos peitos.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Desprezo
Peço desculpa aos leitores do blogue, porque falhei na previsão: a bolha de Cotrim não rebentou no dia 18, mas começou a rebentar ali para o dia 12 e acabou hoje, dia 15.
E, ao rebentar, revelou-se, uma vez mais, a fraude monumental que são estes liberais até dizer chega, os que abraçam fraternalmente os fascistas, tal como fizeram tantos outros antes deles, da Itália de Mussolini ao Brasil de Bolsonaro.
Cotrim é de resto da mesma laia de Blanco e de outros racistas e mandonistas da IL, os que abusaram da sua posição na AR, lembrem-se da história imoral deste partido.
“Não sei o que me passou pela cabeça”, disse Cotrim a certa altura, para justificar o apoio a Ventura. Aconselho-o a ver o Dr. Strangelove para se conhecer melhor a si próprio.
Entretanto, quero notar o seguinte: o que passa por carisma na comunicação social de classe não passa de uma ficção que se desfaz à primeira “dificuldade”, ao primeiro escrutínio geral.
Querem saber o que é carisma? Ouçam uma operária chamada Conceição Lobo no piquete de greve da Lameirinho, um só exemplo de muitos: 58 anos, 45 anos de trabalho.
Há ali mais vida, mais garra, mais carisma, do que em qualquer destes betos endinheirados, que só nos devem merecer o mais rematado desprezo.
A moeda é política
No seu encalço, adiciono a seguinte nota de economia política internacional, neste contexto de ataque trumpiano ao Presidente da Reserva Federal, sob pretexto de uma renovação da sede que furou o orçamento.
“Trump deve ser levado a sério, mas não literalmente”, como sempre se disse. Por trás de tudo o que faz esta administração está, em termos internacionais, a questão da rivalidade dita estratégica com a China, numa linha que já vem de Obama-Biden.
Ora, os chineses sempre mantiveram uma firme articulação entre as finanças públicas e o banco central, com a política monetária a ser subordinada às opções mais gerais de política económica. Nunca houve na China ficções de “independência” do banco central, nem pode haver em qualquer processo de transformação estrutural, no quadro de uma economia mista, incluindo a que garante aí a crucial descarbonização acelerada.
Para o processo militarista e imperialista de travagem da ascensão pacífica da China, movido a controlo de recursos e a capitalismo fóssil, os EUA têm de mobilizar tudo, imitando os chineses nos meios da política económica, garantindo a subordinação da política monetária à política orçamental. Insiste-se: há sempre dinheiro para o que as classes dominantes querem fazer, o constrangimento, numa economia monetária de produção capitalista, não é financeiro, mas sim de mobilização de recursos reais.
De resto, os EUA têm crescido graças aos défices orçamentais persistentes, estimulando orçamentalmente a economia, ao contrário dos países da UE. O keynesianismo militar e para ricos vem de Reagan. O resto são as habituais bolhas, as que resultam de um quadro liberal, favorável às míopes forças da concorrência financeira, as que acabam na fraude generalizada, no crime sistémico, na crise assimétrica.
Entretanto, a distinção é de alguns meios e de todos os fins e daí o apoio que todos os progressistas devem dar à República Popular, que está na linha da frente da redução das desigualdades internacionais e no combate às alterações climáticas, ao mesmo tempo que sempre limitou a financeirização da sua economia. E daí a ausência na China de crises financeiras e logo nas últimas décadas, marcadas por turbulência internacional particularmente intensa, como sabem os que estão atentos à história económica.
Face aos economistas social-liberais, os que engoliram um manual neoclássico de economia monetária, onde a fraude começa no multiplicador monetário, como assinalou Tiago Santos, sublinha-se: a “independência” dos bancos centrais sempre foi perigosa, dando aparências de neutralidade a uma política neoliberal de produção e distribuição, aliás responsável por este declínio da UE.
O patético abaixo-assinado de onze bancos centrais, com o BCE à cabeça, em apoio à Reserva Federal, é só um sinal do ocaso de uma certa elite transatlântica neoliberal, a que abriu caminho aos Trumps desta desgraçada vida.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
O desplante também tem um padrão
Não é só o padrão da falta de escrúpulos, em anunciar, como novas, medidas que vêm de governos anteriores (num caso particularmente grave face à circunstância de estarem em causa vítimas mortais associadas a falhas no socorro). É também o desplante com que se afirma uma coisa quando se está na oposição e exatamente o seu contrário quando se está no governo. Há também aqui um padrão, bastando recordar as declarações de Luís Montenegro sobre o problema da falta de professores, antes e depois de assumir as funções de Primeiro-Ministro.
Não sois isto
O que têm em comum Jorge Marrão, Vasco Rato, Pedro Gomes Sanches, Gonçalo Cevada, Henrique Pereira dos Santos, Henrique Raposo, Nuno Palma ou Nuno Gonçalo Poças? São intelectuais da direita pura e dura, a que vai do Observador ao Expresso dos Berlusconi. E são apoiantes de Seguro.
A política de Passos é realmente hegemónica, vai dos seus filhos prediletos, Cotrim-Ventura, ao sempre cúmplice Seguro.
Seguro, lembremos, nunca renegou o apoio que deu a Passos no tempo da dispensável troika e sempre procurou convergências, como se vê bem-sucedidas, com estes setores. Não foi por acaso que não disse que era de esquerda.
Vós, povo de esquerda, não sois isto.
Das conjugações às clarificações
Daniel Oliveira afiançou recentemente: “Para a América Latina, nada disto é novo. Mas na Europa passámos de aliados dependentes a subordinados decadentes”.
A “Europa” e a primeira pessoa do plural nessa escala são parte do principal problema político e intelectual dos que passaram a situar-se por defeito na esquerda otanizada e europeizada em Portugal.
Os EUA, como se sabe, nunca foram aliados do país, não o foram em 1949, em 1974 ou em 2025, haja história e memória.
E não há “ameaça russa”, permanente e reveladoramente convocada, que apague este facto. Como disse o historiador Vijay Prashad: “A NATO [OTAN] não tem ameaças reais, apenas alucinações caras”. A complacência com o militarismo alimenta monstros, como temos insistido.
A Europa é, entretanto, um continente, felizmente plural, que vai dos Urais até esta periferia e, no espírito de Helsínquia, terá um dia uma arquitetura de cooperação e de segurança comum, sem OTAN e sem blocos.
A UE, que tantos, tantas vezes, tentam fazer passar por “Europa”, é uma robusta declinação institucional do sistema imperialista liderado pelos EUA, uma máquina austeritária de liberalização geradora de fascismos, até pela impotência social-democrata, já nem digo socialista, que favorece.
O tal “nós” tem de ser primeiramente nacional-popular e tem de procurar as solidariedades internacionalistas com os outros “nós”. Os nacionalistas galegos sabem isto melhor do que tantos. Há tanto para aprender com os nossos irmãos do Norte.
E o facto de “nada disto ser novo” para os países da América Latina (e para os da África e da Ásia e das periferias europeias...), só deve levar quem é social-democrata deste lado a pelo menos respeitar quem aí esteve e está na linha da frente da resistência ao imperialismo, de Cuba à Venezuela.
Ao invés, é tudo corrido a “ditador” e está muito do assunto conveniente e liberalmente arrumado, mesmo quando chefes de Estado são raptados e tem de se exigir a sua libertação.
Os que corajosamente pagam um preço elevadíssimo pela resistência, até por via de sanções mortíferas decretadas unilateralmente por EUA e UE – mais de cinco milhões de mortes na década até 2021 a nível mundial, estima-se na The Lancet – são demasiado incómodos para a “sabichonice do dever ser”, tão bem denunciada por Domenico Losurdo.
Jeremy Corbyn, pelo contrário, sempre reconheceu o inimigo principal, o que define os aliados, mas, lá está, ele é um social-democrata verdadeiramente excecional, como se prova uma vez mais.
Por cá, muitos social-democratas têm estado mais interessados, e isto inclui Daniel Oliveira, em usar as posições de poder comunicacional que lhe são conferidas para atacar de forma regular os comunistas portugueses sobre tudo e um par de botas.
No fundo, é como se os comunistas tivessem culpa de estar sistematicamente mais certos do qualquer outro intelectual nacional, individual ou coletivo, e de ainda terem uma organização. Acerto não é sinónimo de poder, tal como poder não significa acerto. Haja distinções.
Como se fosse uma nota de rodapé
Tem de haver reciprocidade, apesar de toda assimetria de meios, porque escasseia a paciência para a superioridade moral unitária nos termos do P sem S, nos de Seguro, envergonhadamente apoiado à primeira volta.
Afinal de contas, um eventual novo jazigo, como já se propôs, no cemitério de siglas políticas de esquerda não parece ter compradores. Haja modéstia, porque temos todos muitas razões para sermos modestos.
A unidade política, essa, começa nos piquetes de greve e todos sabemos quem os organiza. A unidade começa nas manifestações anti-imperialistas e todos sabemos quem as organiza.
Depois, há quem fale, mas sempre depois de outros carregarem os pianos e combaterem com coragem as sereias do “voto no mal menor, que acaba tantas vezes no arrependimento maior”, como bem disse Sofia Lisboa. E, se desgraçadamente chegarmos de novo aí, já se sabe quem ilegalizarão em primeiro lugar, quem levarão em primeiro lugar.
Pronto, de vez em quando peco e respondo em geral às pessoas com quem estou em desacordo, mas acabo sempre por tentar corrigir, dizendo os nomes de quem assim me faz pensar, sendo que esta atitude muitas vezes não é simétrica, insisto, chegando aos extremos de um Rui Bebiano, por exemplo.
De resto, só se pensa quando há desconforto intelectual e oposição. Às vezes, esta oposição tem de ser a quem está aparentemente mais próximo, com toda a frontalidade cordial. Até porque sem clarificações à esquerda, não há ações coletivas.
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Agravamento da crise de habitação em Portugal face ao contexto da UE
Como era de prever, a aceleração dos preços da habitação com a entrada do governo da AD em funções - provocando um ritmo de aumento sem precedentes do respetivo índice (+27%) - distanciou ainda mais Portugal dos valores registados à escala da UE. Se no 1º trimestre de 2024 a diferença era de 78 pontos, no 3º trimestre de 2025 passa para cerca de 129, afastando assim ainda mais o nosso país da média europeia.
Na crença obstinada de que os incentivos à procura e ao aumento da oferta são suficientes para resolver o problema, Luís Montenegro defendeu, no último debate quinzenal, que com as «medidas arriscadas» que o governo agora adotou, a «moderação dos preços», na compra e no arrendamento, «será inevitável», estando por isso disposto a «aguentar o embate do período de transição», até haver resultados. Um infundado ato de fé, portanto, reforçado pela evidência do efeito contrário que as medidas já adotadas geraram.
Além de a referência de «preço moderado» instituída pelo governo (2.300€ de renda mensal) constituir um absurdo face aos rendimentos das famílias (em 2021 apenas 2% dos alojamentos tinham valores mensais de renda acima de 1.000€), contribuindo para «puxar» todos os valores ainda mais para cima, o governo deveria prestar atenção a um facto: o aumento gradual da oferta nos últimos anos (de 7 mil para cerca de 25 mil novos fogos por ano, entre 2015 e 2024), não teve qualquer efeito na estabilização dos preços, que continuaram, pelo contrário, a aumentar.
Na crença obstinada de que os incentivos à procura e ao aumento da oferta são suficientes para resolver o problema, Luís Montenegro defendeu, no último debate quinzenal, que com as «medidas arriscadas» que o governo agora adotou, a «moderação dos preços», na compra e no arrendamento, «será inevitável», estando por isso disposto a «aguentar o embate do período de transição», até haver resultados. Um infundado ato de fé, portanto, reforçado pela evidência do efeito contrário que as medidas já adotadas geraram.
Além de a referência de «preço moderado» instituída pelo governo (2.300€ de renda mensal) constituir um absurdo face aos rendimentos das famílias (em 2021 apenas 2% dos alojamentos tinham valores mensais de renda acima de 1.000€), contribuindo para «puxar» todos os valores ainda mais para cima, o governo deveria prestar atenção a um facto: o aumento gradual da oferta nos últimos anos (de 7 mil para cerca de 25 mil novos fogos por ano, entre 2015 e 2024), não teve qualquer efeito na estabilização dos preços, que continuaram, pelo contrário, a aumentar.
Recordar é viver
Desculpai, sou um chato que tenta não perder o fio à história e à memória, neste último caso ajudado por um motor de busca de um blogue com quase vinte anos. E recordar é viver, como nos ensinou o grande Vítor Espadinha.
Se em 2025, Seguro frequentava regularmente o stink-tank que serve para a IL contornar a lei de financiamento dos partidos, em 2024 frequentava o MEL, como se pode ver na foto, na companhia de figuras como Camilo Lourenço.
Mas o que é o MEL? É o acrónimo de Movimento Europa e Liberdade, associação protagonizada por Jorge Marrão (em pé, na foto, ao lado de Seguro). Ficou conhecido como ponto de convergência das extremas-direitas, em 2020, de Morgado a Cotrim-Ventura, ao organizar uma grande conferência na Culturgest, a que aqui nos referimos.
Marrão pertence ao universo das consultoras, a grande aldrabice que prosperou à conta do esvaziamento das competências e capacidades estatais desde o cavaquismo. Passista da troika, é atual apoiante de Seguro. Está tudo ligado, realmente, acabando num currículo que é todo um programa, segundo a Deloitte:
“O [sic] Jorge Marrão lidera o setor de Real Estate em Portugal. Além dos segmentos tradicionais de Real Estate, tem ainda a responsabilidade de Mergers & Acquisitions (fusões e aquisições) em Hotelaria. Ainda a seu cargo está a área de Marketing, Communications and Business Development.
Adicionalmente, representa a Deloitte Portugal na rede global, pela área de Clients & Industries. É presidente da Associação Projeto Farol, uma iniciativa lançada pelo think tank, Deloitte Circle, focada em apresentar um conjunto de propostas sobre a economia portuguesa, na próxima década.”
O povo não se engana: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Ao que se deve acrescentar, em política, tal como na arte, diz-me por que espaços circulas, dir-te-ei o que vales. E ainda, entre outras: diz-me como votaste, sem pressa, no tempo do dispensável desperdício da troika, quando outros resistiam...
Liberais até dizer chega
Quando vejo um beto endinheirado, com apelido e correspondentes conexões, nestes preparos, penso em reclamar direitos de autor sobre o “liberal até dizer chega”. Bugalho é uma alma gémea de Cotrim, da classe às ideias. Afinal de contas, apoia Marques Mendes, um facilitador de negócios, rivalizando com o candidato da IL e com o seu mandatário fascista.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Confirmar
Entre democratas, isto nem deveria exigir grande reflexão. Ainda assim, a resposta é bastante elucidativa. Tal como no passado, quando confrontado com “Cunhal ou Salazar?” e a resposta de Cotrim foi: “não consigo responder”.
Enésima confirmação: o anticomunismo, indissociável da sempre antidemocrática defesa desabrida do capitalismo, abre, objetiva e subjetivamente, caminho ao fascismo.
Por isso, apodei de liberalismo até dizer chega a ideologia que se tenta apropriar da bela palavra liberdade. Fi-lo no Le Monde diplomatique de abril de 2021, atualizando a análise em junho de 2023: liberais até dizer chega.
Os mesmos mecanismos que promovem a oferta do Chega, promovem a da IL, sendo que a oferta cria a sua própria procura neste caso: do financiamento capitalista ao capitalismo televisionado.
A insegura bolha de Cotrim
Seguro andou cheio de iniciativa liberal em 2025...
Cotrim serve para os apoiantes de Seguro agigantarem papões de Cotrim-Ventura na segunda volta, à boleia de “sondagens” ditas de “tracking”, que, reconhecidamente, só servem para condicionar.
Apelam assim a um voto inútil, até porque fragilizaria os imprescindíveis, os que, ao contrário de Seguro, não aprovaram cortes de subsídios de Natal e de férias ou de feriados durante a troika, que nunca desertaram, que sempre foram úteis.
Enquanto Seguro assim procedia, enquanto centenas de milhares de jovens emigravam, Cotrim era nomeado pelo governo da troika para uma sinecura de promoção do turismo, desgraçada especialização deste país assim de salários ainda mais baixos.
Seja como for, existe, em paralelo à chantagem habitual, uma complacência social-liberal em relação a Cotrim, procurando distinguir de Ventura este pinochetista da IL, com um mandatário vindo do terrorismo fascista e que representa a pior escumalha negocista deste país.
Cotrim é tão ou mais perigoso do que Ventura para as réstias de democracia substantiva neste país, reconhecendo eu que há uma divisão de trabalho social e política entre estas duas encarnações das frações mais reacionárias do capital.
Na substância programática e ideológica são indistinguíveis no seu fundamentalismo liberal autoritário de recorte anticonstitucional: da brutal redução da progressividade fiscal à distópica transformação da força de trabalho em mercadoria descartável, passando pelo propósito de transformar o que resta de Estado social em Estado-garantia para os negócios, pela forma como mobilizam o populismo triádico, pelo apoio ao imperialismo mais genocida ou pelo negacionismo climático.
Cotrim disfarça o seu extremismo com aquele assumido toque de classe, o toque que faz com que nesta sociedade a polida burguesia videirinha pareça o cúmulo da sensatez. É mais perigoso do que o boneco de Ventura por causa disso. De resto confundir “carisma” com promoção mediática é de uma desonestidade só ao alcance destes liberais até dizer chega.
Cotrim tem atrás de si uma poderosa infraestrutura intelectual, maciçamente financiada por milionários, culminando no stink-tank da IL “mais liberdade” (para explorar e expropriar), com a vantagem de não estarem limitados pela lei de financiamento dos partidos. Curiosamente, Seguro tem-no frequentado, confirmando que pertence ao “consenso neoliberal”, tal como denunciado por António Filipe.
Perante estes selvagens, sonso e complacente, Seguro chegou a dizer que não conhecia nenhum candidato que fosse contra o SNS, apelando a pactos vagos. Desmemoriado, esquece-se de uma história política que mergulha na aprovação do SNS por socialistas e comunistas. Está mesmo muito longe de Arnaut e assim. Não há ali réstia do antifascismo militante de que precisamos.
domingo, 11 de janeiro de 2026
Do crime sistémico
Com o seu deliberado desmantelamento do SNS, da infraestrutura de saúde pública, este governo leva longe o conceito de “capitalismo do crime sistémico”, forjado por António Avelãs Nunes no seu último livro, que tive o prazer de apresentar em Coimbra.
A notícia da não reativação do reforço de ambulâncias neste inverno é só uma pequena parte de um plano mais vasto de promoção do capitalismo da doença.
Tudo começa num orçamento do Estado que, e já não é de agora, canaliza cerca de metade dos recursos para aí e acaba na austeridade tão perpétua quanto socialmente seletiva.
Não, não é incompetência. Como disse o sempre lapidar Capitão Gancho: “Nunca tomes por incompetência aquilo que pode mais elegantemente ser explicado por liberalismo”.
Sim, sabemos há décadas, graças à investigação dos determinantes sociais da saúde, que o liberalismo mata e que o imperialismo liberal mata ainda mais. Isto está mesmo tudo sistemicamente ligado.
Adenda. É como se Adriana Varejão, notável artista brasileira, estivesse a pensar nesta política. Conheci-a numa exposição na Gulbenkian, em Lisboa, no ano passado, em que esteve num inesquecível e interminável diálogo com Paula Rego.
sábado, 10 de janeiro de 2026
Intervenção
Num blogue politicamente plural, partilho a minha intervenção, enquanto mandatária distrital da candidatura de António Filipe em Coimbra, no comício que teve lugar ontem, num auditório cheio do Instituto Português do Desporto e Juventude.
Vivemos um tempo politicamente exigente.
Um tempo em que se tenta convencer o país de que não há alternativas.
De que a desigualdade é natural.
De que a precariedade é inevitável.
De que a dependência externa é uma fatalidade.
De que a autodedeterminação dos povos é uma quimera.
Mas a história do nosso povo mostra exatamente o contrário, não estamos condenados a este sombrio presente e a um ainda mais sombrio futuro. E é por isso que a candidatura de António Filipe é necessária.
Não por oportunismo político.
Mas por exigência soberanista e, logo, democrática.
A candidatura de António Filipe não é uma candidatura de circunstância. É uma candidatura de coerência e de compromisso com um país e o seu povo. Afirma algo simples, mas hoje profundamente subversivo: que o Presidente da República deve cumprir e fazer cumprir a Constituição, defender os valores de Abril e estar do lado de quem trabalha e vive do seu trabalho – e não dos interesses dominantes.
Afirma também algo essencial: que a Presidência da República não é um lugar de silêncio confortável, nem de comentários ocasionais, selfies permanentes ou gestão de consensos anticonstitucionais.
Num momento em que a direita concentra poder institucional e pressiona para o retrocesso em direitos sociais, esta candidatura recusa-se a ser cúmplice. É preciso tomar posição quando os direitos dos trabalhadores, os serviços públicos, a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde e a Segurança Social são enfraquecidos. É preciso ser espaço de resistência quando a democracia é atacada.
Aceitei ser mandatária distrital por Coimbra porque acredito profundamente nesta candidatura. Porque acredito que a democracia não se defende sozinha.
Mas também porque acredito no nosso distrito.
Coimbra é muitas coisas ao mesmo tempo. É cidade universitária, mas também é território de trabalho precário. É ciência e conhecimento, mas também é interior esquecido. É serviços, indústria, agricultura, cuidados, cultura. E é precisamente por isso que Coimbra – e o país – precisam de um Presidente da República que não fale apenas para uma parte da sociedade, mas que seja capaz de representar quem vive do seu trabalho, independentemente da profissão, da idade ou do percurso de vida.
Aquilo que temos visto no distrito de Coimbra nesta campanha confirma isso mesmo.
Os apoiantes desta candidatura são pessoas de várias idades, géneros, profissões e trajetórias. Trabalhadores da saúde, da educação, dos serviços, da indústria, da administração pública, da cultura, da ciência. Reformados e estudantes. Gente que vive realidades muito distintas, mas que partilha uma mesma recusa da resignação.
Isto não é um detalhe.
Isto é política no seu sentido mais profundo.
Mostra que esta é uma candidatura ampla, inclusiva, popular. Uma candidatura que fala para quem vive do seu trabalho, para quem sente as dificuldades no dia a dia, para quem não aceita a ideia de um país adiado. Uma candidatura que convoca democratas, trabalhadores, todos os que querem um país mais justo e mais digno.
Falo também enquanto mulher jovem e independente. Não venho da política profissional – e isso não me coloca à margem desta candidatura. Pelo contrário, aproxima-me dela. Porque esta é uma candidatura que não pertence a uma geração, nem a um percurso único. É uma candidatura aberta, plural, onde cabem diferentes idades, experiências e formas de participação política.
No distrito de Coimbra, esta campanha tem sido feita no terreno: a divulgar o comício, a contactar a população, a falar com trabalhadores, a ouvir problemas concretos. Sem promessas vazias, sem discursos ensaiados para a televisão, sem distância.
Porque é assim que se faz política séria: com contacto direto, com respeito, com escuta.
E esta forma de estar diz muito sobre o próprio candidato. António Filipe tem feito uma campanha de proximidade, de diálogo, de presença junto de trabalhadores, associações, estudantes, movimentos sociais. Uma campanha que não se orienta por sondagens, nem por cálculos de “voto útil”, mas por convicções políticas claras e por confiança no povo português.
Falo-vos também a partir da minha experiência pessoal.
Sou ex-investigadora científica. Trabalhei vários anos na academia portuguesa e conheço bem a realidade de milhares de trabalhadores científicos que vivem numa situação de precariedade permanente. Sei o que significa trabalhar num sistema científico e tecnológico que precisa do nosso trabalho, mas não o reconhece como tal – e nos trata como se fôssemos descartáveis.
Portugal continua a formar pessoas altamente qualificadas para depois as empurrar para a insegurança laboral: bolsas sucessivas, contratos a prazo, ausência de direitos, instabilidade constante. Muitas acabam por sair do país. Outras desistem da ciência, porque não têm alternativa – como foi o meu caso.
E o país perde conhecimento, capacidade crítica e autonomia.
Isto não é apenas um problema da ciência.
É um problema da democracia.
Porque quando um país investe na formação dos seus jovens e depois os obriga a emigrar ou a desistir, está a desperdiçar futuro. Está a transferir para outros países aquilo que foi construído coletivamente. E está a fragilizar a sua capacidade de decidir, de inovar e de responder às questões sociais.
A ciência é um bem público. Tal como a escola pública, o SNS ou a segurança social.
E o Presidente da República não pode ser neutro quando estes pilares são atacados.
O mesmo vale para a política externa. Defender a Constituição é também defender a paz, o diálogo e a cooperação entre os povos. É recusar a normalização da ingerência externa e da guerra, da escalada militar e do confronto entre povos.
Esta candidatura afirma uma visão de futuro assente na paz, na justiça social, nos direitos e na participação democrática.
Por isso, esta candidatura importa.
Porque recusa o medo.
Porque recusa a política do mal menor que agiganta o mal maior.
Porque confia no povo português, na sua inteligência coletiva e na sua capacidade de lutar por um país mais justo.
Porque acredita que a democracia se fortalece quando as pessoas participam, quando escolhem por convicção e quando não abdicam dos seus princípios.
Esta é uma candidatura que olha para o futuro com esperança ativa.
Uma esperança que se constrói com direitos, com trabalho digno, com serviços públicos fortes, com cultura, com ciência e com democracia real em todas as esferas da vida.
É essa esperança que hoje afirmamos aqui.
E com o voto em António Filipe vamos longe.
Viva Portugal.
Muito obrigada.
Para lá da paródia
A linha editorial do Público já está para lá da paródia. Quem diria? Na secção de opinião deste jornal euro-liberal, talvez só os sintomaticamente quinzenais Ricardo Paes Mamede e Manuel Loff. Quem diria fora do Público, um jornal onde militante comunista já não entra? A Soeiro Pereira Gomes e assim, onde reside o melhor intelectual coletivo nacional...
Notas com sabor a cinza
1. Alegrai-vos. Graças à máquina de liberalização que é a UE, vamos comer picanha mais barata, com vinho argentino para empurrar, enquanto vemos na TV a Amazónia a arder ainda mais, com os nossos campos esvaziados a serem pasto, mas só para mais fogos igualmente televisionados. Haverá cada vez mais fumo e não será branco.
2. Sim, o social-democrata Lula também erra e de forma crassa, como os setores estruturalistas brasileiros, na tradição de Celso Furtado e de Maria da Conceição Tavares, sabem. É de facto um “tratado [UE-Mercosul] ultrapassado e neoliberal”. A poderosa bancada brasileira do “boi, bala e bíblia” agradece.
3. As multinacionais do centro europeu terão mais mercados para escoar o que os chineses já não precisam, uma distopia liberal sem fim. Agora é mascarada de sabedoria geopolítica, como se esta pudesse ser desligada dos impactos assimétricos deste protecionismo dos mais fortes a que chamam convencionalmente de “comércio livre”.
4. Por cá, os neoliberais de quase todos os partidos, do chamado centro-esquerda à extrema-direita, autênticos vende-pátrias, saúdam mais esta abdicação de soberania económica. Não lhes bastou todas as outras. As mãos só invisíveis para quem ainda distraído acabarão de escavacar e de sucatear os circuitos mais curtos da produção nacional.
Adenda. A fotografia é de Lalo Almeida, parte da sua Distopia Amazônica, e pode ser vista na magnífica exposição Complexo Brasil, patente na Gulbenkian, em Lisboa, até fevereiro.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Hora de dizer não?
Augusto Santos Silva abandonou há muito qualquer referência marxista e agora tem de redescobrir muito apressada e seletivamente a crítica ao imperialismo, sem análise sistémica, sem história, sem quase nada. Sobram atoleiros e assim. Estou a pensar no seu artigo que saiu no Público, cujo título está incompleto e deve de ser corrigido: hora de aparentemente dizer não, depois de tanto tempo a dizer sim.
Há aí misteriosos interesses e também há valores, mas que são negados pela prática do Consenso de Bruxelas-Frankfurt. O essencial começou agora, com Trump e daí a hora.
Paradoxalmente, é ainda como se vivêssemos num eterno presente, dado que o passado desaparece e o futuro aparenta ser um prolongamento dos estados de alma atuais. Um historiador chamado François Hartog apodou esta experiência do tempo de presentismo, de resto indissociável do domínio mercantil absolutamente prevalecente.
Santos Silva é historiador de formação e tem a obrigação de fazer melhor, mas não pode. Afinal de contas, estamos a falar do ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo que reconheceu como Presidente um venezuelano, saído da enésima tentativa de golpe, com mão visível de fora, já ninguém se lembra do seu nome: Guaidó, ou lá o que era. Haja história e memória, nem é preciso recuar muito.
Nem falemos da NATO, ele próprio reconhece que está emaranhado nas suas contradições. A contradição é sempre produtiva, se for real, mas neste caso não é: sob a aparência de mudança, o mesmismo. Os EUA podem fazer o que quiserem. Nesta relação de forças, a NATO está de pedra e cal.
Santos Silva tem, claro, demasiada inteligência tática para vir agora com o “Maduro é ditador”, ao contrário da sua tropa fandanga, mas agarra-se, como sempre, a uma UE inventada. A sua UE realmente existente faz há muito parte do problema do neoliberalismo, do federalismo e do militarismo, indissociáveis da subalternidade histórico-institucional em relação aos EUA, retórica oportunista à parte.
Mais Lénine, menos, muito menos, Schuman, por favor, sobretudo na análise da UE, na linha de argutos excertos do líder bolchevique, a quem nunca devemos dizer adeus, mobilizados por João Ferreira há uns tempos:
“Naturalmente, são possíveis acordos temporários entre os capitalistas e entre as potências. Neste sentido são possíveis também os Estados Unidos da Europa, como acordo dos capitalistas europeus... sobre quê? Unicamente sobre como esmagar conjuntamente o socialismo na Europa, defender conjuntamente as colónias roubadas...”
Sim, a UE, acordo capitalista sem igual forjado em Maastricht, transformando o movimento neoliberal em ordem, foi institucionalizada para proscrever qualquer avanço socialista e para fazer recuar brutalmente tudo o que tinha sido conquistado. Alimentou, pelo enfraquecimento decisivo dos freios e contrapesos institucionais ao capitalismo, o regresso do fascismo, hoje totalmente ambientado a essa escala. Qualquer aprofundamento da integração capitalista só vai gerar mais do mesmo, dado que esta não é neutra do ponto de vista de classe.
E, de resto, sabemos que vivemos numa subcolónia, com uma elite intelectualmente colonizada, incapaz de pensar para lá de um centro manifestamente imaginário, lugar de um nós sem povo. Os povos estão nos países soberanos. Voltaremos a ser um país soberano, estou certo.
Nota de rodapé. Pedro Adão e Silva, o do silêncio de meses em pleno genocídio do povo palestiniano, cita melancolicamente Obama, o da “paz”, como a fascista Corina. Obama destruiu a Líbia, transformando um Estado funcional num inferno balcanizado do tráfico humano internacional. E a política económica de Obama contribuiu para Trump. A opinião social-liberal do Público não tem memória, não tem emenda.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
Meia dúzia de notas, não são de dólar
1. Nuno Severiano Teixeira é historiador das relações internacionais, mas finge que desconhece a história do sistema imperialista liderado pelos EUA, substituindo-a pela fábula da “ordem baseada em regras”.
2. As regras da desordem imperial assentam há muito na coerção militar, na compulsão sancionatória, no incentivo pecuniário e na propaganda ideológica.
3. A compulsão sancionatória matou mais de 560 mil pessoas por ano, só entre 2011 e 2021, estima um estudo para o período 1971-2021, saído na The Lancet, no ano passado, sobre os efeitos na saúde das sanções há muito decretadas pelos EUA e pela UE, atingindo um quarto da economia mundial na última década considerada: “É difícil pensar noutras intervenções políticas com efeitos tão adversos na vida humana e que continuem a ser utilizadas de forma generalizada.”
4. Apesar dos factos ululantes, é mais fácil viver num eterno presente, onde o que agora apoda de “imperialismo predatório”, a chuva que chove, acabou de começar e o subimperialismo da UE nunca existiu.
5. Concordando umas vezes, discordando noutras, mas aprendendo sempre, a falta que faz José Medeiros Ferreira, historiador das relações internacionais.
6. Felizmente, temos historiadores do fascismo e da memória antifascista, como Manuel Loff, exceção que confirma a regra no Público: não começa o seu artigo com “Maduro é ditador” e usa a história ao serviço de comparações e analogias esclarecedoras.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
Será que temem o debate?
«Transformar o Trabalho» é o título de um evento que o Conselho Estratégico de Liderança do ISEG Alumni Económicas, agendou para o próximo dia 13, em Lisboa. Consulta-se o programa e constata-se, com mais perplexidade do que propriamente surpresa, que à abundância de oradores CEO, advisors, seniors e partners, corresponde uma total ausência de representantes de organizações sindicais.
Esta iniciativa não tem lugar num momento qualquer. Realiza-se quando há um debate público e negociações em curso sobre o anteprojeto de reforma da legislação laboral aprovado pelo governo, orwellianamente apodado de «Trabalho XXI». Não será por acaso, aliás, que o dito evento tem, como «main keynote speaker», Maria do Rosário Palma Ramalho, ministra do Trabalho.
Acresce, ainda, que a iniciativa não parte de uma qualquer organização do mundo patronal. Um debate que excluísse as perspetivas do mundo do trabalho seria sempre pobre, mas compreendia-se melhor o enviesamento. Não, trata-se de uma iniciativa de uma entidade académica, com responsabilidades intrínsecas em assegurar as condições e os termos de uma reflexão que, não sendo plural, não é uma verdadeira reflexão nem um debate. É outra coisa.
Mais contrastes
“Não se deve dizer com leveza que os EUA estão a fazer na Venezuela o que Putin fez na Ucrânia. Na verdade o que os EUA estão a fazer na Venezuela é o que os EUA fizeram na Ucrânia. Ambos são provocados pelos EUA.”
Quem o diz é Jeffrey Sachs, um liberal no sentido norte-americano, afirmando o que, com as pouquíssimas excepções permitidas, o comentariado nacional, de Daniel Oliveira a Francisco Pereira Coutinho, não tem capacidade ou coragem para afirmar.
Sachs fez também uma lúcida intervenção no Conselho de Segurança da ONU onde fez ouvir que a “questão que se coloca hoje ao conselho não é a natureza do governo da Venezuela”.
“[A] insistência numa ameaça russa existencial funciona não apenas como uma avaliação estratégica, mas como uma cobertura política para uma mobilização industrial massiva que os líderes da UE esperam que restaure a competitividade económica europeia.
Concordo que a Europa precisa de novas fontes de crescimento, mas a tentativa de introduzir sub-repticiamente uma política industrial sob a bandeira de uma situação de guerra — cultivando o medo e exagerando as ameaças — não é honesta nem aceitável. Criar uma mentalidade belicista para legitimar a renovação económica pode ser politicamente conveniente, mas corrói o debate democrático e corre o risco de prender a Europa numa militarização perpétua que pouco tem a ver com os seus verdadeiros desafios económicos.”
O texto acima, de Robert Skidelsky, principal biógrafo de Keynes, é só outra das formas de perceber o decadente e perigoso estado da propaganda que nacionalmente nos é servida.
Contrastes
“A história das intervenções externas dos EUA é uma história de caos, instabilidade e miséria”: quando leio um social-democrata anti-imperialista fora da UE, como Jeremy Corbyn, o meu desprezo intelectual e político pela trupe oportunista, a que inicia as suas intervenções com “Maduro é ditador”, só aumenta.
Relembrando o Iraque, ele sabe o que está em jogo e não perde o fito, pena que tenha falhado o encontro com o Brexit, logo ele que era da tradição eurocética a partir dos esperançosos anos 1970. Quando era líder, entregou este dossiê a Starmer, à pior escumalha blairista. Errar é humano e ser imprescindível também.
Brutalmente claro, brutalmente simples
John Lonsdale, um dos cofundadores da Palantir, é brutalmente claro, em linha com Peter Thiel ou Alex Karp.
A Palantir é uma das mais poderosas e perigosas empresas tecnológicas do complexo militar-industrial-securitário norte-americano com escala global, embora na China e assim não entrem, felizmente.
O capitalismo das plataformas cruza-se com o capitalismo da vigilância, ao serviço do sistema imperialista liderado pelos EUA.
E é tudo brutalmente simples: quem não quiser falar dos perigos do anticomunismo, deve calar-se sobre o fascismo, indissociável do capitalismo. Sem os comunistas, não há antifascismo digno desse nome.
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
Da coragem, da dignidade
Soy el presidente de Venezuela y me considero prisionero de guerra. Me capturaron en mi casa de Caracas. No soy culpable, soy un hombre decente, sigo siendo el presidente de mi país.
Ela exigiu ser levada com ele. Cilia Flores e Nicolás Maduro já revelaram mais coragem e dignidade num dedo mindinho do que toda a cambada que anda para aí nas televisões ou nos teclados, regurgitando vulgaridades liberais, quando não mesmo fascistas.
Na Venezuela ficou Delcy Rodríguez, mulher de grande firmeza e inteligência: não percais esta lição da Presidenta interina sobre as sanções que podem ser impostas a quem resiste ao sistema imperialista.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Conselhos de graça a um jovem
Jovem, queres ter lugar de tudólogo na comunicação social dominante e ganhar muito mais do que um jornalista a sério, o que também não é difícil?
Vou dar-te conselhos de graça, no contexto da agressão imperialista à Venezuela: tens de começar por dizer muitas vezes, Maduro ditador, Maduro ditador. Deves falar do Governo da Venezuela como o “regime”.
O estudo concreto da situação concreta, o conhecimento da história da economia política e assim só atrapalham. Se falares muito ninguém se lembra, tirando uns chatos.
Isto pode não bastar, no entanto. Convém teres contactos, um apelido ajuda muito, tipo Bugalho e assim. Acumular capital social, dizem os da teoria da escolha racional.
E, claro, não podes ser comunista ou socialista (não confundas com o P sem o S, a coisa que passa por PS). Até podes dizer que és de esquerda, dá jeito uma ou outra cereja no bolo, mas só se ajudares na campanha contra a esquerda soberanista e anti-imperialista, ou seja, contra a esquerda. Tens de ser um social-liberal, na melhor das hipóteses.
Estás a ver? É fácil até. Posso dar-te contactos e mais dicas, mas não há almoços grátis a partir daqui, jovem.
Impasses
Nada sei sobre a ilegitimidade de Nicolás Maduro, chefe de Estado da Venezuela, reconhecido pela esmagadora maioria do mundo, Ana Sá Lopes. O que sei é que o seu artigo de hoje revela bem os impasses do euro-liberalismo no Público.
O Presidente chinês tem por objetivo legítimo confirmar a reunificação de todo o país, o que quase ninguém coloca em causa, dado que Taiwan não é um Estado. Colocá-lo no mesmo plano do Presidente dos EUA, de qualquer Presidente dos EUA, revela desconhecimento do que tem sido a ascensão pacífica da República Popular desde 1979 (ano da última guerra em que esteve envolvida).
Sim, o criminoso Trump perturba muito os esquemas. Tem uma única virtude e é epistémica, para quem sabe alguma coisa de história do sistema imperialista: revela a natureza da sua economia política internacional, a sua natureza, sem qualquer disfarce. Talvez tenha uma diferença qualitativa, concedo: no plano retórico e do simbolismo, trata este lado do Atlântico como os EUA sempre trataram a América Latina, por exemplo.
De resto, não é preciso que Trump venha atacar essa flagrante contradição nos termos que é a “democracia liberal” deste lado. Insisto contra o uso deste termo: a nossa Constituição, mesmo tantas vezes revista e adulterada, não tem qualquer referência ao liberalismo.
O euro-liberalismo, o do euro e do mercado único, já esvaziou as democracias dos Estados da UE, em particular as dos periféricos, como sabe. Os novos rostos do fascismo emergem deste facto. Uma palavra e um ano: Grécia, 2015. Outra palavra para a UE, com uma foto a acompanhar e tudo: subimperialismo.
Eternos
Honor y gloria a los bravos combatientes cubanos [32 combatentes cubanos mortos] que cayeron enfrentando a terroristas en uniforme imperial, que secuestraron y sacaron ilegalmente de su país al Presidente de Venezuela y esposa, cuyas vidas ayudaban a proteger los nuestros por solicitud de esa hermana nación. Comparto dolor e indignación con nuestro pueblo y especialmente con los seres queridos de nuestros valerosos compañeros. Al abrazar a sus familiares y amigos, en esta hora infausta, reitero mi gran afecto, admiración y orgullo por ellos y su heroico comportamiento.
Miguel Diaz-Cánel, Presidente da heróica República de Cuba.
domingo, 4 de janeiro de 2026
Da infâmia
Esta é uma capa para a história da infâmia jornalística liberal em Portugal. Numa redação onde abunda o trabalho precário e mal pago, há quem seja principescamente pago para decidir pespegar um trocadalho do carilho destes na capa. Também isto é liberalismo.
Um chefe de Estado foi raptado por fascistas no comando da potência mais perigosa do planeta (Nelson Mandela sabia-o). Não aprendem nada. Lembro-me de uma palavra para lá de Venezuela: Iraque. Outra, vá: Líbia. A história da infâmia jornalística liberal é já longa neste século.
De resto, neste início do ano, este jornal que se diz de referência inadvertidamente confirma que é um passo curto do classismo ao imperialismo, indissociáveis do seu liberalismo de sempre.
Adenda. Sofia Serra-Silva chama a atenção para o mais importante, a foto: “À luz das Convenções de Genebra, é vedada a divulgação de imagens que submetam prisioneiros, incluindo um chefe de Estado sequestrado, a humilhação, degradação ou exposição pública sem consentimento...”
sábado, 3 de janeiro de 2026
Solidariedade
Ainda a agressão militar imperialista não se tinha dado e já os pinochetistas da IL cheiravam sangue, em linha com toda uma tradição liberal realmente existente, que mergulha nos longo século XIX, no breve século XX e no sombrio século XXI.
Entretanto, intelectuais euro-liberalizados, que ainda se dizem de esquerda e que apoiam Seguro, agarram-se desesperadamente às suas posições numa comunicação social cada vez mais patronal. As adversativas e as teorias liberais da ferradura servem o propósito de sobrevivência neste sombrio contexto.
Sim, o marxismo mais simples explica o essencial das determinações materiais das diferentes declinações da ideologia dominante.
No caso da Venezuela, tudo se resume a uma palavra: petróleo. O mais importante é isto: solidariedade com a Venezuela, sem mas, nem meio mas.
Adenda: haja quem não abdique do anti-imperialismo à esquerda.
Ladrões em 2025
De acordo com a contabilidade do blogger, o Ladrões de Bicicletas atingiu, em 2025, mais de 2,1 milhões de visualizações, mantendo assim a tendência de crescimento que se verifica desde 2023. Com cerca de 13 mil seguidores no facebook, quase 8 mil no twitter e aproximadamente 4,7 mil no instagram, a presença nas redes continua a ser essencial na vida do blogue. Com períodos de maior e menor assiduidade, cá continuaremos, portanto, a pedalar em 2026. Os tempos, complexos e difíceis, assim o exigem também.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
É isto andais a festejar?
“Não é Portugal que entra na CEE, é a CEE que entra em Portugal”, avisava Carlos Carvalhas em 1985. Haja razão comunista e iluminismo radical:
Desde a adesão à CEE que os comunistas portugueses alertam para os efeitos desindustrializadores da integração de feição neoliberal desta periferia com economias estruturalmente mais capazes, ainda para mais num quadro de europeização com mecanismos de compensação manifestamente insuficientes. O chamado comércio livre nunca passou do protecionismo dos mais fortes, sabemo-lo bem desde o século XIX, graças à melhor teoria económica prática de que os comunistas nunca prescindiram.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Começar o ano com classe
“Perguntámos aos jovens o que esperam de 2026. Estas foram as respostas”. No universo de classe do Público, onde o particular passa por universal, não há jovens operários na Autoeuropa ou operárias têxteis, não há jovens assistentes operacionais ou mecânicos, não há jovens trabalhadores da recolha do lixo ou caixas do supermercado.
Não, no universo de classe do Público, sobram jovens em “gap year” e com profissões em inglês. É quem tem voz. Enfim, em linha com esta orientação editorial, tem três novos/velhos colunistas CEO de direita, passe a redundância, com apelidos sonantes: Bessa, Avillez e Arroja.
É o euro-liberalismo de um perdócio em declínio, tal como a ideologia que o sustenta desde sempre.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
2026
Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes.
Como já é tradição, deixo o artigo 1.º da Constituição da República Portuguesa de 1976, com desejos de um excelente 2026.
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Relembrar
No nosso artigo sobre a Nova Economia, Pedro Santa Clara tem um lugar de destaque. O grande arquiteto financeiro do campus de Carcavelos; com um pé no público e outro no privado; e proximo da Iniciativa Liberal e do Instituto Mais Liberdade.
No seguimento da nota de crítica à entrevista de Pedro Santa Clara, a República dos Pijamas relembrou oportunamente um excelente artigo do ano passado. No livro O neoliberalismo não é um slogan - Uma história de ideias poderosas, que os pijamas referem generosamente, não menciono este “superliberal”. Agora também gere uma rede ATL com vibes solucionistas. Tendo chegado mais tarde ao centro do neoliberalismo em Portugal, hoje é realmente incontornável.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Nomear
A propósito da irreprimível pulsão antidemocrática de certas frações do capital, sempre com eco previsível, Luís Vieira comenta de forma acutilante: “Se deixarem o empresário português sem supervisão de um adulto durante muito tempo, ele acaba por inovar e criar o Estado Novo a partir de primeiros princípios.”
Aproveito este ensejo para um apelo: evitemos a designação “Estado Novo”. De facto, o poder político ditatorial do capital financeiro puro e duro chama-se fascismo e este perigo é inerente ao capitalismo sem freios e contrapesos à altura.
Sim, o fascismo existiu entre nós e os seus novos rostos andam por aí, com pesados financiamentos empresariais e apoio mediático sem rival.
Em tempos sombrios, precisamos sempre de um antifascismo militantemente luminoso, que comece por nomear com objetividade o inimigo, evitando designações que este mobilizou para efeitos apologéticos.
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