terça-feira, 18 de maio de 2010

Derrotados e conformados?


Não compreendo a complacência da esquerda do PS com o PEC reforçado. Não é só a taxa de IVA de 6% sobre os bens essenciais o que está errado. Tudo o que sabemos (bem sei que é pouco) nos diz que o efeito do PEC reforçado, até porque coordenado com outros como ele em toda a Europa, só pode ser recessão, desemprego, crise social e no fim de tudo défice ainda e mais dívida pública. O PEC reforçado não é só injusto é também estúpido: não resolve o problema que o motiva. Não havia alternativa? Solidariedade em momentos difíceis? Bem sei que há escolhas difíceis que nos empurram para cometer crimes. Um crime é o que está anunciado. Nenhuma complacência. Tudo a favor de que o crime não seja consumado.

A direita, já sabemos, até gosta - a crise para ela é a oportunidade para as “reformas estruturais”, isto é, para a redução da provisão pública aos mínimos e a instauração da selvajaria nas relações laborais – mas o conformismo dos socialistas “de esquerda”, espanta.

Assim como o PEC reforçado foi ditado pela pressão da finança desregulada, o alívio dessa pressão pode ajudar a reverter as condições que o ditaram. Não há PECs que não possam ser emendados. O primeiro grego, tão entre a espada e a parede como o nosso Socrates, ao menos não parece tão rendido como os nossos socialistas “de esquerda”- tem-se ocupado a defender uma forma de regulação eficaz: a extinção pura e simples dos CDS, esse seguro que nos permite enriquecer com o incêndio na casa do vizinho.

Procura de coordenação (Espanha, Grécia, França) no âmbito da UE para forçar a regulação da finança, a redução dos desequilíbrios comerciais no espaço da moeda única, a adopção de medidas de contenção do défice que não estrangulem o crescimento que pode reduzir a dívida. Isso é preciso. Sei que é mais fácil de dizer do que fazer. Mesmo assim, nenhuma complacência com o PEC reforçado. Enquanto cidadãos protestemos. O protesto tem consequências: pode inspirar soluções inteligentes, pode fazer acontecer o que parece impossível.

4 comentários:

Anónimo disse...

Apoio totalmente! É verdade. A esquerda do PS não se ouve.Apesar de, por exemplo o Paulo Pedroso no seu blog ter manifestado discordâncias. Com o ínfimo peso que nessa esquerda tenho, eu também manifesto a minha discordância.Mas, infelizmente, no PS, a esquerda consequente é mesmo muito minoritária.
Não sou economista, mas dei o meu contributo no Grupo "Economia e Sociedade" da CNJP numa tomada de posição sobre o PEC.
Dizes, José Maria, "enquanto cidadãos protestemos". Pois eu alinharei em formas de protesto, na medida do que puder.
Cláudio Teixeira, 19/5/10

Pai Natal disse...

Não existem medidas de contenção do defice serias que não provoquem uma recessão no curto prazo. No entanto esta recessão, para alem de absolutamente necessaria, é também absolutamente inevitavel.

O que é preciso é deixarmos o crescimento insustentavel, baseado na expansão irresponsavel do consumo e preocuparmo-nos com o crescimento a serio, baseado no aumento das qualificações dos trabalhadores, investimento na tecnologia comercializavel, e orientação da produção para bens e serviços de elevado valor acrescentado.

Anónimo disse...

Concordo com parte do que é dito, mas também sei bem o quão injusta é também esta crítica. Eu como muitos dentro do PS continuo a fazer as críticas nos sítios que, quer se goste ou não, faz sentido que sejam feitas a quem está num partido. O problema é as minhas e de todos os outros serem paulatinamente ignoradas.
O que axo preocupante é que aqueles, como o autor, com quem a Esquerda (assim mesmo sem aspas) do PS se poderia entender prefere atacar esses seus aliados potencias em vez de criticar a falta de abertura interna do PS às críticas dos seus próprios militantes. A divisão da Esquerda e principalmente da Esquerda à Esquerda (e na Esquerda) do PS só nos enfraquece. Quanto mais rápido se perceber isso melhor... para todos

Fábio disse...

A complacência é para tentar enganar os investidores/especuladores internacionais, procurando dar mais credibilidade à política de combate ao défice.