domingo, 21 de outubro de 2018

Últimos dias


É também de leitura imprescindível, para perceber a vertigem em que o Brasil se encontra, o artigo de Ivan Nunes na versão online do Diário de Notícias. Nele se identificam os processos de fundo («o que rebenta agora é uma panela de pressão que vinha cozinhando desde 2014», um período em que «o Brasil viveu a Lava-Jato, a mais profunda crise do século e um processo de impeachment») e as razões circunstanciais, entre o induzido e o insólito, que colocaram o país à beira do abismo.


Brasil os últimos dias
Ivan Nunes (Diário de Notícias) [*]

No dia em que saímos à rua, numa manifestação que juntou centenas de milhares de pessoas contra Jair Bolsonaro, o pano de fundo já era depressivo. Não era ainda a convicção de uma derrota inevitável, a ideia de que o fim já estivesse dado, um pessimismo racional no campo das previsões. O desfile, composto maioritariamente por mulheres, tinha um rosto alegre, um humor de Carnaval, mas no meu espírito a tristeza dominava, uma tristeza nascida da experiência repetida e traumática, da impotência e da derrota. Era impossível não notar que desde 2015 tínhamos estado a protestar contra retrocessos, que nenhuma reivindicação era por uma melhoria, antes uma sequência de tentativas quase desesperadas de evitar uma coisa muito ruim que tem mostrado sempre ser mais forte do que nós.

Na semana antes do primeiro turno, essa tristeza quase habitual transformou-se noutra coisa, em desespero e medo, um conjunto de emoções que até aqui desconhecia no contexto da política. A partir do momento em que a vitória de Bolsonaro começou a apresentar-se como inevitável, a defesa do regime militar tornou-se aberta, confortável, parte do cenário com que passou a ser preciso conviver educadamente nos cafés chiques de Ipanema, do Leblon ou de Vila Madalena. "A polícia tortura, sempre torturou, e há de continuar a torturar. Durante o regime militar eu votava", ouvi a um sujeito bonacheirão, nos seus 50 anos, que falava com naturalidade e tinha um sorriso nos lábios, na mesa do café ao lado da minha. Ele não estava envergonhado.

Para entender como chegámos aqui, ao momento em que a vitória do candidato da extrema-direita à primeira volta se tornou um risco palpável e à segunda uma probabilidade esmagadora, há razões de fundo e outras de circunstância, três momentos decisivos num mês, contado desde o dia (6 de setembro) em que o Pinochet tropicalizado, este cruzamento de militar com entertainer, foi atingido por uma facada. Até ali, ele estava com 23% nas intenções de voto, que se haviam mantido estáveis ao longo dos meses anteriores; mas sabia-se que era areia movediça porque no Brasil o mês das definições é o último.

Aparentemente, a facada não mudou quase nada: dois pontos percentuais de crescimento nas sondagens, com um aumento simultâneo das taxas de rejeição do próprio Bolsonaro. (Alguns terão concluído que a incitação à violência não dava bom resultado.) Mas foi a própria manutenção dos números que mudou tudo, porque aquela era a última oportunidade que o candidato da direita tradicional, Geraldo Alckmin, do PSDB, tinha para recuperar eleitores perdidos para o bufão pinochetista. A propaganda eleitoral na TV começara cinco dias antes e Alckmin, apoiado por uma larga coligação, dispunha de quase 40 vezes mais tempo de antena do que Bolsonaro, porque no Brasil a propaganda televisiva de cada candidato é proporcional ao número de partidos com assento parlamentar que o apoiam. Com o candidato da extrema-direita numa cama de hospital, Alckmin deixava de poder atacá-lo, enquanto o noticiário neutro sobre o estado de saúde de Bolsonaro lhe garantiria semanas de propaganda gratuita, transformando a facada numa espécie de seguro de vida política. Mesmo sem esse acontecimento imprevisto, é provável que Alckmin não tivesse chegado a ser um candidato viável, mas teria pelo menos disputado a eleição durante mais tempo, atrasando a unificação da direita em torno de uma figura tão grotesca. Depois daquele dia, o candidato da direita tradicional, que estava então com 10% de intenções de voto, não subiu mais, e havia de baixar até chegar aos 4% no dia das eleições, sob pressão do voto útil. 4% de votos no partido que havia disputado todas as presidenciais brasileiras desde 1994, em competição direta com o PT; na primeira volta das eleições de 2006, o mesmo Alckmin tinha tido 41%.

O segundo ato da tragédia dá-se em meados de setembro e apresenta-se com cara de boa notícia. Lançado oficialmente como candidato do PT a 11/9, Fernando Haddad pula dos 6% que o instituto de sondagens Ibope lhe dava no dia 5/9 para 19% uma semana depois do anúncio. Partindo muito atrás dos outros candidatos, atinge números que o destacam (Ciro Gomes, Alckmin e Marina Silva têm por essa altura 10%, ou menos, cada um) e praticamente garantem a Haddad a passagem à segunda volta. A estratégia - temerária - de Lula de persistir no seu próprio nome até ao último momento, e só então transferir o apoio, revelava-se um sucesso estrondoso. Mesmo preso desde abril, impedido de falar ao país, o líder histórico do PT havia conseguido voltar a ser visto como outsider numa eleição em que os brasileiros - todos - tinham razões de sobra para estar fartos. Ele subiu até quase 40% nas sondagens do final de agosto, quando todos os comentadores consideravam que já não era razoável insistir, e mostrava-se capaz de transferir uma parte muito substancial destes votos, quase instantaneamente, para um nome que, fora da cidade de São Paulo (onde Haddad foi prefeito), era pouco conhecido.

A esperança era ancorada na segmentação social dos eleitores. Desde há muito se sabia qual era o candidato preferido dos mais ricos. "Se o eleitorado fosse composto apenas por homens com mais de cinco salários mínimos, Bolsonaro seria eleito na primeira volta com mais de 50% dos votos. São as mulheres mais pobres que impedem que isso aconteça (90% não votam nele)", revelava o Datafolha a 15 de setembro. Era quase cómico comparar os níveis de rejeição de Bolsonaro com os de Haddad: no segmento mais pobre, entre a população que ganha menos de dois salários mínimos, 48% das pessoas diziam que jamais votariam no candidato pinochetista, enquanto 20% recusavam o nome do PT; inversamente, no segmento de mais de dez salários, 54% rejeitavam Haddad terminantemente. A 20 de setembro, Bolsonaro chegou aos 26% de intenções de voto, mas disparavam para 40% entre os eleitores de rendimentos mais altos e para 38% entre as pessoas com curso superior.

Como explicar a adesão dos setores mais abastados - e com níveis de escolaridade mais altos - a esta personagem nauseabunda? Os dados sugerem que ao apoiar o impeachment de 2016 o PSDB, o partido de Alckmin, cometeu haraquiri. Primeiro, retirando o PT do poder em pleno mandato, poupou-o ao desgaste governativo que uma crise económica muito grave inevitavelmente teria de provocar; permitiu a Lula reposicionar-se como vítima e símbolo de um tempo em que as coisas andavam bem. "Tirámos a crise do colo da Dilma e a Dilma do colo do Lula", reconheceu recentemente o secretário-geral do PSDB, Marcus Pestana, em ato de contrição. Segundo, ao comprometer-se com o governo Temer, o centro-direita tornou-se cúmplice de um desastre, tanto económico quanto moral. Temer termina agora o mandato com 2% de aprovação popular (margem de erro de três pontos), tendo-se convertido num elemento tóxico para quem quer que lhe esteja associado. Em terceiro lugar, o PSDB sofreu os efeitos dos escândalos de corrupção, em particular quando, em meados de 2017, Temer foi gravado a autorizar pagamentos a um presidiário para que ele se mantivesse calado, e o próprio Aécio Neves, candidato derrotado (por escassa margem) em 2014, foi registado a pedir dois milhões de reais de suborno. O primo do então líder do PSDB seria depois filmado pela Polícia Federal a receber uma parte dessa quantia, e um assessor do presidente apanhado com meio milhão de reais numa mala, a sair de uma pizaria. Mesmo assim, Temer e Aécio conseguiram manter-se como presidente e senador, respetivamente, protegidos da investigação judicial pela imunidade dos seus cargos, que o Senado e a Câmara dos Deputados se empenharam em manter.

A partir do impeachment, Bolsonaro engoliu paulatinamente o eleitorado tradicional da direita, a tal ponto que nas eleições de 7 de outubro o seu partido acabaria por conquistar uns espantosos 98,7% dos municípios onde desde 2006 o PSDB havia sido dominante. Há aqui um paralelo com o processo pelo qual Donald Trump se tornou presidente dos EUA. Trump cultivou durante anos uma base dedicada, em grande medida graças à alegação totalmente delirante (e racista) de que Barack Obama não teria nascido no EUA, mas no Quénia, e que por isso não era americano, e talvez fosse mesmo muçulmano. Tais ideias não eram maioritárias na direita americana, da mesma forma que a alegação fantasiosa de que o PT tem um plano para transformar o país numa Venezuela e logo formar a União das Repúblicas Socialistas da América Latina (URSAL) - que os bolsonaristas propagam - não chega a atingir o eleitor médio, mesmo o da direita, que conheceu o Brasil governado pelo PT entre 2003 e 2016 e que, quaisquer que fossem as suas queixas, certamente não assistiu à imposição de qualquer projeto revolucionário ou violento. Graças às peculiaridades do sistema político norte-americano, Trump conseguiu ganhar as primárias do Partido Republicano, com uma rede de ativistas construída com ideias delirantes, e perante um leque de candidatos desinspirados e pouco mobilizadores. Depois, a partir do momento em que se tornou o candidato oficial do partido, não foi preciso que cada um (ou sequer a maioria) dos eleitores republicanos concordasse com o que Trump dizia porque, no momento de escolher entre ele e Hillary Clinton, a fidelidade partidária havia de prevalecer. De forma análoga e com recurso a meios semelhantes, Bolsonaro cultivou uma base dedicada, difundindo mensagens breves e imagens falsas via WhatsApp e Facebook. Estas redes eram-lhe indispensáveis porque ele sabia que apresentando-se por um partido quase insignificante iria ter um tempo de propaganda na TV muito reduzido. Mas, mais importante do que isso, na sua forma de redes descentralizadas, WhatsApp e Facebook permitem difundir mentiras que, no tempo de antena oficial do candidato não seriam admissíveis. Foi com esta base ativista que Bolsonaro chegou a 2018: não como favorito, mas como um nome que estaria na disputa. Com a debacle do PSDB, todos os segmentos conservadores da sociedade brasileira se uniram em torno do pinochetista. Ele tornou-se a única opção viável para derrotar o PT.

O reverso disto foi a resistência e o recrudescimento do partido de Lula. Sobrevivendo a um processo que poderia ter levado ao desaparecimento puro e simples do partido, ele recuperou a chance de voltar ao poder pelo voto popular. É certo que o PT não fez nenhuma autocrítica sobre os seus anos de governo, mas também é certo que seria precisa uma boa dose de masoquismo para que o partido se entregasse a isso num período em que enfrentou a deposição arbitrária de uma presidente eleita e viu o seu líder histórico ser preso, num processo que contrasta, pela celeridade, pela escassez de provas e pela severidade da pena, com a leniência com que outros, políticos e empresários, têm sido tratados. O eleitor pobre que beneficiou dos governos de Lula certamente não imagina que o seu líder histórico se tivesse passeado como inocente distraído pelos centros do poder, mas não deixa de reparar que o PT foi alvo de uma tentativa descarada para o identificar como o responsável exclusivo pela corrupção. Depois de tudo, o PT chegou às eleições no final de 2018 com possibilidades reais de ganhar; com quase 30% dos votos na primeira volta, parece ser o único com uma base eleitoral preparada para enfrentar o que vier a seguir. O reverso deste risco é que - como já há algum tempo se sabia - o adversário favorito de Bolsonaro, numa disputa a dois, era o PT, e o adversário favorito do PT era Bolsonaro. Só um contra o outro cada um deles teria possibilidades de ganhar esta eleição.

Retrospetivamente, a terceira semana de setembro foi o auge de uma espécie de euforia que se desfez rapidamente. Se a estratégia de Lula revelava ser um sucesso estrondoso pela sua capacidade de chegar à segunda volta, ela implicava também uma polarização do eleitorado em dois blocos, como todas as sondagens realizadas ao longo de 2018 haviam indicado. De qualquer forma, à entrada da última semana de setembro, uma eventual vitória de Haddad era um cenário pelo menos plausível. Quando a dez dias da eleição Bolsonaro (como Trump) falou em não aceitar o resultado em caso de derrota, muitos tomaram isso como sintoma de medo. Haddad estava seis pontos atrás do Pinochet tropical (22% para 28%) e havia quem achasse que mesmo na primeira volta a ultrapassagem ainda era possível.

Esse pedacinho de húbris pode ter tido o seu papel no que veio a seguir. No dia 29, em mais de cem cidades do Brasil, um mar de gente saiu à rua contra o candidato da extrema-direita. Os desfiles de apoio a Bolsonaro convocados como resposta foram pífios, tomando a forma de procissões de automóveis para conseguirem ocupar o espaço público e disfarçar a escassez de gente. Só que dois ou três dias depois as sondagens registaram um efeito contrário ao que se esperava. Ao cristalizar a eleição como uma espécie de referendo à figura de Bolsonaro, o #EleNão teria ajudado o voto antipetista a agregar-se desde já, num momento em que o campo a que - muito impropriamente - chamaremos de "esquerda" ainda se dividia entre o eleitorado fiel ao PT e aqueles que, por quererem evitar mais uma confrontação direta entre dois campos, preferiam Ciro. Além disso, os números mostravam que Bolsonaro estava pela primeira vez a crescer na intenção de voto das mulheres pobres, um segmento do eleitorado que sempre lhe havia sido renitente. Porquê? Face à magra cobertura televisiva das manifestações, a maioria das pessoas terão tomado conhecimento do movimento #EleNão através do WhatsApp, que uns espantosos 66% da população dizem ser o seu meio principal de acesso a notícias. As imagens difundidas pelas redes, em que Bolsonaro predomina, representavam uma manifestação que de facto não tinha ocorrido, uma fantasia debochada de mulheres de peito ao léu, afugentando em particular o eleitorado evangélico. No mesmo fim de semana, Edir Macedo, o dono da Igreja Universal do Reino de Deus (e também da rede Record, o segundo maior canal de televisão do país), declarou o seu apoio ao candidato da extrema-direita. Os evangélicos (nas suas várias denominações) compõem hoje quase 30% da população brasileira em idade de votar, e os estudos de opinião sugerem que, se fosse possível descontar esses eleitores, Bolsonaro e Haddad ficariam praticamente empatados na segunda volta. (De 2002 a 2014, o chefe da Igreja Universal apoiou Lula e Dilma.)

Nos últimos dias da campanha, Bolsonaro começou a aparecer como uma inevitabilidade: era dele, e só dele, que se falava nas ruas. Nenhuma sondagem lhe dava ainda mais de 40% dos votos, mas havia uma dinâmica palpável, o risco real de que as eleições viessem a resolver-se na primeira volta. Para isso, apenas seria necessário que aqueles que há um mês e pouco declaravam que votariam em Lula, se pudessem, acabassem, na ausência de uma alternativa plausível, por votar em Bolsonaro, ou por anular o voto. Lula não está apenas na cadeia, como está também proibido pelo Supremo Tribunal Federal de dar entrevistas. Com efeito, de acordo com uma pesquisa pós-eleitoral do Datafolha, 18% do total dos votantes afirma que decidiu o seu voto no fim de semana das eleições.

Esses eleitores não são necessariamente de esquerda ou de direita, e o que os move não é forçosamente o antilulismo. O que rebenta agora é uma panela de pressão que vinha cozinhando desde 2014. Nesse período, o Brasil viu deflagrar a Lava-Jato, viveu a sua mais profunda crise económica num século e assistiu a um processo de impeachment que mais não foi do que uma manobra descarada - e no essencial bem-sucedida - do próprio sistema político para se proteger das investigações judiciais. De facto, como era possível que não houvesse resposta? Durante o processo em que coordenava a destituição da presidente eleita, Romero Jucá, futuro ministro de Michel Temer, explicou tintim por tintim a artimanha ao ex-presidente da Transpetro, a maior companhia brasileira de gás natural: "Com a Dilma não dá. Tem de ter impeachment. Tem de mudar o governo, para poder estancar essa sangria. A solução mais fácil era botar o Michel, num grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo. Aí parava tudo, delimitava onde está, pronto." Ele não sabia que estava a ser gravado e, quando o diálogo se tornou público, Jucá perdeu o lugar de ministro; em contrapartida, permaneceu até ao fim - até agora - como líder da bancada do governo no Senado, vice-líder do Congresso, e presidente do PMDB, o partido de Temer.

No Rio de Janeiro, o próprio estado entrou em bancarrota e milhares de funcionários públicos viveram durante meses com salários em atraso, o que se repercutiu num efeito de cascata por toda a economia. (As consequências do estrago continuam à vista.) Nas favelas, o esforço que os poderes públicos vinham fazendo para ocupar o território ficou posto em causa, à medida que a polícia perdia meios e, com atrasos de pagamento, se tornava mais vulnerável à corrupção. Com o regresso das fações do tráfico aos lugares de onde antes haviam sido expulsas, e com o combate entre elas pela nova ocupação do território, os tiroteios tornaram-se diários, afetando em especial os bairros onde vivem as populações mais pobres, que são a maioria. Enquanto isso, o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) era preso, e detalhes sobre a sua vida sumptuária eram diariamente relatados na imprensa. Não foi preciso mais para que o cidadão concluísse (erroneamente) que o dinheiro que lhe faltava no bolso era exatamente aquele que havia sido roubado, que a crise económica - chegada de supetão - era um efeito direto da roubalheira.

A situação a que agora chegámos não era imprevisível e não deixou de ser prevista. Em 2016 já podia perceber-se que a combinação da crise económica com as investigações da Lava-Jato produziria um vazio no coração do sistema político. Os políticos em exercício - deputados do Congresso, membros do Senado, muitas vezes acobertados por juízes dos tribunais superiores - defenderam-se como podiam e a Lava-Jato foi usada como arma de arremesso na disputa política, sem que nada fosse feito para alterar as condições sistémicas que produzem a corrupção. Além de prender meia dúzia de figuras, o efeito prático mais óbvio das investigações judiciais foi o de favorecer a ascensão do primeiro demagogo que tivesse os meios para aproveitar as circunstâncias. Perante tudo isto, o país estava estranhamente quieto. Depois das manifestações históricas de 2013 - num momento em que a economia do Brasil ainda crescia - as ruas tinham ficado vazias. Mas a calma à superfície não enganava ninguém. Numa sondagem divulgada poucos dias antes da primeira volta (2/10), 68% dos eleitores dizem sentir "raiva" ao pensar no país, 79% falam em "tristeza" e 78% em "desânimo". Ao retirar da competição eleitoral o candidato que todas as sondagens indicavam como franco favorito, o processo abriu caminho à ascensão de Bolsonaro e, a avaliar pela tranquilidade com que as classes mais prósperas e os segmentos mais educados encaram o candidato da extrema-direita, é de presumir que a inevitabilidade de um tal desfecho não lhes tivesse passado desapercebida. Quando Lula recolhia 39% das intenções de voto, em final de agosto (na sondagem acima citada), o candidato da extrema-direita era o segundo colocado, com 20 pontos a menos do que o líder do PT.

Uma coisa que gera perplexidade em quem acompanha a situação de fora é a popularidade de um apologista declarado da ditadura militar, que se distingue por prestar culto aos seus aspetos mais sangrentos. Ainda em 2016, a avantesma declarou taxativamente: "O erro da ditadura foi torturar e não matar." Há no candidato uma espécie de volúpia em evocar a tortura, as execuções extrajudiciais, o assassínio. E, de facto, para uma fatia - larga - dos seus seguidores, Bolsonaro é popular não apesar de prestar culto à morte, mas precisamente por causa disso. Dois candidatos do PSL, partido de Bolsonaro, não apenas destruíram uma placa de homenagem a Marielle Franco, profanando simbolicamente a memória da vereadora assassinada, como fizeram questão de se filmar e de difundir na internet o ato que praticavam; os dois foram eleitos na votação do passado dia 7. Refiro-me ao candidato da extrema-direita como "pinochetista" porque a imagem patibular do general chileno, na sua célebre fotografia de braços cruzados e óculos escuros, me parece representar bem isso. Mas a analogia vai mais além: tanto nos seus alicerces retóricos como nas classes sociais em que o seu apoio se sustenta, Bolsonaro é herdeiro direto das ditaduras militares que nas décadas de 1960, 1970 e 1980 governaram quase toda a América Latina.

Em 2016, passeando entre as pessoas que se manifestavam pela destituição de Dilma, em Copacabana, impressionava constatar que as palavras de ordem permaneciam as mesmas de 1964: Deus, pátria, autoridade, família tradicional, devoção às Forças Armadas e, acima de tudo, o perigo do comunismo. "A nossa bandeira jamais será vermelha", diziam os cartazes, como sempre apropriando-se das cores nacionais. O slogan de Bolsonaro - "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos" - quase tem graça, na sua evocação descarada do regime militar, até ao momento em que nos damos conta de que não se trata de piada e de que o assunto não é para rir. Já se sabia que para largos setores da sociedade brasileira, designadamente os mais ricos, a ditadura militar tinha sido uma resposta legítima, ou pelo menos necessária, no contexto da Guerra Fria. Mas o que impressiona é constatar como essa história está viva.

De certa forma, a situação atual é mais grave. Se o contexto internacional já não favorece a retórica anticomunista e portanto não serve como pretexto para a repressão política pura e dura, há agora, pela primeira vez em décadas, um presidente norte-americano que abertamente escarnece dos direitos humanos. Além disso, o tráfico de droga hoje domina bairros inteiros, estando na base de uma violência que antes não existia. Mesmo sem Bolsonaro, o Brasil regista hoje mais de 64 mil homicídios por ano, e a polícia mata anualmente mais de cinco mil pessoas: quase 14 indivíduos assassinados pela polícia por dia. Três décadas de "guerra às drogas" criaram o ambiente de desumanização em que uma parte da sociedade está disponível para glorificar o assassínio, permitindo a Bolsonaro proclamar abertamente aquilo que o regime militar fazia, mas não dizia que fazia.

Já em 2016, no próprio momento em que Bolsonaro dedicava o seu voto a favor do impeachment à memória de um notório torturador - a quem chamava, em pleno congresso nacional, de "o pavor de Dilma" - o pinochetista era, disparado, o favorito dos mais ricos. Naquela altura ele tinha apenas 8% das intenções de voto nas sondagens (quarto colocado entre os possíveis candidatos a presidente), mas quando se consideravam só os eleitores com mais de dez salários mínimos, ele vinha em primeiro lugar, com 23%. Se há um aspeto crucial em que a eleição de Bolsonaro difere da de Trump, é que nas grandes cidades dos EUA (Nova Iorque, Boston, São Francisco, Los Angeles, ou Chicago) é virtualmente impossível encontrar um eleitor do atual presidente: lá, a fronteira separa voto urbano (democrata) de rural (republicano), voto mais escolarizado (democrata) de eleitor de baixo nível de educação (republicano). Pelo contrário, aqui, o candidato de extrema-direita - grotesco como ele é - atinge votações especialmente altas entre os que passaram mais tempo na escola, nas maiores cidades do Brasil.

Para mim, pessoalmente, os acontecimentos deste mês concluem de forma demasiado perfeita a experiência de viver neste país. Cheguei ao Rio de Janeiro em 2015 com uma visão idealizada sobre a cidade que, pela sua situação geográfica, continua a parecer-me incomparavelmente mais bonita do que qualquer outra que já tenha visto. (Mas é justa a precisão da poeta americana Elizabeth Bishop, que já nos anos 1950 escreveu: "O Rio de Janeiro não é uma cidade maravilhosa; é um lugar maravilhoso para uma cidade.") O tempo ensinou-me que a zona sul - praticamente toda a área da cidade que os turistas conhecem como sendo "o" Rio de Janeiro - é no fundo uma cidade de pequena dimensão, quase uma Lisboa, encravada noutra cidade seis ou sete vezes maior e incomparavelmente mais pobre do que ela. Não me queixo da insegurança porque nunca me senti em perigo, mas o contacto quotidiano com a prepotência, o racismo, a crueldade casual e distraída, e de uma forma geral a mediocridade que um tal ambiente propicia, fez crescer em mim mais do que um desconforto: uma raiva. A eleição de Bolsonaro, a verificar-se, condensará esse mal-estar de uma forma mais acabada, mais caricatural, do que até há pouco poderia imaginar.


[*] Ivan Nunes é sociólogo e investigador de cinema. Vive no Rio de Janeiro desde 2015. Este texto será publicado na próxima edição da revista Manifesto.

6 comentários:

Jose disse...

«É certo que o PT não fez nenhuma autocrítica sobre os seus anos de governo, mas também é certo que seria precisa uma boa dose de masoquismo...»

Eu diria que era preciso uma dose mínima de decência, e essa talvez fosse a chave do sucesso.

Anónimo disse...

Uma boa dose de decência?

Quem fala em decência é quem andou por aí a tentar substituir o termo "esquerdalha" por "esquerdopata", imitando o sabujo.

Sem sucesso. Mas devidamente registado

Submarino Portas. disse...

Uma boa dose de DECÊNCIA?
É o Jdé lavar os "dentes" toda a vez que abre a boca.

Anónimo disse...

Quando Lula chegou ao poder teve o cuidado de garantir que o Partido dos Trabalhadores não governava apenas para os Trabalhadores. Com tempo, com Dilma, essa preocupação interclassista desapareceu. A governação do PT passou a ter como únicos destinatários "os Trabalhadores", institucionalizando uma luta de classes efetiva. Os "não trabalhadores" foram não só excluídos das políticas públicas masa passaram também a ser o inimigo na luta de classes. Que motivo tem agora um "não trabalhador" para votar num partido exclusivamente "dos Trabalhadores"? Faz sentido um partido "dos Pensionistas", "dos Homens" ou dos "Jovens" assente em políticas exclusivas para um determinado grupo da sociedade?

Anónimo disse...

Treta ou mentira?

Ambas. Dilma governou de forma mais conciliatória do que Lula De resto foi acusada disso mesmo

Pelo que a questão da governação exclusiva para os trabalhadores não só não corresponde â realidade como Dilma não falou em luta de classes

Parece a foto de Dilma ao lado de Fidel...numa outra perspectiva

Manuel Silva disse...

Anónimo das 09:02, 22/10.
Pode ter a certeza de que o seu querido Bolsonaro não seguirá as passadas do PT.
Irá governar para todos (excepto os do PT, esses não merecem nada).
E dará especial atenção aos mais pobres.
Coitados dos ricos, irão ficar ainda pior do que estavam com o PT.
Mas não têm escolha, ou ficavam mal com o PT ou pior com o Bolsonaro, como são insensatos, preferem ficar pior.