sábado, 10 de outubro de 2015

Leituras


«Escreve Rui Ramos sobre a hipótese de um governo de esquerda: "Talvez a Constituição não o impedisse, mas à luz da tradição política nacional e das expectativas dos eleitores seria um autêntico golpe de Estado". Pois é, só que um golpe de Estado (ainda para mais um "autêntico", que o homem não faz por menos) é o que é feito contra a Constituição. Quanto à tradição política nacional, cada um tem a sua, como, de resto, é até relativamente bem sugerido num livro chamado "A Segunda Fundação", de que Ramos não desconhecerá o autor.»

José Neves (facebook)

«Instalou-se em Portugal uma ideia perversa: que desde que um partido ou coligação fique em primeiro, transformando as eleições numa mera corrida, uma minoria tem direito a governar contra a vontade da maioria. Ora esta ideia é o oposto da democracia. Numa democracia representativa a maioria dos deputados representa a maioria dos eleitores. E nunca um governo pode governar contra a vontade da maioria dos que foram eleitos.»

Daniel Oliveira, Em democracia manda a maioria

«No nosso sistema, cabe aos partidos interpretar o mandato que o povo lhes deu e agir no respeito desse mandato. O PS disse claramente que queria um mandato para governar diferente de e sem Passos Coelho. Ao afastar-se disto desrespeitaria o voto que pediu. Pode respeitar esse voto na oposição ou formando uma maioria nova. E é aqui que a história está a acontecer. (...) António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins têm uma tarefa histórica em mãos. Ou a realizam com sucesso ou são esmagados por ela e fica tudo como dantes.»

Paulo Pedroso, Com mandato para descontinuar governo de Passos Coelho, a nova maioria terá que formar-se em bases sólidas

«Ouvir António Costa na Soeiro Pereira Gomes a admitir um “trabalho sério” para “dar expressão institucional à vontade popular” é um acontecimento histórico. Em simultâneo, ouvir Jerónimo a garantir que o PCP em caso algum derrubaria um governo PS é outro. É possível que António Costa chegue a primeiro-ministro com o apoio do PCP e do Bloco de Esquerda? Para os fanáticos da série dinamarquesa “Borgen”, isto pode soar familiar. Birgitte Nyborg, líder do partido Os Moderados, não ganha as eleições, mas torna-se primeira-ministra por ser a única que tem capacidade de fazer um acordo de governo que garanta maioria no parlamento.»

Ana Sá Lopes, António Costa poderá ser Birgitte Nyborg?

13 comentários:

Antonio Cristovao disse...

A visão de que os políticos não devem comprometer-se com os eleitores. nitidamente e ao que vêm, é dum sofisma pouco recomendado. Defender posições claras, contra o euro, contra a UE, contra esta politica de direita e aceitação do FMI e BCE e depois, só porque convém taticamente mudar, chama-se espinha bífida. Não abona sobre a moral, mas pode mostrar quem são os eleitos e os seus apoiantes.

Jose disse...

«…transformando as eleições numa mera corrida, uma minoria tem direito a governar contra a vontade da maioria. »
Se a ‘maioria’ é um saco de gatos
Se a ‘maioria’ é quando muito ajuntamento de bandos
Se a ’maioria’ andou na corrida em atropelos constantes
O que há-de esperar-se da maioria?
Uma …ada. Ao leitor a escolha da palavra.

Jose disse...

«…cabe aos partidos interpretar o mandato que o povo lhes deu e agir no respeito desse mandato»

A ‘múmia de Belém’ presenteou os partidos com uma irrecusável interpretação. Apareça uma maioria que clara e sinceramente a subscreva.
O resto é oportunismo e vil disfarce. Nada surpreendente, diga-se!

Jose disse...

O que há de histórico com a nossa Brigitte e seus rendez-vous é que tudo se dissolverá em puro oportunismo e corrupção.
E é pena, porque bipolarizar muito se precisa.

meirelesportuense disse...

É incrível como muitos Socialistas já se preparam para abandonar Costa se este aceitar Governar com o apoio da sua esquerda...Hoje a Clara Ferreira Alves abriu o livro e confessou toda a sua simpatia pelos FaFs...Até disse que votaria Marcelo.
Fica tão claro quem criou ao longo de décadas, dificuldades de possibilidade de uma unidade à esquerda.
Nunca tive dúvidas, aliás essa foi a razão que me levou a preferir PCP a qualquer outra formação. Nunca me enganaram.

Anónimo disse...

O António Cristovao é tonto ou não sabe do que fala.

Alguma vez o PCP abdicaria de posições claras, contra o euro, contra a submissão à UE, contra esta - ou qualquer outra - política de direita, contra a resignação ao FMI e BCE, por motivos táticos?

Muito pelo contrário, se tivesse estado com atenção, ou não tivesse dificuldades de entendimento, repararia no anúncio do Jerónimo de Sousa, logo na noite das eleições, da reapresentação na assembleia da república de vários projetos, relacionados com todas essas temáticas, certamente melhorados e ainda com maior clareza.

O que o PCP disse é que, mesmo que não se chegasse a um entendimento governativo em torno de um programa de esquerda, que viabilizaria a constituição e a entrada em funcionamento de um governo PS, mesmo que com o seu próprio programa, para impedir a continuidade do de direita.

Depois, continua tudo em aberto, a luta continua. Não se alimentam ilusões, criam-se condições para prosseguir a mesma luta, mas em melhores condições.

O Jerónimo foi claríssimo: o Costa só não é primeiro-ministro se não quiser. E, acrescente-se, só não governa à esquerda se não quiser.

Resta saber é se o PS, que se afirma de esquerda, não opta por um governo de direita. Se assim for, caro António, estamos conversados quanto a quem tem a espinha bífida.

Jose disse...

Não tem dúvida a posição do PCP: Que o PS se habitue à ideia de ir para o governo dependente do seu apoio.
Até o deixa governar à direita durante quatro anos para estabelecer o princípio.
Um pequeno partido ameaçado pelo Bloco tem que jogar num tabuleiro grande para ser alguém.
No Bloco falta a disciplina e a mística que permite à direcção do PCP fazer das tripas coração. Dificilmente assumirá o compromisso de nunca aprovar uma moção de censura contra o PS.

O PS sem 'centro' é coisa nenhuma; quando muito mais uma tendência para o Bloco e tudo o mais para o lado direito.

A única condição relevante no momento é a de um PS esmagado e um Costa humilhado a festejar a derrota com o uso do poder de contrariar o senso comum, essa vertigem mobilizadora de todo o esquerdalho.

Anónimo disse...

Há haver alguma Birgitte na política portuguesa, o seu nome seria Catarina Martins, e não Antônio Costa, ou então ou não viram ou não perceberam nada da série dinamarquesa.

fernanda disse...

Numa democracia formal, e é disso que estamos a falar, em princípio quem deve ser indigitado para formar governo é o líder do partido mais votado, neste caso, coligação, (se PSD e CDS tivessem concorrido separadamente, porventura este problema não se estaria sequer a colocar). Mas, no caso deste partido/coligação ser minoritário, dependerá de outro lhe 'dar a mão'; todavia, se isso não acontecer, e foram dados todos os sinais nesse sentido durante a campanha eleitoral, regressa-se à constituição do Parlamento e verifica-se se é possível outra solução. Logo, todos aqueles que estão a vociferar contra o António Costa só mostram que ainda não interiorizaram as regras do funcionamento democrático e, em nome não se sabe bem de quê, querem obrigar o PS a fazer aquilo que pela voz do seu líder disse que não faria. Ou será que estão à espera que Passos Coelho e sua trupe mudem de políticas?
Ainda a propósito desta celeuma, quem deveria ter levado propostas para a reunião deveria ter sido o PSD/CDS pois foi ele que foi encarregado de procurar uma solução e era ele que precisava do apoio do PS, portanto não esqueçam a lógica quando analisam estas questões e não as coloquem de pernas para o ar.

Anónimo disse...

Oh fernanda, eu quero é ver a lógica dos deputados do PS quando for votada a moção de rejeição do programa de governo da coligação de direita.

meirelesportuense disse...

Boa Fernanda, seja sempre assim, nem que seja só para amesquinhar estas vespas de direita.

Anónimo disse...

Caro anónimo, longe de mim fazer da lógica uma prerrogativa dos socialistas, infelizmente, tanto à direita, como ao centro, como à esquerda, encontram-se comportamentos ilógicos. Afinal a capacidade lógica dos humanos, o famosos bom senso de que falava Descartes, está muito mal distribuída e, se calhar, é por isso que a riqueza se encontra também muito mal distribuída.
saudações, fernanda

Anónimo disse...

Era preciso o Livre/Tempo de Avançar para desbloquear isso com um deputado. Infelizmente, o fracasso implacável do seu projeto político faz com que tenhamos de esperar que algum animal do PAN o faça.