quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Um governo a uma só voz e com grande visão estratégica



A 16 de Janeiro, o ministro da Economia, Pires de Lima, sugeriu que os cortes nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento seriam um prenúncio da necessária ruptura com «um modelo que permite à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real». No dia seguinte, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, negou a existência de cortes nas bolsas de doutoramento (com base no princípio matemático de que 729 é um valor superior a 1198), e assegurou que o governo «não desinvestiu na ciência, nestes anos, apesar da crise». A 18 de Janeiro, o presidente da FCT, Miguel Seabra, somou as verbas dos programas-quadro (alocadas directamente pela UE a cientistas nacionais e que não dependem por isso de opções governamentais) aos fundos da instituição a que preside e defendeu que não se pode falar «num desinvestimento em ciência a nível global». Ontem, o secretário de Estado da Inovação, Investimento e Competitividade, Pedro Pereira Gonçalves, retoma o mote de Pires de Lima e sustenta que a saída de pessoas qualificadas para o estrangeiro (em resultado da ausência de oportunidades de fazer investigação no nosso país), «é positiva» e «traz coisas boas para Portugal». E numa entrevista ao Canal Q, o historiador Rui Ramos, membro de um dos conselhos científicos da FCT (juntamente com a mulher de César, perdão, de Nuno Crato), disse que o investimento feito em ciência nas últimas décadas constitui uma «política golpista», da qual não resultou «uma sociedade mais esclarecida», mas antes «uma sociedade mais obscurantista».

Perante esta profusão de justificações para os cortes efectuados nas bolsas de doutoramento (-40%) e pós-doutoramento (-65%), não se pense que o governo navega propriamente à deriva ou que foi tomado por um surto de contradições internas e desorientação geral. Os cortes efectuados respondem a diferentes objectivos, que vão desde a simples e cega «consolidação orçamental» até à prossecução da agenda ideológica de retrocesso económico, social e cultural do país, a coberto das pretensas imposições do Memorando de Entendimento e dos credores. Ao contrário do conhecido sketch dos Monthy Phyton (retirado do filme «O Sentido da Vida»), a diversidade de explicações, por parte de membros do governo, para os cortes das bolsas da FCT, não é propriamente um exercício de nonsense. Aliás, a entrevista de Rui Ramos ao Canal Q, na passada terça-feira, é neste sentido muito esclarecedora quanto à miserável ideia de futuro e de país que está verdadeiramente em causa. Ou, dito de outro modo, é uma espécie de decalque - para o universo da ciência e da investigação - das teses do «eduquês», do «facilitismo» e da «década perdida» (com os equivalentes relatórios PISA a desmentir, implacavelmente, as conclusões obscurantistas, infundadas e ressabiadas que se pretendem propagar).

1 comentário:

D., H disse...

O guru do eduquês é um bluff, primeiro apresentado como “matemático”, entrava-nos casa adentro através da rádio, depois em plano inclinado através da televisão, até que finalmente como ministro deste governo neocon. Investigação, ciência? Isso não interessa nada (perguntem ao Relvas).