sexta-feira, 4 de maio de 2012

Conhecer a crise (II)

Em meados de Março passado, António Barreto apresentou publicamente o portal «Conhecer a Crise», patrocinado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Como assinalei na altura, trata-se essencialmente de um portal que reúne um conjunto de dados e indicadores estatísticos, com o intuito de caracterizar a crise que o país atravessa.

Não menosprezando o facto de sistematizar informação oriunda de fontes diversas (do INE na grande maioria dos casos, mas também do Banco Alimentar contra a Fome ou do Eurobarómetro, por exemplo), a verdade é que o portal pouco mais faz (se é que, verdadeiramente, algo mais faz) que coligir dados.

Essa limitação, contudo, não impediu António Barreto - logo no alvorecer do projecto - de concluir que os cidadãos «estão a resistir e a adaptar-se à crise, (...) a mudar de hábitos e a desenvolver estratégias para se defender», considerando portanto que os «portugueses não estão a morrer com a crise», como sugeriam levianamente, em sua opinião, certas notícias «exageradas».

Para quem apresenta um portal que pretende dar a «conhecer a crise» e os seus impactos, convenhamos que o  resultado obtido até ao momento se traduz num contributo redundante (a maior parte dos dados está disponível nas respectivas fontes), pouco ambicioso (nada mais faz que justapor e actualizar informação) e, sobretudo, manifestamente insuficiente e superficial. Não só lhe falta informação quantitativa importante (evolução do número de sem-abrigo, por exemplo) como - e sobretudo - uma análise qualitativa capaz de desvelar consequências mais imperceptíveis - mas fulcrais - que a crise está a provocar.

Um estudo que poderia ser desenvolvido, com o apoio da benemérita Fundação Francisco Manuel dos Santos, é por exemplo o da enchente de clientes que invadiu no passado Primeiro de Maio as lojas Pingo Doce, procurando tirar proveito da boçal, degradante e desrespeituosa operação de marketing patrocinada por Alexandre Soares dos Santos. Quantos o fizeram por absoluta necessidade? Quantos o fizeram por puro tique de consumismo? Quantos o fizeram com consciência do significado profundo daquela operação, naquele dia? Quantos ignoravam por completo esse significado? Que produtos se venderam? Que estimativas podem ser feitas sobre a quantidade (e durabilidade útil) de produtos adquiridos? Que perfis sócio-económicos, em suma, poderíamos encontrar nas lojas Pingo Doce no passado Primeiro de Maio?

Outros exemplos: procurar saber que relação tem com a crise o recente aumento de suicídios e do peso percentual do número de abortos realizados por mulheres desempregadas. Ou, ainda, como vivem e que apoios faltam às famílias das crianças que desmaiam de fome nas salas de aula portuguesas? Qual a dimensão do problema? E quem são e como vivem os doentes que deixam de ir a consultas ou de adquirir medicamentos por dificuldades financeiras acrescidas? Como avaliar o impacto do aumento das taxas moderadoras na degradação da saúde dos portugueses? Há ou não portugueses a morrer com a crise? E as desigualdades? Estão a estreitar-se ou a aprofundar-se com a terapia austeritária? Quem se está a adaptar e de que modo? Quem sucumbe às medidas iníquas adoptadas? Até onde é humanamente possível resistir?

O que anda António Barreto, afinal, a fazer com o portal «Conhecer a Crise»?

5 comentários:

falaferreira disse...

Resposta à última pergunta do post:
Reduzir a a crise a uma bateria de números. Deixá-la clara como a água: sem cor, sem cheiro nem sabor. Sem crise!

VC disse...

Pois....
Já vi um poster da Zita Seabra e outra do tal Barreto à porta de um Pingo Doce a publicitarem não sei o quê!
Quanto ao tal portal, ou pordata, poderia chamar-se pobredata, que não viria nada de mal ao mundo. Mas deu para minutos de TV em horário nobre!

Anónimo disse...

O que o António Barreto anda a fazer com a crise é dar o seu nome e função - sociólogo - para anunciar um vinho comercializado pelo e no Pingo Doce!
Calha bem quando um sociólogo pode estar dos dois lados: do consumidor e do analista de consumidores!
Sem comentários...
Maria Augusta Babo

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Diz-me quem te paga, dir-te-ei o que pensas. É pena que seja assim, porque já tive consideração pelo António Barreto.

Anónimo disse...

O que anda a fazer o sociólogo do Pingo Doce?
Anda a fazer o que sempre fez: serve a quem lhe paga.