quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Pelo jornalismo, pela democracia

«A crise que abala a maioria dos órgãos de informação em Portugal pode parecer aos mais desprevenidos uma mera questão laboral ou mesmo empresarial. Trata-se, contudo, de um problema mais largo e mais profundo, e que, ao afectar um sector estratégico, se reflecte de forma negativa e preocupante na organização da sociedade democrática.
O jornalismo não se resume à produção de notícias e muito menos à reprodução de informações que chegam à redacção. Assenta na verificação e na validação da informação, na atribuição de relevância às fontes e acontecimentos, na fiscalização dos diferentes poderes e na oferta de uma pluralidade de olhares e de pontos de vista que dêem aos cidadãos um conhecimento informado do que é do interesse público, estimulem o debate e o confronto de ideias e permitam a multiplicidade de escolhas que caracteriza as democracias. O exercício destas funções centrais exige competências, recursos, tempo e condições de independência e de autonomia dos jornalistas. E não se pode fazer sem jornalistas ou com redacções reduzidas à sua ínfima expressão.
As lutas a que assistimos num sector afectado por despedimentos colectivos, cortes nos orçamentos de funcionamento e precarização profissional extravasa, pois, fronteiras corporativas.
Sendo global, a crise do sector exige um empenhamento de todos – empresários, profissionais, Estado, cidadãos - na descoberta de soluções.
A redução de efectivos, a precariedade profissional e o desinvestimento nas redacções podem parecer uma solução no curto prazo, mas não vão garantir a sobrevivência das empresas jornalísticas. Conduzem, pelo contrário, a uma perda de rigor, de qualidade e de fiabilidade, que terá como consequência, numa espiral recessiva de cidadania, a desinformação da sociedade, a falta de exigência cívica e um enfraquecimento da democracia.
Porque existe uma componente de serviço público em todo o exercício do jornalismo, privado ou público;
Porque este último, por maioria de razão, não pode ser transformado, como faz a proposta do Governo para o OE de 2013, numa “repartição de activos em função da especialização de diversas áreas de negócios” por parte do “accionista Estado”;
Porque o jornalismo não é apenas mais um serviço entre os muitos que o mercado nos oferece;
Porque o jornalismo é um serviço que está no coração da democracia;
Porque a crise dos média e as medidas erradas e perigosas com que vem sendo combatida ocorrem num tempo de aguda crise nacional, que torna mais imperiosa ainda a função da imprensa;
Porque o jornalismo é um património colectivo;
Os subscritores entendem que a luta das redacções e dos jornalistas, hoje, é uma luta de todos nós, cidadãos.
Por isso nela nos envolvemos.
Por isso manifestamos a nossa solidariedade activa com todos os que, na imprensa escrita e online, na rádio e na televisão, lutando pelo direito à dignidade profissional contra a degradação das condições de trabalho, lutam por um jornalismo independente, plural, exigente e de qualidade, esteio de uma sociedade livre e democrática.
Por isso desafiamos todos os cidadãos a empenhar-se nesta defesa de uma imprensa livre e de qualidade e a colocar os seus esforços e a sua imaginação ao serviço da sua sustentabilidade.»

Proponentes:
Adelino Gomes – Jornalista * Agostinho Leite - Lusa * Alexandre Manuel - Jornalista e Professor Universitário * Alfredo Maia - JN (Presidente do Sindicato de Jornalistas) * Ana Cáceres Monteiro - Media Capital * Ana Goulart - Seara Nova * Ana Romeu - RTP * Ana Sofia Fonseca - Expresso * Anabela Fino - Avante * António Granado - RTP; Professor Universitário * António Navarro - Lusa * António Louçã - RTP * Avelino Rodrigues - Jornalista * Camilo Azevedo - RTP * Carla Baptista - Jornalista freelancer e Professora Universitária * Catarina Almeida Pereira - Jornal de Negócios * Cecília Malheiro - Lusa * Cesário Borga - Jornalista * Cristina Margato - Expresso * Cristina Martins - Expresso * Daniel Ricardo - Visão * Diana Andringa - Jornalista * Diana Ramos - Correio da Manhã * Elisabete Miranda - Jornal de Negócios * Fernando Correia - Jornalista e Professor Universitário * Filipa Subtil - Professora Universitária * Filipe Silveira - SIC * Filomena Lança - Jornal de Negócios * Francisco Bélard - Jornalista * Frederico Pinheiro - SOL * Hermínia Saraiva - Diário Económico * João Carvalho Pina - Kameraphoto * João d’Espiney - Público * João Paulo Vieira - Visão * Joaquim Fidalgo - Jornalista e Professor Universitário * Joaquim Furtado - Jornalista * Jorge Araújo - Expresso * José Luís Garcia - Docente e Investigador (ICS-Lisboa) * José Luiz Fernandes - Casa da Imprensa * J.-M. Nobre Correia - Professor Universitário * José M. Paquete de Oliveira - Docente, cronista, ex-provedor do telespectador (RTP) * José Manuel Rosendo - RDP * José Mário Silva - Jornalista freelancer * José Milhazes - SIC / Lusa (Moscovo) * José Rebelo - Professor Universitário e ex-jornalista * José Rodrigues – Correio da Manhã * José Vítor Malheiros - Cronista, consultor * Leonete Botelho - Público * Liliana Pacheco - Jornalista (investigadora) * Luciana Liederfard - Expresso * Luís Andrade Sá - Lusa (Delegação de Moçambique) * Luís Reis Ribeiro - DN/Dinheiro Vivo * Luísa Meireles - Expresso * Manuel Esteves - Jornal de Negócios * Manuel Menezes - RTP * Margarida Metelo - RTP * Margarida Pinto - Lusa * Maria de Deus Rodrigues - Lusa * Maria Flor Pedroso - RDP * Maria Júlia Fernandes - RTP * Mário Nicolau - Revista C * Martins Morim - A Bola * Miguel Marujo - DN * Miguel Sousa Pinto - Lusa * Mónica Santos - O Jogo * Nuno Aguiar - Jornal de Negócios * Nuno Martins - Lusa * Nuno Pêgas - Lusa * Oscar Mascarenhas - Jornalista * Patrícia Fonseca - Visão * Paulo Pena - Visão * Pedro Caldeira Rodrigues - Lusa * Pedro Manuel Coutinho Diniz de Sousa - Professor Universitário * Pedro Pinheiro - TSF * Pedro Rosa Mendes - Jornalista e escritor * Pedro Sousa Pereira - Lusa * Raquel Martins - Público * Ricardo Alexandre - Antena 1 * Rosária Rato - Lusa * Rui Cardoso Martins - Jornalista e escritor * Rui Nunes - Lusa * Rui Peres Jorge - Jornal de Negócios * Sandra Monteiro - Le Monde diplomatique (edição portuguesa) * Sara Meireles - Docente Universitária e Investigadora * Sofia Branco - Lusa * Susana Venceslau - Lusa * Tiago Dias - Lusa * Tiago Petinga - Lusa * Tomás Quental - Lusa * Vítor Costa - Lusa.

Este é apenas o primeiro passo duma iniciativa que pretende ser mais ampla.
Nos próximos dias todos os jornalistas, bem como todos os cidadãos vão ser convidados a assinar e a participar.
Pelo jornalismo, Pela democracia.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Horizonte?

João Ferreira do Amaral, em declarações ao Público, toca num ponto a que também já aqui aludi e que quero enfatizar: este OE vai ser uma “tragédia nacional”, com impacto negativo no PIB entre 2,8% e 5,3%, usando os multiplicadores orçamentais do FMI, como fazem Sérgio Aníbal e Ana Rita Faria do Público, mas o governo não está muito preocupado que “a austeridade não resulte, porque depois diz que não pode aumentar mais os impostos e avança para um corte [de resto já em curso], nas funções do Estado.”

Esta é a engenharia política em curso, dado que a retórica das gorduras, a que aludia Álvaro antes das eleições, por exemplo, é uma fraude e que os cortes atingem já e atingirão muito mais os órgãos vitais do Estado social. A austeridade sempre recessiva e regressiva é um horizonte, um pretexto para permitir, enquanto estivermos neste enquadramento europeu, escavacar a segurança social, o serviço nacional de saúde ou a escola pública, erodindo as bases sociais dos serviços públicos, entre as quais está o trabalho organizado, cuja fragilização, pela redução dos direitos laborais e pelo desemprego de massas, é indisfarçável, apesar da relevante mobilização sindical na rua.

Derrotas atrás de derrotas e com mais derrotas pelo meio. Será garantidamente assim enquanto permanecermos enquadrados pelo memorando e pelas instituições que o garantem, por muito que possam mudar as fórmulas políticas internas que suportam governos de desgaste cada vez mais rápido, por muito que ganhem protagonismo os que ainda conservam prestígio entre as elites centrais, como é o caso de Silva Peneda. A questão não é individual, é de programa, das forças sociais que o suportam e da estrutura europeia que garante a sua manutenção. A esquerda que não percebe isto só pode ter o tristíssimo destino do PASOK e da esquerda democrática grega (DIMAR), enredados numa coligação que condena o povo grego, abdicando de tudo o que justifica a existência de partidos que façam qualquer coisa de esquerda, qualquer coisa civilizada, qualquer coisa…

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Leituras

«O número de previsões persistentemente falhadas abrange um inquietante leque de matérias: PIB, receita, execução orçamental, retoma económica, etc. Como é possível ter confiança? (...) Justa ou injustamente, o rosto desta política orçamental é Vítor Gaspar. Levou salários, levou pensões, levou compreensão, levou optimismo, levou esperança no futuro».

Luís Reis, em «E tudo o Vítor levou»

«Vítor Gaspar escolheu um caminho perigoso que vai esfrangalhar a classe média e levar milhares de portugueses à miséria. E mesmo sabendo que está a perder, Vítor Gaspar continua a jogar e a fazer 'bluff', fazendo de conta que está a ganhar. Não tem um único trunfo, mas é incapaz de pestanejar. O ministro das Finanças parece um jogador de Sudoku que se enganou a colocar um número mas que vai continuar a jogar para nos provar que não se enganou, mesmo sabendo que as contas no final nunca vão bater certo».

Pedro Sousa Carvalho, em «Vítor Gaspar anda a jogar Sudoku com as contas públicas»

«O ciclo vicioso está criado e não saímos dele sem negociar. O meu ponto é que mais vale agora, com o crédito de cinco avaliações positivas, do que quando a situação económica e social piorar. Se o governo perder a sua base social de apoio, de pouco nos servirão os repetidos elogios internacionais. As últimas semanas permitem perceber que estamos perto do limite. É essencial que as pessoas continuem a confiar que o governo, inclusive o ministro das Finanças, está do seu lado e não do lado dos credores».

Paulo Lopes Marcelo, em «Como se diz negociar em inglês?»

Três textos de opinião do Diário Económico de hoje (que cita ainda Karl Popper: «Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos»).

As consequências de Gaspar

O que disse Gaspar ontem? Destaco cinco ideias:

1. Não há margem de manobra. Devia antes ter dito que o governo não está disposto a conquistar margem de manobra porque não quer apouquentar os credores, servindo a palavra credibilidade, mil vezes repetida, para encobrir este facto altamente penalizador para a maioria dos que aqui vivem.

2. Não entraremos numa espiral recessiva. Ninguém pode acreditar, à luz do que tem acontecido e que até o FMI agora reconhece, que uma austeridade sem precedentes, cifrada em 3,2% do PIB, causará uma recessão de apenas 1% e um aumento do número de desempregados de oitenta mil, um aumento que o governo descreve como de “curto-prazo” no relatório do OE, vejam bem, estando a contar com o milagre das exportações, alimentadas significativamente pela esperada desvalorização do euro, e com o pensamento mágico segundo o qual uma economia que já caiu tanto não pode cair muito mais.

3. O esforço é equitativo entre trabalho e capital. O Público escreve hoje em letras garrafais a verdade: “trabalhadores e pensionistas vão pagar 70% do défice”, sem contar com os efeitos no lado da despesa, que atingem desproporcionalmente as classes trabalhadoras.

4. Trata-se de um OE que pretende reduzir desigualdades em sede de IRS. É verdade que no relatório do OE está um gráfico enganador que mostra que quem recebe mais vai pagar mais em termos absolutos, mas, como afirma o sempre atento João Ramos de Almeida no Público, são as famílias de menores rendimentos que pagam impostos que sentem um maior agravamento do IRS em termos de aumento percentual, sendo por isso relativamente mais afectadas em termos da machadada que levam no seu rendimento, e que o fardo vai sendo mais ligeiro quando subimos na pirâmide social, o que, claro, “nunca poderá diminuir a desigualdade social”: do menor número de escalões à sobretaxa igual para todos, passando pela situação de favor para certo tipo de rendimentos sujeitos ao privilégio das “taxas liberatórias”, os mecanismos regressivos em sede de IRS são claros e temos de lhes juntar os mecanismos regressivos em sede de “despesa”, com a fragilização dos mais potentes mecanismos redistributivos que são os serviços públicos e muitas prestações sociais.

5. Está a devolver ao país o que o país lhe deu. Gostei da lógica da reciprocidade, da dádiva e contra-dádiva, invocada por Gaspar, um elemento a ter em conta na defesa da ética do serviço público, uma justificação, juntamente com a urgência em reduzir as desigualdades invocada também por Gaspar, para remover o mais rapidamente possível um governo que também é uma ameaça letal à economia moral do Estado social, da reciprocidade à “moralidade fiscal”…

As ligações do sufoco

Nos tempos mais recentes, os orçamentos foram sobretudo avaliados pelas injustiças relativas que apresentavam ou pelos desequilíbrios variados que introduziam. E foram muitos e graves. Mas o OE para 2013 é o orçamento da injustiça absoluta e do efeito sufocante geral (…) Os caminhos cruéis também são caminhos. Já há muita gente a perceber que o sufoco se resolve por uma denúncia do memorando e por uma renegociação corajosa de uma dívida ingerível. E que isso é urgente. Talvez haja economia e sociedade depois disso. 

José Reis, O não-OE: teoria geral do sufoco, Público  

O Orçamento tem um responsável técnico, o ministro das Finanças, e um responsável político, o primeiro-ministro. Concentremo-nos no primeiro. Quem é ele? De onde vem? A resposta tem de passar pela análise das ligações do ministro das Finanças ao sector financeiro. Olhemos para o primeiro-ministro e atendamos a quem beneficia directamente com a alternativa que ele escolheu.

Pedro Lains, A terceira máscara, Público

A imagem foi roubada a um blogue que fotografa um país arruinado...

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Debater o Euro à esquerda



O Passa Palavra publicou ontem um texto que expõe um conjunto de argumentos de esquerda para recusar a saída do euro como estratégia política. Trata-se de um texto longo, sério e sistemático, que merece bem ser debatido, ainda que na minha opinião incorra nalguns erros e falácias, alguns dos quais não inocentes. Seguem-se alguns comentários sob a forma de pontos (que aliás é também a forma adoptada no texto do Passa Palavra) – uns em resposta directa ao que é dito nesse texto, outros relativamente a questões mais gerais mas por ele suscitados.

1. O estímulo às exportações é apresentado neste texto como sendo o alfa e o ómega das propostas de saída do Euro, incluindo as propostas de esquerda nesse sentido (entre as quais presumo que se incluam as que têm sido defendidas por alguns dos autores deste blogue, eu próprio incluído). Isso permite construir um tigre de papel contra o qual é possível argumentar que “aqueles que pretendem abandonar o euro pouco parecem importar-se com (…o facto dos…) financiamentos e créditos externos ficarem mais caros”; que quem defende a saída do euro “indica só as vantagens” e não as desvantagens da saída; e que os defensores da saída do euro “se esquecem de considerar (…) que uma moeda desvalorizada encarece as importações”. 

2. Ora, este tigre de papel simplesmente não existe. Em primeiro lugar, as desvantagens “económicas” da saída do euro (por oposição às questões mais estritamente "políticas" - chamemos-lhes assim para simplificar, reconhecida que é, por todos neste debate, a unidade do político e do económico) têm sido amplamente reconhecidas e referidas pelos proponentes de esquerda desta estratégia. Isso inclui tanto as desvantagens referidas no texto do Passa Palavra (encarecimento das importações e do financiamento externo) como outras que aí não são referidas (como a questão crucial da turbulência gerada no período de transição e das suas consequências). Em segundo lugar, e mais importante, o estímulo às exportações (ou, de forma mais correcta, a substituição do mecanismo de correcção dos desequilíbrios externos) não é sequer o objectivo principal, mas apenas um dos objectivos. O objectivo principal e mais geral é, isso sim, inverter a evolução da relação de forças entre o trabalho e o capital no contexto europeu, através daquela que se considera ser a melhor forma de o fazer, dadas as características, consideradas intrínsecas e irreformáveis, da arquitectura financeira europeia. Isto faz toda a diferença – e voltarei a esta questão mais abaixo. De qualquer forma, construir um tigre de papel que representa erroneamente a posição do adversário no debate é um mau princípio e contribui negativamente para os objectivos que o debate deve servir.

2. Da mesma forma, o recorrente recurso ao epíteto de “nacionalista” para qualificar as propostas que à esquerda têm sido feitas neste sentido é outra estratégia argumentativa condenável e desonesta. Tem tanto de “nacionalista” defender a saída da zona Euro como defender a saída da NATO . Trata-se de considerar que são estruturas irreformáveis que consagram e constrangem institucionalmente relações sociais e, em particular, relações de classe. Defender a saída da zona Euro ou da NATO não tem (ou não tem necessariamente) nada de nacionalista: a perspectiva é de classe e os objectivos são plenamente internacionalistas –  o que difere é a avaliação das vantagens e desvantagens de diferentes estratégias. Logo, como nota prévia adicional, importa sublinhar mais uma vez que todos ganharíamos com o fim do recurso a este tipo de estratégia argumentativa falaciosa, frequentemente utilizada no contexto deste debate, que aliás tende a reflectir a falta de melhores argumentos.

3. Dito isto, comecemos então por discutir a questão das consequências mais estritamente “económicas" da saída do Euro. Como já referi, o objectivo a este nível não é um mero “estímulo das exportações” à custa das quotas de mercado de outros países, mas sim a correcção dos desequilíbrios estruturais que a pertença à zona Euro tem acarretado em virtude das suas características intrínsecas. Esses desequilíbrios incluem com certeza o avolumar do défice externo (que depois se transmutou em dívida pública), mas também incluem a  evolução recente do padrão de especialização da economia portuguesa, que na era do Euro se tem caracterizado pelo afluxo do capital aos sectores mais rentistas e protegidos da concorrência externa. Para isso obviamnte contribuiu sobremaneira a integração do poder económico, financeiro e político (através das privatizações de monopólios naturais, das PPPs, do regime de (des)orientação do crédito, etc), mas as condições estruturais criadas pelo Euro tiveram também um papel central (através da conjugação do declínio da competitividade externa em virtude da sobrevalorização cambial implícita com o acesso facilitado ao financiamento centro-europeu a taxas de juro muito mais baixas). Ora, a pertença a uma zona monetária nestas condições (sem mecanismos de transferência orçamental compensatórios e, para mais, com uma taxa de câmbio face ao exterior da zona Euro acomodatícia dos interesses do capital financeiro centro-europeu) condena a periferia da zona Euro a um processo inexorável de declínio terminal, análogo ao declínio das regiões mais pobres e periféricas do interior de Portugal (que apesar de tudo até têm contado com transferências orçamentais relativamente mais substanciais, o que não tem obstado ao seu declínio).

4. Por isso, no que se refere estritamente à questão cambial, o objectivo não é simplesmente “aumentar as exportações”, mas sim permitir que os fluxos económicos e financeiros entre Portugal e o resto do mundo deixem de ter lugar em condições determinadas por uma relação cambial fixa, sobredeterminada pelos interesses do capital centro-europeu e tendente a agravar as distorções do padrão de especialização das periferias, passando antes a reflectir a co-evolução da produtividade e a desincentivar, nas periferias, a concentração do processo de acumulação nos sectores rentistas e protegidos da concorrência externa. Naturalmente, a desvalorização do “novo escudo” implicaria o aumento do custo do financiamento externo, o encarecimento das importações e a perda de poder aquisitivo face ao exterior – mas os autores deste texto, e os de outras críticas anteriores que têm sido feitas na mesma linha, esquecem-se, por sua vez, de assinalar que: i) o encarecimento relativo das importações (face às exportações) e do crédito externo são necessários para evitar o avolumar da dívida externa, que é precisamente uma das raízes principais da situação em que se encontram a economia e a sociedade portuguesas; e ii) a perda de poder aquisitivo face ao exterior afectaria todos os rendimentos, incluindo lucros, juros, rendas, etc., e não apenas os salários (como recorrente e falaciosamente tem sido sugerido por vários dos meus “opositores” neste debate). O que importa sublinhar é que, nas circunstâncias actuais, todos os ajustamentos são e serão feitos à custa da compressão salarial, única variável de ajustamento permitida pela arquitectura da zona Euro; num cenário de saída e desvalorização, o ajustamento afectaria transversalmente o poder aquisitivo externo dos rendimentos do trabalho e do capital.

5. Os autores deste texto referem-se depois, de forma algo confusa, ao grau de intensidade tecnológica das exportações portuguesas para argumentar que a saída+desvalorização não teriam a capacidade de corrigir os desequilíbrios externos, dado que o problema das exportações radica no perfil de especialização. Outros têm argumentado que não se vislumbram empresas e empresários susceptíveis de aumentar o volume de produção de modo a responder aos ganhos de competitividade induzidos por uma eventual desvalorização. Ora, é certo que o problema de fundo das exportações portuguesas é um problema de padrão de especialização, claro está; mas isso não impede que a desvalorização tenha efeitos sensíveis e imediatos, como aliás tem sido sobejamente provado pela evolução recente das exportações portuguesas – que, ao contrário do que o governo tem pretendido sugerir, não tem reflectido qualquer sucesso ao nível do efeito-competitividade da compressão salarial em curso mas sim a relativa (e relativamente excepcional) depreciação do Euro face ao resto do mundo ocorrida nos tempos mais recentes (tal como demonstrado pelo facto do aumento recente das exportações portuguesas dirigir-se ao exterior da zona Euro e não ao seu interior). Penso que esta "experiência natural" recente deveria ter já permitido que ultrapassássemos a discussão em torno deste ponto – as exportações e as importações respondem efectivamente à taxa de câmbio, independentemente dos segmentos das cadeias de valor ocupados pelas diferentes economias.

6. Em todo o caso, em termos “estritamente económicos” e como já referi, o objectivo da recuperação da autonomia monetária não é estimular as exportações à custa do vizinho, mas sim permitir que um outro mecanismo que não a compressão salarial funcione como variável de ajustamento face à co-evolução das economias, corrigindo os desequilíbrios de forma automática e menos lesiva dos trabalhadores e classes populares. Esse mecanismo é a taxa de câmbio – e tem a vantagem óbvia, face à alternativa, de não incidir exclusivamente sobre o trabalho mas sim transversalmente sobre os rendimentos do trabalho e do capital. Simultaneamente, constitui um incentivo ao descentramento das estratégias de acumulação dos monopólios naturais rentistas e protegidos da concorrência externa em que esta mesma acumulação tem vindo crescentemente a assentar.

7. Ainda no que se refere ao lado “económico” da questão, referem os autores que a desvalorização do poder aquisitivo externo das poupanças afectaria sobretudo os pequenos e médios capitalistas e os trabalhadores, pois são os que menos capazes são de transferirem as suas poupanças para o exterior. Quanto a isso, importa dizer que, como é evidente, qualquer estratégia de saída teria de envolver o estabelecimento de controlos de capitais. Mais do que isso, porém, é estranho que uma proposta de esquerda como a destes autores tenha como umas das suas preocupações centrais proteger as poupanças em detrimento dos rendimentos presentes, nomeadamente os rendimentos presentes do trabalho: é que, como será evidente para todos, a inflação (seja por que via for) tende a penalizar sobretudo o capital e as classes dominantes, que detêm obviamente uma parte proporcionalmente mais substancial das poupanças. Não é certamente por acaso que o controlo da inflação é o objectivo estatutário único do BCE, reflectindo o predomínio dos interesses rentistas. é evidente que a redenominação das poupanças em “novos escudos” envolveria uma perda real de poder aquisitivo dessas mesmas poupanças, mas: i) trata-se de uma perda de poder aquisitivo que fundamentalmente teria lugar face ao exterior, não a nível interno (excepto pela via indirecta da incorporação dos custos intermédios externos, sendo em todo o caso errado referir que uma hipotética desvalorização de 20% implicaria uma perda de poder de compra em 20%); ii) essa perda de poder aquisitivo reflectiria e implicaria desvantagem relativa para os detentores de poupanças face aos beneficiários de rendimentos presentes, mas a correspondência tendencial entre estes dois grupos, por um lado, e os pólos da relação capital-trabalho, por outro, é óbvia; iii) no contexto do processo de saída (e de nacionalização da banca, pelo menos parcial, que essa saída necessariamente envolveria), seria certamente possível (pois é uma questão política) ao Estado proteger os pequenos aforradores (impondo taxas de conversão dos depósitos diferenciadas, por exemplo); e (iv) em qualquer dos casos, esse seria um dos preços a pagar pela possibilidade de readopção de políticas económicas mais favoráveis ao trabalho e à inversão do declínio.

8. Um outro aspecto, ainda “económico”, não referido pelos autores deste texto, mas que outros críticos têm referido e com razão, é o da turbulência transitória gerada por uma eventual saída. Embora conheçamos precedentes históricos como o caso da Argentina (que inverteu o declínio económico e encetou um processo de crescimento sustentado e com redução da desigualdade apenas um (1) semestre após a desindexação da sua moeda face ao dólar), é verdade que a saída de Portugal da zona Euro teria implicações qualitativamente diferentes, pelo que o precedente não é perfeito. A bem da honestidade intelectual e política que tem de guiar este debate, reconheço prontamente que esse é um dos factores de incerteza que aqui estão em causa. Simplesmente, não conhecemos com rigor quais as possíveis consequências de curto prazo de um processo deste tipo, incluindo em termos de eventual ‘overshooting’ da taxa de câmbio e ataques especulativos associados, ou ainda da gestão do acesso no curto prazo ao aprovisionamento de bens alimentares e energéticos. É uma questão da maior relevância, certamente, e um domínio em que é necessária mais investigaçao, mais reflexão e mais debate. Devemos reconhecê-lo. Mas devemos também reconhecer que sabemos qual  é a alternativa actualmente em cima da mesa: o processo em curso de “ajustamento” permanente e sem fim à custa dos salários directos e indirectos, temperado, para os mais optimistas, por um horizonte longínquo de contra-movimento eficaz à escala europeia;

9. Comecei este texto sublinhando que a substituição da compressão salarial pelo ajustamento cambial como mecanismo de ajustamento face aos desequilíbrios induzidos pela co-evolução da economia portuguesa face ao resto do mundo é um objectivo importante em si mesmo, mas não é o fundamental. O fundamental é outra coisa: o desmantelamento de um colete-de-forças institucional que inscreve na pedra relações de classe profundamente desequilibradas em favor do capital e em detrimento do trabalho. A recuperação da autonomia monetária em Portugal e noutros países implicaria recolocar em cima da mesa questões que, no contexto da União Europeia, estão constitucionalmente vedadas: nomeadamente, a possibilidade de financiamento monetário dos défices públicos sem a agiota intermediação bancária actualmente imposta; ou a possibilidade de adopção de uma conjugação de políticas monetária e fiscal/orçamental que tenha como objectivo o pleno emprego e não apenas o controlo da inflação. Um novo Banco de Portugal que recuperasse a autonomia monetária teria de definir estatutoriamente este tipo de questões, que neste momento estão constitucionalmente blindadas  à escala europeia - e essa definição teria lugar no contexto de debates políticos nacionais em que a esfera do possível seria, indubitavelmente, mais alargada. Não suponho irracionalmente que tudo seria um mar de rosas e que, no contexto desse confronto, as pretensões dos trabalhadores e classes populares seriam magicamente atendidas. O que sei é que a esfera do possível seria mais alargada do que actualmente o é (e, a meu ver, inevitavelmente continuará a ser) à escala europeia; e também sei que teria lugar num contexto em que a hegemonia do discurso neoliberal que legitimou aspectos como a independência dos bancos centrais ou o controlo da inflação como objectivo único ou primordial sofreu já uma muito forte erosão – o que seria certamente favorável à adopção de regras menos exclusivamente favoráveis aos interesses do capital e, em particular, do capital financeiro.

10. Mais do que trocar acusações pueris de parte a parte, de “nacionalismo”, por um lado, ou “cumplicidade com o capital centro-europeu”, por outro, importa por isso reconhecer que o fundamental do debate é em torno de estratégia política. De uma forma geral, divergimos na avaliação das vantagens e desvantagens de diferentes estratégias, não nos objectivos ou alinhamentos de classe. Seria importante que isso fosse reconhecido e ficasse assente. Ora, é precisamente a esse nível, mais estritamente político, que reconheço mais valor aos argumentos do texto do Passa Palavra: em termos simplificados, em que espero que os autores se revejam minimamente, a tese veiculada é que a opção de saída do Euro, na medida em que provocaria perturbações e turbulência concentradas no tempo, seria mais favorável ao reforço da extrema-direita do que um cenário de declínio gradual (ainda que, a meu ver, sem fim). É uma tese defensável, mas apenas uma tese – faltam os argumentos que a sustentem. “Não há nada mais parecido com um fascista do que um burguês assustado”, escrevia há dias o Pedro Feijó citando Brecht, e essa é sem dúvida uma frase muito acertada – mas quais são os motivos que levam a crer que os temores da pequena burguesia e a susceptibilidade da classe trabalhadora à “falsa consciência” são maiores no contexto de um processo de convulsão súbito com um horizonte de recuperação à vista do que num contexto de declínio cumulativo em que não se vislumbre qualquer esperança? Recorrendo à analogia histórica, com todas as limitações que isso envolve, é muitas vezes referido que a ascensão do nazismo decorreu, como factor causal preponderante, da hiperinflação alemã; acontece é que isso não é verdade: a ascensão do nazismo ocorreu no contexto da imposição de políticas deflacionistas e austeritárias, não da convulsão hiperinflacionista que as antecedeu e legitimou.

11. Finalmente, como referi no artigo que escrevi no Le Monde Diplomatique deste mês, a ameaça do default  e da recuperação da autonomia monetária é a única arma negocial das periferias europeias. Renunciar incondicionalmente a essa possibilidade implica, implicitamente, aceitar o caminho da condicionalidade externa e do declínio das periferias sem fundo e sem fim (ou até que o contra-movimento se torne suficientemente robusto e eficaz). De que outro modo pretendem os opositores da estratégia de saída forçar os interesses representados na troika a aceitar a manutenção do financiamento da economia portuguesa num contexto de denúncia do memorando? Ou será que nem pretendem denunciar o memorando? Obviamente, não acredito que seja esse o caso (que não pretendam denunciar o memorando) – acho é que há uma incongruência flagrante e tacticamente desastrosa em pretender, simultaneamente, denunciar o memorando, libertar a economia e a sociedade portuguesas dos constrangimentos do endividamento e condicionalidade externos e, ao mesmo tempo, rejeitar à partida aquela que é a única arma negocial susceptível da obtenção de cedências mesmo se o objectivo for aquilo que, para mim, é em todo o caso profundamente irrealista: a obtenção gradualista de cedências que permitam chegar ao “Euro bom”.    

11. Resumindo tudo isto num conjunto reduzido de teses:
i) o debate à esquerda sobre o Euro e sobre a saída como estratégia tem de continuar e vai necessariamente continuar, pois é aí que, em última instância, radica uma parte muito substancial dos constrangimentos que pendem neste momento sobre os trabalhadores e classes populares europeus, nomeadamente nas periferias;
ii) de uma vez por todas, esse debate deve dispensar o recurso demagógico a epítetos como “nacionalista”, que apenas retiram clareza, dignidade e seriedade ao debate;
iii) a proposta de esquerda da saída como estratégia não tem como objectivo único ou sequer principal o “estímulo às exportações”, mas sim a recolocação no centro da luta política de questões que, neste momento e à escala europeia, estão determinadas e blindadas de um modo que favorece inexoravelmente o capital, sobretudo o capital financeiro, e o centro em detrimento da periferia;
(iv) relativamente à “gestão” dos desequilíbrios externos, o que está em causa é a escolha entre um mecanismo (compressão salarial, i.e. austeridade sem fim) e outro (ajustamento cambial), em que o segundo é relativamente menos lesivo dos interesses do trabalho e relativamente mais lesivo dos interesses do capital;
(v) importa que, de uma vez por todas e por uma questão de honestidade intelectual e política, se deixe de referir que a perda de poder de compra face ao exterior provocada pela eventual saída e desvalorização afectaria única ou principalmente os salários, quando na verdade afectaria transversalmente todos os rendimentos e é a alternativa a um mecanismo de ajustamento que, como já comprovado, assenta, esse sim, quase exclusivamente na compressão salarial;
(vi) importa também reconhecer que, pelo menos para já, desconhecemos com qualquer tipo de rigor os efeitos económicos e políticos da turbulência induzida no curto prazo por uma eventual saída;
(vii) finalmente, falta também uma discussão política mais séria, mais profunda e mais fundamentada em torno das implicações mais estritamente políticas de uma e outra opção, nomeadamente no que toca ao risco da ascensão da extrema-direita;
(viii) ou seja, o debate deveria reconhecer que a escolha estratégica é entre: a) a tentativa de reconquista e reforma das instituições que regulam o Euro e o seu funcionamento, implicando a hipótese segundo a qual a consolidação a nível europeu de um bloco social de base popular suficientemente poderoso para esse efeito é possível num período de tempo razoável (antes do declínio terminal e da espoliação generalizados) e permitindo aceitar a continuação dos retrocessos das periferias e das classes populares até lá; ou, em alternativa, b) a consideração que essa consolidação, reconquista e reforma não são possíveis em tempo útil, pelo que a melhor estratégia passa pela saída, apesar dos seus custos, mas certamente abrindo caminho a formas futuras de cooperação internacionalista a todos os níveis, incluindo o da integração monetária, desde que em moldes favoráveis às pessoas e não ao capital;
(ix) ambas as opções estratégicas envolvem incerteza: a opção da permanência, no que diz respeito aos tempos e possibilidades de sucesso da consolidação de uma resposta popular europeia efectiva; a opção da saída, no que diz respeito à magnitude da turbulência de curto prazo e às suas consequências; ambas as opções, no que diz respeito à maior ou menor propensão para a emergência de reacções políticas adversas, especialmente no que se refere ao risco de reforço da extrema-direita. Se assim é, é nestes pontos que o debate deveria desejavelmente incidir – não no retorno recorrente a falácias ou argumentos já falsificados.
(x) independentemente de tudo isto, no contexto da táctica política actual, é um erro colossal por parte da esquerda aplicar-se com tamanho denodo na rejeição da única arma negocial relevante que pode permitir “suavizar” a austeridade sem fim e mitigar os retrocessos dos trabalhadores e classes populares actualmente em curso. No mínimo, tem de servir como ameaça – rejeitar esta possibilidade à partida é dar um tiro no pé em termos dos interesses de classe que se pretende defender.

Prossiga então o debate em torno do que nos divide - e prossigam então todas as lutas em torno do muito que nos une.

domingo, 14 de outubro de 2012

The Durutti Column: My country


«My country. My class. Poor people. Old people.
No health care. Young people. Cut education. Black people.
Discrimination. Gay people. Legislation. My country.
Will you ever recover»

sábado, 13 de outubro de 2012

Prémio à desunião

O actual modelo de construção europeia conduzido pela UE e pelas suas instituições é absolutamente contrário aos interesses dos trabalhadores e dos povos do nosso Continente. Não se pode premiar, em nome da paz, uma instituição que de forma cada vez mais acentuada põe em causa direitos laborais, sociais, culturais, da paz e da cooperação entre os povos. 

A declaração da CGTP é bastante pertinente e contrasta com um europeísmo acrítico cada vez mais anacrónico. De resto, o Prémio Nobel vem com mais de dez anos de atraso, como assinala Medeiros Ferreira. Acho que quando muito vem com pelo menos mais de vinte anos de atraso, já que até teria sido de algum modo defensável a sua atribuição à CEE, sobretudo enquanto foi compatível, apesar do viés liberal original, denunciado, por exemplo, pela social-democracia escandinava ou pelo trabalhismo britânico, com a reconstrução dos Estados e/ou com o reforço das suas capacidades. Isto numa outra configuração institucional, menos entusiasta da liberalização sem fim e numa outra correlação das forças sociais. Já esta UE é um fracasso porque foi um sucesso neoliberal. Maastricht assinalou uma ruptura pela qual estamos a pagar muito caro. Uma figurinha como Durão Barroso - será que é ele que vai a receber o tal prémio? - simboliza bem a mediocridade e perversidade de todo o arranjo.

A UE é hoje uma construção que humilha os povos, sobretudo os periféricos, o euro-imperialismo, mina a sua independência, atrofia decisivamente as democracias, tem inscrita o neoliberalismo nas suas instituições centrais, na sua rigidez monetária, na sua assimetria mil vezes denunciada e com os seus mecanismos explicitados, revelando ser um dos instrumentos mais poderosos de que de que alguma vez dispuseram certas fracções da burguesia para reconfigurar as economias políticas nacionais, sendo aliás um factor não de controlo, mas sim de intensificação da globalização. Trata-se de um arranjo que está fadado para ser uma causa de conflitos porque é um factor decisivo de polarização social e regional, de perda, sem compensação, de instrumentos de política económica, de austeridade permanente, de desemprego de massas. Nem todo o poder da propaganda é capaz de evitar esta realidade durante muito tempo, ainda para mais quando a bolha de Bruxelas, de uma Comissão Europeia rodeada de mais grupos de pressão empresariais do que aqueles que existem em Washington e com menos vestígios de democracia, gera todas as miopias entre as elites políticas, fazendo com que o eixo político Bruxelas-Frankfurt esteja até à direita do próprio FMI. Isto não é conjuntura, é estrutura.

A única questão é saber como saímos daqui e como reconstruímos um processo de coordenação europeu, de geometria variável, que aumente a margem de manobra dos Estados, ou seja, das democracias realmente existentes. Enquanto toda a esquerda não se convencer de que esta é a tarefa, enquanto não voltar às análises críticas dos socialismos europeus, do movimento sindical, estará condenada a derrotas seguidas de ainda mais derrotas. O resto é solidariedade com várias escalas, a passar por uma aliança das periferias que trabalhe na divisão credor-devedor, apenas uma das muitas fracturas geradas.

Poste editado

Manual de instruções para austeritários em fuga

Não sabemos ainda quando (nem como) sairemos da insanidade em que nos mergulharam. Mas pode dizer-se que entrámos, nas últimas semanas, numa nova fase de evolução da crise: a evidência do fracasso da opção austeritária é cada vez mais indisfarçável e avassaladora. Bem podem os seus arautos e responsáveis continuar a insistir nos «amanhãs que cantam» que já ninguém acredita. Tinham-nos anteontem prometido que cantariam ontem. Tinham ontem prometido que cantariam hoje. E nem um pio se ouviu.

É bem certo que fanáticos, como Gaspar, sempre os teremos entre nós. De pouco importa se o navio que embateu violentamente nas rochas é já só um amontoado de destroços. No seu delírio, continuam a imaginá-lo em impante movimento, a aproximar-se do sonhado horizonte, por mais que este sempre se afaste. Esta é a primeira forma de fuga, a negação, e combina (em doses variáveis) crença com oportunismo: quando confrontados com resultados que escapam às suas previsões, os «austeritários negacionistas» ora respondem com uma fé inabalável e delirante, ora invocam razões obscuras, a que são alheios (vejam por exemplo como - na sequência da mais recente avaliação da troika - tanto Vítor Gaspar, como Abebe Selassie e Passos Coelho falam de «ventos favoráveis e desfavoráveis»: ora para justificar o fracasso a partir de elementos que não controlam, ora para renovar ilusões sem fundamento).

Uma outra forma de fuga corresponde a uma espécie de esquizofrenia inconsequente. Christine Lagarde personifica-a: mostra dar sinais de ter percebido o logro que constitui a receita suicida, referindo-se à «fadiga da austeridade» e reconhecendo os clamorosos «erros de cálculo» sobre os seus impactos na economia, ou sugerindo que o veneno seja tomado em menores doses e por mais tempo. Nada que, contudo, provoque mudanças na «outra personalidade», a que continua a aplicar a receita austeritária de forma impiedosa e implacável.

O chico-espertismo é uma terceira forma de fuga, de que se socorrem seres politicamente medíocres e invertebrados como José Manuel Durão Barroso. É a estratégia de evasão mais cínica e miserável: trata de tentar alijar responsabilidades de uma forma repugnante. Depois de forçar os países sob «intervenção externa», na parte que toca à Comissão Europeia, a aceitar a sangria austeritária (que nunca deixou de enaltecer) vem dizer - assim que começa a farejar o avolumar do fracasso - que afinal tudo não passou de uma maldade que os governos nacionais decidiram infligir aos seus cidadãos.

Imaginem uma unidade de cuidados intensivos onde um paciente é submetido a uma terapia errada, que não só não lhe cura o mal de que sofre como o está a matar. Desafiados a explicar por que razão o paciente não melhora sob os seus cuidados, a Dra. Lagarde diz que as doses de medicação têm efeitos secundários preocupantes e que foram mal calculadas, mas continua a administrá-las da mesma forma. O Dr. Barroso, por seu turno, culpa o doente por ter aceite a medicação que lhe foi prescrita. E o Dr. Gaspar (coadjuvado pelo Dr. Abebe), diz que não há problema nenhum com a prescrição: se não está a funcionar é porque andam uns ventos a soprar lá fora e que o que há que fazer é, seguramente, reforçar a dose terapêutica.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Da prática neoliberal

[Q]uando se diz que este Governo não pode ser neoliberal porque fez um "enorme aumento de impostos" esquece-se que ele o fez a contragosto - ou melhor, por incompetência, inabilidade, volubilidade - e que, além do mais, esse é apenas um dos elementos do neoliberalismo. Todos os outros aspectos acima referidos estão presentes na agenda do Governo: a subalternização da democracia, a ideia de que nunca há alternativa, a precarização dos vínculos laborais, a redução dos apoios sociais e da sua universalidade, os cortes cegos na despesa, as privatizações a todo o custo, a ausência de política económica, etc. Foi precisamente por ter, à partida, um projecto neoliberal que este Governo pôde dizer que o programa da ‘troika', que tem também esse pendor, era "o seu programa", não apenas uma necessidade contingente, e que quereria, como tem feito, ir para além dele. Alguns dirão: "pois é, mas, na nossa situação, não temos alternativa". Isso significa que estão a pensar dentro do mesmo paradigma neoliberal.

João Cardoso Rosas contraria com sensatez a ideia, que corre em certos círculos da direita mais intransigente, de que este governo não é neoliberal, revelando a aposta de sempre nestes círculos em apagar as marcas ideológicas da governação, em transferir responsabilidades. João Duque chegou mesmo a dizer que este governo estaria à esquerda da esquerda. Vale tudo e ainda não vimos tudo. Este governo está comprometido com a austeridade imposta externamente, o melhor seguro de vida do programa de transformação neoliberal nesta fase, revelando aliás a natureza ideológica da integração europeia pelo menos desde Maastricht. O enquadramento monetário e financeiro nunca é neutro e com estas regras os efeitos só podem ser neoliberais. Não há alternativas nesta estrutura. Os aumentos de impostos em si pouco ou nada dizem, sobretudo quando os seus efeitos podem ser regressivos para amplos sectores, já que se diminui o número de escalões, e quando podem facilitar um aumento ainda maior da pressão para a compressão da despesa, sobretudo com salários, prestações sociais e investimento público, uma fragilização recessiva e regressiva sem paralelo em curso nos últimos anos, um aumento do desemprego sem paralelo, uma pressão sobre o mundo do trabalho organizado sem paralelo, um processo de neoliberalização sem paralelo. Por isso, é preciso conhecer o neoliberalismo enquanto feixe de ideias, enquanto pacote político-ideológico, para usar a expressão de Cardoso Rosas, nas suas várias versões, teoricamente mais puras e politicamente mais impuras, existindo já uma ampla literatura crítica nos campos da economia e filosofia políticas sobre estas matérias, aqui resumida em dois mil caracteres. Digo impuras porque as ideologias dominantes também têm de integrar valores e práticas que por vezes não ligam bem com aspectos centrais do seu projecto, têm de aceitar recuos tácticos para poder avançar com a força de um núcleo de convicções que nunca se abandona, com a força das estruturas legadas por vitórias anteriores, com a pressão externa que é a força de um bloco social interno cuja desagregação vai sendo adiada.


Hoje: Economia e interdisciplinaridade(s)

«Em que medida os esforços de construção de uma Economia mais sólida e relevante num mundo turbulento como o nosso trazem para primeiro plano a questão da interdisciplinaridade? Poderá a reflexão sobre a interdisciplinaridade fazer avançar a agenda da Economia? De que modo(s)? Que lições poderemos retirar da história do pensamento económico, nomeadamente revisitando autores como Celso Furtado, Gunnar Myrdal ou Alfred Marshall, reexaminando conceitos como o de custos sociais ou temas como a natureza do Estado e o seu papel na economia ou as origens morais e políticas da Economia?»

Organizado por Celia Kerstenetzky e Vítor Neves, o livro «Economia e Interdisciplinaridade(s)» será hoje lançado, na Livraria Almedina do Estádio Cidade de Coimbra, a partir das 18.00h. A apresentação da obra estará a cargo de António Simões Lopes, professor catedrático jubilado do ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão) e contará com a presença dos organizadores.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O absurdo a que temos de pôr fim

 

João Ferreira do Amaral no Público de hoje:

A receita parece ser a mesma para 2013. Tentando o impossível, o orçamento para o próximo ano irá impor um brutal aumento da carga fiscal que vai ter profundos efeitos recessivos através da redução do rendimento disponível e que, quase certamente, não vai permitir cumprir o objectivo de redução do défice público para 4,5% do PIB. Esta teimosia em tentar atingir os dois objectivos através de um tratamento de choque de empobrecimento generalizado está a custar muito caro ao país e vai custar muito mais ainda em 2013. Por aquilo que, neste momento, se conhece das linhas do orçamento para o próximo ano, não é difícil prever que a redução da actividade económica será superior à recessão indicada pelo Governo e o aumento do desemprego será ele também, com certeza, maior.

É até possível que o Governo, quando ao longo de 2013 for verificando que não cumpre o objectivo orçamental, tente forçar o cumprimento aumentando ainda mais a carga fiscal. Se tal suceder, é bem provável que se verifique uma ruptura social e política de consequências imprevisíveis.

Declaração do Congresso Democrático das Alternativas


«Perante os resultados destruidores que levaram Portugal a uma situação dramática, perante a rude marca ideológica dos que governam, é preciso afirmar com clareza que há outras políticas, mais justas e mais criadoras. Há alternativas. Essas alternativas hão de basear-se num compromisso comum das forças políticas e sociais que dão valor ao desenvolvimento e à inclusão social, afirmam a dignidade do trabalho, estimam o papel da esfera pública e defendem uma democracia robusta. Cabe às forças políticas e sociais que queiram reverter esta situação, sem futuro nem solução, dizer que não é por falta de alternativas que não se põe termo a esta situação iníqua e contraproducente.
Para isso, a tarefa principal é estabelecer os denominadores comuns da ação coletiva necessária para aprofundar um combate frontal às políticas da troika e do governo e dizer quais são os outros caminhos. É essa a finalidade desta Declaração. O combate é necessário porque Portugal está numa situação em que se vê impedido de valorizar os seus recursos, a começar pelo trabalho, em que a sua dependência produtiva se aprofunda, em que as pessoas ficam desprotegidas pelo desmantelamento do Estado e em que a democracia regride. É contra isto que estamos. E sabemos também a favor do que nos pronunciamos.»

Excerto da versão final da Declaração do Congresso Democrático das Alternativas, aprovada na Aula Magna da Universidade de Lisboa a 5 de Outubro de 2012.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Gaspar no casino (II)

Recapitulemos:

1. O corte dos subsídios de férias e Natal a pensionistas e funcionários públicos (que renderia cerca de 2 mil milhões de euros), foi inicialmente justificado - pelo governo - com a necessidade de compensar um «desvio colossal» (nunca demonstrado) nas contas públicas do primeiro trimestre de 2011.

2. Quando Vítor Gaspar redimensionou esse fantasioso «buraco» para metade, a justificação para os cortes passou a ser a necessidade de «ganhar margem de manobra», tendo em vista o cumprimento da meta do défice (4,5%) acordada com a troika para 2012. Tratava-se afinal, portanto, de uma «colossal medida preventiva».

3. Com o veto do Tribunal Constitucional (TC) ao corte de subsídios a pensionistas e funcionários públicos em 2013 (por «violação do princípio da igualdade»), o governo decidiu lançar-se na aberrante aventura da TSU. Globalmente, entre cortes generalizados de subsídios e alterações à TSU, a «margem de manobra» seria ampliada para 2,3 mil milhões de euros, a que acresceriam as medidas necessárias para acomodar o desvio do défice para 2012.

4. Com o 15 de Setembro e o Conselho de Estado, o governo viu-se forçado a recuar e a encontrar outras medidas de austeridade que - supostamente - teriam em vista compensar o veto à TSU. É então que se chega ao «enorme aumento de impostos» anunciado por Vítor Gaspar, necessário a cumprir as novas metas do défice acordadas com a troika (5% em 2012 e 4,5% em 2013). Tudo somado, passou a tratar-se de uma receita que ronda, no mínimo, os 5 mil milhões de euros.

5. Para salvar o parceiro de coligação, o «partido do contribuinte» - e assim evitar passar a certidão de óbito a um governo morto - Gaspar pretende agora «mitigar» o aumento de impostos com novos cortes na despesa, feitos à custa da função pública (despedimentos, idade de reforma e cortes na protecção social). Uma opção que recoloca em cima da mesa a questão da violação do princípio da igualdade suscitada pelo TC, e que - já não seria surpresa para ninguém - poderá servir para ganhar ainda «mais margem de manobra».

6. Gaspar e o seu governo incorreram num «enorme» falhanço em 2012 e falharão de forma «colossal» em 2013. Todas as «margens de manobra» - obtidas à custa de sacrifícios inúteis, violentos e contraproducentes - serão esturradas como até aqui.

Os médicos têm um nome para a doença de que sofrem pessoas viciadas em casinos: «jogo patológico». No caso de Gaspar, trata-se de brincar a uma estúpida folha de excel, da qual não desvia os olhos por um segundo. Com a agravante de, ao contrário de uma roleta, esse jogo não ser de sorte nem de azar: os trágicos resultados que alcança são demonstradamente previsíveis (aqui como na Grécia, de quem estamos cada vez mais perto). E somos nós, como pais a quem o filho mimado não se cansa de exigir dinheiro, a pagar - na pele - a conta de tão teimosa e insane brincadeira.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A Europa caminha para o suicídio. E nós?


A actual política económica da UE está a lançar no desespero milhões de europeus que integram a eurozona. Mais, ao impor uma política económica semelhante à que no princípio dos anos trinta do século passado o chanceler alemão Heinrich Brüning adoptou para enfrentar a Grande Depressão (reduções salariais, aumento dos impostos, redução de apoios sociais), as elites políticas europeias estão a lançar a Europa na recessão e a pôr em risco a economia mundial (ver relatório do FMI).

Entretanto, em Portugal não há um órgão de comunicação social que identifique a génese teórica desta política e documente o seu fracasso histórico. Parece que nada se aprendeu com o fracasso da política económica que precedeu a subida ao poder de Roosevelt nos EUA e de Hitler na Alemanha. Como disse Paul Krugman, a Europa caminha para o suicídio. Com um desemprego de massa produzido por esta política depressiva, o clima social na Europa é cada vez mais favorável ao discurso populista. Sem falar nos países do centro, em Portugal o PS propõe a redução do número de deputados, na Grécia é preocupante a afirmação (legal e ilegal) da Aurora Dourada, na Espanha o discurso anti-políticos cada vez mais enquadra e canaliza a ira popular. É gritante a falta de uma narrativa de esquerda para esta crise que seja simples e intuitiva.

Não sabemos quanto tempo mais a Grécia vai suportar esta política. Mas sabemos bem que Portugal e Espanha (mais adiante a Itália) vão pelo mesmo caminho. E chegará a vez da França que também se propõe equilibrar o défice para acelerar a sua entrada na recessão.

Claro, ainda há quem pense que a UE, persistindo na batalha perdida do equilíbrio dos orçamentos, pode relançar o crescimento económico e evitar a desintegração. Porém, de nada serve fazer planos de melhoria do financiamento das empresas quando não há procura para o que produzem. Lançamento de grandes projectos europeus em diversos tipos de infraestruturas, com financiamento através do BEI por emissão de obrigações, seria interessante para as grandes empresas alemãs, algumas francesas e pouco mais. Mas não se vê em que é que tais projectos beneficiariam as PME portuguesas que vivem do mercado interno e ainda não faliram. A verdade é que o discurso do relançamento à escala europeia, a conhecida "economia da oferta", é uma fuga ao reconhecimento de que só um relançamento da procura interna à escala nacional terá eficácia. E que isso não se pode fazer porque implica a ruptura com a política depressiva e a aceitação do financiamento do défice por emissão de moeda. Uma impossibilidade enquanto aceitarmos a tutela da Alemanha e seus satélites.

Evidentemente, existe outra política económica. Ela começou a ser construída no Congresso Democrático das Alternativas e passa pela denúncia do Memorando e a abertura de um processo negocial com a UE em nome do direito ao desenvolvimento de Portugal. Se desse processo negocial resultar inevitável a saída da eurozona, seja. Os custos serão sempre menores que os de permanecer nesta espiral depressiva. É que no primeiro semestre do próximo ano há mais derrapagem nas receitas fiscais e mais austeridade à nossa espera. E mais gente para desempregar, para além dos que serão despedidos até ao fim deste ano na função pública e nas empresas.

Entretanto, uma pergunta crucial aguarda resposta: quando Paulo Portas saltar do governo, estará já disponível uma alternativa política que dê futuro ao país?

Multiplicar

Graças a Sérgio Aníbal do Público, fiquei a saber que o FMI se enganou uma vez mais: os efeitos recessivos da austeridade, medidos pelos multiplicadores orçamentais, são muito maiores do que o previsto. De facto, o FMI estimava que o efeito de um corte na despesa pública ou de um aumento dos impostos de 1 euro geraria um impacto negativo de cerca de 0,5 euros no PIB, mas agora estima que esse impacto negativo esteja entre 0,9 e 1,7 euros, algures entre o dobro ou o triplo, é só multiplicar. É o que dá subestimar o contexto histórico específico de crise generalizada, depois de rondas de liberalização, de muito reduzida utilização da capacidade produtiva instalada e de colapso do investimento, de política monetária convencional limitada e de austeridade generalizada, o que gera, sobretudo à escala da disfuncional Zona Euro, todos os círculos viciosos: a despesa de uns é mesmo o rendimento dos outros.

Vicioso é também o efeito de bola de neve da dívida nacional, graças ao abismal diferencial entre a taxa de juro exigida a um país sem soberania e a taxa de crescimento. Uma é largamente positiva e a outra é largamente negativa, graças à austeridade. São assim múltiplas as vias através das quais a realidade denuncia as tenebrosas fantasias do memorando. Quando a opinião convencional apoda de “romântico”, como fez o Público em editorial recente, quem quer denunciar o memorando, é preciso dizer que neste contexto os tais românticos são os mais realistas, até porque apenas pretendem confirmar politicamente algo que está à vista, usando a capacidade negocial externa do país e todas as armas ao seu dispor. Qual é a alternativa disponível? Todos têm a obrigação de saber que, por exemplo, os despedimentos maciços, agora no precariado de um sector público depauperado e com menos trabalhadores do que a média da OCDE, a austeridade realmente existente, terão certamente efeitos multiplicadores…

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Popularizar

Para os leitores do Le Monde diplomatique, este falhanço da receita da austeridade não tem nada de imprevisível – muito mais imprevisível era saber que ponto de saturação poderia trazer o regresso do povo, como sujeito histórico. Também não confundem o falhanço das políticas de austeridade (a inadequação dos resultados destas políticas aos seus objectivos enunciados) com o fracasso do «regime austeritário» (que seria a inadequação dos resultados aos verdadeiros propósitos desta política imposta à escala europeia).

Sandra Monteiro relembra a importância de um jornal, onde há vários anos se critica a austeridade e se apontam caminhos alternativos, num contexto de mobilização popular. Excelente exemplo dessa atitude é o artigo do Alexandre Abreu este mês sobre o que se segue a esse acto imprescindível de soberania democrática que é a denúncia do memorando, em linha com o seu contributo escrito para o congresso democrático das alternativas.

sábado, 6 de outubro de 2012

Avançámos

Acho que o Congresso Democrático das Alternativas, realizado ontem, correu muitíssimo bem por várias razões. Em primeiro lugar, cerca de 1800 pessoas, oriundas de diversos quadrantes político-partidários e sociais, foram capazes de debater e aprovar uma declaração substantiva que aponta para alternativas robustas ao presente rumo de desastre austeritário, indicando que a unidade à esquerda se pode fazer em torno de ideias para governar o país. Torna-se assim mais difícil dizer-se que não há alternativas. Em segundo lugar, evitou-se o vago e preguiçoso “entendam-se”, sempre sem programa, habitualmente dirigido às forças de esquerda, afirmando-se antes um exemplar “entendemo-nos” que deixa lastro. Entenderam-se milhares de cidadãs e cidadãos em torno de algo muito concreto e que inclui um elemento destinado a constituir nos próximos tempos o principal eixo da política portuguesa: a denúncia do memorando e as suas tarefas. Em terceiro lugar, os cenários a jusante do acto soberano que só confirmará politicamente o que a realidade já denunciou foram discutidos sem tabus ou anátemas, com diversidade natural de pontos de vista num contexto tão difícil e complexo. A mobilização da capacidade negocial externa do Estado, a necessidade de escolha política em relação aos diversos compromissos que o país tem, deixando de dar prioridade aos interesses dos credores, usando a reestruturação da dívida como instrumento de política, foram alguns dos muitos pontos em que houve fundamental convergência. Em quarto lugar, os muitos contributos escritos deixaram um lastro para aprofundar discussões e consolidar alternativas, em matéria, por exemplo, de política económica orientada para o pleno emprego. Em quinto lugar, num dia republicano ouviram-se, de Vasco Lourenço a Manuel Carvalho da Silva, passando por José Soeiro, Pedro Alves ou Mariana Avelãs, as palavras clarificadoras de que é feita uma República: patriotismo, soberania, povo, democracia, movimentos sociais. As palavras são ainda mais importantes num país que, tal como a bandeira de Cavaco, precisa de uma volta. Avançámos.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Hoje: Congresso Democrático das Alternativas


Os trabalhos serão transmitidos em directo, pela internet, na página do congresso

Programa:

09.00h- Credenciação dos participantes, convidados e jornalistas
10.00h- Sessão Plenária: Abertura
11.00h- Secções Temáticas
13.00h- Almoço
14.00h- Sessão Plenária: Apresentação dos relatórios dos Grupos Temáticos
15.10h- Sessão Plenária: Apresentação da Declaração ao Congresso
15.25h- Sessão Plenária: Intervenção dos congressistas
17.45h- Sessão Plenária: Votação da Declaração do Congresso
18.30h- Sessão Plenária: Encerramento do Congresso

O Programa detalhado, o Projecto de Declaração do Congresso, os Relatórios dos Grupos Temáticos e os Contributos Escritos para debate preparatório encontram-se disponíveis aqui.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Para grandes males grandes remédios


Hoje, muitos milhares de portugueses interrogam-se sobre a viabilidade de um novo caminho para o país, sendo precisamente essa a ordem de trabalhos do Congresso Democrático das Alternativas que se realiza em Lisboa, a 5 de Outubro. Para iniciar a construção de uma alternativa credível, os cidadãos que aí se vão reunir precisam de chegar a conclusões consistentes e formuladas sem subterfúgios. Por exemplo, não podem esquecer que, embora colocada em segundo plano nos debates públicos, a dívida externa privada é de facto o maior problema do país. Por isso, a denúncia do memorando e o processo negocial com a UE que tal decisão possa desencadear devem ser norteados por um objectivo que enquadre e dê racionalidade a uma reestruturação da dívida pública que já hoje é inevitável.

A mobilização do país não se fará pelo “não podemos pagar, não pagamos”. O país mobilizar-se-á para uma alternativa se lhe for apresentada uma estratégia de desenvolvimento que, a prazo, resolva o nosso problema de persistente défice externo. A via alternativa vai ter de ser justificada de forma positiva, ancorada num horizonte de desenvolvimento, explícita quanto à determinação em ir até às últimas consequências em caso de recusa da UE. O povo não se mobiliza com meias verdades e, por isso, também vai ser preciso dizer-lhe que muito provavelmente haverá que fazer uma escolha crucial: ou a submissão à matriz ordoliberal da UE e o subdesenvolvimento como destino, ou a recuperação da soberania monetária e da autonomia na política económica do país. O drama que vivemos exige coragem política.

(Excerto do meu artigo no jornal i; o último parágrafo não está na versão electrónica)

O choque fiscal do CDS-PP


O choque fiscal deixou o CDS-PP tão atordoado que o melhor que arranjou para dizer foi que para reduzir os impostos era preciso cortar na despesa. Isso é espantoso e injusto para o Ministro Vitor Gaspar. O governo tem cortado na despesa e nada pouco. Cortou no subsídio de desemprego, cortou nos transportes, cortou no RSI, cortou na educação, cortou na saúde, cortou no investimento…  É verdade que não cortou noutras coisas. Não cortou nas PPP, não cortou nas prebendas fiscais às SGPS, não cortou no financiamento da banca, não cortou no serviço da dívida… Mas, fartou-se de cortar na despesa. O problema é que cortando na despesa, cortou involuntariamente na receita.

A conversa do corte da despesa é um embuste. Os cortes na despesa custam-nos tanto como os aumentos de impostos. No outro dia, na TV, um dos economistas das inevitabilidades distraiu-se e disse que “toda a redução da despesa do Estado é redução da receita de alguém”. Aí está. É precisamente por isso que toda a redução da despesa em contexto recessivo tem um efeito ainda mais recessivo, como aliás todo o aumento de impostos dirigido ao que vivem do seu trabalho. O que é estupido (desculpem, não tem outro nome) é reduzir a despesa e aumentar impostos sobre o rendimento do trabalho em contexto recessivo.

Quer isto dizer que não há despesa que devia ser reduzida? Claro que há, a começar pelas rendas das PPP e de empresas monopolistas e a continuar no serviço da dívida. Devia ser reduzida esta despesa, mas para investir a poupança resultante e criar emprego, e distribuir rendimento, e estimular a procura, e obter a receita do estado que reduzisse o défice. Tudo ao contrário do que eles fazem aqui e na Europa toda.

Sem comentários (III)


«Serei rigorosamente imparcial no tratamento das diversas forças políticas, mantendo neutralidade e equidistância relativamente ao Governo e à oposição. (...) A nossa sociedade não pode continuar adormecida. (...) É altura dos Portugueses despertarem da letargia em que têm vivido (...) Muitos dos nossos agentes políticos não conhecem o país real, só conhecem um país virtual e mediático. Precisamos de uma política humana, orientada para as pessoas concretas, para famílias inteiras que enfrentam privações absolutamente inadmissíveis num país europeu do século XXI. (...) Os Portugueses não são uma estatística abstracta. (...) Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.» (Aníbal Cavaco Silva, a 9 de Março de 2011).

Via Miguel Abrantes, no Câmara Corporativa (do discurso de tomada de posse de Cavaco Silva, na íntegra aqui).

Hoje

«A caminho de uma Cimeira Alternativa e de um Tribunal da Dívida»
Conversa com Walter Baier, às 18.30h. no espaço MOB (Travessa da Queimada, 33, no Bairro Alto, em Lisboa).

Esta sessão insere-se na preparação do «Encontro Alternativo na Europa», que está convocado para a Primavera de 2013, na Grécia. Neste encontro juntam-se diversas organizações e personalidades que se têm manifestado contra o aprofundamento da agenda neoliberal, a pretexto da crise. Pretende-se trazer o projeto europeu para o campo da democracia e do progresso ecológico e social. Haverá debates, fóruns e um tribunal europeu da dívida (mais informações aqui).

O «Encontro Alternativo na Europa» é convocado por redes de investigadores (Economistas Aterrados, Fundação Copérnico, Red Pepper, entre outras), organizações sociais (ATTAC, a Rede Europeia de Luta contra a Pobreza, o Greenpeace, a Transform ou o Comité de Anulação da Dívida do Terceiro Mundo), sindicatos e centrais sindicais (a CGIL italiana, a CGT francesa, a FGTB belga) e por várias personalidades, como: Slavoj Zizek, Walter Baier, Susan George, Tariq Ali, Carlos Taibo, Ken Loach, Antonio Negri, Jean Ziegler, Stéphane Hessel, Ricardo Petrella, Éric Toussaint.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sem comentários (II)


«Queria fazer-vos uma declaração em relação às medidas anunciadas hoje. (...) Vão aumentar as taxas do IRS, em termos práticos, mais 10 ou 15%, face ao que as pessoas pagam todos os meses. O aumento é duplo: chamo à atenção que agora sobem as taxas e há um mês tinham anunciado o corte nas deduções. O que significa que se vai pagar mais ao Estado todos os meses e que se pode deduzir menos, muito menos, em educação e saúde. (...) E, embora o primeiro-ministro não o tenha clarificado, temo que não sejam apenas os trabalhadores que estão no activo, mas também os pensionistas, que vejam o seu IRS agravado. (...) Isto é um bombardeamento fiscal que é negativo para a nossa economia. (...) Eu mantenho a palavra que dei ao eleitorado: o caminho é fazer uma compressão da despesa. É reduzir a despesa que pode ser reduzida. E não é ir pelo aumento de impostos, por aumentos de impostos sucessivos. (...) Eu dei a minha palavra ao eleitorado e mantenho-a: pedi confiança às pessoas para outro modelo fiscal. Não me deram confiança para estar a votar aumento de impostos. (...) Lamento profundamente que os portugueses cheguem cada vez mais à conclusão que o governo não tem palavra, relativamente à questão fiscal, como a muitas outras matérias.» (Paulo Portas, a 13 de Maio de 2010).

Um achado de Patrícia Reis (via Fernanda Câncio, no facebook). O video pode ser visto na íntegra aqui.

Austeridade familiar

Estar sob tutela externa e ter um governo que não faz nada para defender a capacidade negocial externa do país fazem com que os interesses dos credores e dos seus representantes políticos tenham prioridade até na prestação de contas. Só hoje começamos a conhecer os novos contornos de uma austeridade já familiar nos seus efeitos recessivos. Perante a informação de que o Estado cortou 13 mil milhões de euros desde 2010 na sua despesa, uma quebra de 16%, ao mesmo tempo que os encargos com o serviço da dívida crescem sem cessar, José Alberto Carvalho, um jornalista respeitável, em entrevista a um Carlos Moedas que não tardará a regressar aos “mercados” de onde veio, afirmou que o ajustamento das famílias foi ainda mais violento do que o do Estado, levando até Moedas a dizer qualquer coisa mais ou menos verdadeira como o Estado somos todos nós e todos nós estamos a ser “esmifrados”. Este todos é um ficção num pais tão desigual, claro.

Confirma-se assim que há quem não tenha percebido, por distracção e/ou por interesse, um ponto em que aqui temos insistido: o Estado não se pode tentar comportar como uma família em crise, e tentar aumentar os seus “rendimentos” e cortar nas suas “despesas”, sem afectar as famílias realmente existentes com quebra dos rendimentos, salariais e de prestações sociais, sem pôr em causa os serviços públicos que cuidam e qualificam, sem travar o investimento público que liga e cria actividade. O problema central é a quebra de procura e a austeridade só agrava este problema por todos os lados. O Estado só ajuda quando faz o contrário e contraria a quebra da procura. O inevitável défice em contexto de recessão é um horizonte que serve neste contexto para desmantelar, ou seja, para atrofiar as capacidades dos cidadãos.

Tudo neste enquadramento monetário externo contribui para fazer com que o Estado se comporte como se fosse uma família em crise, aprofundando a crise realmente existente. Uma nova ronda de austeridade garantirá que a taxa de desemprego ultrapassará os 16,4% previstos por um sempre optimista Gaspar para 2013. O dobro da taxa de desemprego no último programa do FMI, quando tínhamos moeda própria nos idos de oitenta. O Estado soberano é um país distante? É o que dá acreditar, como Gaspar, no equilíbrio em vez de aceitar que existem causalidade cumulativa e círculos viciosos, que existe um euro disfuncional que foi e é a expressão das suas ideias fracassadas.

Que fazer? Começar a pensar em sacudir a tutela externa, através de um acto soberano democrático que consiste na denúncia do memorando, dizendo à troika que assim não dá, e abrindo um processo negocial que terá de passar pela reestruturação da dívida. Por muitas divergências criativas que possam existir a jusante, é aqui que se tem de fazer toda a unidade democrática contra esta destruição do país. O congresso democrático das alternativas é já depois de amanhã.

Sem comentários (I)


«Ao longo dos últimos meses, o governo [PS] adoptou, em diversos momentos, medidas gravosas, visando a redução do défice orçamental, que tiveram e têm consequências directas sobre o rendimento das pessoas e das famílias, sobre a actividade das empresas e sobre o desempenho da economia portuguesa como um todo. Sempre que tal aconteceu, o governo garantiu, pela voz dos seus mais altos responsáveis nesta matéria - o primeiro-ministro e o ministro das finanças - que as medidas em causa eram as adequadas e suficientes para a realização dos objectivos pretendidos em matéria de finanças públicas. Impor agora novos aumentos de impostos, cortes nas pensões, no Serviço Nacional de Saúde ou na rede escolar, confirma a estratégia do governo de transformar medidas de emergência - que pelos sacrifícios que impõem aos cidadãos - apenas devem ser assumidas em situações extraordinárias e de modo conjuntural. (...) Ao agir dessa forma, o governo está também a evidenciar, perante o país inteiro, quer a sua incapacidade para cumprir adequadamente aquela que é a sua responsabilidade, quer o seu despudor em transferir para os portugueses  o custo dos seus sucessivos erros. Se estas medidas adicionais são necessárias, é porque o governo não soube, ou não quis fazer, aquilo que a ele - e só a ele - lhe compete.» (Pedro Passos Coelho, a 11 de Março de 2011)

(via Shyznogud, a partir do achado de Porfírio Silva, no Machina Speculatrix).

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Eric Hobsbawm (1917-2012)


Ainda assim, não desistamos, mesmo que os tempos sejam insatisfatórios. A injustiça social precisa de ser denunciada e contrariada. O mundo não se tornará melhor por si só. 

Assim termina a autobiografia de Eric Hobsbawm, o historiador marxista que dizia pertencer “à era da unidade antifascista e da Frente Popular”, que “continua a determinar o meu pensamento estratégico em política”. Também por isso era um dos meus intelectuais de eleição.

Um historiador comprometido com tudo o que é humano, sem separações artificiais, cruzando várias disciplinas, incluindo a economia política, e explicações. Um historiador com atenção às palavras, às inventadas logo nas primeiras décadas do século XIX, “que são muitas vezes testemunhos mais vivos do que os documentos”, como afirmou no início de A Era das Revoluções - “classe operária”, “capitalismo”, socialismo”. Palavras que ainda andam por aí.

Fixou quatro Eras, num trabalho de quatro volumes, ao longo de três décadas, e analisou-as – das Revoluções, do Capital, do Império e dos Extremos –, da geopolítica internacional às músicas que se tornaram populares, sem perder o fio materialista à meada. Continuou a escrever depois de A Era dos Extremos. A história não tinha acabado, mesmo que as derrotas tenham sido bem pesadas, e a força da razão também não.

Escreveu sobre os de cima e sobretudo sobre os de baixo, até porque na era das revoluções se ficou a saber que os “pobres existiam como uma classe independente das classes dirigentes”. Escreveu sobre bandidos, sobre revolucionários, os de “serviço revolucionário obrigatório” e os imprescindíveis, e também sobre jazz.

Contaram-me um dia o seguinte: quando veio a Portugal, depois do 25 de Abril, para lá de uma conversa com Cunhal, pediu para visitar uma cooperativa na zona da reforma agrária. Sempre a história da “gente comum”, dos que fazem o melhor de que são capazes nas circunstâncias que são as suas.

Viveu em tempos interessantes e pensou estrategicamente sobre eles. Morreu aos 95 anos. De facto, “o mundo não se tornará melhor por si só”.