A marca de contraste da sabedoria
convencional é a aceitabilidade. Tem a aprovação daqueles a quem se dirige. Há
muitas razões pelas quais as pessoas gostam de ouvir em palavras aquilo que
aprovam. Serve o seu ego: o indivíduo tem a satisfação de saber que outras
pessoas mais famosas compartilham as suas conclusões. Ouvir o que se acredita é
também fonte de confiança renovada. O indivíduo sabe que é apoiado nos seus
pensamentos – que não o deixaram para trás sozinho. Além disso, ouvir o que uma
pessoa aprova satisfaz o instinto evangelizador. Significa que os outros também
estão a ouvir e por isso estão sob o processo de persuasão.
John K.
Galbraith, A Sociedade da Abundância (The Aflluent Society), 3ª ed, 1976
Portugal
testemunha a ascensão da agenda e do discurso da extrema-direita. Aos
democratas, exige-se a defesa ativa dos seus valores. Essa tarefa
implica a adoção de equilíbrios difíceis. Por um lado, não é eficaz a
hostilização imediata dos que se dizem apoiantes da extrema-direita.
Entre esses, há uma massa heterogénea de pessoas: desde apolitizados que
não entendem a real gravidade da sua escolha até fascistas convictos.
Impedir o alastramento e normalização do fascismo exige, num primeiro
momento, argumentação assertiva e serena. Sabemos que não é fácil: a
extrema-direita constrói o seu discurso sobre mitos implantados na
sociedade e utiliza o ódio e a mesquinhez como catalisadores da sua
influência. É isso que atribui vantagem inicial a quem partilha o seu
discurso. Só a frieza analítica na desconstrução dos seus argumentos
garante uma estratégia vitoriosa. É para isso que serve este guia, que
explora ponto a ponto cada um dos mais comuns argumentos da
extrema-direita. Depois de os ler ou ouvir, o seu amigo ou familiar até
pode manter a sua posição. Mas não pode reclamar inocência ou
desconhecimento. Não poderá vir dizer-lhe que não sabia. Transpõe a
linha da dignidade da convivência democrática e deve entender que isso
tem consequências. O convívio com fascistas é um exercício de
normalização a que os democratas não se devem prestar.
1) O
CHEGA não é de extrema-direita. É de uma nova direita e não é composto
por fascistas. Parte da tentativa de normalizar o CHEGA
passa por negar o seu rótulo de extrema-direita e de partido fascista. O
partido diz-se da “nova direita” ou da “direita moderna”. Mas o que há
ali de novo? Tudo cheira ao bafio das ideias antigas. O “chefe redentor”
a quem é preciso dar poder incontestado para pôr ordem nisto (André
Ventura, quem mais?), a ideia de que a democracia é um antro de
corruptos que apenas se querem servir a si mesmos (ignorando que sempre
os sistemas repressivos tiveram mais corrupção e nepotismo do que as
democracias e que a aparência do contrário só se deve à censura), a
ausência de qualquer proposta para além de declarar que o sistema está
podre, o cultivar a ideia de que o sentimento de insegurança é constante
(quando Portugal é considerado um dos países mais seguros do mundo),
apontar a culpa de todos os males a um grupo em relação ao qual existe
um ressentimento social prévio e enraizado (em função do contexto
histórico, podem ser os judeus, os comunistas, os negros, os ciganos ou
uma combinação destes grupos) e fazer uma apologia acrítica dos setores
que detêm a função repressiva no contexto democrático (militares e
forças de segurança), na esperança de conquistar o seu apoio e o
daqueles que veem nesses elementos o garante do restabelecimento da
ordem. O que há de novo na nova direita? Nada. A receita é a mesma de
sempre, com as pequenas variações que o contexto e o momento histórico
impõem. “Ah, mas eles dizem que não são fascistas”. Se um animal tiver
quatro patas e miar, mas insistir que é uma galinha, no lugar de um
gato, considere desconfiar. Abundam os exemplos de fascistas nas suas
fileiras. Diogo Pacheco de Amorim, fascista confesso, será o substituto
de André Ventura no parlamento. Foi um membro do MDLP, grupo de
extrema-direita responsável por vários atentados no pós-25 de Abril. É
um terrorista que tem responsabilidade moral em vários homicídios. Sim, é
neles que vota quando vota CHEGA. De igual modo, abundam nas fileiras
do CHEGA ex-membros do PNR e de organizações neo-nazis, como a
organização de Mário Machado e a Nova Ordem Social. Muitos destas
organizações estiveram envolvidas em crimes de sangue. Não, eles não são
novos e inofensivos. São a velha e violenta extrema-direita de sempre
sob outra roupagem.
2) Se
vivemos numa democracia, cada um pode ter a sua opinião e ninguém tem
nada a ver com isso. A ideia de que a democracia é um espaço
que acolhe qualquer movimento político organizado é um mito. Todas as
democracias passam por momentos constituintes em que definem o espectro
de ideias e posições que estão dispostas a acolher. No caso português,
esse momento constitucional foi o 25 de Abril e os termos do nosso
acordo democrático ficaram estabelecidos na constituição de 1976. A
constituição é muito clara na rejeição de organizações de raiz fascista O
CHEGA está, por isso, fora do arco constitucional e do acordo
democrático em que a nossa sociedade assenta. Que o partido tenha sido
legalizado pelo tribunal constitucional é parco contra-argumento. Como
nenhum partido se declara fascista à partida, a sua não legalização com
esse fundamento é pouco eficaz. De igual modo, agir a posteriori,
recorrendo à ilegalização, seria um ato complexo e possivelmente
contraproducente. Com efeito, a denúncia de que o CHEGA está fora do
nosso acordo democrático deve partir de cada um de nós.
3) Se
a sociedade tolera a extrema-esquerda, também deve tolerar a
extrema-direita. Para aumentar a aceitabilidade de ser e/ou se
relacionar com alguém de extrema-direita, o artifício usado passa por
estabelecer uma equivalência entre extremos. Há dois problemas com este
argumento. O primeiro é de substância: não há nada de semelhante nas
propostas das duas áreas políticas. A esquerda é favor da igualdade
entre pessoas de todas as raças etnias e credos. A extrema-direita é a
favor da discriminação desses grupos. A esquerda bateu-se historicamente
pela liberdade e pela democracia em Portugal durante o fascismo, tendo
inúmeros dos seus membros sido perseguidos, torturados e presos. A
extrema-direita foi apoiante do regime que perseguiu, torturou e
prendeu. A esquerda bate-se pela defesa dos serviços públicos
universais, ancorada no princípio de que a educação e a saúde são
direitos vitais, que não devem estar condicionados pela discriminação do
preço e do mercado. O CHEGA defende no seu programa que a Saúde e a
Educação devem ser privatizadas, o que se traduzira na negação do acesso
desses bens a milhões de portugueses. Votar na esquerda é votar pela
não discriminação, pela tolerância, pelos valores da liberdade e pela
ideia de que o cuidado médico e a educação são direitos básicos em
democracia. Votar na extrema-direita é votar na intolerância associada à
cor de pele, à orientação sexual ou à nacionalidade e é contribuir para
uma sociedade mais desigual. Sendo mais claro: votar no CHEGA é votar
naqueles que impuseram a repressão fascista, a ti, aos teus pais ou aos
teus avós. É ser cúmplice de um lado negro da história de Portugal.
Votar na esquerda é votar em que combateu ativamente a repressão e se
bateu pelo estado democrático em que passaste a viver ou em que
nasceste. Aquele onde tu e os teus filhos são livres de pensar, escrever
e falar. Há uma diferença, não há? A sociedade aceita a esquerda (e a
direita democrática) porque os seus princípios assentam na dignidade e
liberdade democráticas, a extrema-direita não. E isto leva-nos ao truque
da forma: chamar extrema-esquerda à esquerda que está à esquerda do
centro é um artifício semântico para sugerir que as suas propostas
também estão na periferia da normalidade democrática. Mas não estão:
achar que o Estado deveria ser mais presente na economia, que a
precariedade laboral deveria ser menor ou que a saúde e a educação
deveriam ser públicas não as coloca de fora da democracia. Discriminar
com base na cor de pele, na etnia ou na orientação sexual, sim. Não se
pode comparar o incomparável.
4) Então a Coreia do Norte e a Venezuela? Antes do
conteúdo, é importante de novo olhar para a estratégia do argumento.
Esta é uma pergunta que os apoiantes de extrema-direita gostam de lançar
quando são confrontados com as atrocidades que o fascismo perpetrou ao
longo da história, designadamente em Portugal. O truque está em não
responder diretamente ao problema – “como é possível apoiares uma área
política que é herdeira dessas atrocidades?” – mas em criar uma manobra
de diversão, sugerindo que o interlocutor sofre do mesmo tipo de
fraqueza moral. É uma não resposta, que em nada anula o problema de
base. Mas podemos responder diretamente à insinuação de que o
socialismo/comunismo e a extrema-direita partilham das mesmas
fragilidades históricas e morais. Em primeiro lugar, há uma enorme
diferença entre apoiar um posicionamento político cuja substância
assenta na perseguição de grupos e em sentimentos anti-democráticos ou,
por oposição, apoiar um posicionamento político que inspirou modelos
que, em determinados momentos históricos, distorceram os seus
princípios. O socialismo/comunismo é um posicionamento político fundado
na ideia de que o desigual acesso a meios de produção numa sociedade
capitalista determina relações de poder assimétricas, com profundas
ramificações sociais, e que essa desigualdade deve ser combatida em nome
de mais equitativas e fraternas relações entre os membros de uma
sociedade. Em nada se relaciona com o fascismo que, na sua génese, desde
o primeiro minuto, tem como objetivo a subjugação de toda a dissensão
ao pensamento do chefe e a perseguição de minorias étnicas e políticas
como um passo necessário de depuração social. Isto não significa que
atos políticos condenáveis não tenham sido praticados por regimes
políticos que se declaravam socialistas. Mas isso foi resultado de uma
deturpação política, não de uma aplicação bem-sucedida de um projeto. No
que se refere ao hipotético apoio dos partidos de esquerda a esses
regimes, importa esclarecer que o BE, desde a sua fundação, sempre
rejeitou dar apoio presente ou de memória histórica a qualquer país
socialista assente no partido único. De igual modo, foi crítico da
viragem autoritária que se operou na Venezuela nos últimos anos,
organizando mesmo um dossier sobre o assunto no seu portal de notícias. O
PCP, por contingências particulares do seu percurso histórico, tem
mantido uma posição de alguma ambiguidade neste domínio. Mas o que
importa reter é que, no contexto português e no seu programa, o
património do PCP é de luta da liberdade e pela democracia, não se lhe
podendo apontar nenhuma tentativa de supressão da democracia ao longo da
sua história. Ao sacrifício de muitos dos seus militantes devemos a
liberdade que temos hoje. Com efeito, fazer esta pergunta apenas serve
para os elementos de extrema-direita lançarem a confusão e se escusarem a
responder pelos crimes que a sua área política perpetrou.