sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Por que deixaram Passos e Portas sozinhos a explicar a frágil retoma económica?


Há algo que me escapa nesta campanha. Por que foi que a esquerda - e refiro-me ao Partido Socialista, ao PCP e ao Bloco de Esquerda - não conseguiu esvaziar a tese oficial de que a frágil retoma económica que se verificou desde meados de 2013, mas sobretudo de 2014, teve a ver com a política levada a cabo pelo Governo?

Em 2011, a mensagem era clara. O Memorando era o seu programa. Mais, o seu programa era ir além do Memorando, porque apenas isso garantia condições de crescimento económico. Curiosidade: debaixo de Passos Coelho, as percentagens parecem algo longínquas: PSD 38,6%, PS 28,1% CDS 11,3% CDU 7,9% BE 5,2%. Em conjunto, a coligação de direita teria 126 deputados.


"Vai ser difícil, mas vai valer a pena", dizia Passos Coelho. "Não descansaremos enquanto não pusermos Portugal a crescer" (6:30). "Essa é a única forma derradeira e duradoura de defender o nosso Estado Social (...) e para poder garantir uma melhor distribuição do rendimento e da riqueza". Uma meta que se seria possível "se formos capazes de cumprir o programa a que nos vinculámos também, mas se conseguirmos ir além, de modo a dar perspectiva de crescimento à economia portuguesa e de criação de empregos que possam absorver o desemprego historicamente elevado que hoje perdura"(7:20) "Conto com todos, para fazer desta situação difícil uma grande oportunidade que vamos a tempo de agarrar, para transformar as dificuldades em aventuras e os tempos terríveis que deixámos para trás substituí-los pela esperança de poder vir a ter dias mais felizes que vamos celebrar nesse dia todos em conjunto." (10:20).

Isto foi em 2011. Mas em 2013 tornou-se claro que, afinal, estava tudo "mal desenhado". O desemprego explodia. E o Tribunal Constitucional chumbava lei após lei. Gaspar demite-se. E Portas, no mesmíssimo dia em que tinha de entregar o seu maravilhoso plano de reforma do Estado que pudesse contornar o TC, demite-se. E a política económica mudou. A austeridade ficou congelada. E deixou de ser aprofundada. Passos desiste de reformar a economia e o Estado. Só queria que o tempo corresse.

Se houve frutos, eles tiveram a ver, sim, com a atenuação da austeridade e não com a aplicação da austeridade. E a coligação de direita tirou frutos da retoma como se fosse sua filha e não sua enteada mal desejada. E a esquerda deixou-o cavalgar essa tese, sem o atacar.

Por que não enumeraram as malfeitorias? Por que não pegaram nos desempregados, nos emigrados, nos portugueses sem médico de família, nos desapoiados, nos pobres mais pobres, em todos que - ao arrepio do discurso de 2011, ficaram para trás, caídos? Por que fizeram uma campanha sem imagens reais?

Como foi possível?

10 comentários:

Diogo disse...

Caro João,

A explicação é simples:

1 - Bloco de Esquerda e PCP tentaram, nos poucos minutos que lhes foram concedidos na televisão, "esvaziar a tese oficial da retoma económica". Mas, a seguir, seguiam-se horas de «comentadores» a jurar que a política era boa e que tinha havido fortes indícios de uma retoma económica.

2 - Em segundo lugar, o Partido Socialista faz parte do Centrão e, portanto, está a soldo dos mesmos Senhores da Finança que ditaram esta política ao Governo.


Porque é preciso perceber esta coisa básica:

Chris Gupta: "A constituição de uma «Democracia Representativa» consiste na fundação e financiamento pela elite do poder de dois partidos políticos que surgem aos olhos do eleitorado como antagónicos, mas que, de facto, constituem um partido único. O objectivo é fornecer aos eleitores a ilusão de liberdade de escolha política e serenar possíveis sentimentos de revolta..."


Fernando Madrinha - Jornal Expresso de 1/9/2007:

[...] "Não obstante, os bancos continuarão a engordar escandalosamente porque, afinal, todo o país, pessoas e empresas, trabalham para eles. [...] os poderes do Estado cedem cada vez mais espaço a poderes ocultos ou, em qualquer caso, não sujeitos ao escrutínio eleitoral. E dizem-nos que o poder do dinheiro concentrado nas mãos de uns poucos é cada vez mais absoluto e opressor. A ponto de os próprios partidos políticos e os governos que deles emergem se tornarem suspeitos de agir, não em obediência ao interesse comum, mas a soldo de quem lhes paga as campanhas eleitorais." [...]

Antonio Cristovao disse...

Os eleitores vão mostrar, nos votos o que acham desta superioridade moral da esquerda!

Carlos Sério disse...

Lamentavelmente o PS não conseguiu desmontar a estratégia fundamental da coligação PaF que consistiu em fazer recair sobre o anterior governo todas as culpas da situação de crise que o país vive e viveu. Uma vez mais Coelho/Portas não tem pejo algum em mentir e faltar à verdade histórica.
Ora não é verdade atribuir culpas ao governo de Sócrates pela chamada crise das dívidas públicas que a Europa viveu. Sócrates não foi o responsável pela falência do Lehman Brothers ou pelo ida da Troika para a Irlanda ou para a Grécia ou pela bancarrota da Islândia ou ainda pelo quase resgate da Espanha e a subida dos juros da dívida pública a valores quase insuportáveis na Itália e na Bélgica e de uma maneira geral pelos países do euro.
Não se pode honestamente responsabilizar a governação de Sócrates pela subida vertiginosa dos juros da dívida pública no auge da crise do euro e que tornou impossível o financiamento do país através dos mercados financeiros e a consequente vinda da Troika.
Ao não saber desmontar esta estratégia tornou-se muito difícil ao PS contradizer a PaF quando ela se apresenta como responsável por “corrigir” o rumo e “entrar no caminho certo” como se lê na “mensagem aos portugueses” distribuída pela coligação.
Daí a impensável eventual vitória eleitoral da coligação Coelho/Portas.
Depois de:
O PIB com a coligação PaF regrediu para os níveis de 2003.
O rendimento disponível dos portugueses é inferior ao do ano 2000.
Entre 2010 e 2013, o PIB “per capita” português caiu 7%.
O nível de vida dos portugueses recuou, em 2013, para valores de 1990.
O número de pessoas com emprego não era tão baixo desde 1995.
O investimento caiu para níveis que não se registavam desde finais dos anos oitenta.
O número de pessoas que emigram todos os anos é maior do que na década de 1960
Existem mais de um milhão e duzentas mil pessoas continuam sem encontrar um emprego em condições.
A pobreza e a desigualdade aumentaram, num dos países que era já dos mais desiguais de toda a Europa.
A dívida pública aumentou de 94,0% do PIB em 2010 para 130,2% em 2014.
Em 2010 tínhamos uma divida externa líquida de 82,7% do PIB que aumentou para 104,5% em 2014.
O IRS aumentou mais de um terço entre 2010 e 2013.
É deveras espantoso!!!

meirelesportuense disse...

Deixaram? Quem deixou e deixa foi a Comunicação Social, que em conjunto fez e faz o possível e o impossível por dar colinho aos senhores da Coligação "Portugal ao Fundo"... Ainda agora estão na SIC três comentadores, um é o Director de Informação da SIC António José Teixeira -que até admiro-, o outro é o "isento" Advogado José Miguel Júdice -de tendência bem conhecida-, mais a velha interventora e defensora acérrima da Múmia Paralítica em Exercício, de nome Maria João Avillez...Como vêm não é preciso mais para que o debate ocorra de acordo com o gosto dos detentores do Poder Político. Mas o que se poderia esperar de uma Informação completamente dominada pelos interesses dos Poderosos?...E o que se poderia esperar desses senhores que têm na mão a possibilidade de manipular até ao limite tudo o que podem vir a influenciar. A culpa é dos cidadãos, não é possível que uma pessoa adulta possa ser manipulada de forma tão descarada por terceiros sem ter nenhuma reacção visível, não é próprio dos seres com coluna vertebral. Portanto se a Direita ganhar é porque assim é desejado pela população. E se o desejam, o que podem fazer aqueles que se encontram em minoria e em franca desvantagem tendo em atenção os meios de combate em confronto?...

Anónimo disse...

O PS tem , em relação ao PAF, o mesmo complexo que a Austria face à Alemanha . Tão semelhantes que ninguém percebe porque motivo ainda estão separados .

Anónimo disse...

quem conseguirá um bom resultado de 0,3% é o Livre/Tempo de Se Endividar, que não apresentou qualquer proposta nestas eleições e foram uma esquerda medrosa.

Anónimo disse...

Vale a pena ler a opinião de Jean-Luc Mélenchon sobre as nossas eleições de amanhã [ http://www.jean-luc-melenchon.fr/2015/10/03/le-temps-fraichit/ ]:

Evidemment, le PS concentre sa campagne sur le « vote utile ». Ça sonne aussi creux qu’ici. « Utile à quoi ? ». Car c’est bien le PS qui a appelé la Troïka et appliqué les premières mesures d’austérité en 2010-2011. Depuis cette date, la droite a poursuivi sur la ligne européenne ordo-libérale. Et le PS ne propose aucune rupture avec cette politique, cela va de soi. Le bilan est pourtant terrible. La richesse produite (à supposer que ce soit un vrai repère pour nous comme ça l’est pour les productivistes) est toujours inférieure à 2009 après 3 ans de récession entre 2011 et 2013. Il y a 300 000 chômeurs supplémentaires et 40% de chômage chez les jeunes. Si bien que 500 000 Portugais se sont exilés en 5 ans. Et dans la population qui reste sur place, il y a 20% de pauvres.

Le Portugal est souvent présenté comme « le bon élève de la Troïka », au motif qu’il n’est plus soumis aux « plans d’aide ». On sait qu’un « plan d’aide » est une saignée de privatisations et de coupes claires dans les dépenses publiques pour pouvoir emprunter « sur le marché directement ». Les griots de la « seule politique possible » s’en gargarisent. Vu de près, il en va tout autrement. La petite respiration retrouvée dans l’asphyxie ne tient nullement à la politique de la Troïka mais à son contraire. La timide « reprise » 2014-15 coïncide avec l’assouplissement de l’ordo-libéralisme, c’est-à-dire que si elle a lieu c’est parce qu’une atténuation de la politique d'austérité a eu lieu, de peur de faire craquer la corde qui tient le pendu. Dit en langage FMI : « l'ajustement budgétaire a ralenti ». Et dans le même temps, ce fut une baisse de l’euro provoquée par la BCE contre le dogme de l’euro fort. Et c’est aussi à l’intervention de la BCE qu’est due la baisse des taux d’intérêt sur les marchés financiers auprès desquels le Portugal peut désormais « s’approvisionner directement ». Bref, c’est en réunissant les conditions contraires exigées par le catéchisme libéral que la situation s’est rendue légèrement moins cruelle. Mais attention à la propagande : le Bla Bla sur la « reprise portugaise » ne doit pas faire perdre de vue qu’il s’agit de très peu de choses. Car au rythme actuel, en 2020 le PIB du Portugal sera seulement revenu au niveau de 2009 ! Sur le long terme, l’économie portugaise est défigurée par la médecine qui lui a été appliquée. Le modèle allemand a fait son œuvre. Elle repose désormais sur les exportations : elles représentent désormais 40% du PIB contre 27% avant la crise. Autrement dit au premier retournement de tendance mondiale, patatras, le Portugal retourne à l’âge de la pierre. Et justement, mauvaise nouvelle, l’OMC (organisation mondiale du commerce) annonce que le commerce international va reculer pour la quatrième année consécutive. Le niveau s’aligne sur le taux de croissance mondial. Adieu la divine période où le commerce mondial progressait deux fois plus vite que la production parce que le grand déménagement des marchandises carburait à mort.

Anónimo disse...

Ainda sobre a frágil "retoma" portuguesa, Mélenchon acrescenta o seguinte:

La « reprise » est donc fondamentalement non durable. Car l’export qui la porte repose sur le dumping social c’est-à-dire la baisse du coût du travail et celle de l’euro, deux paramètres qui sont promis à de fortes fluctuations sociales et politique. En tous cas, on ne voit pas que le maniement d’une monnaie et la régression sociale améliorent le niveau de qualité ou de performance des marchandises échangées. La production portugaise ne vaut donc pas davantage qu’au début de la crise. Sa valeur d’usage est la même et sa valeur d’échange est manipulée. En attendant, les salaires ont baissé de 6% entre 2010 et 2013 et ce n’est donc pas la consommation populaire qui va prendre le relai de l’atonie de l’export. Et en toute hypothèse, la dette publique reste aussi insoutenable que celle des Grecs et de tout l’arc méditerranéen. Selon le FMI : « Le poids de la dette publique et privée va probablement réduire les perspectives de croissance à moyen terme ». C’est dit. Car comme d’habitude la dette publique a augmenté avec l’austérité et les autres merveilles de la cure infligée pour la faire réduire. Elle est passée de 84% du PIB en 2009 à 130% en 2014. Un « détail » que les commentateurs enthousiastes du « bon élève portugais » oublient de mentionner. En tous cas, en 2015, le remboursement de la dette a absorbé près de 5% de la production du pays. Les banques adorent ! Surtout qu’elles ne sont pas très flambardes. La bulle de la dette privé et celle des banques menacent. Les chiffres devraient faire mourir de peur « les marchés », si tatillons quand il s’agit des dettes de l’État. La dette privée a un peu reculé mais elle représente toujours 237% du PIB ! Quant aux banques privées, ça sent la fuite de gaz à plusieurs milliers de kilomètres. En 2014 l’État portugais a déjà a sauvé la Banco Espirito Santo en lui offrant de la part des Portugais, à qui personne n’a rien demandé, pour 5 milliards d’euros. Et à cette heure, les créances douteuses des banques portugaises atteignent encore 12% du total de ce que les banques marquent dans leur bilan comme des actifs. Selon le FMI, cette part « grandit », menaçant le système financier portugais alors que l’endettement public rend impossible une injection massive de capitaux. Bientôt la fin, bien sûr. Comme en Grèce, comme partout. La dette portugaise ne sera pas payée et ses banques s’effondreront le moment venu.

Anónimo disse...

Porco cRistovao se as tuas ideias fossem boas e as da esquerda moralmente inferiores não precisavas de todas as televisões a trabalhar para ti.

Anónimo disse...

Só para dizer que julgo que o título do artigo está mal escrito. Segundo esta resposta no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa - https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/porque-por-que-e-porque/243 -, dever-se-ia escrever aqui «Porque» (advérbio interrogativo) e não «Por que» (preposição e pronome relativo, interrogativo adjunto ou interrogativo). Segundo a resposta do Ciberdúvidas, utilizar-se-ia «Por que» em frases interrogativas como «Por que motivo não vieste ontem?» (= «Por qual motivo não vieste ontem?») ou «Por que esperas?» (= «Por que coisa esperas?»).