sábado, 31 de janeiro de 2026

Tomar posição em tempos sombrios


O incremento da agressão dos EUA à soberania e aos direitos do povo cubano representa também uma acrescida ameaça à soberania e aos direitos dos outros povos latino-americanos e de todo o mundo. 

É com sincera tristeza que digo isto: os comunistas portugueses são até agora os únicos a tomar uma posição clara de solidariedade com Cuba, em face do decisivo agravamento da agressão norte-americana, que pode bem jugular esta ilha de esperança. Já houve uma esquerda mais ampla com coragem e cultura socialistas. Houve, já não há? Espero mesmo poder fazer uma adenda/correção a esta nota. Se não agora, quando?

Notas catastróficas


1.
Esta formulação não me sai da cabeça em tempo de catástrofes: “A resposta que pode ser dada à degradação por vezes violenta do estado da natureza depende, em última instância, da natureza do Estado”. E depois há o estado a que isto chegou. 

2. Das primeiras coisas de que Montenegro se lembrou foi elogiar a “solidariedade” das seguradoras, um dos mais sórdidos negócios num contexto crescentemente para lá dos seguros privados. A intenção dele é clara: não podeis contar com o Estado para nada. 

3. Leitão Amaro, um desgraçado egótico, decidiu colocar um vídeo sobre si mesmo nas redes, que depois retirou perante a indignação geral. O liberalismo é um egoísmo cobarde. 

4. Por falar de liberais, a IL quer esventrar a lei de bases do clima. O negacionismo climático está na massa do sangue da extrema-direita, porque é a única forma de manter o seu fundamentalismo de mercado. 

5. Por contraste, o PCP abriu à população o seu centro de trabalho da Marinha Grande, fornecendo alguns serviços úteis. É um dos partidos que sabe: fim do mundo, fim do mês, a mesma luta. 

6. Sim, vale-nos a ação coletiva generosa das populações que se mobilizam, valem-nos servidores públicos no poder local e no central, vale-nos o povo.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

«Trabalhar o trabalho»


Foi só a mim que ocorreu este sketch dos Gato Fedorento, ao ver o recente vídeo de propaganda e autopromoção de Leitão Amaro, entretanto apagado (pelo facto, alegadamente, de o mesmo ter sido «editado e publicado sem o ministro da Presidência ver o resultado final»)?

Combater a perversão


Em boa hora, a Comissão Nacional Justiça e Paz, ligada à Igreja Católica, afirma, em comunicado, o seguinte: “As Igrejas cristãs e os seus fiéis devem tomar consciência do seu importante papel numa denúncia corajosa e num afastamento claro de tudo aquilo que perverte o valor fundamental de amor ao próximo.” 

Em nome da legítima não instrumentalização política do cristianismo, preferem não dizer um dos nomes do anticristo em Portugal, mas ele anda pelo comunicado. Pela minha parte, recupero um texto que escrevi a 7 de janeiro de 2022 para um jornal digital que já não existe, o Setenta e Quatro (infelizmente, não cuidaram de manter o site para memória futura). Alterei apenas o último parágrafo. 

Fascista é a tua única palavra, Ventura 

Ao invocar explicitamente “Deus, Pátria, Família”, André Ventura revelou ter aprendido a “Lição de Salazar”, a “Trilogia da Educação Nacional”, vertida nos cartazes do Secretariado de Propaganda Nacional do final da década de trinta do século passado. Acrescentou-lhe o trabalho, como não podia deixar de ser, se calhar até com alegria, como também se propagandeava no fascismo que existiu entre nós: o homem a trabalhar fora de casa e a mulher dentro de casa. 

A trilogia passa a tetralogia – Deus, Pátria, Família e Trabalho. Só mudam as circunstâncias históricas e não é pouco. O resto é conhecido: respeitinho, “um lugar para cada um, cada um no seu lugar”. Caso contrário, uns safanões a tempo devem ser aplicados aos recalcitrantes, que sempre os haverá. 

É claro que Ventura não tem qualquer fidelidade às quatro palavras, como a sua tradição fascista de resto nunca teve. 

Como já disse o Papa Francisco, é melhor ser-se ateu do que ir à missa e depois semear o ódio. Esta encarnação do cristianismo autêntico estava a pensar em políticos como Ventura, certamente, nos vendilhões de todos os templos e de todos os tempos. 

Afinal de contas, Francisco já tinha defendido, em 2016, o seguinte: “São os comunistas que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade em que os pobres, os débeis e os excluídos é que decidem. Não os demagogos, os Barrabás, mas o povo, os pobres, tenham fé em Deus ou não, mas são eles que temos de ajudar a obter a igualdade e a liberdade.” 

É preciso não esquecer que o antifascismo mais consequente também entre nós teve nos comunistas e nos católicos progressistas, bem como noutros democratas, a sua espinha dorsal. Hoje, não pode ser diferente. 

As pátrias estarão sempre vulneráveis com este promotor de infernos fiscais, do capital menos fiel aos interesses dos que aqui vivem. André Ventura já demonstrou preferir a companhia da extrema-direita estrangeira à presença parlamentar na aprovação de leis de combate à corrupção. Afinal de contas, é um defensor do dos chamados vistos gold, de todas as fronteiras abertas para o capital. Ventura foi lançado por um vende-pátrias chamado Pedro Passos Coelho, não o esqueçamos. 

A maioria das famílias, as das classes trabalhadoras de todas as cores e feitios, que criam tudo o que tem valor, são sempre ameaçadas por quem quer desmantelar o Estado social de base universal, tudo aquilo que dá segurança genuína, por quem integra quadros oriundos da especulação imobiliária mais desenfreada, dos negócios mais sórdidos com o Estado securitário. 

Sabemos que a destruição do Estado social exige um Estado cada vez mais repressivo, em sociedades cada vez mais desiguais e logo cada vez mais negócios para financiadores desta forma de economia política a que Paul Samuelson, um dos mais destacados economistas convencionais do século XX, pensando nas experiências latino-americanas, chamou de “fascismo capitalista”. Não há outro, de resto: de facto, quem não quiser falar de capitalismo neoliberal, e da integração europeia que o suporta em grande parte do continente, não pode hoje falar das formas que o fascismo assume. 

O trabalho com direitos, já que as obrigações são sempre tantas, sem o qual a vida das famílias é infinitamente mais difícil, dos horários longos e baralhados à insegurança laboral, é ameaçado por quem quer sempre aumentar os direitos e a discricionariedade dos patrões mais medíocres e menos fiéis à ideia democrata-cristã da empresa como uma comunidade de e para humanos. 

No fundo, nenhuma destas palavras – Deus, Pátria, Família, Trabalho – deve ser deixada a Ventura e aos seus financiadores e ideólogos, como Jaime Nogueira Pinto, um dos que beneficia de demasiada complacência por parte de gente desmemoriada. Por serem muito inteligentes e muito cultos, os fascistas históricos não merecem menos combate, antes pelo contrário. 

Lembremos e atualizemos a lição antifascista: fascista é a única palavra que se deixa a este inimigo derrotável. Neste contexto, não se deve esquecer que a política popular passou sempre pela disputa ideológica das formas de fronteira nacional e de segurança a garantir às classes populares. 

Sem algum grau de fronteira económica, sem controlo político democrático sobre os capitais e sobre os fluxos comerciais ao nível dos Estados, não há autoridade e responsabilidade políticas democráticas; nem forma de segurança defensável, a social, a que é garantida pela provisão pública de recursos essenciais e pelo manejo de um plêiade de instrumentos de política económica hoje anulados ou furtados pela integração europeia. 

Sem a imaginação nacional e popular a funcionar para democratizar a economia, e sem os instrumentos que lhe dão tradução material, o campo fica livre para a viciosa imaginação da extrema-direita. 

Nos anos trinta, perante o ascenso dos fascismos, favorecidos pelas crises geradas pelo capitalismo liberal, a estratégia antifascista passou precisamente por um trabalho político de reinvenção progressista da escala nacional. Como disse Georgi Dimitrov, um dos ideólogos da estratégia das frentes populares definida, em 1935, pela Terceira Internacional: 

“O internacionalismo proletário deve aclimatar-se, por assim dizer, a cada passo e deitar profundas raízes no solo natal. Ao revoltar-se contra toda a vassalagem e contra toda a opressão é o único defensor da liberdade nacional e da independência do povo”. 

A melhor tradução institucional positiva foram as constituições antifascistas, em tantos países a seguir à Segunda Guerra Mundial, assentes nos valores do mundo do trabalho e do Estado social, sem os quais não podia e não pode haver democracia avançada. A nossa Constituição, a de 1976, produto de uma revolução democrática e nacional, é tributária desse movimento quase trinta depois da Constituição italiana, onde democratas-cristãos e comunistas convergiram. 

Hoje, noutras circunstâncias históricas, esmaguemos o cobarde fascista, e a restante escumalha dirigente que o acompanha, nas eleições de dia 8 de fevereiro. Sabemos que estas eleições são apenas um meio e nem sequer o mais importante: como sempre, o essencial do combate ao fascismo e às suas mentiras, bem como aos planos de exploração que vêm à boleia do seu reforço, trava-se a partir dos locais onde se cria de verdade tudo o que tem valor. Vimos isso na Greve Geral. É por isso e por muito mais que Montenegro e restantes liberais até dizer chega também são um inimigo, mais os seus mamarrachos políticos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

É um Avillez, ouça


O que dizer quando alguém decide colocar no mesmo saco uma economista política competente e corajosa chamada Mariana Mortágua e um cobarde fascista chamado Ventura? Direis que se trata de um idiota liberal, no sentido etimológico dos termos, e eu não vos vou contrariar. 

Martim Avillez tem o apelido certo, um dos que abre portas em Lisboa, incluindo no Público, jornal que deixei de pagar para ler em papel há poucos anos e que leio com cada vez menor regularidade, sentindo que perco cada vez menos; como se já não houvesse suficientes da laia dele por ali. 

Enfim, quando eu colaborava com o jornal i, ali para os idos de 2009, contaram-me que ele e os seus dois subdiretores chegaram a ganhar juntos mais do que toda a restante redação. Seja como for, é sempre por “mérito”, pela produtividade marginal, que são determinados os rendimentos, não vos esqueceis, caso não frequenteis madraças de uma certa economia e gestão, as que estão ao serviço do 1%.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Lição de ética


Na verdade, se me perguntar coisas da minha vida, eu podia contar muitas. Perguntou-me da clandestinidade e eu digo, sim, vivi em Portugal mais de dez anos clandestino, mas houve camaradas meus que viveram trinta anos na clandestinidade. Se me perguntar – você foi torturado na polícia? –, eu digo, sim, fui e quase até à morte, mas houve camaradas meus que morreram com a tortura. Se me perguntar – você fugiu da prisão? –, fugi, mas houve camaradas meus que fugiram duas e três vezes. Se me perguntar – você esteve muitos anos preso? –, foi dito no início que, sim, estive mais de doze anos preso, oito anos incomunicável, é verdade, mas houve camaradas meus que estiveram mais de vinte anos presos. 

Portanto se se pensa que através das referências que eu posso fazer a mim próprio como militante comunista, são pontos de referência que não sejam pontos de referência que têm de invocar necessariamente outros pontos de referência mais valiosos, que são aqueles que eu acabei de invocar, eu creio que as respostas são respostas que não é justo eu dar sem a referência que acabo de dar. 

É que nós fomos um coletivo de lutadores, em que a referência a cada qual – e eu acabo de lhe fazer uma série de referências a mim próprio, mas também em relação aos meus camaradas –, éramos um coletivo fraternal, um coletivo de combatentes que nos entreajudávamos, que vivemos uma mesma luta e, mais, em que essa aprendizagem de fraternidade se reflete em novas condições, em novas fórmulas, mas que não se perde como grande valor político e ético.

Inês Pedrosa chama-lhe uma “lição de ética pura e fundamental”. Sim, este excerto, felizmente viral, da entrevista que Álvaro Cunhal deu a Carlos Cruz na RTP, em 1991, ilustra um ponto a que já aqui ou ali aludi: há no marxismo de Cunhal uma forte dimensão ético-política, inscrita na tradição no seu melhor; uma ética das virtudes, as que se desenvolvem e apuram na prática, requerendo uma ancoragem num coletivo, aquele que é mais do que um somatório de práticas individuais.
  

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Saneamento intelectual básico


Isa: E explicar o que é o fascismo a um puto de 4 anos? Giro... 
Carina: Experimenta com o Barrigas e Magriços, por aqui foi perfeito por volta dessa idade. Ainda é assim que arrumamos politicamente as ideias. O Ventura é designado genericamente como Sr. Cocó. 

Conversa sobre coisas muito sérias: alguém já disse que vivemos na “fase fecal do capitalismo, uma era de merdificação generalizada”. Os Srs. Cocós aí estão, sempre promovidos pelos Srs. Muscões, os novos barrigas. 

A boa literatura infantojuvenil, a que é mesmo para todas as idades, sempre foi parte do saneamento intelectual básico. O livro de Álvaro Cunhal, Barrigas e Magriços, com maravilhosas ilustrações de Susana Matos, tornou-se uma referência há pouco mais de um ano, graças a Jorge C. e a Carina Castro

Estamos sempre a tempo de conhecer. Comprei-o na livraria do meu museu favorito, gratuito no ponto do utilizador, na que é a minha nova cidade de adoção: haja neorrealismo em Vila Franca de Xira. O encontro com Cunhal e com outros neorrealistas tem-me ajudado muito, entretanto. 

Graças à minha mãe, tive o privilégio de crescer alimentado por Nestum, iogurtes caseiros e Sophia de Mello Breyner, cujos livros ditos para crianças conheço de cor e salteado. Reli o tocante Contos Exemplares na semana passada, sublinhando o seu profundo catolicismo social, de recorte corajosamente antifascista. Conheci este livro, mais para graúdos, graças a um professor do décimo ano que gostava de livros. 

Antes, quando cheguei ao primeiro ano do ciclo e tive mesmo grandes dificuldades de aprendizagem, a minha mãe, que era professora de português, foi reaprender matemática e tudo. Não sei o que teria sido de mim sem ela. O resto devo-o ao meu pai, aos meus amigos e camaradas, a um número incontável de professores, aos meus mestres e alunos. A ideologia do mérito é mesmo uma fraude, posso atestar por introspeção, podemos todos. 

Insisto num facto básico: dependemos da lotaria nacional, do país em que nascemos, e familiar; também por isso nascemos e crescemos com uma dívida social ou com um crédito social. A nossa luta é pela universalização das condições básicas para o florescimento humano, tentando reciprocar como podemos, quer no plano doméstico, quer na esfera pública. 

O igualitarismo que lutamos para institucionalizar também reduz o efeito brutal da sorte e do azar, bem como do acesso que conferem ou não conferem aos privilégios sociais associados à chamada propriedade privada, uma construção política passível de múltiplas alocações de direitos e de deveres. Hoje em dia, há, neste desgraçado contexto “neoproprietarista”, cada vez mais direitos e cada vez menos deveres. 

As pessoas fazem o melhor de que são capazes nas circunstâncias que são as suas: coletivamente, humanizemos circunstâncias e desenvolvamos potencialidades, repetirei até ao fim. Tudo o resto são fraudes antropológicas liberais, que desaguam no fascismo, já há muito desmontadas por investigadoras como Margaret Mead

“Um fémur partido com sinais de que está curado demonstra que alguém dedicou o seu tempo a ligar a ferida de quem caiu, a transportar essa pessoa para um sítio seguro e a acompanhá-la durante o tempo de recuperação. A civilização começa quando se ajuda alguém que está em dificuldades.” 

Sim, o tempo é de dicotomias claras: civilização contra barbárie, magriços contra barrigas, solidariedade contra egoísmo, gente comum, com pulsão de vida, contra filhos da puta, com pulsão de morte, saneamento intelectual básico contra cocó.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Debater, debater, debater sempre


Lemos e somos lidos, aprendemos e ensinamos, tentamos reciprocar e debater sempre. Obrigado, Diogo Laranjeira, pela leitura, lá nos encontraremos em São João da Madeira, então.

Também na próxima sexta-feira, mas às 18h, estarei no Centro de Trabalho da Boavista, no Porto, para o mesmo. Não sou militante do PCP, mas sei muito bem quem está sempre na primeira linha do combate antifascista, o tal porto seguro.

Parenti


Anteontem também faleceu Michael Parenti, cientista político e historiador marxista norte-americano. Nunca tive a felicidade de o conhecer pessoalmente. Habituei-me a ver as suas palestras no Youtube, aprendendo também através de diálogos imaginários que hão-continuar. Está agora “no grande auditório do céu”, como aparentemente gostava de dizer. 

Nenhum dos seus livros está editado entre nós, enésima prova de que o marxismo se tornou uma cultura marrana em Portugal, ao contrário do que acontece no Brasil, onde estão editados os dois livros que li dele. 

primeiro versa sobre o doloroso processo de destruição da Jugoslávia, com particular destaque para o intervencionismo militar da NATO, culminado na agressão de 1999, sob falsos pretextos; e o segundo, de onde o excerto acima foi retirado, é uma tão corajosa quanto pedagógica defesa histórica do movimento comunista, a partir do combate ao que designou por “fascismo racional” e a outras formas de exercício imperialista do poder para benefício dos grandes interesses capitalistas.

Aproveito para reafirmar esta hipótese: uma das causas profundas do atual estado da esquerda lusa radica na presente invisibilidade do marxismo, da academia ao espaço público, precisamente quando a realidade da luta de classes em tantas escalas confirma a pertinência desta forma de pensar-agir.

Até sempre, camarada Parenti.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Lucinda


Faleceu ontem Lucinda Maria Teixeira Silva, pouco antes de se reformar. A esmagadora maioria de vós não sabeis quem foi, nem tendes a obrigação de saber. Mas eu quero dizer-vos: foi uma discreta servidora pública, dessas que têm sido apoucadas no espaço público pelas iniciativas liberais até dizer chega, dessas que fazem com que as instituições públicas funcionem. 

Na Faculdade de Economia de Universidade de Coimbra (FEUC), a partir do secretariado de professores, onde tive o privilégio de a conhecer, de com ela interagir ao longo de mais de uma década, era imprescindível. Dizia-lhe a brincar, mas não há nada mais sério, que era a minha mãe na FEUC. Sei que há quem partilhe esse sentimento, que agora é de orfandade. 

Há tristeza numa comunidade de trabalho: de repente, a árvore caída, instalação artística como se fosse naturalista, que está no nosso relvado, ganhou um novo significado. Até sempre, Lucinda.

sábado, 24 de janeiro de 2026

A página genial

É preocupante perceber que no gabinete do Primeiro-Ministro, e entre os que o aconselham, não tenha havido uma única alma a assinalar que a página Volksvargas, hoje com cerca de 14,4 mil seguidores, é uma página de sátira política. Em contrário, teria sido possível avisar Montenegro que processar o seu autor, por alegada «desinformação», é tão absurdo como processar o Inimigo Público, o Jovem Conservador de Direita (JCD), o insoniascarvao ou, para mais um exemplo em papel, as antigas Cartas ao Comendador, do Expresso. Noutros tempos, perseguiam-se cartonistas como José Vilhena. Mas eram outros tempos, certo?

Teria bastado, para quem desconhecesse a página ou tivesse dúvidas, ler as primeiras frases da publicação que suscitou a ridícula decisão do Primeiro-Ministro, com sentido de ironia e humor inequívocos: «supremo líder», «grande arquiteto dos tempos modernos», «energizado pela enorme magnitude das suas recentes conquistas» (a fazer lembrar os Monty Python). A sério, acreditam mesmo que seria este o registo escolhido por quem quisesse fazer passar por verdadeira uma mensagem falsa dirigida por Luís Montenegro a Donald Trump? Acham que somos todos parvos?


Sendo pouco crível que ninguém no gabinete do Primeiro-Ministro, ou entre os seus próximos, desconhecesse o perfil da página, ou fosse incapaz de perceber a ironia, resta uma hipótese mais plausível, mas menos benigna. A publicação em concreto deve ter parecido uma boa oportunidade para, com o devido espalhafato, intimidar e silenciar o autor. Percebe-se, claro: a página Volsksvargas é genial, destacando-se pela sua criatividade, capacidade de escrutínio político, inteligência, eficácia e alcance, com as suas publicações a atingir uma «elevada difusão pública», como se assinalou, de resto, no comunicado emitido pelo gabinete de Luís Montenegro.
No atual contexto, esta tentativa de silenciamento político, com o governo a classificar como «desinformação» uma publicação satírica - ao mesmo tempo que não mexe um dedo para travar as fake news do Chega (que concentrou 82% das visualizações de publicações falsas na primeira volta das presidenciais), não é assim tão estranha. Depois do «não é não», o governo da AD tem vindo a aproximar-se gradualmente da extrema-direita do Chega, normalizando-a tanto no discurso (imigração, por exemplo) como, pelos vistos, nas práticas. A decisão de não apoiar nenhum candidato na segunda volta das eleições presidenciais, por parte do PSD e CDS-PP, é apenas mais um passo desse percurso.
No briefing do Conselho de Ministros, o mesmo Leitão Amaro que classificou a Greve Geral de 11 de dezembro como «inexpressiva», afirmou que a referida publicação da página Volksvargas constituia não só um «ataque à instituição de primeiro-ministro», mas também à «posição internacional de Portugal». Curioso, pois ter um Primeiro-Ministro a processar, e tentar silenciar, uma página satírica, é que talvez seja prejudicial - querendo colocar as coisas nesses termos - para a instituição que representa e para a imagem internacional do país.

Era o davas


Violando todas as convenções sociais, Trump continua a exibir a sua única virtude, a que é epistémica, insisto: revela sem rebuço a natureza do sistema imperialista liderado pelos EUA, de que a UE faz parte. 

Macron, o “presidente dos ricos”, cheio de estilo em Davos, exprimiu por mensagem a submissão coletiva de sempre a quem manda nos EUA. Isto só agora perturba os estômagos fragilizados por dietas ideológicas euro-liberais. Temos pena. 

Há de facto uma linha de cor racista na mensagem privada de Macron, que foi tornada pública por Trump: “continuemos a bombardear os povos de pele acastanhada, já que nisso concordamos”, como traduziu Jason Hickel. Aí, os estatocídios são “grandes coisas”. Felizmente, a subimperialista França tem sido derrotada no Sahel, lembrem-se. 

Muito ruido depois, irão chegar a um acordo sobre a Gronelândia. Eles entendem-se sempre, mas sempre. Não é defeito, é feitio de ser Estado-membro da UE, ao invés de ser um Estado-nação. 

Entretanto, o discurso nacional do liberal Mark Carney, bem escalpelizado por Raquel Ribeiro, marcou Davos. Agora que o igualmente subimperialista Canadá sente a pressão dos EUA, Carney descobriu o que qualquer marxista sempre soube: que a “ordem baseada em regras” nunca passou de uma “ficção”, servindo para ofuscar a realidade estruturalmente violenta do capitalismo internacional. 


Há um efeito bumerang há muito conhecido de historiadores e de outros pensadores. Gaza é o mais recente laboratório genocida de uma terrível história do passado, presente e futuro, uma história que chegará à Europa. A distopia de Gaza apresentada em Davos, construída em cima de centenas de milhares de cadáveres, fez-me lembrar o método Jacarta: ali, em sítios de férias que dizem ser paradisíacos, estão enterrados centenas de milhares de comunistas. 

Cabe aos povos dos Estados soberanos evitar este destino trágico. Afinal de contas, os EUA foram responsáveis por cerca de 20 a 30 milhões de mortes desde 1945 e isto sem contar com os efeitos mortíferos das sanções económicas: mais de 5 milhões de mortos só na década desde 2010. 

Perante esta barbárie, muito do que é civilizado começa pela República Popular da China, até porque é um dos raros países que tem uma verdadeira autonomia em relação às Palantirs deste mundo, pugnando pela paz internacional e estando na vanguarda do combate às alterações climáticas. Há três tipos de pessoas: as que percebem isto, as que nunca perceberão isto e as que passarão a perceber isto. As terceiras são decisivas para reforçar o movimento anti-imperialista pela paz.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Um aborrecimento


Enquanto a PJ desmantelava uma rede nazifascista com ligações a Ventura, detendo dezenas de suspeitos, João Miguel Tavares declarava: “Esta coisa de se andar aos gritos de ‘vem aí o fascismo’ é muito aborrecida”. 

Perante a evidente falta de argumentos, Tavares revela sempre uma curiosa obsessão com “gritos”, já não é a primeira vez que o apanho nestes preparos retóricos. 

Tende compreensão pelos interesses: sabemos da história que se o fascismo vier por arrasto, este tipo de poltrão não só terá as suas sinecuras mediáticas garantidas, como terá a perspetiva de ter outras, eventualmente ainda mais lucrativas.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Achtung!

Chanceler Merz: A Alemanha protegerá a Gronelândia dos... da Rússia!

Há alternativa?


À boleia do plutocrático encontro de Davos, saiu mais um estudo da Oxfam sobre a intensificação do crescimento das desigualdades e as múltiplas formas como o poder do dinheiro concentrado, inerente ao capitalismo sem freios e contrapesos à altura, socava as democracias, num autêntico círculo vicioso. 

Como lembra Jason Hickel neste contexto: “o populismo da extrema-direita é um falso populismo”. Populismos há muitos, como insisto há vários anos. Uma lógica nacional-popular, entre a classe e a nação, é sempre o melhor antídoto, mas a esquerda brâmane existe para impedir isto. 

 Na oposição ou no poder, de forma mais dissimulada ou descarada, os populistas de extrema-direita servem as frações mais reacionárias do capital, de onde aliás emanam. Trata-se do plano B do capitalismo neoliberal, tornando o plano A eventualmente palatável para muitos. 

Se Ventura não existisse, tinha mesmo de ser inventado pelo capitalismo televisivo, o do pirata do Douro, o que dá pelo nome de Mário Ferreira, mas também pelos seus financiadores, de Jaime Nogueira Pinto a João Bravo

A esquerda que resta, vê-se neste sombrio contexto compelida a apoiar um social-liberal a quem deu para frequentar stink-tanks liberais até dizer chega, financiados pelos homens mais ricos de Portugal, com destaque para Luís Amaral, o mesmo que paga grande parte do perdócio de extrema-direita que dá pelo nome de Observador. Com mais de mil milhões de património tem para isso e para muito mais. 

Até parece que estamos politicamente a caminho de ser a Polónia, mas, economicamente, sem moeda própria. Toda uma diferença, como de resto já reconheceu alguém com pesadas responsabilidades no estado a que isto chegou chamado António Costa. Curiosamente, Luís Amaral tem uma cadeia de supermercados na Polónia, a Eurocash

Como travar este caminho? Para lá de derrotar Ventura no dia 8, tudo depende da luta social, a que já está a derrotar o pacote laboral. Há alternativa a um antifascismo militante?

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Um país a balançar

O Banco de Portugal apresentou uma nota de informação estatística relativa à balança de pagamentos e noticiou um excedente externo que, ainda que em diminuição, continua significativo. 

A propósito daquela nota deixo abaixo, precedidos de uma breve clarificação de conceitos, um par de comentários. 

As estatísticas da balança de pagamentos integram o conjunto das contas externas da economia e apresentam os dados relativos a todas as transações económicas e financeiras entre residentes em Portugal e não residentes, durante um determinado período. 

A balança de pagamentos tem dois membros e o saldo desses dois membros é obrigatoriamente igual. Num dos membros temos a balança corrente, constituída pela balança comercial e pelos rendimentos primários e secundários, a balança de capital e uma rúbrica referente à necessidade ou capacidade de financiamento do/ao exterior que resulta daquelas transações económicas. No outro membro temos a balança financeira que, como o nome diz, regista todas as transações financeiras que espelham, digamos assim, as transações económicas e os erros e as omissões estatísticas. 

O somatório dos saldos das balanças corrente e de capital (o que, incluindo todas as transações do país com o exterior, inclui logicamente também todos os subsídios recebidos da União Europeia e todos os pagamentos que àquela entidade o país realizou) diz-nos em que medida o nosso país financia o exterior ou nele está a financiar-se. Ou seja, em que medida, nas suas transações económicas com exterior, o país investe mais do que poupa ou poupa mais do que investe ou, dito de modo mais simples mas equivalente, em que medida o país tem mais receitas do que despesas ou mais despesas do que receitas. 

Breve clarificação finalizada, segue o primeiro dos comentários, este referente à economia política da integração europeia. 

De acordo com o que pode ler-se no gráfico abaixo, nas últimas três décadas, apenas num ano, 2013, por muito que a propaganda nos faça crer no contrário, o país incorreu em mais receitas do que despesas nas suas transações económicas com a União Europeia (UE). 


Depois da brutal contração da despesa de que o país foi alvo com a intervenção golpista e neoliberalizante da Troika, as contas externas do nosso país com o resto do mundo tornaram-se excendentárias, mas o subconjunto das transações com a UE, apesar da mitigação do desequilíbrio observada entre 2013 e 2019, voltou a representar uma fonte significativa de endividamento externo do nosso país. É a isto que se chama ajustamento assimétrico. A UE que se queixa veementemente dos superávites da balança corrente da China e a ameaça com tarifas é mesma UE que impõem os seus superávites a Portugal e, já agora, a uns Estados Unidos da América que, ao contrário do nosso país, parecem ter decidido deixar de o permitir.

Para diminuir as necessidades de financiamento externo, o nosso país diminuiu o investimento para níveis que limitam pesadamente o seu potencial produtivo e põem em causa a capacidade do Estado para assegurar as suas funções sociais e de administração corrente, minando assim os fundamentos da democracia, isto ao mesmo tempo que a UE não diminuiu suficientemente a poupança que realiza connosco. É a UE realmente existente e não aquela que o idealismo liberal sem fundamento histórico apregoa. 

Um segundo, também breve, comentário para o padrão de especialização da economia portuguesa.

Repare-se no gráfico abaixo que a melhoria da capacidade de financiamento da economia portuguesa ao exterior é resultado, sobretudo, da balança de serviços e que a balança de bens, depois da significativa, mas insuficiente, diminuição do seu saldo negativo no período 2012-2016, voltou a atingir défices à volta dos 10%. 


Repare-se também que, do superávite de cerca de 11% na balança de serviços que o país regista em 2024, mais de 7% são turismo, atividade esta que, em termos brutos, quase atinge os 10%.


Aprofunda-se pois o empobrecimento da estrutura produtiva do país. “(...) Portugal sobe para quarto lugar entre os países da UE em que o turismo internacional tem maior peso na economia. À frente de Portugal surgem apenas Croácia, Malta e Chipre”, afirma o Banco de Portugal. 

Défices que se aproximam de 10% na balança de bens, superávites simétricos a ultrapassar os 10% na balança de serviços, são o resultado da economia desequilibrada que temos, mas não daquela a que temos direito a aspirar.

Desequilíbrio que se traduz em dependência externa, baixos salários, baixo potencial produtivo, crise na habitação, congestionamento das cidades e que é o preço que pagamos pelo ajustamento neoliberal imposto pela UE para gaúdio da direita lusa para quem todas as alternativas a esta subordinação são “xuxialismo”. 

Desequilíbrio que ilustra bem as limitações do chamado modelo Florida, aquele que foi teorizado, entre outros, por Olivier Blanchard, num estudo para o Ministério das Finanças de Teixeira dos Santos, ainda antes de ser economista-chefe do FMI. Todo um programa comum entre os apoiantes da integração europeia neoliberal realmente existente.

Alegrem-se, contudo. Só entre o final do ano e o fim deste mês de Janeiro, Lisboa contará com mais nove hotéis. Impõem-se uma moratória? A direita extremada, em bloco, chumba-a; o PS, o tal que, pelo menos em Lisboa, seria de esquerda, abstém-se. 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Presidenciais memoráveis


Tinha nove anos. Os meus pais eram comunistas: «a nossa senha é Salgado Zenha», naturalmente. Levava para a escola primária dos Olivais autocolantes com um Z. 

Desde cedo, aos seis anos, que ia a pé para a escola, quinze minutos de deslocação com um colega e amigo. Éramos miúdos e estávamos por todo o lado, por toda a cidade. 

 Lá estava a inscrição na parede ao pé de casa: «Não à lei Barreto/77». Havia política por todo o lado. Hoje também há, mas é mais invisível, mais elitista, menos democrática. E isto já não é bem um país, como sabeis, dada a perda, sempre reversível, de soberania. Ainda é uma pátria. Mas não há crianças nas ruas, aos bandos. Envelhecer deve ser isto. Prossigamos.

Os meus colegas de direita tinham todo o tipo de bugigangas do Freitas do Amaral, dizia-se que era a primeira campanha «à americana». Na sua autobiografia, Freitas do Amaral, já agora, usa o termo neoliberal para descrever as suas orientações e as do seu CDS. Sim, sou um respigador destes usos de uma palavra que alguns ainda rejeitam de forma ignorante.

Invejava os meus amigos de direita secretamente. Uma vez fui passar a tarde a casa do Pedro e fomos com a mãe dele às compras. De passagem, fomos dizer olá à avó, que estava a trabalhar numa sede de campanha do Freitas, ali na Cruz de Celas. A avó queria dar-me um sortido kit de campanha: «este menino é do Zenha», antecipou a mãe. Pois sou, confirmei, como se uma meta-preferência ético-política contrariasse a preferência imediata pela cor, pelo plástico.

Irritava-me o hino de Freitas do Amaral, o do «prá frente Portugal», que me ficou no ouvido até hoje, tal como o do «pão, paz, povo e liberdade» do cavaquismo ascendente. O Rafael, o meu melhor amigo, era do PSD e eu, aparentemente, tinha-o apodado de «fascista» quando soube disso, no dia em que nos conhecemos, fazia três anos. Conta essa história até hoje, mas eu não me lembro. A memória depende de outros, como tudo na vida. Aprende-se, imitando, claro. 

Lembro-me de ir a um entusiasmante comício de Salgado Zenha, que julgo ter sido no Teatro Avenida. Estava a abarrotar. Agitei uma bandeira com alegria, como ainda hoje gosto tanto de o fazer. O Teatro já não existe, substituído há muito por um mamarracho hediondo. 

Lembro-me de se achar que Maria de Lurdes Pintassilgo só servia os interesses da candidatura de Soares. Soares, esse sim, era odiado. O meu pai tinha sido advogado sindical na última década antes das eleições, a da queda brutal do peso dos salários no rendimento nacional depois do grande avanço do glorioso PREC.

Chorei no domingo da primeira volta, sempre tive a lágrima fácil: «perdeu-se uma batalha, mas não se perdeu a guerra», consolou-me o meu pai, ao mesmo tempo que dizia que jamais votaria em Soares. «É claro que vamos votar no Soares», disse a minha mãe, antecipando a deliberação coletiva proferida por Álvaro Cunhal. 

Andei então com um autocolante de Soares e tive mais companhia no recreio nessa altura. A seguir, logo em 1987, Soares foi Soares, nunca se pôde confiar nele, realmente. Mas a unidade possível era função do inimigo principal num tempo antes deste terrível consenso neoliberal. O neoliberalismo era só um movimento entre outros, não era ainda o regime europeu que Soares sempre endossou, retórica à parte.

E ainda não vi o documentário na RTP da autoria de Ivan Nunes e de Paulo Pena, de que já me falaram, sobre as eleições de 1986. Vou agora ver, provavelmente com melancolia de esquerda. 

Antes, porém, há que dizer e redizer, sem qualquer melancolia: «com o povo, por Abril, por Portugal». Sim, muito obrigado, António Filipe, por esta campanha imprescindível. Poder e razão não são sinónimos e nunca esta distinção foi tão importante. Pode perder-se e ainda assim ter razão, muitas razões.

Agora, vou votar no candidato que não se chama Ventura. Pensarei em Cunhal e no meu pai. Não é difícil votar. Difícil foi conquistar o sufrágio universal. E aí os comunistas foram, como sempre, imprescindíveis.

A vida, a luta e a resistência não terminaram no passado domingo, nem terminarão no dia 8. É papel dos democratas rejeitar Ventura, mas a luta não se esgota aí. De facto, continua a ser imprescindível derrotar o consenso neoliberal, desde logo tendo presente que rejeitar Ventura, não é apoiar as ideias de Seguro. 

A luta social terá de se intensificar e muito. Os perigos para a democracia não se encontram apenas em Ventura, mas nos projetos mais vastos de exploração, desde logo no pacote laboral. Sabemos quem continua a ser imprescindível para derrotar tudo isso.

Artigo publicado no AbrilAbril

Exercício


Porque ninguém vota no vazio. Vota-se num campo cuidadosamente preparado, onde uns têm palco permanente e outros mal existem, onde se fabricam inevitabilidades através de sondagens e pseudo-sondagens repetidas até à exaustão, não para informar, mas para condicionar. Vota-se num ambiente onde a pergunta nunca é «quem defende o quê?», mas «quem tem hipóteses?», como se a democracia fosse uma corrida de cavalos e não uma escolha política substantiva.

Vale a pena, por isso, fazer o exercício que não foi feito nos grandes meios de comunicação: que resultados teríamos tido se não houvesse este bombardeamento diário de números apresentados como ciência, mas usados como arma psicológica? Que reflexão colectiva teria sido possível se os cidadãos tivessem sido confrontados com as campanhas reais, com os conteúdos, com as propostas, com o percurso e as escolhas concretas de cada candidato, e não apenas com caricaturas e silêncios estratégicos?

Excerto de um excelente exercício de Sofia Lisboa: Agora sim, a segunda volta

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A economia política continua...


E a história da economia política também. Gabriel Zucman é discípulo de Thomas Piketty e tem exposto alguns dos mais estonteantes padrões da desigualdade gerados por décadas de iniciativas liberais até dizer chega. Tudo começou na derrota do movimento sindical e acabou na consolidação de um Estado fiscal de classe. 

Os EUA vão à frente, mas a UE foi desenhada em Maastricht para os imitar, para transformar democracias nacionais reais, ainda que limitadas pelo capitalismo, em plutocracias pós-nacionais. 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Obrigado

Há batalhas em que o mérito está desde logo em travá-las, independentemente dos resultados, como sabe muito melhor do que eu. Disse e bem que sentia a responsabilidade em continuar a luta, incluindo para derrotar este pacote laboral, este consenso neoliberal. Isso é o mais importante, ser-se imprescindível. Obrigado, António Filipe.

Eterna glória antifascista


Quando andei pela Marinha Grande, no verão passado, tirei umas notas: no triste museu do vidro só falam praticamente os patrões, alardeando “responsabilidade social” e tudo; temos de sair dali, para a rotunda do vidreiro, para ver a memória da heróica resistência operária, a do 18 de janeiro de 1934.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Em dia de reflexão


«Entre junho de 1985, com a queda do governo do Bloco Central e março de 1986, quando Mário Soares se tornou no primeiro civil em sessenta anos a tomar posse como Presidente da República, Portugal viveu um dos períodos mais intensos, participados e surpreendentes da nossa vida democrática. (...) O país dividiu-se em duas metades quase perfeitas, entre esquerda e direita e Soares venceu por uma margem mínima. Naquele mesmo dia, declarou solenemente pretender unir o país. Foi tão bem-sucedido neste seu propósito que, cinco anos mais tarde, havia de ser reeleito com mais de 70% dos votos, um absoluto record na nossa história democrática. Quando a campanha para as presidenciais de 1986 se iniciou, no entanto, tal desenlace não era remotamente previsível».

Lembrar, para quem ainda não tenha visto, a recente série documental, com argumento e realização de Ivan Nunes e Paulo Pena, transmitida na RTP, sobre as presidenciais de 1986. Não percam.

Filme e quadro no dia de reflexão


Como não amar a Revolução, os “dez dias que abalaram o mundo”? Como não amar o jornalista e militante comunista John Reed, o único norte-americano enterrado no Kremlin, e a indómita Louise Bryant, sua companheira até a um fim tão precoce? Como não amar as interpretações de Warren Beatty e da imortal Diane Keaton, o mais luminoso sorriso, num luminoso plano? 

Vi o Reds com o meu pai há mais de trinta anos. Vi-o na semana passada com o meu filho e disse-lhe que eles os dois estavam lá, a viver e a relatar um dos mais importantes acontecimentos da história da humanidade, como o meu pai me tinha dito. Cadeia do tempo sem fim. 


Assim falou Geliy Mikhailovich Korzhev-Chuvelyov (1925-2012) nos terríveis anos 1990, os da katastroika, informa-nos a sua pobre página na Wikipédia em inglês: 

“Nasci na União Soviética e acreditava sinceramente nas ideias e ideais da época. Hoje, consideram-nas um erro histórico. A Rússia atual possui um sistema social diametralmente oposto àquele em que eu, como artista, fui criado. Aceitar um prémio estatal equivaleria a confessar a minha hipocrisia ao longo de toda uma trajetória artística. Peço que se considere a minha recusa com a devida compreensão.” 

Como não amar a pintura tão rica e tão intensa deste Homem Soviético, como se vê neste “erguendo a bandeira”, de 1957, parte de um tríptico? Se assim já é impressionante, imagine-se ao vivo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Sim, sois um bando de intelectuais


Face às excitadas e engraçadinhas reações, eventualmente reveladoras de preferências desinformadas, por parte de intelectuais da direita pura e dura que sintomaticamente apoiam Seguro, venho por este meio informar que o uso da palavra intelectual não contém, por si só, qualquer elogio ou crítica. 

Como sublinhou o leninista Antonio Gramsci, todos os indivíduos são intelectuais, na medida em que são compelidos a pensar, mas, na divisão social de trabalho existente, nem todos fazem, predominantemente, do intelecto modo de vida. A palavra predominantemente é crucial aqui, note-se. 

E para lá dos intelectuais tradicionais, temos os chamados intelectuais orgânicos. São-no os que organizadamente se inserem na vida socioeconómica e no combate político ao serviço de uma classe ou fração de classe. 

Dominando direta ou indiretamente cada vez mais meios de produção intelectual, as burguesias dispõem hoje de um enxame relativamente bem pago na academia, na comunicação social, nos grandes escritórios de advogados e noutras grandes empresas, nos partidos, da extrema-direita ao extremo-centro, nas plataformas, nos stink-tanks, nas fundações, no aparelho de Estado, nas organizações internacionais, etc. 

Hegemonia, já agora, é, em Gramsci, a multifacetada liderança de classe, a que idealmente articula coerção minimizada e dirigida e consenso maximizado e difuso, garantindo uma certa congruência entre as sempre interligadas relações sociais de produção e superestruturas político-ideológicas. 

A hegemonia neoliberal, tão bem denunciada nas suas declinações nacionais por um esperançoso António Filipe, está a desfazer-se à escala internacional. Também por cá, o agigantamento da economia de guerra, num contexto de crise, mostrará a cada vez mais o papel cada vez maior da coerciva mão direita de um Estado cada vez mais de classe, à medida que se vai erodindo o Estado social. 

Haja guerra de posição, a que pode transformar-se em guerra de movimento. Haja objetividade, mas nunca neutralidade. E haja sempre uma fé nos peitos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Desprezo


Peço desculpa aos leitores do blogue, porque falhei na previsão: a bolha de Cotrim não rebentou no dia 18, mas começou a rebentar ali para o dia 12 e acabou hoje, dia 15.  

E, ao rebentar, revelou-se, uma vez mais, a fraude monumental que são estes liberais até dizer chega, os que abraçam fraternalmente os fascistas, tal como fizeram tantos outros antes deles, da Itália de Mussolini ao Brasil de Bolsonaro. 

Cotrim é de resto da mesma laia de Blanco e de outros racistas e mandonistas da IL, os que abusaram da sua posição na AR, lembrem-se da história imoral deste partido. 


“Não sei o que me passou pela cabeça”, disse Cotrim a certa altura, para justificar o apoio a Ventura. Aconselho-o a ver o Dr. Strangelove para se conhecer melhor a si próprio. 

Entretanto, quero notar o seguinte: o que passa por carisma na comunicação social de classe não passa de uma ficção que se desfaz à primeira “dificuldade”, ao primeiro escrutínio geral. 

Querem saber o que é carisma? Ouçam uma operária chamada Conceição Lobo no piquete de greve da Lameirinho, um só exemplo de muitos: 58 anos, 45 anos de trabalho. 

Há ali mais vida, mais garra, mais carisma, do que em qualquer destes betos endinheirados, que só nos devem merecer o mais rematado desprezo.

A moeda é política


Sou muito parcial em relação aos amigos, mas procuro ser objetivo: Paulo Coimbra é a pessoa com mais cultura de teoria monetária moderna que conheço. Leia-se ou releia-se, por exemplo: “prejuízos dos bancos centrais são lucros da banca privada”. 

No seu encalço, adiciono a seguinte nota de economia política internacional, neste contexto de ataque trumpiano ao Presidente da Reserva Federal, sob pretexto de uma renovação da sede que furou o orçamento. 

“Trump deve ser levado a sério, mas não literalmente”, como sempre se disse. Por trás de tudo o que faz esta administração está, em termos internacionais, a questão da rivalidade dita estratégica com a China, numa linha que já vem de Obama-Biden. 

Ora, os chineses sempre mantiveram uma firme articulação entre as finanças públicas e o banco central, com a política monetária a ser subordinada às opções mais gerais de política económica. Nunca houve na China ficções de “independência” do banco central, nem pode haver em qualquer processo de transformação estrutural, no quadro de uma economia mista, incluindo a que garante aí a crucial descarbonização acelerada. 

Para o processo militarista e imperialista de travagem da ascensão pacífica da China, movido a controlo de recursos e a capitalismo fóssil, os EUA têm de mobilizar tudo, imitando os chineses nos meios da política económica, garantindo a subordinação da política monetária à política orçamental. Insiste-se: há sempre dinheiro para o que as classes dominantes querem fazer, o constrangimento, numa economia monetária de produção capitalista, não é financeiro, mas sim de mobilização de recursos reais.

De resto, os EUA têm crescido graças aos défices orçamentais persistentes, estimulando orçamentalmente a economia, ao contrário dos países da UE. O keynesianismo militar e para ricos vem de Reagan. O resto são as habituais bolhas, as que resultam de um quadro liberal, favorável às míopes forças da concorrência financeira, as que acabam na fraude generalizada, no crime sistémico, na crise assimétrica.

Entretanto, a distinção é de alguns meios e de todos os fins e daí o apoio que todos os progressistas devem dar à República Popular, que está na linha da frente da redução das desigualdades internacionais e no combate às alterações climáticas, ao mesmo tempo que sempre limitou a financeirização da sua economia. E daí a ausência na China de crises financeiras e logo nas últimas décadas, marcadas por turbulência internacional particularmente intensa, como sabem os que estão atentos à história económica.

Face aos economistas social-liberais, os que engoliram um manual neoclássico de economia monetária, onde a fraude começa no multiplicador monetário, como assinalou Tiago Santos, sublinha-se: a “independência” dos bancos centrais sempre foi perigosa, dando aparências de neutralidade a uma política neoliberal de produção e distribuição, aliás responsável por este declínio da UE. 

O patético abaixo-assinado de onze bancos centrais, com o BCE à cabeça, em apoio à Reserva Federal, é só um sinal do ocaso de uma certa elite transatlântica neoliberal, a que abriu caminho aos Trumps desta desgraçada vida.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O desplante também tem um padrão


Não é só o padrão da falta de escrúpulos, em anunciar, como novas, medidas que vêm de governos anteriores (num caso particularmente grave face à circunstância de estarem em causa vítimas mortais associadas a falhas no socorro). É também o desplante com que se afirma uma coisa quando se está na oposição e exatamente o seu contrário quando se está no governo. Há também aqui um padrão, bastando recordar as declarações de Luís Montenegro sobre o problema da falta de professores, antes e depois de assumir as funções de Primeiro-Ministro.

Não sois isto


O que têm em comum Jorge Marrão, Vasco Rato, Pedro Gomes Sanches, Gonçalo Cevada, Henrique Pereira dos Santos, Henrique Raposo, Nuno Palma ou Nuno Gonçalo Poças? São intelectuais da direita pura e dura, a que vai do Observador ao Expresso dos Berlusconi. E são apoiantes de Seguro.

A política de Passos é realmente hegemónica, vai dos seus filhos prediletos, Cotrim-Ventura, ao sempre cúmplice Seguro. Seguro, lembremos, nunca renegou o apoio que deu a Passos no tempo da dispensável troika e sempre procurou convergências, como se vê bem-sucedidas, com estes setores. Não foi por acaso que não disse que era de esquerda.

Vós, povo de esquerda, não sois isto.

Das conjugações às clarificações


Daniel Oliveira afiançou recentemente: “Para a América Latina, nada disto é novo. Mas na Europa passámos de aliados dependentes a subordinados decadentes”. 

A “Europa” e a primeira pessoa do plural nessa escala são parte do principal problema político e intelectual dos que passaram a situar-se por defeito na esquerda otanizada e europeizada em Portugal. Os EUA, como se sabe, nunca foram aliados do país, não o foram em 1949, em 1974 ou em 2025, haja história e memória. 

E não há “ameaça russa”, permanente e reveladoramente convocada, que apague este facto. Como disse o historiador Vijay Prashad: “A NATO [OTAN] não tem ameaças reais, apenas alucinações caras”. A complacência com o militarismo alimenta monstros, como temos insistido

A Europa é, entretanto, um continente, felizmente plural, que vai dos Urais até esta periferia e, no espírito de Helsínquia, terá um dia uma arquitetura de cooperação e de segurança comum, sem OTAN e sem blocos. 

A UE, que tantos, tantas vezes, tentam fazer passar por “Europa”, é uma robusta declinação institucional do sistema imperialista liderado pelos EUA, uma máquina austeritária de liberalização geradora de fascismos, até pela impotência social-democrata, já nem digo socialista, que favorece. 

O tal “nós” tem de ser primeiramente nacional-popular e tem de procurar as solidariedades internacionalistas com os outros “nós”. Os nacionalistas galegos sabem isto melhor do que tantos. Há tanto para aprender com os nossos irmãos do Norte. 

E o facto de “nada disto ser novo” para os países da América Latina (e para os da África e da Ásia e das periferias europeias...), só deve levar quem é social-democrata deste lado a pelo menos respeitar quem aí esteve e está na linha da frente da resistência ao imperialismo, de Cuba à Venezuela. Ao invés, é tudo corrido a “ditador” e está muito do assunto conveniente e liberalmente arrumado, mesmo quando chefes de Estado são raptados e tem de se exigir a sua libertação. 

Os que corajosamente pagam um preço elevadíssimo pela resistência, até por via de sanções mortíferas decretadas unilateralmente por EUA e UE – mais de cinco milhões de mortes na década até 2021 a nível mundial, estima-se na The Lancet – são demasiado incómodos para a “sabichonice do dever ser”, tão bem denunciada por Domenico Losurdo. 

Jeremy Corbyn, pelo contrário, sempre reconheceu o inimigo principal, o que define os aliados, mas, lá está, ele é um social-democrata verdadeiramente excecional, como se prova uma vez mais. 

Por cá, muitos social-democratas têm estado mais interessados, e isto inclui Daniel Oliveira, em usar as posições de poder comunicacional que lhe são conferidas para atacar de forma regular os comunistas portugueses sobre tudo e um par de botas. 

No fundo, é como se os comunistas tivessem culpa de estar sistematicamente mais certos do qualquer outro intelectual nacional, individual ou coletivo, e de ainda terem uma organização. Acerto não é sinónimo de poder, tal como poder não significa acerto. Haja distinções. 

Como se fosse uma nota de rodapé

Tem de haver reciprocidade, apesar de toda assimetria de meios, porque escasseia a paciência para a superioridade moral unitária nos termos do P sem S, nos de Seguro, envergonhadamente apoiado à primeira volta. 

Afinal de contas, um eventual novo jazigo, como já se propôs, no cemitério de siglas políticas de esquerda não parece ter compradores. Haja modéstia, porque temos todos muitas razões para sermos modestos. 

A unidade política, essa, começa nos piquetes de greve e todos sabemos quem os organiza. A unidade começa nas manifestações anti-imperialistas e todos sabemos quem as organiza. 

Depois, há quem fale, mas sempre depois de outros carregarem os pianos e combaterem com coragem as sereias do “voto no mal menor, que acaba tantas vezes no arrependimento maior”, como bem disse Sofia Lisboa. E, se desgraçadamente chegarmos de novo aí, já se sabe quem ilegalizarão em primeiro lugar, quem levarão em primeiro lugar. 

Pronto, de vez em quando peco e respondo em geral às pessoas com quem estou em desacordo, mas acabo sempre por tentar corrigir, dizendo os nomes de quem assim me faz pensar, sendo que esta atitude muitas vezes não é simétrica, insisto, chegando aos extremos de um Rui Bebiano, por exemplo. 

De resto, só se pensa quando há desconforto intelectual e oposição. Às vezes, esta oposição tem de ser a quem está aparentemente mais próximo, com toda a frontalidade cordial. Até porque sem clarificações à esquerda, não há ações coletivas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Agravamento da crise de habitação em Portugal face ao contexto da UE

Como era de prever, a aceleração dos preços da habitação com a entrada do governo da AD em funções - provocando um ritmo de aumento sem precedentes do respetivo índice (+27%) - distanciou ainda mais Portugal dos valores registados à escala da UE. Se no 1º trimestre de 2024 a diferença era de 78 pontos, no 3º trimestre de 2025 passa para cerca de 129, afastando assim ainda mais o nosso país da média europeia.


Na crença obstinada de que os incentivos à procura e ao aumento da oferta são suficientes para resolver o problema, Luís Montenegro defendeu, no último debate quinzenal, que com as «medidas arriscadas» que o governo agora adotou, a «moderação dos preços», na compra e no arrendamento, «será inevitável», estando por isso disposto a «aguentar o embate do período de transição», até haver resultados. Um infundado ato de fé, portanto, reforçado pela evidência do efeito contrário que as medidas já adotadas geraram.

Além de a referência de «preço moderado» instituída pelo governo (2.300€ de renda mensal) constituir um absurdo face aos rendimentos das famílias (em 2021 apenas 2% dos alojamentos tinham valores mensais de renda acima de 1.000€), contribuindo para «puxar» todos os valores ainda mais para cima, o governo deveria prestar atenção a um facto: o aumento gradual da oferta nos últimos anos (de 7 mil para cerca de 25 mil novos fogos por ano, entre 2015 e 2024), não teve qualquer efeito na estabilização dos preços, que continuaram, pelo contrário, a aumentar.

Recordar é viver


Desculpai, sou um chato que tenta não perder o fio à história e à memória, neste último caso ajudado por um motor de busca de um blogue com quase vinte anos. E recordar é viver, como nos ensinou o grande Vítor Espadinha.

Se em 2025, Seguro frequentava regularmente o stink-tank que serve para a IL contornar a lei de financiamento dos partidos, em 2024 frequentava o MEL, como se pode ver na foto, na companhia de figuras como Camilo Lourenço. 

Mas o que é o MEL? É o acrónimo de Movimento Europa e Liberdade, associação protagonizada por Jorge Marrão (em pé, na foto, ao lado de Seguro). Ficou conhecido como ponto de convergência das extremas-direitas, em 2020, de Morgado a Cotrim-Ventura, ao organizar uma grande conferência na Culturgest, a que aqui nos referimos. 


Marrão pertence ao universo das consultoras, a grande aldrabice que prosperou à conta do esvaziamento das competências e capacidades estatais desde o cavaquismo. Passista da troika, é atual apoiante de Seguro. Está tudo ligado, realmente, acabando num currículo que é todo um programa, segundo a Deloitte:

“O [sic] Jorge Marrão lidera o setor de Real Estate em Portugal. Além dos segmentos tradicionais de Real Estate, tem ainda a responsabilidade de Mergers & Acquisitions (fusões e aquisições) em Hotelaria. Ainda a seu cargo está a área de Marketing, Communications and Business Development. 

Adicionalmente, representa a Deloitte Portugal na rede global, pela área de Clients & Industries. É presidente da Associação Projeto Farol, uma iniciativa lançada pelo think tank, Deloitte Circle, focada em apresentar um conjunto de propostas sobre a economia portuguesa, na próxima década.”

O povo não se engana: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Ao que se deve acrescentar, em política, tal como na arte, diz-me por que espaços circulas, dir-te-ei o que vales. E ainda, entre outras: diz-me como votaste, sem pressa, no tempo do dispensável desperdício da troika, quando outros resistiam...