terça-feira, 23 de outubro de 2012

O servilismo paranóico de Camilo Lourenço

Num artigo recentemente publicado no Negócios, «A paranóia à volta da emigração», o inenarrável Camilo Lourenço tentou «desdramatizar» o caso de Pedro Marques, um enfermeiro português que se viu obrigado a emigrar e trabalhar em Northampton (Inglaterra), tendo escrito uma carta de despedida a Cavaco Silva, na qual afirmava sentir-se «expulso do seu próprio país».

«Piegas» é o que, no fundo, Camilo Lourenço tenta dissimuladamente chamar a Pedro Marques, argumentando que a sua história tem «três problemas»: «1- a procura incessante, pela Imprensa (latu sensu) do elemento "drama", em detrimento do elemento racional da história. 2- a secundarização de elementos importantes: Pedro Marques tem qualificações procuradas em Inglaterra, país que lhe oferece, como o próprio admitiu, boas perspectivas de carreira. 3- o foco no "imediatismo": alguém questionou Pedro Marques sobre se trabalhar no estrangeiro não ia melhorar a sua formação?».

Sucede que esta narrativa cínica de Camilo Lourenço têm vários problemas, entre eles:
1- Emigrar não foi uma escolha de Pedro Marques: o jovem enfermeiro português pretendia, legitimamente, ficar e trabalhar no seu país, que sente a escorraçá-lo (não perceber o drama pessoal, familiar e social subjacente a uma situação destas é, por si só, revelador da fina sensibilidade de Camilo Lourenço);
2- A emigração forçada de Pedro Marques não é propriamente um caso exótico: em 2011, entre 100 a 120 mil portugueses terão sido compelidos a procurar trabalho no estrangeiro (cerca de 2% da população activa, para que se tenha uma ideia), estando a aumentar as situações de emigração ilegal e precária, bem como a emigração para fora da União Europeia (em condições, muitas vezes, ainda mais desfavoráveis);
3- Estas formas de emigração compulsiva não são propriamente um Programa Erasmus, nem correspondem a uma política pública de intercâmbio e formação de profissionais qualificados: não significam uma «melhoria da formação» na larga maioria das situações, nem se sabe à partida quantos dos que agora partem vão regressar (por organizarem as suas vidas lá fora e por não verem perspectivas de emprego em Portugal no curto e médio prazo);
4- A sangria a que estamos a assistir, motivada pelo desespero e resultante de uma austeridade criminosa e ignorante, é tudo menos racional: o investimento público efectuado na formação de quadros superiores converte-se assim em puro desperdício, em dinheiro deitado à rua. Ou melhor, aproveitado por outros que - sem qualquer esforço financeiro - beneficiam do resultado dos impostos pagos pelos contribuintes portugueses (para usar o linguajar de que tanto gostam estes liberais de pacotilha), tendo em vista o desenvolvimento económico e social do país.

Só por servilismo sem escrúpulos (e populismo oportunista) se compreende pois que alguém - como Camilo Lourenço - possa interpretar o que se está a passar em Portugal, em termos migratórios (recorde-se que até há bem pouco tempo tínhamos um saldo positivo entre saídas e entradas), como uma simples «paranóia à volta da emigração».

16 comentários:

Anónimo disse...


Concordo plenamente com a sua opinião.

Alexandre de Sousa Carvalho disse...

Nuno,

Practicamente totalmente de acordo, exceptuando um pequeno 'pormaior':

não é ignorante, nem irracional. É tacticista e perfeitamente racional. É despesista e é ilógico para o nosso pensamento... mas é também um axioma ideológico desta malta que nos governa. Andamos a criticar uns e outros mas não estamos a falar no mesmo debate. Nós andamos a dizer que eles não aprendem com a história, do que se passou na europa e na américa do norte nos anos 20 e 30 e 40, talvez seja altura também de nós olharmos para alguns com quem esta malta andou a aprender: do Friedman à Tatcher à derrota da linha Keynesiana em Bretton Woods. Só assim se desmonta e se torna obsoleto este discurso de que não há alternativas.

http://www.youtube.com/watch?v=HJAHDwxG0jQ

Cumprimentos.
Alexandre de Sousa Carvalho

Luís Lavoura disse...

(1) O enfermeiro pretendia continuar em Portugal mas, lamentavelmente, não há cá quem lhe pague pelo seu trabalho (e note-se que em Portugal há muitos serviços de enfermagem, não só públicos mas também privados). Portanto emigrou. Qual o mal disso? Que obrigação tem Portugal de dar trabalho a quem cá queira trabalhar? Que obrigação têm empresas portuguesas de pagar por trabalho de que não necessitam (ou que não têm dinheio para pagar)?

2) Durante decénios milhões de portugueses emigraram. O país definhou por causa disso? Não. Na década de 1960, a de maior emigração, a economia portuguesa crescia de forma explosiva. Não há quaisquer dados que sustentem a ideia de que a emigração, mesmo de pessoas qualificadas, faz definhar a economia de um país. Pelo contrário, há imensos dados que sustentam a ideia de que a emigração é, em geral, benéfica.

Alexandre de Sousa Carvalho disse...

Já agora, se me permitem a redundância, cito um escriba deste blog:

"(...) o governo não está muito preocupado que “a austeridade não resulte, porque depois diz que não pode aumentar mais os impostos e avança para um corte [de resto já em curso], nas funções do Estado.”

Esta é a engenharia política em curso, dado que a retórica das gorduras, a que aludia Álvaro antes das eleições, por exemplo, é uma fraude e que os cortes atingem já e atingirão muito mais os órgãos vitais do Estado social. A austeridade sempre recessiva e regressiva é um horizonte, um pretexto para permitir, enquanto estivermos neste enquadramento europeu, escavacar a segurança social, o serviço nacional de saúde ou a escola pública, erodindo as bases sociais dos serviços públicos, entre as quais está o trabalho organizado, cuja fragilização, pela redução dos direitos laborais e pelo desemprego de massas, é indisfarçável (...)"

Luísa Emília Correia disse...


Trancrevo aqui um comentário que já fiz anteriormente a este mesmo "drama":
Peço desculpa por ser politicamente incorrecta, mas não acho que emigrar em 2012 para Inglaterra seja assim um drama tão grande! Nem para quem emigra nem para o Paí
s. São experiências que podem (devem) ser muito positivas para quem vai, e para o País se mais tarde voltarem trouxerem novos métodos, novas práticas, novas formas de pensar e de agir - que bem precisamos.. Não se trata mais da emigração clandestina dos anos 60´s/70´s, bolas!!! É só mais uma consequência (e quanto a mim, é das melhores) de estarmos na Europa!

Acrescento agora, posso ser também servilista paranóica como o Camilo Lourençp? Não me importo, não acho de facto que emigrar seja assim um mal tão grande que vem ao Mundo ou melhor dizendo ao País. Para mim é uma das formas de virmos a dar a volta a este Portugal neste cantinho semeado. Bem precisamos (cf se vê!!!)de cabeças arejadas.

Esteja à vontade para não aprovar o meu comentário... servilismo, servilismo, comentários à parte!!!

Anónimo disse...

A emigração nâo é drama nenhum quando é uma opção de vida..um desejo,uma busca, um desafio!E um drama sim..quando não há alternativa..quando é uma necessidade.

Anónimo disse...

Parabéns pelo post.

Uma coisa são opções pessoais/familiares e outra, bem diferente, são as IMPOSIÇÕES/ medidas forçadas e muito, a que os cidadãos são obrigados ... - quem defende este tipo de emigração (forçada, mesmo que tenha algumas condições e segurança asseguradas) é porque é tonto e nunca emigrou (o que é diferente de fazer férias/turismo) ou
... é maldoso para com os seus concidadãos, traduzindo-se isso no defender o 'ostracismo'/expulsão de cidadãos (e válidos) e no desperdício de recursos em que o país/contribuintes investiu.

Mas é também defender um 'status quo'/sistema económico-social de dominância de uma élite económico-política, que assim evita ser confrontada (e eventualmente destituída do seu poleiro ou pelo menos limitada nos seus privilégios) por cidadãos válidos... e é também assim que se mantém um povo subjugado/subserviente, pois a maioria dos que ficam são ou menos activos (crianças, velhos, ...) e/ou menos instruídos e menos politizados e mais dependentes/fracos e alienados FFF (futebol, fátima, fado ... telenovelas, concursos, jogos, alcool...).

Zé T.

Rui Wahnon disse...

O Camilo Lourenço lembra-me os velhos muçulmanos fanáticos: Convencem a juventude a fazer-se explodir com cinturões cheios de bombas, porque no paraíso é que é bom, mas eles, está quieto... Continuam cá a aproveitar a boa vidinha que levam.
Ele e Luísa Emília Correia não parecem saber falar português, confundem "emigrar" - desejar ir para o estrangeiro procurar vida melhor -, com "ser exilado", isto é obrigado contra a sua vontade a ir para o estrangeiro viver.

Rui Wahnon, Colares

Anónimo disse...

E... não se poderia "enviar" o Camilo Lourenço himself... para o estrangeiro???... e até podia fazer-nos a "desfeita" de ficar por lá o resto da vida!!!... que tal???

sandra disse...

Confesso que de facto não me sensibilizo com a carta de Pedro Marques ao PR. Considero a publicidade que os media lhe têm dado de uma pobreza franciscana. Considerar um drama a ida de um jovem licenciado para Inglaterra mostra a nossa pequenez. Numa época em que este jovem dispõe de voos low cost, telemóveis, redes sociais e tantas formas de se aproximar das suas referências, comparar este fenómeno à emigração dos anos 60 é quase ofensivo. Aceitaria discutir as consequências económicas do actual fenómeno emigratório, mas a utilização destas histórias individuais é, na minha opinião, excessiva e desajustada ... até porque não me recordo, quando fiz o meu curso superior, de alguma vez o Estado ter assumido comigo deveres de empregabilidade.

Anónimo disse...

O Estado não assume deveres directos de empregabilidade mas dificilmente se consegue que a empregabilidade seja concretizável se não tiver um Estado a funcionar em condições, capicce ??? E deixemos de lado, de uma vez por todas, o mito da ausência do Estado na vida económica de um país. É um engano crasso e estúpido.

Pedro Almeida

Anónimo disse...

... e porque não mandar Camilo Lourenço e aqueles que têm o mesmo ponto de vista dele, para Marte para irem trabalhar ... Já não nos chagavam a cabeça com este cinismo ...

Anónimo disse...

Para acabar com a patetice de algumas cabeças, que acham que ser forçado a procurar trabalho lá fora " é muito bom", relembro só que há serviços de saúde no estado onde a falta de enfermeiros ( e pessoal médico em geral) é mais do que notória.
Entendem agora porque esta emigração não é a emigração do programa Erasmus nem a emigração de 6 meses em férias á conta dos pais?
Que mais é preciso acontecer ao país para que as pessoas percebam e admitam que foram enganadas por este governo e que mais vale corrigir o tiro agora do que tarde demais?
É que no abismo já caimos meus senhores, caímos quando demos o voto a um governo para o qual não há outra classificação senão a de incompetente.
A meio do nosso destino (escarrapacharmo-nos no chão) convém que alguém acorde e se agarre a um ramo qualquer porque se não o fizermos vamos mesmo contra a parede.Com os camilos e tudo.

Anónimo disse...

as crónicas de Camilo Lourenço são puro marketing servil ao Governo, empolando aparentes aspectos positivos, julgando todos os outros uns preconceituosos.
Acho piada a quem se refere à emigração como um desafio, uma aventura, como se fossem fazer um erasmus ou uma viagem exótica e prolongada. No fundo, as pessoas identificam-se com aquilo que conhecem, e essas pessoas não devem conhecer dificuldades na vida, é um tudo "um projecto novo" para essas pessoas, porque só conhecem uma vida amparada pelo conforto financeiro próprio e/ou dos papás.
Por isso não percebem o drama dos jovens que saem de cá, com poucos ou nenhuns recursos financeiros, e que têm de ir começar uma vida a partir do zero, sem casas de familiares, sem ajudas, com o dinheiro à justa, e sem verdadeiro apoio familiar e de amigos, que o facebook não consegue suprir.
Muitos deixam cá pais doentes ou idosos, e têm de lhes deixar de dar apoio.
Mas como é timbre do Governo e seus acólitos, importa é tentar convencer as pessoas de que são culpadas de algo, e portanto, quem não vê a bondade da emigração é um velho do restelo, um preconceituoso, um piegas, um cobarde (sim, é isso que nos querem chamar).

Luis Ferreira disse...

Nem emigrar é problema, nem ficar cá o é.
É muitas vezes a ambição natural e útil de querermos melhorar a nossa vida que nos leva de um local para o outro. Dentro do Concelho (da aldeia para a cidade€, dentro da região (de uma cidade para outra, de forma permanente ou pendular), dentro do pais (de uma região para Lisboa ou Porto) ou dentro da Europa.

O problema hoje é que é o Governo que nos diz isso, que desiste de nós. Ora: isso é mais estúpido e trágico do que parece à primeira vista.

Rui Tojal disse...

1) Às pessoas que dizem que emigrar não é drama nenhum - emigrem vocês pah, que tal?
Façam assim: deixem cá a mulher, os filhos, os pais velhos abandonados (se calhar já não lhes ligam muito, né?) e os amigos, e depois digam se é bom FIXAR-SE DEFINITIVAMENTE num país estrangeiro, em que as pessoas locais se borrifam para vocês, onde não têm os mesmos direitos, e em que a vossa situação económica não vai ser nada do que se pinta, porque hoje INGLATERRAs e Cia Lda também estão em crise (apesar de viverem à custa da fraude financeira internacional - vidé lista das off-shores inglesas e ligações libra-dólar, fim de Bretton Woods e emissão incontrolada de dólares)

2) Às pessoas que dizem que não é drama nenhum, porque Portugal sempre teve muita emigração e cresceu.
"Quem não quer ser burro não lhe veste a pele".
Portugal voltou aos piores índices migratórios dos anos 60 (por sua vez, os piores do salazarismo), SÓ QUE (sublinho) SÓ QUE naquele tempo TÍNHAMOS UMA POPULAÇÃO JOVEM, o país CRESCIA, TÍNHAMOS a almofada das COLÓNIAS, e o saldo DEMOGRÁFICO ERA POSITIVO.

3) Os Andrés (todos os 120.000 de 2012) emigram por imposição (política) do governo duma coligação estrangeira, a dos mesmos agentes - FMI e BCE+Alemanha - que deixaram os especuladores atacarem o País.
Na altura, a dívida pública rondava os 100% do PIB, era muito bom comparado com hoje (135%), e o País foi obrigado APENAS POR ESSES ATAQUES ESPECULATIVOS (perfeitamente controláveis, como se viu após o BCE intervir nos casos da Itália e Espanha) a entrar numa espiral brutal de recessão com os efeitos não menos brutais (a emigração é só um deles).

Um bom Natal, o menos amargo possível.
Bom mesmo, seria ver este governo anti-nacional demitido e a responder pelos crimes.
Já estivemos mais longe disso.