quinta-feira, 26 de março de 2026

Parecem espertos, mas são estúpidos


A sociedade feudal substituiu a sociedade esclavagista, o capitalismo suplantou o feudalismo e, passado muito tempo, o socialismo irá inevitavelmente suplantar o capitalismo. Esta é uma tendência geral irreversível do desenvolvimento histórico, mas o caminho tem muitas curvas e reviravoltas. Ao longo dos vários séculos que o capitalismo demorou a substituir o feudalismo, quantas vezes as monarquias foram restauradas! Portanto, em certo sentido, as restaurações temporárias são comuns e dificilmente podem ser evitadas. 

Alguns países sofreram grandes reveses e o socialismo parece ter enfraquecido. Mas os povos foram temperados pelos reveses e aprenderam com eles, e isso fará com que o socialismo se desenvolva numa direção mais saudável. Por isso, não entreis em pânico, não penseis que o marxismo desapareceu, que já não é útil e que foi derrotado. Nada disso! 

Seguiremos em frente rumo ao socialismo à moda chinesa. O capitalismo tem vindo a desenvolver-se há várias centenas de anos. Há quanto tempo estamos a construir o socialismo? Além disso, desperdiçámos vinte anos. Se conseguirmos transformar a China num país moderadamente desenvolvido no prazo de cem anos a contar da fundação da República Popular, isso será um feito extraordinário. O período de agora até meados do próximo século será crucial. 

Deng Xiaoping em 1992, citado numa instrutiva recensão, da autoria do historiador Nicholas Mulder, ao último livro de um dos principais economistas das desigualdades, Branko Milanović. Ainda não o li, nem sei se o farei, dadas as leituras em atraso.  

Tal como Thomas Piketty, outro economista das desigualdades de referência, e a avaliar pelas suas obras precedentes, Milanović tem vindo a prestar cada vez mais atenção à mais bem-sucedida economia mista da história, aquela que também tem mudado a vida internacional. 

Tem defendido a hipótese de “uma longa NEP” chinesa, por referência à nova política económica bolchevique, instituída depois da vitória na guerra que não foi só civil: o mercado é um instrumento do poder político, passível de múltiplas configurações, uma poderosa lição institucionalista dada pelos comunistas chineses, em linha com a tradição desenvolvimentista de governar o mercado. 

Como sublinhou o historiador Perry Anderson, Deng foi o Bukharin chinês, mas com uma diferença crucial: sobreviveu, física e moralmente, para voltar a triunfar politicamente e ainda com o beneplácito de Mao, neste aspeto muito diferente de Estaline. Deng reciprocou e superou Mao onde interessa, na prática teórica, o retrato lá continuou, terá dito que Mao estava 70% certo e 30% errado, uma proporção justa.

Deng é, a par de Lénine, uma das figuras mais importantes do século passado. Aliás, é instrutiva a comparação entre o excerto acima e as intervenções de Lénine na altura da NEP. Estamos perante a melhor teoria prática do capitalismo e do socialismo, a da difícil, longa e acidentada transição, com muitos passos atrás, para eventualmente dar outros, de gigante, mais à frente, para a frente. O importante é não desistir, não prescindir da elaboração criativa do marxismo no processo. 

Num texto recente no seu substack, Milanović alude à “justaposição” de elementos marxistas, ditos “ocidentais”, com elementos autenticamente chineses, na tradição confucionista, reconhecendo o impacto civilizacional do que aconteceu na China, graças ao Partido Comunista Chinês. 

Na realidade, creio que o marxismo-leninismo nas melhores mãos sempre foi fiel à injunção antifascista de Dimitrov, em 1935: ganhar raízes nos solos natais e tornar-se o melhor defensor da independência nacional, trabalhando com os melhores materiais das diferentes culturas, dos quais se torna parte, nos quais se dilui e transforma, ao mesmo tempo que as transforma. 

Entretanto, agora sabemos o que os chineses aparentemente sempre souberam: do ponto de vista político, o que contribuiu decisivamente para destruir a URSS foi o niilismo e o vira-latismo ideológico de Gorbatchev e companhia, o que acabou a fazer publicidade para a Pizza Hut e para a Louis Vuitton, a brutalmente incompetente katastroika. Sim, a dimensão política, volitiva, é crucial na construção e preservação do socialismo. 

Deng desprezava Gorbatchev e com razão: “este homem parece ser esperto, mas é estúpido”. Aprender sempre, mas sempre.

Sem comentários: