quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Divergências e convergências

É verdade que houve um tempo em que debatíamos muito com Pedro Lains, um economista e historiador social-liberal mais ou menos na linha de Rodrik ou O'Rourke. Era certamente outro o tempo  e talvez outras as opiniões e desse tempo ficaram, de facto, o respeito e a camaradagem blogosférica e para lá dela. Esperemos que os debates possam regressar, mas ainda não será para já, confirmando assim a queixa de Lains: ao contrário do que se passaria noutros países, onde o debate público sobre questões socioeconómicas é menos marcado por intensos enviesamentos de direita, as suas opiniões parecem hoje radicais em Portugal. Na realidade, radicais são as pinochetadas económicas de Gaspar denunciadas por Lains. Enfim, quero então assinalar a minha concordância com alguns pontos da entrevista que Lains deu ao DN no Domingo passado. Comecemos pela economia política da bancarrotocracia: “o peso do sistema financeiro na economia portuguesa não cresceu por milagre [no último ano], mas por causa das políticas de apoio e proteção à banca, que são necessárias, mas não podem ser exclusivas (...) A democracia não pode estar a ser condicionada pelo comportamento dos mercados e mesmo Estado pequenos têm capacidade de os pôr na ordem”. A questão é mesmo a dos instrumentos disponíveis para proteger soberanamente esse bem público que dá pelo nome de crédito e para colocar os mercados na ordem. Acabemos na política económica: “Portugal vai-se apresentar, algures em 2013, em Bruxelas a pedir uma reestruturação da dívida. Essa é a minha previsão, porque nenhuma economia aguenta aquilo que o Governo está a fazer!”. De facto, o que não pode ser pago, não será mesmo pago. Duas questões terão de ser respondidas: quem é que comandará a dita reestruturação e o que daí advirá para o país em termos, por exemplo, de soberania perdida ou reconquistada?

4 comentários:

ante-hontem como hoje disse...

Enfim, quero concordar com os outros digníssimos membros que se opõem à política de saque deste governo, o decreto da fome que nos é imposta, eu que não quero protagonismos nem vaidades, mas só quero o bem da minha pátria.
É preciso acabar com os crimes da burguesia que nos governa.

Manuel Bandeira, editor da Bandeira Vermelha

Agirei sem violência exagerada, mas com a energia precisa, asseverou o senhor ministro das finanças....

Anónimo disse...

Sim, é verdade, O´Rourke é um dos meus historiadores económicos preferidos, assim como, por exemplo, dois nomes a ele muito ligados, ie, Barry Eichengreen, claro, e Jeff Williamson, este menos conhecido, que foi seu orientador em Harvard. É esta gente, entre muitos outros, que me tem educado e acompanhado. Obrigado e um abço, PL

Harmódio disse...

Houve, pelo menos, três ou quatro economistas bem colocados que sentiram um bater do coração mais forte perante tal anúncio…

D., H disse...

Fiquei muito mais descansado quando ouví os meios de comunicação social assegurarem que “Lobo Xavier tinha pensado previamente no assunto e que não vira qualquer incompatibilidade no novo cargo”…Felizmente!

“e isto implica que os valores da Constituição têm de se adaptar a esta realidade…” segundo o jovial (gostei dessa!) Pedro Ferraz da Costa. Por este andar ainda acabam por dissolver o Tribunal Constitucional, tornado instituição redundante. Vamos lá a ver até onde é que a coisa vai…