sexta-feira, 1 de abril de 2016

Da escola pode-se esperar muito, não se deve exigir tudo

Hoje o Fórum TSF foi dedicado ao tema "A escola e a cidadania". A julgar pela amostra que ouvi, há na sociedade portuguesa a convicção de que à escola cabe tudo: para além de ensinar matemática, história, línguas, ciências naturais, artes e tecnologias, etc., as escolas devem também ensinar as crianças e os jovens a estudar autonomamente, bem como educá-los para a cidadania, a Constituição, os direitos humanos, a sexualidade... E não só: devem também ensiná-los a comportar-se numa sala de aula, sentarem-se direitos, respeitarem os outros, não dizerem asneiras, enfim, portarem-se como deve ser. E, ainda, desenvolver o interesse pelas artes e pela cultura, o respeito pelo ambiente, o contacto com a natureza.

Quem trabalha nas escolas portuguesas sabe que a maioria das escolas faz tudo aquilo e muito mais - mesmo num contexto em que aumentaram o número de alunos por turma, que se aumentaram as cargas lectivas, que se multiplicaram as tarefas burocráticas, que se reduziu o número de funcionários não-docentes.

Quem trabalha em educação sabe também que a escola não pode, nem deve, fazer tudo. Desde logo, sabe que a escola não se substitui às famílias e que o acompanhamento das crianças em casa é fortemente condicionado por um século de atraso na educação do país, mas também pelos elevados níveis de pobreza e desigualdade. E, nos últimos anos, pela generalização do desemprego e da precariedade, que entra pela porta adentro de muitos trabalhadores com filhos em idade escolar.

Neste contexto, o sucesso educativo depende ainda mais crucialmente do funcionamento de vários serviços exteriores à escola, incluindo apoios sociais diversos, o acesso aos cuidados de saúde ou os serviços de protecção de crianças em risco. O insucesso e o abandono escolar, assim como a insuficiente qualidade da educação e das aprendizagens, não se resolvem simplesmente com exames e exigindo sempre mais às escolas e a quem nelas trabalha, independentemente das condições que têm para o fazer. A educação é um problema central em Portugal que depende de quase tudo. Seria bom que conseguíssemos discutir as coisas nestes termos.

PS: sempre que surgem estas discussões lembro-me do vídeo abaixo. Fala por si (para quem entender inglês).



6 comentários:

Anónimo disse...

Penso que não há razão inteligente para o que acontece em Portugal. Já há uns bons anitos que a escola portuguesa serve de ama-seca sem vocação para tal ofício. O próprio professorado ambientou-se ao misero esquema, as famílias já se viciaram. E´ mais um emprego…
Já se tem abordado este tema que se tornou complicado devido ao domínio politico e económico dos grandes potentados…
Também tenho dito que para acabar com esta aberração sistémica que e´ a actual escola “só uma revolução cultural e´ pouco…visto que há décadas esta bagunça em que se tornou a escola portuguesa veio a se tornar “cultura”. Ora Bolas…! De Adelino Silva

Jose disse...

«Neste contexto, o sucesso educativo depende ainda mais crucialmente do funcionamento de vários serviços exteriores à escola, incluindo apoios sociais diversos, o acesso aos cuidados de saúde ou os serviços de protecção de crianças em risco»

Ao cidadão cabe a inseminação das cidadãs, atividade recreativa essencial à felicidade dos povos.
Paridas as crias, por isto e por aquilo, coitadinhos, cabe ao Estado...

Anónimo disse...

A um texto notável de Ricardo Paes Mamede "responde" um "comentário" dum gosto incrivelmente baixo e medíocre.
Autêntico atestado da indigência mental duma direita extrema que fala assim desta forma reles e gratuita de "inseminação e da actividade recreativa e das paridas e das crias e dos coitadinhos".

Também verdadeiro monumento da grosseria e da pesporrência cultural, intelectual e cívica de quem se assume como guardião das virtudes da Inquisição e da Realidade. Qual ideologia essa sim parida no ventre da raça dos arianos eleitos

Anónimo disse...

Ainda sobre as escolas
Segundo um estudo do economista Eugénio Rosa existira´ hoje um enorme destruição de valores feito pela banca residente, 33.742 milhões € de “imparidades”, créditos perdidos, (ou a perder) muito dele devido à má gestão ou mesmo gestão danosa… Se este valor desperdiçado pela banca fosse canalizado para a Escola Portuguesa, tenho a ideia de que a cultura portuguesa seria outra muito melhor, que acham disto..? De Adelino Silva


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Antonio Cristovao disse...

O papel nivelador da escola,tem saído muito mal e vai provavelmente piorar com a ausência de escrutínio, que se perspectiva nas novas equipas. Pobres estudantes pobres, ninguém olha por eles a sério.

Anónimo disse...

Ninguém olha por eles a sério?
Olhe que não,olhe que não.
A esquerda quer que as coisas mudem. Os estudantes pobres não precisam que olhem para eles desta forma tão à Jonet, mas sim que se acabe de vez com a pobreza.
O que motivará estas inquietações de António Cristóvão?

Quanto à "ausência de escrutínio" o que quer significar com isso? Alguma incorrecção nos termos que não oculta um disparate maior.
Mas isso já foi bastas vezes aqui discutido