
Qual é o país do mundo com o maior produto industrial per capita?
a)Alemanha
b)China
c)Coreia do Sul
d)Irlanda
e)Suiça
Depois dou a resposta e tento explicar a importância para a discussão económica em Portugal.
A Monthly Review é uma das mais interessantes e pedagógicas publicações do que nos EUA se designa por economia política radical. Procurar ir às raízes. Graças, entre outros, a Paul Sweezy, o seu fundador, foram pioneiros na identificação do processo contemporâneo de financeirização do capitalismo e no escrutínio das suas causas. Um tema que é hoje quase convencional. Ler os artigos, agora compilados em livro, onde analisam desde o início do milénio os mecanismos que iriam estar na origem deste grande crise é bastante esclarecedor – estagnação dos rendimentos salariais devido ao enfraquecimento do movimento sindical, endividamento para compensar as tendências para a estagnação económica e muita especulação financeira. Marx, Keynes, Kalecki e quem mais for necessário para analisar criticamente o capitalismo realmente existente. O último número tem dois artigos disponíveis gratuitamente que ilustram na perfeição a abordagem de economia política que esta publicação socialista defende: John Bellamy Foster discute a “financeirização da acumulação” e Özlem Onaran discute a crise do capitalismo europeu, a leste e a oeste. Boas leituras.



Leiam o que Jorge Costa escreveu sobre Champalimaud para saberem como se constrói uma fortuna antes e depois do 25 de Abril. Uma pequena parte de uma investigação colectiva que será lançada em livro na próxima semana: “Os Donos de Portugal”. Jorge Costa, Cecília Honório, Luís Fazenda, Francisco Louçã e Fernando Rosas são os autores. Podem ler um capítulo do livro na Vírus e um resumo de outro capítulo na Visão. Da história à economia política, passando pelo jornalismo: interdisciplinar como se quer. Podemos esperar um contributo para um retrato histórico do capitalismo português sem romances de mercado, mas antes com muito poder e muitas redes sociais à mistura e o vício de uma certa forma de acumulação. Não é defeito, é feitio. O dinheiro, por muito concentrado que esteja e por muitas, e pouco republicanas, capacidades que tenha de se transformar em poder político, ainda não determina a memória. Esta também é necessária para superar um Estado dependente dos especuladores e da lumpemburguesia, o Estado das engenharias neoliberais...
Para ser mais claro, só em função dos resultados tributáveis...
É estranho que os apologistas da concorrência não distorcida não vejam aqui um problema. Afinal de contas, o que estes dados mostram é que a lei fiscal não é igual para todas as empresas e prejudica de forma decisiva empresas que constituem a parte mais significativa do nosso tecido empresarial, criam mais emprego e têm instrumentos e autonomia financeira mais limitados para lidar com contextos de crise. Por outro lado, é muito evidente pelos valores globais que há muito a fazer em matéria de justiça fiscal nesta área e que o que se fizer pode proporcionar recursos decisivos para a prossecução de políticas públicas de combate à crise.
Assim, o processo de formação da matéria colectável e a incidência fiscal sobre a mesma mostram-nos a relação real entre o que as empresas pagam de impostos e os seus lucros líquidos. Para que se tenha uma ideia, a aplicação da taxa de IRC aos lucros contabilísticos resultaria num aumento de receita fiscal de 6.400 milhões de euros. Mesmo que o fizéssemos só em relação aos resultados tributáveis, esse aumento seria de quase 4.000 milhões de euros. Que fique claro que não defendo tal ideia, até porque na formação da matéria colectável estão incluídas variações patrimoniais, incentivos ao reinvestimento, à criação de emprego e outros benefícios com fortíssimas justificações económicas e sociais.
No entanto, a dimensão dos montantes envolvidos exige que se olhe com atenção e critério para esta área de política fiscal e que se analise com mais cuidado os números com que o Ministério das Finanças habitualmente trabalha e divulga. Já todos pudemos observar as diferenças nos números sobre a tributação efectiva da Banca entre a APB e o Governo. Para ilustrar as diferenças, vejamos a relação entre imposto liquidado e resultados contabilísticos, tributáveis, matéria colectável e a taxa efectiva tal como definida nos dados do Ministério:
Conforme as contas que façamos, podemos ter "taxas efectivas" entre os 9 e os 21%. É por isso que é importante olhar para a forma como todos os mecanismos que afectam a tributação efectiva funcionam e de que forma afectam diferentes sectores e empresas de diferentes dimensões. De forma muito diferenciada, como iremos ver...
Nos últimos dias o Banco Central Europeu tem anunciado que vai rever a sua política de financiamento dos bancos, o que representa um aviso aos governos da periferia da UE.
O historiador Fernando Catroga defendeu que é preciso republicanizar a República, ou seja, incrementar a participação democrática dos cidadãos, em condições de igualdade substantiva no nexo económico-legal, por forma a que o ideal de autogoverno possa ter expressões muito mais concretas. Diversos estudos empíricos indicam que os elevados níveis de desigualdade de rendimentos, como os que se registam no nosso país, com cavadas divisões de classe, são um dos mais poderosos obstáculos à acção colectiva capaz de descobrir, em cada momento, os bens comuns.
Dos nomes que circulam por aí, eu só apostaria em Robert Shiller para Prémio de Economia “em memória” de Alfred Nobel atribuído pelo Banco Central da Suécia amanhã. As finanças comportamentais já o merecem. Improvável. No entanto, o contexto não pode ser melhor. Pensar os mercados financeiros como se fossem povoados de humanos, de seres com capacidades cognitivas limitadas, propensos à imitação, seguidores de modas e convenções, “soluções”, “âncoras cognitivas” temporárias, para a incerteza radical sobre o fluxo de rendimentos futuros. O futuro não é um mero reflexo estatístico do passado. Incorporar o que a psicologia nos ensina para compreendermos os padrões que emergem nos mercados financeiros e não só e que contradizem a irrealista hipótese dos mercados eficientes. De acordo com esta hipótese, os mercados, povoados de agentes mecanicamente racionais que transformam incerteza em risco calculável, tendem a incorporar toda a informação disponível no preço dos activos. Esta hipótese é a teoria económica panglossiana no seu melhor: tudo correrá pelo melhor no melhor dos mundos. A especulação, ou melhor, a arbitragem, é estabilizadora e a inovação financeira é por definição benigna.
Nada que Keynes não tivesse assinalado noutro contexto, sem o mesmo detalhe empírico, mas com muito mais qualidade literária e profundidade analítica. Ao contrário das bastardas caricaturas que circulam por maus manuais, a boa análise keynesiana sempre teve fundamentos “microeconómicos” e institucionais realistas e nunca se resumiu à politica económica contracíclica. Como dizia Keynes, na esfera financeira, quando a especulação predomina, “mais vale fracassar com as convenções do que ser bem sucedido contra elas”. De facto, num contexto marcado por pressões concorrenciais intensas, resultantes da estrutura dos mercados liberalizados, e por uma incerteza irremovível face a um futuro aberto, quase ninguém está em condições de resistir à busca de níveis de rendibilidade que se revelam, mais tarde, insustentáveis.
PS. Enfim, mais dois bons livros que merecem boas traduções. Leiam as recensões de Bob Pollin e de John Gray.
“Nem tudo é mau na bancarrota. Até à grande crise financeira de 1891, as dificuldades em pagar a dívida externa eram resolvidas com o aperto da economia e quem sofria eram as camadas ‘menos abastadas’. Mas a declaração da bancarrota serviu ao Governo para mudar a forma de se financiar e relançar a economia.
Vítor Bento, um dos principais conselheiros de Cavaco, anda todo ufano a lembrar as opiniões do seu livro em defesa de um choque salarial que imitasse uma desvalorização cambial indisponível. Opiniões seguidas agora, mas Vítor Bento ainda não está contente, claro. Diga-se que a defesa que faz no livro da redução da força de trabalho ao estatuto de uma mercadoria descartável, à pala da conversa ideológica sobre a “rigidez do mercado de trabalho”, se insere no mesmo projecto de cortes salariais e de transferência de custos sociais para os trabalhadores da base. É a “reforma do factor trabalho”, para invocar a desumana expressão de Cavaco.
"As estimativas são estimativas." Não posso estar mais de acordo com tão profundo pensamento senhor ministro da economia. As estimativas do FMI são as estimativas do FMI e as suas recomendações de política são política. E prevêem a estagnação a cair para a recessão, com uma uma taxa de desemprego nos 11% e aconselham estas escolhas desastrosas de política económica. Irão ser certamente revistas porque o futuro é radicalmente incerto: as previsões serão revistas, as recomendações nunca. É apenas o começo. Isto se o ciclo vicioso da austeridade não for revertido pela luta social e política. Será que não podemos aprender nada com a história interpretada por boa teoria? Austeridade em tempos económicos periclitantes só tem efeitos perversos – do crescimento do desemprego até a novos problemas nas finanças públicas e privadas.
Enquanto os economistas do regime debitam vulgaridades na TV, num imenso vazio onde só cabem todos os preconceitos neoliberais, há quem investigue criticamente e procure ir à raiz dos problemas europeus. Investigação útil para pensarmos no que aí pode vir. É o caso do último relatório do RMF, no qual o Nuno Teles e a Eugénia Pires participaram, e que Robert Skidelsky, eminente historiador e economista pós-keynesiano, usou numa muito realista comunicação a uma conferência recente do Financial Times. Entretanto, a economista feminista Nancy Folbre faz uma síntese do pensamento de Keynes para os dias de hoje no New York Times. E, no espírito dos cruzamentos potencialmente férteis, recomendo um dos últimos artigos de Andrew Glyn, um economista de combate que muita falta faz, sobre a actualidade de uma das tendências identificadas por Marx: a quebra do peso dos salários no rendimento nacional e a pressão do “exército industrial de reserva”. Leituras críticas para resistir à economia do medo.

Como sabemos, a política recessiva que o Governo se propõe executar em 2011 foi saudada em todos os quadrantes neo-liberais, mas com esta ressalva: só resulta se houver “reformas estruturais”. E o Ministro das Finanças pressurosamente concordou.

Acho que a crise está a reforçar uma tendência intelectual positiva: a economia é demasiado importante para ser monopólio da economia convencional. Esta tendência afirma-se no nosso país: o seminário internacional do próximo dia 7 de Outubro sobre a “constituição social da economia”, organizado por Renato Carmo e por Luísa Veloso, é um excelente exemplo. Mais detalhes aqui. Lá estarei.
Para aqueles que teimam em subestimar o efeito potenciador da arquitectura da Eurozona na crise que hoje vivemos, recordo um texto do Prof. João Ferreira do Amaral publicado aqui.