sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Mais ilusões?


Já aqui argumentei que não são possíveis políticas de esquerda dentro da zona euro. Hoje é a vez de Portugal tomar consciência dessa dura realidade: não há escolha democrática no seio da zona euro. Os seus membros abdicaram do exercício da soberania na política económica, o que significa que entregaram um amplo leque de decisões que organizam a vida social nas mãos de um colectivo de países. A ideologia do ordoliberalismo alemão foi consagrada nos tratados, ao mesmo tempo que o funcionamento e as nomeações da tecnoburocracia de Bruxelas e do BCE ficaram convenientemente amarrados à mesma ideologia. Não é pelo facto de esta perda de soberania ser designada por “partilha de soberania”, ou pelo facto de os media esconderem aos cidadãos que muito do que determina as nossas vidas se decide fora de Portugal, que a realidade deixa de ser o que é. A soberania reside no povo mas, dizem-nos hoje, o povo só pode eleger as maiorias que os tratados permitem.

A maioria do povo português ainda não terá consciência de que a democracia conquistada no dia 25 de Abril de 1974 ficou, no essencial, comprometida com a participação num processo de integração carregado de ambiguidades. Do mercado comum ao mercado único, deste à moeda única e, agora, o tesouro único, a UE consolida passo a passo um regime político híbrido que escapa ao controlo democrático dos cidadãos. Se o exercício da democracia pressupõe uma unidade territorial onde o povo elege os seus representantes e toma decisões sobre a vida da comunidade, então o caminho que a UE já tomou é tudo menos democrático. Onde está o povo europeu? Onde está essa comunidade de partilha de vida e de deliberação, o demos que detém o poder soberano? A verdade é que, na ausência de uma língua comum, largamente partilhada, a cidadania europeia não passa de um mito que serve a estratégia política de uma elite cosmopolita desligada dos seus povos.

A crise que estamos a viver tem diferentes níveis. É uma crise nacional, de que o impasse na constituição do novo governo constitui um importante sintoma, em articulação com a crise da UE, também ela participante da crise de um capitalismo que vai a caminho de mais uma explosão financeira, ela mesma fruto de um crescimento ambientalmente insustentável e ao serviço da ganância e do desvario de uma minoria. Tendo presente este pano de fundo, é profundamente inquietante que os líderes dos partidos da esquerda que hoje negoceiam com o PS a formação de um governo tenham assumido que é possível governar o país nos próximos anos pondo entre parêntesis a interdependência dos vários níveis da crise. Estando à vista de todos que a política orçamental expansionista está bloqueada pela escolha ideológica de fazer depender dos mercados financeiros o financiamento da dívida pública, e não dos bancos centrais; estando à vista de todos que uma nova política económica enfrenta a oposição determinada da Alemanha e seus satélites, que não aceitam outra visão do federalismo orçamental que não seja a do ordoliberalismo (ler Shahin Vallée, “How the Greek Deal Could Destroy the Euro”); estando à vista de todos que não há margem de manobra para qualquer política de relançamento da economia portuguesa, bem pelo contrário, como é possível que a esquerda continue a alimentar a expectativa de tornar mais suave o afundamento da sociedade portuguesa na desesperança?

Aos olhos de muitos, uma crise gerida pela esquerda será mais suportável do que uma crise gerida pela direita. A meu ver, tendo em conta o impasse em que a UE se encontra, um governo apoiado pelas esquerdas apenas será útil ao país se estas forem capazes de mostrar ao povo, no decurso desta experiência de governo, que o problema está mesmo no respeito pelos compromissos europeus. Se forem capazes de deixar cair a guerrilha verbal contra a direita e disserem, preto no branco, que sem soberania sobre a política económica não temos futuro. O país não precisa de mais ilusões.

(O meu artigo no jornal i)

12 comentários:

Antonio Cristovao disse...

Não consigo perceber a razão de falar em impossibilidade de isto ou aquilo, baralhando a necessidade de dinheiro dos outros com liberdade. Qaulquer país que não precise dos dinheiros dos outros na UE faz a politica que quer e ninguem lhes põe ou pode por qualque objeção. O gerente bancãrio que conheço, emprestou dinheiro a um cliente, com um juro baixo.Ao vê-lo num mercedes novo com uma pequenas muito pouco recatadas, chamou-o ao banco e infromou-o que no proximo semestre o juro ia aumentar para o dobro. Coitado do empresário que ficou com a liberdade limitada por um reles gerente bancario? bendita demagogia!!

Jaime Santos disse...

O seu diagnóstico é correto, mas vejo que insiste nele sem indicar qualquer plano para um País como Portugal abandonar sozinho o Euro. Varoufakis diz que isso é impossível, e que só é possível alterar esta situação a nível europeu, eu não acredito nele. Mas pago para ver qual será esse plano que não lançará o País num caos que derreterá as poupanças daqueles cujo voto a Esquerda precisa para se manter no Poder e que já perderam tanto com a presente Governação da Direita. Uma via maximalista como é defendida pelo PCP e pelo BE seria eventualmente derrotada pelo voto que devolveria ao Poder uma Direita revanchista que acabaria a governar à húngara. É mesmo isso que querem?

Edgar disse...

Falta um importante elemento nesta análise. obviamente correcta: o sofrimento dos trabalhadores e do povo, roubados que foram rendimentos e direitos.
Nestes últimos 4 anos o país recuou mais de 10, e em determinados domínios muito mais. Se houver condições para começar a inverter a situação, se foram devolvidos os rendimentos e direitos roubados estaremos a dar um indispensável contributo e exemplo para avançar por via alternativa.
A austeridade foi e é um pretexto para aumentar a exploração!

Jose disse...

...não são possíveis políticas de esquerda dentro da zona euro...
...o povo só pode eleger as maiorias que os tratados permitem...
...o problema está mesmo no respeito pelos compromissos europeus

Resumo em três linhas...para uma maioria de esquerda.

Jose disse...

Uma nota para o Edgar.

Os milhares de mepresários falidos no decurso desta crise podem juntar-se aos roubados e requerer serem pagos e restituídos os seus bens?

As dezenas de milhares de desempregados destituídos de salários e de subsídios podem juntar-se aos roubados e requerer serem pagos e restituídos os seus rendimentos?

Não queres ir chorar-te para o raio que te parta?

Anónimo disse...

É preciso recordar que as alterações mais estruturais só são possíveis com ummnível de endividamento muito menor do que o atual...um compromisso de esquerda não pode ignorar o que aconteceu na Grécia, onde toda a contestação redundou em medidas de austeridade profundamente gravosas para o povo grego (e sem PASOK...).

Anónimo disse...

Cala a boca suíno cristóvão, vai cheirar escapes da Volkswagen que aí tens bom dinheiro dos outros.

Lídia Oliveira disse...

Uma nota para o Jose...

Em resumo: aguenta e nada de bufar! Aceita o que te é imposto e não reclames muito porque ainda te castigam mais! É isto que advoga para um povo? É isto que defende para quem não quer vender a sua dignidade?

Não quererá ir dizer besteiras para outro lado?

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

«Qualquer país que não precise dos dinheiros dos outros na UE faz a politica que quer e ninguém lhe põe ou pode pôr qualquer objeção.»

Errado, António Cristóvão, Factualmente errado. O Tratado Orçamental impõe um limite de 3% ao défice das contas públicas a todos os membros da zona euro, não apenas aos que «precisam do dinheiro dos outros». E isto é apenas um exemplo entre muitos. As políticas de esquerda estão mesmo proibidas na Europa, e por esquerda deve entender-se aqui o consenso político entre sociais-democratas e democratas cristãos que esteve na origem da prosperidade europeia.

Até era bom que a sua afirmação fosse verdade. A Alemanha, que é quem mais se tem
locupletado com o dinheiro «dos outros» - sendo que «os outros» somos nós - estaria a ser governada a partir de Lisboa, e não Portugal a partir de Frankfurt.

Jose disse...

Uma nota para Lídia

Há uma ideologia que pressupõe que a vida não pode andar para trás senão para os ricos.
Tudo o mais só pode conhecer progresso e melhoria independentemente das circunstâncias, sobre as quais sempre cuidam de recusar a menor responsabilidade.
Sendo este o postulado, tudo o mais vai à conta de roubo, injustiça e, mais extraordináriamente, em perda de dignidade.
A dignidade igualada a uma qualquer cotação com seu mercado!
Nada que o argumrnto hiperbólico não resolva sempre...

MArio olivares disse...

desde quando que ter um deficit de 3, 4, 5 % é de esquerda, o que é de esquerda é ver que é preciso ter um deficit o suficiente para financiar políticas que impliquem uma visão de esquerda do pais, desenvolvimento com emprego, ir paulatinamente mudando a estrutura económica de modo a não depender do financiamento externo. Nem é de esquerda reestruturar a dívida, é a esquerda que a defende porque é um fardo financeiro que impede que políticas de manutenção e melhoria do estado social sejam sustentáveis e não rivais do rigor orçamental, que exista uma permanente redistribuição da riqueza, se houvesse força política suficiente era a burguesia que pagava a dívida que criou, essa burguesia não esta interessada em não pagar porque não é ela que paga o ajuste, os grupos economicos pagam impsrtos na holanda, no luxemburgo que fazem dumping fiscal. Quem a paga a dívida são os impostos de clases que trabalham, os empresarios locais, a classe media profissiona. A formação de um governo de esquerda pode ser o inicio dessa possibilidade, o Jorge Bateira limita essa possibilidade às condições óptimas de luta polítca, meu amigo elas nunca existem, abre-se o processo, procura-se criar as condições socias para que esse governo tome medidas, as quais podem ser contrárias ao cumprimento do Tratado Orçamental, a situação da Grecia nos indica que não é possível fazer a restruturação da dívida sem someter-se aos tratados, o Syritza de modo obrigatório foi por essa via, eu creio que em termos orçamentais pode-se fazer melhor que a direita, desde que se tomem medidas que não tem a ver com a politica europeia, a esquerda pode fazer melhor, poupando em tudo o que tenha a vper com rendas, modificando a política fiscal. Essa é uma batata que o PS deverá pegar, eles que fizeram PPP, swap, que deram beneficios fiscais a grupos. JB desconfia que seja possível, mas então o que é possivel, logicamente das suas palabras...NADA, obrigado mas não serve, pode continuar a escrever que não se pode fazer nada, porque a solução esta onde ate agora ninguêm chegou, buscar o possível em concordância com o veredicto popular que não vota na sua maioria pela esquerda pura e dura, mas vota o suficiente para permitr entrar no jogo, Resumindo não é possível nada, sejamos insensatos exijamos o impossível.

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

Em tese - em tese altamente abstracta, quase de certeza impraticável e possivelmente indesejável, mas em tese - um Estado pode subsistir sem défice, sem dívida e sem cobrar impostos. Basta que retire à banca a possibilidade de emitir moeda e que a reserve para si próprio. E que não prescinda a favor nenhum outro Estado da sua soberania monetária, "ça va sans dire".