sábado, 22 de março de 2014

O equívoco de Daniel Bessa e dos discursos oficiais sobre inovação em Portugal

O Expresso desta semana dá conta do mais recente Barómetro de Inovação da COTEC, uma associação empresarial que reúne as empresas mais inovadoras do país e que é dirigida há vários anos por Daniel Bessa.

O Barómetro da COTEC consiste num indicador compósito construído a partir de vários indicadores individuais, o qual serve de base à elaboração de um ranking dos países. Existem vários rankings de natureza semelhante - o mais influente dos quais é o Innovation Union Scoreboard da Comissão Europeia - e todos chegam mais ou menos à mesma conclusão: Portugal é um país moderadamente inovador, apresentando desempenhos muito melhores no que respeita à quantidade de recursos mobilizados para a ciência e tecnologia e aos resultados científicos do que nos resultados económicos das inovações. É isto que leva Daniel Bessa a afirmar que "Portugal continua a ser 'cigarra' na inovação". E é também isto que está na base da opção do actual governo em desinvestir na ciência e dar mais dinheiro às empresas para actividades de I&D em contexto empresarial.

Acontece que esta conclusão, que se tornou verdade incontestada nos círculos políticos de Lisboa a Bruxelas, resulta de um equívoco. O problema é o seguinte: quase todos os indicadores individuais utilizados para construir o Barómetro da COTEC, o Innovation Union Scoreboard e rankings semelhantes, estão fortemente correlacionados com a estrutura produtiva de cada país. Nesse sentido, o que estes rankings nos dizem não é tanto se um país faz bom uso dos seus recursos para a inovação, mas se o país tem uma estrutura económica muito ou pouco assente em actividades intensivas em conhecimento e tecnologia.

Num estudo recente (que aguarda publicação), analisei os níveis de correlação entre os vários indicadores de inovação utilizados no Innovation Union Scoreboard e o peso no emprego de sectores de indústria e serviços intensivos em conhecimento e tecnologia nos países da UE. O resultado é o que se apresenta no gráfico abaixo e confirma a ideia de que a estrutura produtiva afecta fortemente o desempenho dos países nos vários indicadores de inovação.

Correlações entre estrutura produtiva e indicadores de inovação nos países da UE

De seguida comparei o desempenho de Portugal nos vários indicadores do Innovation Union Scoreboard (ver coluna do meio do gráfico abaixo) com o desempenho nesses mesmos indicadores quando se tem em conta o padrão de especialização do país (coluna da direita).



A conclusão é a seguinte: para a estrutura de especialização produtiva que temos, Portugal apresenta um desempenho inovador superior ao que seria expectável, incluindo em vários indicadores relativos ao resultado económico da inovação.

Ou seja, ao contrário do que sugere Daniel Bessa (e, de resto, quase toda a gente que fala sobre inovação em Portugal), o problema não é sermos a 'cigarra' na inovação. O problema da economia portuguesa é o mesmo já referido aqui e que está na base da chamada 'crise das dívidas soberanas' na periferia da UE: Portugal está sobreespecializado em sectores de baixo valor acrescentado e muito expostos à concorrência internacional. Não é desviando os recursos da ciência para as empresas, nem incentivando a expansão de sectores desqualificados por via dos baixos salários e do despedimento 'simplex', que este problema se resolve.

16 comentários:

Acácio Pinheiro disse...

Ricardo
Acho muito interessante o seu post. Mas soube-me a pouco.
De acordo com as suas perspectivas, como é que o problema se resolve?

David Calão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Zé Trolha disse...

Carrego um camião de terra à mão.Tenho a produtividade x de camiões/dia.Carrego o mesmo camião de terra com uma pá carregadora:tenho a produtividade y de camiões/dia. O investimento em habilitações e instrumental faz aumentar a produtividade. O resto é treta.

Ricardo Paes Mamede disse...

Acácio Pinheiro,

quase por definição, os problemas estruturais demoram muito tempo a resolver. Um dos problemas fundamentais da nossa economia é que nos faltam alguns instrumentos fundamentais para estimular a necessária transformação da economia (sobre isto, pode ver a série de posts que publiquei em 2007 e que foram listadas por gentileza do Daniel Oliveira aqui: http://arrastao.org/992124.html).
Pior ainda, na ausência desses instrmentos, temos um incentivo permanente para procurar resolver os desequilíbrios macroeconómicos do país através de medidas que acentuam esse padrão de especialização.

Há vários pequenos passos que podem ser dados na direcção certa para lidar com este problema, visando, nomeadamente, o combate eficaz e permanente ao abandono escolar precoce, a continuidade no investimento em ciência e tecnologia ou os estímulos ao desenvolvimento da ligações entre empresas e outras entidades produtoras de conhecimento científico e tecnológico (não há nada que lhe possa escrever no espaço de um post que não lhe saiba a pouco, pois a tradução destes propósitos em medidas de políticas concretas é muito extensa).

Mas devemos ter presente que dificilmente estes pequenos passos serão suficientes para resolver os problemas estruturais do país, na ausência de uma alteração da regras da UE (monetárias, cambiais de concorrência, de comércio externo, ...) ou dos termos da partcipação de Portugal no processo de integração europeia.

Paulo disse...

Na percebo nada disso! O que sei é que quando tentei abrir uma loja de artigos biológicos contactei, via email, uma empresa portuguesa e como passada uma semana não tivessem respondido contactei outras fora de Portugal: 1 espanhola e outra holandesa - a espanhola respondeu passado um dia informando que não vendia para Portugal e a holandesa, contactada de manhã, às 16h (quando abri a caixa de correio) já tinha uma resposta direccionando-me para a sua representante em Portugal que, coincidência das coincid~encias, era a que eu contactara uma semana antes e ainda não tinha respondido. E historietas deste calibre tenho várias, do resto na percebo nada!

Um judeusito disse...

Ahaha, histórias como a do Paulo, conheço várias. Sem ser nessa área dos artigos biológicos.


Dá-me ideia que algumas empresas portuguesas pensam "epá, não vamos responder aos e-mails todos, porque muitos não dão em nada"
Depois só respondem a meia-duzia, baseados em qualquer critério (na melhor das hipóteses)

As empresas estrangeiras , respondem aos mails porque pensam "epá, granda pinta... destes mails todos, alguns resultam em negócios"

Repare-se nos países das respostas: a portuguesa não responde nada (portugal é o que tem piores condições de vida).
A espanhola responde mesmo não vendendo, e não vende (más condições de vida, mas melhores que Portugal)

A holandesa, responde logo, e já vende cá. (Holanda tem melhores condições de vida que Espanha, e muito mais que portugal)

O que quero dizer com isto, não é que é bom exportar. É que há muitos portugueses, que tem desprezo pelos seus conterraneos. É o que eu penso.

O patriotismo que existe, é um bocado futeboleiro (vão ver quando chegar o mundial, ehe. É o país que vai estar em jogo, eheheh.)

Nota-se como alguns "empresários" falam dos trabalhadores, e são aplaudidos por muita gente (tendências suicidas, chamou JPP, pois um dia volta-se para quem defende esses empresários)

Este desprezo de alguns Portugueses pelos seus conterraneos, reflecte-se em piores perfomances económicas, e nota-se no imenso Neo-Liberalismo que existe em Portugal.

Não quero ofender ninguém, como é obvio, mas é o que eu penso. Não é só "modelos económicos", a cultura dos povos é muito importante.

(apetecia-me dar a história dos Palestinianos, que em vez de pedir ajuda ao Qatar, ao Bahrein, etc, para se desenvolverem, preferem pedir ajuda ao Irão para ter rockets, etc, para mandar para Israel. Nunca serão um país próspero... Mas é a sua cultura )


Jose disse...

Qualificação - Valor acrescentado
Meios educa/científicos - empresas
parece serem os parâmetros a calibrar para dar destino a recuros escassos.
Considerado o caso da galinha e do ovo...não é evidente onde começar, mas parece seguro concluir que alguma ponderação há-de ser feita em termos de prioridades o que claramente contraria essa reclamação de tudo a todos que mobilizou e parece ainda motivar toda a comunidade científica, deixdando ao livre arbítrio de vocações/ oportunidades individuais a resolução do caso.

Um judeusito disse...

Até me esquecia do post, muito bom, e bem resumido no ultimo parágrafo.

Deixe-me só acrescentar uma coisa, quando diz " em desinvestir na ciência e dar mais dinheiro às empresas para actividades de I&D em contexto empresarial."

Evidente que isto está de acordo com o neo-liberalismo, de apoiar sempre as empresas.

Stiglitz alertou para alguns males da celebrada "inventividade" das empresas, como na área da Saúde por exemplo.
- inventos que não podem ser feitos, porque se baseiam em coisas já patenteadas (ou disso são acusados)
- preços altíssimos para muitas coisas, que não é para fazer novas descobertas, mas sim unicamente para terem enormes lucros.
- enorme quantidade de pessoas que não podem ter acesso a essas descobertas na saúde, por não terem seguro de saúde, ou por o seguro não cobrir essas despesas todas (acontece muitooooo)

Rui Monteiro disse...

Meu caro,

Um dia destes temos que discutir este tema devagar. Quanto ao Daniel Bessa, o problema é o excesso de metáforas. O tempo, como referes numa das respostas é o factor decisivo. As empresas ainda não são tão inovadoras quanto serão no futuro. Vou pela dialéctica Heggeliana da transformação da quantidade em em qualidade. Portugal, ainda não dispunha ainda há muito pouco tempo, condições para dispor de empresas mais inovadoras. O conhecimento é cumulativo e necessita de uma aposta continuada no reforço do capital humano.

Agora, temos que inovar a partir dos sectores que dispomos.O calçado é um bom exemplo. A meu ver, despreza-se a questão tecnológica. Foi a inovação na indústria dos equipamentos que permitiu a aposta em diferenciação, design e por aí fora. É um caso bem sucedido do triângulo virtuoso entre conhecimento, produção de tecnologia e utilizadores avançados. As interacções entre estes vértices têm uma dimensão contextual relevante.

Outra coisa é o das entidades públicas do SCT. Há muito que o sistema está entupido. Não pode crescer, como necessitamos, com o actual modelo. A segunda derivada há muito que era negativa e atingiu-se o máximo há uns bons anos atrás.

Quanto aos indicadores, é para esquecer. Valem o que valem. O problema é decidirmos políticos a partir deles e sem qualquer juízo crítico.

Um abraço

Ricardo Paes Mamede disse...

Caro Rui,

Do melhor que se fez em Portugal em política de inovação foi, de facto, o desenvolvimento tecnológico dos sectores tradicionais. Não é que não haja mais nada a fazer, mas também aqui já entrámos em rendimentos decrescentes.

O que é preciso compreender - e acho que muitos ainda não perceberam - é que num país com a estrutura como a portuguesa a relação entre inputs e outputs de inovação será sempre menso relevante do que em países com produções mais avançadas.

Por outras palavras, o facto de termos poucas patentes ou exportações de alta tecnologia não pode levar-nos a concluir que estamos a formar demasiados doutorados ou a apoiar demasiada actividade de investigação nas universidades. E é absurdo pensar que aquele tipo resultados aumentarão caso se canalize mais dinheiro para I&D nas empresas (tal só seria verdade se houvesse tecido produtivo que aproveitasse esses recursos... produtivamente).

De resto, sabemos que é tudo um pouco mais complicado que isto.

Um abraço

M Castro disse...

A economia é um bicho de sete cabeças para mim. Gostei da entrevista de José Félix Ribeiro ao Expresso (cad. economia).

Anónimo disse...

"Por outras palavras, o facto de termos poucas patentes ou exportações de alta tecnologia não pode levar-nos a concluir que estamos a formar demasiados doutorados ou a apoiar demasiada actividade de investigação nas universidades"
Exactamente e eu já falei mais do que uma vez pessoalmente com o Daniel Bessa a dizer-lhe que se deve evitar patentear tudo e de qualquer maneira apenas com objectivos númericos por duas razões:
-as patentes só têm um valor acrescentado em indústrias de capital intensivo pharma, bio e nano. E nós ainda não temos ( e provavelmente com os cortes na C & T isso será trágico) um sistema de inovação a sério nessas áreas, quer por não termos empresas fortes e consolidades( a maioria são start-ups e muitas patentes caiem se a tecnologia não estiver em conssonância com o produto ou processo já próximo do mercado), quer porque nunca o capital foi " forçado" a ir por essas áreas(demasiado dinheiro canalizado para os não transaccionáveis) e nunca houve dinheiro a sério para TT a começar pelos custos de patentes(de depósito até a sua manutenção são muito elevados, isto em termos internacionais que é onde o jogo deve ser jogado e a sério);
-em muitos casos, a tecnologia não deve ser patenteada, deve ser valorizado o know-how, especialmente em forma de recursos humanos e nalguns casos, nem convém patentear por não ser possível legalmente impedir certos países de a infrigirem.
Vejam bem os ingleses, que produzem muitos papers e muitas patentes e têm um sistema industrial pouco evoluído e produtivo e comparem os alemães, que têm um sistema industrial inovador sem publicarem per capita o mesmo nº de patentes. Aliás, em França, até mesmo na industria pharma, está a optar-se por não patentear.

Quando a canalizar dinheiro para a investigação aplicada nas empresas, se for como os QRENs , estamos mal. Uma boa parte utilizou os dinheiros para ir se mantendo e não evoluiram nada e com mais dinheiro isso vai-se replicar obviamente.
O dinheiro em C & T demora tempo, demora décadas e se quiserem passar para a aplicação, não é substituindo uma parte do processo de inovação por outra que terão sucesso.
Mesmos os alemães, que conseguiram ter o H2020 à boa medida dos seus interesses industriais, não cortaram nada em investigação fundamental nas universidades.

JL

Jose disse...

«De resto, sabemos que é tudo um pouco mais complicado que isto.»

Mas manda a politiquice que nunca se fale em prioridades e um douturamento sobre a vida sexual da lagartixa equivale a um qualquer outro sobre polímeros!!!!

Anónimo disse...

Exacta e felizmente é assim. À partida é impossível saber (cartomantes e leitores de sina à parte) qual dos dois doutoramentos irá trazer maiores benefícios económicos ao país. Isto para não falar dos benefícios imateriais, prestígio cultural, etc, mas que creio que lhe passam ao lado, certo?

Jose disse...

«Tudo a todos» ...e vai-se o anónimo das 19:06 ufano da sua grandeza de espírito, da sua generosidade, da sua largueza de vistas, ...da sua inconsequência!

Anónimo disse...

Um triste comentário este dum tal jose sobre o doutoramento em questões como "a vida sexual duma lagartixa".
Não tanto pelo tema escolhido( a vida sexual deve representar uma coisa tenebrosa para este jose, que assim mostra a categoria de temas que tem por "ameaçadores") .
Mas será pequenez e ignorância o que irradia de tal comentário?

Que jose aprenda com o anónimo das 19 e 06.Da substância,mas não só.Também da forma.Aprender a escrever bem o termo "doutoramento" é uma mais valia que jose devia agradecer ao referido anónimo
Faz muita falta de facto o conhecimento.
De