sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Sinais inequívocos de retoma da indústria

No imaginário do governo Portugal está a viver momentos de reindustrialização. Uma das demonstrações do sucesso do programa de ajustamento seria o regresso em força da indústria, visível no crescimento das exportações. No entanto, não é isso que nos dizem as estatísticas.

Por exemplo, o índice de emprego na indústria apresentado pelo INE esta semana (ver linha vermelha no gráfico seguinte) revela valores inferiores aos verificados um ano antes. A aparente recuperação do índice relativo às horas trabalhadas na indústria entre Agosto e Outubro (linha verde) surge aqui como um fenómeno essencialmente sazonal.




No mesmo sentido, análise dos resultados do Inquérito ao Emprego do INE mostra que o aumento de postos de trabalho verificado nos 2º e 3º trimestres de 2013 são explicados em 90% pelos serviços (reforçando a ideia de que podemos estar perante um efeito turismo). Já o número de empregos no sector secundário caiu mais de 17 mil entre o 1º e o 3º trimestre de 2013 - e mais de 100 mil, quando comparado com o 3º trimestre de 2012.




Se o emprego na indústria não cresce, então como é possível que cresçam as exportações? São quatro os principais factores explicativos:

1. Mais de metade desse crescimento é explicado pela nova refinaria da GALP em Sines (que gera muitíssimos menos empregos do que receitas de exportação, é um fenómeno pontual e, ao mesmo tempo, acarreta um aumento das importações de petróleo em bruto, pelo que os efeitos nas contas externas são limitados).

2. Para além da refinação de petróleo, o aumento na exportação de bens é explicado fundamentalmente pela procura internacional de matérias primas como o papel, a borracha, os plásticos e os produtos alimentares (os produtos referidos explicam 3/4 do crescimento da exportação de bens desde 2008), cujo desempenho exportador é fortemente influenciado pelo factor preço e não apenas pela quantidade (já agora, esse aumento dos preços explica boa parte do recente aumento das importações).

3. Tirando as matérias-primas, o principal sector responsável pelo aumento das exportações é o turismo (o que não só não permite falar em retoma da indústria, como tem uma natureza fortemente sazonal).

4. O aumento das exportações industriais não representa mais produção na indústria, mas antes substituição do mercado interno por mercados externos.

Concluindo: não, não estamos a assistir à reindustrialização do país. Tal como não estamos perante qualquer milagre económico, apesar da estabilização das economias europeias e do efeito do aligeirar da austeridade em 2013 graças às decisões do Tribunal Constitucional. Os problemas que sempre tivémos cá continuam, não foram resolvidos pelas estratégia da troika e da actual maioria, apesar da destruição de emprego, da degradação do tecido produtivo, da emigração forçada e da crise social.

6 comentários:

Luís Lavoura disse...

O aumento das exportações industriais não representa mais produção na indústria, mas antes substituição do mercado interno por mercados externos.

Certíssimo. Por exemplo, Portugal exporta cada vez mais carburantes (gasóleo e gasolina), não somente devido à refinaria, mas também porque os portugueses cada vez andam menos de automóvel e, portanto, mais carburantes refinados em Portugal ficam disponíveis para exportar.

Porém, essa substituição do mercado interno pelo exerno é, precisamente, aquilo que (no curto prazo) se pretende. Porque Portugal tinha um enorme défice externo, para corrigir esse défice aquilo que havia a fazer (e foi feito) era desviar parte da produção do mercado interno para o externo.

Ou seja, houve uma evolução positiva (no sentido necessário).

É claro que, a mais longo prazo, o que se pretenderá será aumentar as exportações através de nova produção. Mas, como o Ricardo há de reconhecer, isso exige investimento, que é uma coisa que demora tempo...

Ou seja, no curto prazo, sem novo investimento, a única forma de equilibrar a balança de pagamentos foi desviar parte da produção do mercado interno para o externo. A médio prazo, através de investimentos, querer-se-á aumentar a própria produção.

Jaime Santos disse...

Ninguém esperaria que a Indústria pudesse recuperar em 2 anos, depois de décadas de desindustrilização. Só a propaganda do atual Governo é que quer fazer crer nisso. E a estratégia (mesmo que não admitida) é apostar na criação de empregos que requerem baixos níveis de competências. Sócrates, pelo menos, tinha outras ambições, mesmo se sobretudo à conta de empresas estrangeiras...

cabacinhas disse...

Que haja alguém que desmascare o "milagre" das exportações, bem como algumas das falácias recorrentes sobre a apregoada recuperação económica. Acabo de ver o "expresso da meia-noite" e dou-lhe os parabéns pelo seu valoroso contributo. Perante a falange de papagaios que grassa na praça, faço votos para uma maior assiduidade junto de meios de comunicação com maior visibilidade. Impõe-se, pois uma mentira dita muitas vezes... E eu tou farto de ver/ouvir os mesmos de sempre e/ou as suas mentiras! Força!

Anónimo disse...

Ao ver partes do expresso da meia noite, foi vergonhoso como alguns comentadores, supostamente credíveis, passam o programa a falar em "confianças", "psicologias", e demais subjectividades esotéricas(porventura visivelmente embevecidos por modelos DGSE neoclássicos com as suas suposições iniciais deveras discutíveis) e retorquem intelectualmente de um modo miserável sugerindo que a
análise do Ricardo Paes Mamede é apenas "teórica" e longe da realidade.
Pior do que serem papagaios, é serem ignorantes. Ignorantes não pelo que sabem( e até sabem muito) mas pelo que recusam saber.

JL

Anónimo disse...

Aqui neste que é um dos melhores blogues da Net, se mostra como a economia realmente está.

Pena que tenha escolhido um nome que muita gente não perceberá, por o cinema Italiano não ser dos mais conhecidos. Deviam ser mais "Gangs de Nova Yorke, sempre remetia para as praças financeiras.

antónio m p disse...

O que separa o Ricardo, de outros analistas económicos com quem se confronta em debates públicos, é que ele não vende jornais nem acções nem empresas, não compra nada e não tem outras “condicionalidades” que não seja honestidade intelectual e rigor científico tanto quanto haja de científico na Economia.