O livro Varieties of Capitalism: The Institutional Foundations of Comparative Advantage, da autoria de Peter Hall e David Soskice e publicado em 2001, constituiu um marco para a ciência política comparada. O trabalho procedia a uma análise detalhada das diferentes estruturas institucionais de alguns países capitalistas avançados, recusando a ideia de que estaríamos a assistir a uma trajectória de convergência entre diferentes formas de capitalismo. Segundo os autores, mesmo em tempos de globalização e de alargamento contínuo das esferas de actuação dos mecanismos de mercado, haveria diferentes caminhos para o bom desempenho das economias. Por outras palavras, não obstante os discursos acerca do «fim da história» ou da «nova economia», Hall e Soskice defendiam que os sistemas capitalistas estariam longe de convergir para um mesmo modelo (nomeadamente para o que os autores designam por «economias liberais de mercado»).Um dos argumentos do livro que mais repercussão teve foi o de que haveria uma diferença crucial nos modos predominantes de inovação entre «variedades de capitalismo»: as «economias liberais de mercado» (que incluem os EUA e o Reino Unido) tenderiam a produzir inovações mais radicais (novos produtos e processos que tiram partido de avanços científicos e tecnológicos de ponta), enquanto as «economias de mercado coordenado» (onde cabem a Alemanha e o Japão) baseariam o seu bom desempenho económico em inovações incrementais (ou seja, modificações e melhorias em tecnologias já existentes).
Um documento de trabalho acabado de publicar por investigadores da Universidade de Groningen vem pôr em causa os resultados obtidos por Hall e Soskice, mostrando ser impossível tirar tais conclusões acerca dos padrões de inovação. Mais especificamente, mostra-se ser impossível identificar diferenças significativas nos padrões de inovação de países como a Alemanha ou os EUA com base nos dados usados por estes autores.
Quem quiser pode ver nisto a demonstração de que o capitalismo não tem variedades - logo, mais uma acha para o questionamento da tese central de Hall e Soskice. A alternativa é ver nestes resultados um reforço desse argumento: ou seja, não só o capitalismo assume diversas formas com diferentes «graus de impureza», como a capacidade de inovação radical não é característica específica das versões mais liberais do sistema.
Tendo em conta a variedade ideológica dos leitores deste blogue, há explicações para (quase) todos os gostos.

