domingo, 26 de agosto de 2012

Na frente das ideias...


1. Como assinala o economista socialista João Galamba, a utilidade dos custos unitários do trabalho, “que pouco ou nada nos dizem sobre os salários”, é mais ideológica do que outra coisa, tratando-se de um indicador que se presta à manipulação e à propaganda para o abaixamento do peso dos salários no rendimento nacional, peça fundamental da política de um governo assessorado por um Banco que não é de Portugal. Este é um tema em que aqui também temos insistido. Se procurarem neste blogue por custos unitários do trabalho, encontram logo, por exemplo, um texto bastante claro do Alexandre Abreu, que critica a aceitação acrítica por alguma esquerda deste conceito e das suas implicações para o mundo do trabalho, ao mesmo tempo que os custos do capital são ignorados.

2. As divergências sobre o passado e o presente de algumas “ilusões” políticas não me impedem, pelo contrário, de chamar a vossa atenção para um texto recente do historiador comunista João Arsénio Nunes, que o Nuno Ramos de Almeida em boa hora postou, sobre “política comunista e previsão histórica”. Um daqueles textos que vale a pena imprimir e ler com atenção. Se bem que o pretexto seja, em parte, uma resposta a Miguel Urbano Rodrigues num debate interno ao PCP, partido que continua a ser condição necessária para uma alternativa política de esquerda, e também por isso esta não será fácil, julgo que o texto avança, sobretudo no final, com uma perspectiva útil para todos os que querem proteger a democracia e começar a criar as condições para que esta se torne mais avançada no nosso país.

1 comentário:

José dos Berlindes disse...

Os CUT são mais um "indicador" produzido pelo método positivista da ciência em voga.

Dar relevância a um "indicador" destes para a totalidade da economia é um absurdo, só legitimado pela lógica autoritária da mescla de economia e política.

O pior é quando, também aqui, se passa deste "empirismo" para uma espécie de "impressionismo" dos factos (estética e economia política é tudo, já dizia Kristeva). Descartar o argumento para PT, quando ainda há pouco se fazia a leitura inversa para DE, que deu depois origem à cunhagem do termo "neomercantilismo" é manifestamente insuficiente.

[Houve aquela altura em que, também aqui, se procurou então explicar os défices externos DE-periferia pelo diferencial no crescimento dos salários: prescrição de direita passou então a ser baixem os salários cá, e a de esquerda, subam os salários lá)].

Claro que se fôssemos comparar as evoluções do peso dos salários no PIB no últimos anos (esqueçam as unidades físicas: isto é valor contra valor) tínhamos sensivelmente um empate técnico.

Assim:
alguém vai ter que instruir o Banco de Portugal (e quejandos) a usar técnicas úteis de diferenciação. Podíamos começar por: diferenciar o rendimentos da esfera das batatas dos bigmacs dos moldes do meo, depois homogeneizá-los com referência a qualquer coisa (horas de trabalho (Marx), igualização do rendimento dos factores (neoclássicos), supresão da preferência por liquidez (Keynes)) e convertê-los à concorrência global!