A apresentar mensagens correspondentes à consulta dilema ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta dilema ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Amanhã, debate da Causa Pública, em Lisboa

A pandemia de COVID-19 marcou um ponto de viragem, ao levar à suspensão temporária das regras orçamentais, permitindo uma resposta mais robusta através do aumento dos gastos públicos. Esta suspensão criou um precedente para repensar a forma como a UE gere as suas regras fiscais, abrindo a porta a um novo debate sobre como conciliar as preocupações com a estabilidade macroeconómica com o investimento em políticas que promovam o crescimento sustentável, a equidade social e o combate às alterações climáticas.
Com o regresso das regras orçamentais reformuladas, surge uma nova oportunidade – e um novo desafio. De acordo com o anunciado, as novas regras visariam permitir um maior foco no ajustamento estrutural a médio prazo e uma maior ênfase no crescimento sustentável e verde. No entanto, os limites ao défice e à dívida continuam a ser pontos de pressão, especialmente para os governos que desejam aumentar o investimento público e expandir os serviços de saúde, educação e protecção social.
O debate que agora se impõe é, portanto, crucial: que margem de manobra resta para políticas progressistas dentro deste novo enquadramento? Será possível expandir os serviços públicos, aumentar a proteção social e investir em áreas estratégicas sem comprometer a sustentabilidade orçamental e, ao mesmo tempo, cumprir com as novas exigências europeias?


É este o dilema a tratar no debate «Que espaço existe para políticas progressistas com as novas regras orçamentais europeias?», promovido pela Causa Pública, que contará com a participação de João Nuno Mendes e José Guilherme Gusmão. A moderação estará a cargo de Maria Valente. A sessão realiza-se amanhã, a partir das 18h30, na Livraria Almedina no Atrium Saldanha, em Lisboa. Entrada livre.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Entre a democracia e a ditadura 2

Tirado do sítio do BCE

Sobre o tema do anterior post, os comentadores ouvidos pela RTP - Helena Garrido e Manuel Carvalho, director do Público - acharam "natural" esta ênfase do BCE na subida brutal das taxas de juro, dada a sua missão independente do poder político. Dizem eles: como o único instrumento que o BCE tem para cumprir a sua única missão - que é a de controlar a inflação (porque não é a de garantir o pleno-emprego?) - então o BCE só pode fazer subir a taxa de juro. "Subir a 2% não é dramático", diz o director do Público. Os governos - como diz o BCE -  "têm é de fazer políticas selectivas, não para toda a gente", diz Manuel Carvalho. Não há nada a fazer, dizem, mesmo que o BCE dê cabo da economia e da vida das pessoas. Sim, mas "controlar a inflação gera sempre dor", frisa Helena Garrido! 

Onde foi que já ouvimos isto (e até na voz de Helena Garrido?). 

Ah! Foi em 2010. Nessa altura, Helena Garrido defendia os efeitos benéficos de uma "boa recessão"!... Na realidade, a política seguida - elogiada por Helena Garrido - viria a provocar uma taxa de desemprego em sentido lato de 25% da população activa!   

 

Jornal de Negócio 22/4/2010  - Portugal precisa de uma boa recessão 

Os excessos financeiros [de quem?] só [só?!] se resolvem com uma recessão económica que agrava a situação financeira e lança o pânico entre os credores. Quando não se tem uma garantia financeira. É este o problema de Portugal, como o da Grécia e de Espanha.

(...)

Não é a primeira vez que os portugueses [quais portugueses? O sector financeiro?] enfrentam a dura realidade de serem mais pobres do que pensavam depois de euforias consumistas [euforias?! de quem?]. Nos dois últimos episódios, o Fundo Monetário Internacional entrou pelo País a dentro e determinou as medidas para garantir o financiamento da divida. [e com muito sucesso sempre, trazendo por arrasto uma agenda condicionada bem clara de desvalorização salarial e desarme do Estado Social!]

A grande diferença em relação ao tempo do Fundo é o euro, que nos deu mais tempo para fazer asneiras [quem fez asneiras? Os portugueses?] e que agora nos [a todos, não é?] vai fazer pagar caro os disparates [de alguns]. Fomos avisados, é verdade que baixinho, por muitos economistas quando entrámos no euro e enquanto fomos alimentando alegremente a nossa fúria consumista [de Portugal que tem... 4 milhões de pobres!]. Mas, como os mercados, ninguém queria ouvir. Como a dívida [pública ou do sector privado?] que o uso irresponsável do euro permitiu, é mais elevada e como não temos menos instrumentos de reequílibro que no passado [mas não foi anunciado como uma vantagem?], a resolução do problema vai ser muitíssimo mais dolorosa [para todos, não é?]. E só não é mais grave porque vamos [quem?] apanhar boleia da Alemanha, tal como os gregos [que viveram felizes para sempre, como se viu...]. 

Se hoje fôssemos deixados ao abandono, entraríamos em colapso financeiro à islandesa , contagiando toda a Zona Euro [e lá se fechavam uns bancos]. E os bem comportados [?!] do euro, como os alemães [?!], pagavam também parte da factura do nossa [nossa?] irresponsabilidade [?!]. Incentivar a irresponsabilidade dos almoços grátis ou condenar o País ao colapso financeiro e desacreditar o euro é o dilema que enfrenta a Alemanha [?! o dilema era outro: deixar ou não falir os bancos alemães e franceses enterrados em Portugal - ver aqui, aqui e aqui]. Factura por factura, contamos que saia mais barato a Berlim ajudar as irresponsáveis [ou os seus bancos, colocando todos os portugueses a pagar esse esforço por uma dívida que não era sua]. 

O que se está a passar expõe a fragilidade da arquitectura da moeda única. Como disse o presidente do Banco Central Europeu, à UEM falta o E de Económica, um E que imponha a disciplina financeira e que retire soberania aos irresponsáveis. Quando um país fica sem financiamento externo, o FMI troca a sua garantia de crédito pela imposição de medidas duras de correcção dos desequilíbrios. É este o poder que tem de se dar às instituições europeias. Quem não é responsável tem de ser tratado como irresponsável. 

O melhor que poderia acontecer a Portugal era um plano à FMI imposto pela União. Em vez desta morte lenta, teríamos uma violenta, boa e rápida recessão. Para voltarmos de novo a crescer com saúde.

 

E aí está! A "boa" solução para todos!  

 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

A esquerda num impasse


"Assim sendo, enquanto o PS mantiver o apoio popular que as sondagens mostram, a direita não terá acesso ao governo. Com a entrada em cena do Chega, o BE e o PCP estão condenados a apoiar o PS até ao fim da legislatura, mesmo que não gostem do resultado das negociações." (Escrito a 27 Janeiro 2021, aqui).

Quando escrevi isto tinha a clara consciência de que o eleitorado das esquerdas temia a ascensão da extrema-direita e o regresso da austeridade selvagem. Mesmo que estivesse pouco satisfeito com o governo, o eleitorado das esquerdas olhava para o BE e o PCP como o suporte do PS para travar a direita; não via (e não vê) estes partidos como alternativa. O PCP e o BE tinham caído numa situação em que estavam obrigados a apoiar orçamentos neoliberais, de que globalmente discordam, por não terem sido capazes de, atempadamente, construir uma posição minimamente sustentável fora da geringonça.

Desde o início que os partidos da esquerda não perceberam que aquela solução política foi apenas um expediente de emergência para a derrota do PS em 2015, uma solução política conjuntural, embora muitos nela depositassem a esperança num frentismo de outros tempos. Acreditavam que, com António Costa, o PS podia entender-se com a esquerda por mais tempo. Na verdade, o PS é um partido social-liberal, bom-aluno europeísta, e só pretendia fazer as cedências estritamente necessárias para manter a primeira legislatura. Depois, adeus à 'geringonça'.

Para mim, foi penoso ver o encantamento das esquerdas com a respeitabilidade adquirida a partir do acordo-'geringonça'. Foi penoso ver a insistência na disponibilidade para novos acordos com o PS. E foi penoso ver, com a rejeição do Orçamento de 2022, que (aparentemente) não perceberam a gravidade do dilema com que estavam confrontados.

Absorvidos pela dinâmica parlamentar do compromisso, descuravam a crítica pedagógica à retórica das contas certas, não conseguiam (não queriam) constituir uma frente comum para negociar com o PS, e julgavam que para ter credibilidade política bastava falar de salários, pensões, saúde e outros temas sectoriais sem os enquadrar num projecto de sociedade alternativo ao neoliberalismo da UE. Sobretudo no BE, o discurso evita o tema do euro apesar de ele estar subjacente a quase tudo, como se viu nos debates.

A direita que mais cresce não tem qualquer pudor em afirmar-se neoliberal e anti-sistema. Assume que é alternativa ao "socialismo"(!!) de António Costa e dos que o apoiaram. A direita tem uma ideologia bem conhecida e um modelo de sociedade individualista e desigual que não tem pejo em defender, mesmo depois do que fizeram com a troika. E a esquerda? Qual é a sua ideologia? Que modelo de sociedade propõe? A única vez que durante a campanha ouvi algo desta natureza foi pela voz de Pedro Nuno Santos, no comício de Aveiro.

Naquele mesmo post escrevi: "As esquerdas têm a obrigação de oferecer uma interpretação alternativa para o caminho que fizemos até aqui e para os obstáculos que impedem o nosso desenvolvimento. A meu ver, têm de oferecer um projecto de sociedade que seja mobilizador, capaz de trazer para o seu lado uma parte importante do voto dos desiludidos com o que a democracia lhes deu, além de outros. E isto exige muitíssimo mais do que trabalho parlamentar; exige diálogo unitário e exige militância de base ao lado dos que ficaram para trás em todo o país. Espero que ainda haja tempo."

Confesso que estou céptico quanto à capacidade de mudança das esquerdas que temos. Se expressões como "não baixar os braços" ou "estamos cá para a luta" significam uma atitude de resistência e que nada de fundamental vai mudar, então o destino da nossa esquerda será o da esquerda de outros países da UE, em particular na Itália e na França.

Mais do que nunca, alternativa de esquerda, precisa-se.

domingo, 30 de janeiro de 2022

A roda invisível dos ratos corredores


Antes de falarmos apenas dos resultados eleitorais desta noite e ainda propósito deste último post do João Rodrigues, queria deixar aqui um longo artigo meu, publicado no 29º Caderno Vermelho, publicado pelo PCP, a partir das notas para um debate organizado pelo jornal Le Monde diplomatique - edição portuguesa.

Trata-se de uma abordagem desenvolvida do que se passa na comunicação social e que amplia a denúncia do post referido. Uma comunicação social que, em vez de responder às suas obrigações constitucionais, esssencial à defesa do pluralismo, se transformou antes num dispositivo de venda de publicidade - nas suas mais diversas formas - que, seguindo as forças poderosas do mercado, reduziu e afunilou o pluralismo às ideias da direita, o que não abona nada de bom para o futuro do país e da democracia.

Chama-se, aliás, a atenção para o facto de este ter sido um desfecho expectável do quadro aberto pela revisão constitucional traçada entre Cavaco Silva e Vítor Constâncio em 1989. As instituições supostamente independentes incumbidas de regular o sector, consagradas por essa revisão constitucional no melhor espírito neoliberal - que tem mais ódio à influência política de quem é eleito do que à influência fáctica de quem é dono do capital - acabam por ser - como era de esperar! - ineficazes. No final, o poder do dinheiro é o poder.

Para quem quiser passar por cima desse quadro descritivo, gostava apenas de chamar a atenção para a parte do artigo em que se fazem propostas alternativas a este panorama.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

"Não há dinheiro"

 "Infelizmente, não será a compra de 117 comboios que levará Portugal a avançar como precisa na ferrovia. Para as ambições de Pedro Nuno no sector, faz falta dinheiro, muito dinheiro. É nesta lacuna que entra a TAP. Os três ou quatro mil milhões de euros que vai gastar na TAP davam, por exemplo, para fazer uma linha nova do Porto a Zamora. Gastando-os na transportadora, terá de esperar pelo rateio de dinheiros da Europa – caso permaneça na pasta, claro. Ele dirá que o interesse público exige empenho em todas as frentes. O problema não está na convicção. Está na penúria do orçamento que não dá para tudo. Faz-lhe falta um dilema." (Manuel Carvalho, Público, 14/12/2021)

O que é interessante neste raciocínio é a assunção clara e peremptória, impregnada daquela ideia - falsa - celebrizada  em finais de 2011, quando Vítor Gaspar terá dito ao ministro da Economia Álvaro Santos Pereira em pleno Conselho de Ministros do Governo Passos Coelho/Paulo Portas: "Não há dinheiro - Qual das três palavras é que não percebeu?"

Curiosamente, a mesma expressão seria usada por diversos membros do mesmo governo, em ocasiões diversas, para justificar cortes orçamentais e cortes na provisão pública de serviços públicos. Foi o caso do então secretário de Estado da Cultura Francisco José Viegas quando justificou corte de "despesas desnecessárias".  Foi o caso do então secretário de Estado do Orçamento Luís Morais Sarmento - actualmente director adjunto do departamento de estatística do Banco de Portugal - quando usou a mesma expressão em Abril de 2013. Discutia-se no Parlamento um despacho que, após mais um chumbo do Tribunal Constitucional a medidas governamentais, congelou toda a nova despesa pública, levando o deputado comunista Honório Novo a propor que se deixasse derrapar o défice orçamental.  

Mas seria mais ou menos usada, já com menor ênfase e entusiasmo, por António Costa (minuto 33'40''), em 2018, no debate parlamentar sobre o tempo de contagem de serviço dos professores. Ou pelo então ministro das Finanças Mário Centeno - actual governador do Banco de Portugal - que, ora alegava não haver dinheiro para umas coisas, para passar a dizer que já o havia para outras. 

O interessante é que, como já o escreveu muitas vezes o Paulo Coimbra neste blogue, a crise pandémica tornou claro que, de repente, já foi possível pôr de lado esse adágio, libertando-se efetivamente todos os recursos necessários para fazer face aos efeitos da doença, sem que se tornassem visíveis os malefícios anunciados pela teoria liberal dominante, em caso de quebra da regra de ouro que fixa a impossibilidade de uma emissão monetária para financiar gastos orçamentais e que todo o recurso orçamental dever ser financiado por mercados financeiros. 

Há dinheiro. Não há é a vontade de conceder aos povos os instrumentos que atenuem o poder de quem detém presentemente a dívida dos Estados e que os torna, assim, menos soberanos. Não há, pois, escravo maior do que aquele que não se quer libertar.  

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

The lira

Não espero que o esquerda.net seja uma referência de economia internacional, mas espero que um imprescindível sítio de referência político destes não tenha uma espécie de tradução mal feita – “o racional económico” é tão problemático quanto irritante – de um editorial do Wall Street Journal sobre a economia turca. 

Se se quer escrever sobre a lira turca, sobre a enéssima crise cambial, sobretudo desde que, em 1989, a Turquia decidiu liberalizar totalmente a conta de capital, então talvez se tenha de falar da possibilidade de instituir controlos de capitais, prática bem útil para poder superar ou evitar crises destas, da Islândia à China. Veremos o que vai fazer o Governo turco, mas já se fala nisso. Lembro-me sempre da corajosa e bem-sucedida Malásia em 1998.

Na realidade, há muito que sabemos, da teoria e da experiência histórica, que se se quer ter verdadeiro domínio sobre as taxas de juro, para as baixar e manter baixas, bom princípio anti-rentista e desenvolvimentista, então os mecanismos de controlo da entrada e da saída de capitais são, salvo as excepções conhecidas do topo da hierarquia, obrigatórios, evitando-se mais facilmente desvalorizações descontroladas. A taxa de câmbio tem de ser parte do arsenal de política. 

É um dos lados do velho trilema: política monetária autónoma, controlo de capitais e relativa estabilidade cambial, ou seja, controlo sobre a taxa de câmbio, lado onde quase todos os países estavam nas ditas três gloriosas décadas. Na realidade, hoje em dias temos mais um dilema, em face das grandes massas de capital que circulam pior aí, como argumenta a prestigiada e relativamente convencional Helena Rey: “políticas monetárias independentes [no sentido de soberanas] são possíveis se, e só se, a conta de capital for gerida.”

Também sabemos qual é a maldita montanha russa semiperiférica habitual no contexto de liberalização financeira: entradas de capital, sobreapreciação cambial, défices de balança corrente, endividamento em moeda estrangeira e, mais tarde ou mais cedo, fugas súbitas de capital e crises cambiais que são uma profecia autorrealizada. Este padrão nada tem de natural. 

E quem associa a sempre necessária descida das taxas de juro a subidas da taxa de inflação e a outros efeitos perversos alinha com o artificio proto-monetarista. A inflação, de que agora se fala e sobre a qual teremos mais a dizer, não é um fenómeno monetário, mas sim o resultado de realidades bem estruturais, a que se junta a contraditória conjuntura pandémica. 

A subida da taxa de juro de referência, ao serviço dos credores, é mesmo um duvidoso instrumento de combate à inflação considerada excessiva e que costuma operar por canais contrários a tudo o que defendemos: da recessão ao aumento do desemprego como mecanismo disciplinar, no fundo. Imaginem só o desastre que seria para nós, altamente endividados numa moeda que não controlamos, se o BCE alinhasse com alguns dos mecanismos apresentados no artigo. Tenho muito medo que acabe por alinhar. Cuidado com os mecanismos. E, sim, quando falamos de internacional não deixamos de pensar na realidade nacional.

Não tenho qualquer simpatia política por Erdogan, antes pelo contrário, como não tenho por especuladores, ali designados por investidores. Isso não me impede de registar que a sua incompleta e difícil de decifrar "política pouco ortodoxa", ao contrário do que se afiança no artigo, de resto sem qualquer número, não deve impedir a economia turca de crescer mais do que a média mundial em 2021, prevendo-se mais de 8% este ano em termos reais, também à boleia do aumento das exportações e da diminuição das importações, ou seja da procura externa, e sobretudo do consumo interno. A inflação de dois dígitos, a crise cambial e a nova vaga, num país com um bom nível de vacinação, podem exigir medidas mais robustas de controlo, esperando que Erdogan não ceda no preço fundamental numa economia monetária de produção. E confesso que gosto sempre de ver o poder político, independentemente da sua orientação, a subordinar o banco central às suas prioridades.

Francamente, não imagino o que se pretende alcançar com um artigo destes. 

domingo, 21 de novembro de 2021

Querido diário - as poupanças "libertadas" não geraram emprego...


À medida que se somam décadas de estagnação da economia portuguesa, sem que os actuais enquadramentos institucionais europeus permitam a sua resolução, torna-se cada vez mais gritante o falso debate que o PSD colocava em 2012 e que, criminosamente, a velha direita, com as suas novas roupagens, insiste em achar que é - ainda! - o grande dilema de Portugal:
"O aviso é claro: o PS tem de “optar entre ter aumento de impostos e reduzir a despesa pública”. Para o PSD, o partido de António José Seguro tem hoje três opções: ou aceita discutir a redução de quatro mil milhões de euros na despesa e evita novos aumentos de impostos; ou recusa reduzir e então tem de assumir que admite mais impostos; ou nenhuma destas e então tem de explicar aos portugueses como se cumprem as metas orçamentais e o memorando a que o próprio se comprometeu com a troika." (Jornal Público de há 9 anos)
Mais criminoso ainda, quando - face a esse falso dilema - a estratégia do PSD/CDS foi cortar na despesa pública. E, por estranho que parecesse nas suas cabeças, os recursos públicos libertados não serviram para dinamizar a economia - como hoje defendem as mentes envelhecidas e desmemoriadas dos dirigentes da IL que macaqueiam aquilo que foi martelado em 2012.

Os cortes na despesa pública, a busca de um superávite orçamental que libertasse as poupanças privadas para que fossem canalizadas para o investimento produtivo contribuíram, sim, para uma imensa recessão. E essa recessão levou a uma histórica fuga de jovens qualificados e uma explosão do desemprego que levou o poderoso ministro das Finanças - sempre citado a dizer em Conselho de Ministros "Qual é a parte da frase não há dinheiro que não entende?" - a fugir do Governo em Julho de 2003 para e voltar a emergir... no FMI.


Na verdade, é tudo ao contrário: em regra, um défice orçamental transfere recursos para o sector privado, contribuindo para a sua expansão que, por sua vez, transforma despesa de uns em rendimentos de outros, expandindo ainda mais esse sector privado. E caso o PIB cresça mais rapidamente do que os encargos da dívida até é capaz de gerar mais recursos públicos e fazer reduzir a dívida pública... Procurar um défice mais curto e mesmo um superávite - como imagem das Contas Certas - é apenas uma forma de, ideologicamente, abrir novas áreas de negócio a meia dúzia de pessoas, que, com elevada probabilidade, serão aliás investidores estrangeiros. E ao mesmo tempo fazer crescer o desemprego para forçar à baixa salarial e fornecer mão-de-obra qualificada para as economias do centro europeu.

É este o "grande" sentido patriótico da direita nacional actual - servir os interesses materiais dos investidores estrangeiros. Pode não se chamar corrupção, porque o fazem à borla, mas nem sei se não será ainda pior este programa de subserviência e vassalagem desta burguesia sem visão.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Paulo Pedroso sobre a negociação política

"O PS e o Governo têm duas opções perante a mão que Jerónimo e o PCP continuam a estender-lhe após seis anos a permitir-lhes governar sem interferir drasticamente com a agenda do PS, aceitando ter ganhos de causa sem os reivindicar (aumentos extraordinários de pensões, creches gratuitas, progressividade no IRS) e a ser penalizado eleitoralmente:

a) forçam o PCP a não conseguir nenhum dos pontos da sua agenda que conflitue com o PS e forçam-no ao dilema entre a suprema humilhação e derrubar o governo num momento mau para toda a esquerda;

b) cedem uma vez, seis anos depois, a algo que é da agenda do PCP e não é da agenda do PS e continuam a governar, provavelmente até ao fim da legislatura.

A escolha está nas mãos de António Costa e é tão importante como aquela inicial, que fez dele Primeiro-Ministro, de acabar com o “arco da governabilidade”. Estarão António Costa e o PS prontos para verdadeiramente deixar o PCP avançar uma das suas causas que não partilhem, depois de seis anos em que o PCP quase nada pediu?

Se escolher não o fazer, António Costa contrai a obrigação de tentar ganhar as eleições antecipadas com maioria absoluta ou dar lugar a alguém que no PS se queira entender com a esquerda parlamentar." (Post no Facebook)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Responsabilidade e bom senso


«Argumentamos que a escolha entre a vida dos mais velhos e a educação das crianças e jovens é um falso dilema e que é possível conciliar os direitos à saúde e à educação.
1. O sucesso de uma política não se mede apenas contando o número de infecções hoje, mas levando em consideração muitos outros fatores socioeconómicos e psicológicos, mas também consequências de saúde, física e mental, no presente e no futuro.
2. Nas escolas são aplicados rígidos protocolos sanitários, que garantem o uso correto dos dispositivos de segurança individuais durante grande parte do dia e que evitam a formação de agrupamentos nesses espaços (ao contrário do que acontecia nas famílias, por exemplo). A aprendizagem dos gestos de proteção na escola promove a aplicação de medidas preventivas na comunidade e é bem conhecido o papel relevante das crianças nesse processo de disseminação às famílias de atitudes promotoras de saúde.
3. Durante o primeiro período, as medidas sanitárias nas escolas impediriam numerosos casos e clusters (só houve 800 turmas que tiveram que fechar em todo o país neste período). No mês de fevereiro, nas 700 escolas que estão em funcionamento para acolher os filhos dos profissionais essenciais, só 25 casos positivos resultaram dos 13 mil testes realizados. Estes dados demonstram que é possível manter a pandemia sob controlo mantendo as escolas abertas, desde que com as devidas precauções.
4. A evidência empírica mostra que o encerramento de escolas se associa a uma diminuição dos casos na população e assim facilita o controlo da epidemia, mas não é indispensável para controlar a epidemia, sendo possível fazê-lo mantendo as escolas abertas, com as devidas precauções. Um largo conjunto de investigações mostrou que as escolas não são contextos relevantes de infeção e, durante o primeiro período, as medidas sanitárias em vigor nas escolas provaram que o curso da epidemia foi independente das escolas estarem abertas.
5. Não estão optimizadas ferramentas que poderiam contribuir para controlar a epidemia de maneira igualmente ou até mais eficaz do que fechando as escolas. Por exemplo, em Portugal há cinco vezes menos rastreadores de contacto por habitante do que na Alemanha.
6. Estudos em vários países, e a experiência clínica de alguns dos signatários desta carta, mostraram o aumento de problemas psicológicos e psiquiátricos das crianças e jovens associados ao confinamento e ao fecho das escolas (depressão, ansiedade, perturbação alimentar, auto-lesões, etc.).
7. Décadas de pesquisas em psicologia do desenvolvimento relataram como a educação pré-escolar e a escola permitem melhorias cognitivas, mas também motoras, sociais e emocionais (mais motivação académica, menos agressividade, menor prevalência de comportamentos de risco e de dependência). Como tal, as escolas são fundamentais para o desenvolvimento harmonioso, o desempenho académico, a participação no mercado de trabalho e a cidadania responsável.
8. O ensino a distância é menos eficaz do que o ensino presencial e tem sido um multiplicador de desigualdades de todos os tipos, não apenas educacionais, penalizando os mais vulneráveis: alunos com menos de 15 anos, em risco de insucesso escolar, com menos meios, com pais menos escolarizados, com deficiência, com necessidades educativas especiais, de origem estrangeira e vítimas de privações e violência no contexto familiar e social. O atraso na aquisição de aprendizagens pode levar à reversão do avanço das últimas décadas na diminuição da desigualdade social e no abandono escolar precoce.
9. O encerramento de escolas em Portugal durante o ano de 2020 foi dos mais longos da União Europeia, nomeadamente no ensino básico, o que comprometeu o direito à educação de crianças e jovens, bem como o direito à infância, entendido em sentido lato, como o direito às relações e à convivência com os pares.
10. Portugal é um dos países da União Europeia com menos condições para ensino a distância, devido ao baixo nível de qualificações dos pais (apenas um em cada quatro no ensino público até ao 9.º ano frequentou o ensino superior), às condições de privação material em que vivem muitas famílias com crianças, sofrendo de pobreza energética e habitacional, mas também à cobertura desigual da rede de 4G e de fibra. Mais de um quarto das crianças até aos 12 anos vivem em casas com problemas de humidade e infiltrações, 16% em alojamentos sobrelotados, 13% em casas não adequadamente aquecidas. Há 9% das crianças abaixo dos 12 anos cujas famílias não têm capacidade financeira para oferecer uma alimentação saudável. A privação material das crianças é superior em certas áreas do país, como as regiões autónomas ou o Algarve.
»

Da carta aberta «Prioridade à Escola», subscrita por médicos, cientistas, académicos e profissionais de diferentes áreas, num apelo à reabertura gradual das escolas, a partir do início de Março, começando pelos mais novos.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Lay-off e corrupção

Multiplicam-se os apelos para o financiamento fácil às empresas, através da prorrogação do lay-off simplificado. Marcelo Rebelo de Sousa tem insistido nessa tónica.

A ideia é a de que se trata de uma medida eficaz para impedir o desemprego. Na verdade, a medida tem efeitos contraditórios.

Como se recorda, o lay-off coloca o Estado e a Segurança Social a pagar a margem bruta de 110 mil empresas - nomeadamente metade das grandes empresas - ao poupar-lhes 84% dos seus custos salariais. Mas, ao mesmo tempo, corta em 33% os salários de cerca de 800 mil trabalhadores, o que resulta na prática numa transferência de rendimento dos trabalhadores para as empresas. Em segundo lugar, esse corte salarial tem fortes efeitos recessivos e provoca a pobreza dos trabalhadores. Nalguns casos, a transferência é ainda mais avultada, porque - como tem sido denunciado - os trabalhadores nem deixam de trabalhar. Em terceiro lugar, o lay-off não impede o desemprego futuro, porque apenas está vedado o desemprego por despedimento colectivo e por extinção do posto de trabalho, e apenas até dois meses depois da aplicação da medida. As empresas devem ser apoiadas, mas nunca assim.  

Naturalmente, este dispositivo tem recolhido o aplauso das confederações patronais e dos partidos à direita. Porque, na realidade, em vez de pagar directamente aos trabalhadores - promovendo a procura dos produtos e serviços das empresas - financia antes as empresas sem condições efectivas, dando valor à ideia - errada e que tem subjacente todo um programa político defendido pela direita - de que dando dinheiro aos empresários, eles saberão melhor o que fazer com ele porque, no seu entender, "são as empresas que criam emprego".

Naturalmente, as empresas devem ser apoiadas, mas não com que este lay-off sinplificado que, na realidade, nunca esteve preocupado com o desemprego.   

Na realidade, o lay-off é sobretudo dinheiro fácil - e nunca foi tão avultado - para os donos das empresas e de sobremaneira para os das grandes e médias. E sobre dinheiro fácil, talvez conviria relembrar - preventivamente - as ideias expostas no livro do jornalista Eduardo Dâmaso "Corrupção - breve história de um crime que nunca existiu".

Na opinião do jornalista, o Estado tem sido usado, nas últimas décadas, como intermediário para financiar empresas que, por sua vez, financiam os partidos ou membros do governo. Para que tudo se mantenha incólume, as leis são feitas criando "tipificações de crimes inaplicáveis ou de prova impossível" ou abrindo largos alçapões. A escassez de recursos de investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária complementam este quadro, tornando as investigações ineficazes.

Parece-lhe demasiado forçado? O Eduardo Dâmaso traça um lastro com décadas.

domingo, 3 de maio de 2020

O dilema


A ministra da Saúde não podia ter sido mais clara, isenta e consistente. Questionada na SIC sobre «porque é que em Fátima, que é um espaço muito maior que a Alameda, em Lisboa, não se podem aplicar estas regras das filas bem separadas e as pessoas afastadas umas das outras», Marta Temido respondeu: «É possível aplicar essas regras (...), se essa for a opção de quem organiza as celebrações, de organizar uma celebração do 13 de maio onde possam estar várias pessoas, desde que sejam respeitadas as regras sanitárias. (...) Agora, cada organizador tem que fazer um juízo de valor sobre aquilo que entende que são os riscos que vai correr. (...) O estado de emergência, o estado de calamidade não é uma emergência totalitária».

Aparentemente, a Igreja Católica, que já tinha decidido não manter a peregrinação de 13 de maio, ficou surpreendida com estas declarações, estando agora a «reunir todos os elementos para tomar uma posição» sobre as celebrações de 12 e 13 de maio em Fátima. Como a decisão está evidentemente nas suas mãos (tal como o a decisão do 1º de maio esteve nas mãos da CGTP), coloca-se um dilema: mantendo a sua posição inicial, corre o risco de defraudar a expetativa de muitos crentes (que se apercebem agora que não é o Governo a impedir, sob determinadas condições, a realização do 13 de maio); revertendo a sua posição inicial, esvazia de sentido as críticas de discricionariedade e de imprudência e irresponsabilidade que têm sido feitas, mesmo no seu seio, à celebração do 1º de Maio na Alameda.

Adenda: A forma como Rodrigo Guedes de Carvalho conduziu a parte inicial da entrevista a Marta Temido converte-a num recurso interessante de «pedagogia pela negativa» para cursos de jornalismo e comunicação social. Não pelas questões colocadas, de indiscutível pertinência e acuidade, mas sim pelo tom agressivo e inaceitavelmente acintoso com que se dirigiu à entrevistada.

terça-feira, 24 de março de 2020

A crise existencial da direita económica portuguesa


No programa Choque de Ideias da RTP3, Fernando Alexandre defendeu ser essencial  a compra de dívida pública dos estados da zona euro por parte do BCE neste momento. E eu concordo.

No entanto, quando confrontado com o facto de essa ser uma medida há muito exigida pelo campo da esquerda como resolução para a anterior crise da zona euro, mostrou-se visivelmente agastado e soltou de rajada dois argumentos para salvaguardar a sua coerência em relação ao passado:

1) Que essa compra pelo Banco Central trará inflação. "Não há almoços grátis".

2) Que este mecanismo não seria apropriado para resolver a crise de 2010 sem recurso à austeridade, porque "desta vez é totalmente diferente".

Para estas afirmações só há um antídoto: perguntar porquê até à exaustão.

Como já defendi aqui, não há nenhum motivo razoável para esperar que uma inflação descontrolada suceda  nem para considerar que igual solução não teria evitado o sofrimento social da austeridade em 2011.

O que estamos a assistir é a um conjunto de economistas num ato de contorcionismo argumentativo, perante o dilema entre defenderem o que acham certo e, ao mesmo tempo, manterem a coerência face à  sua posição de inevitabilidade da austeridade na crise passada.

Todo o apoio é bem-vindo neste momento. Mas, pela seriedade no debate, não deixemos passar isto em branco.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

O folclore e a fragilização da democracia

Há dias foi a votos no Parlamento o Programa de Estabilidade do Governo.

Espanta que, ao fim de dez anos sobre o desencadear da crise internacional, ainda se pugne por mais austeridade. E no entanto é isso que a direita e a direita do PS sustentam como programa. E mais tarde ou mais cedo vão ter de assumi-lo.

A direita do PS terá de assumi-lo porque essa é consequência prática da ideia vazia de quem quer "mais Europa", a qual se baseia nas vantagens do cumprimento estrito do Tratado Orçamental, até que alguém poderoso o reforme. Em privado, são capazes de se lastimar, mas em público aplaudem essas regras que mais não representam do que o dispositivo que força governos de esquerda (por muitos votos que tenham) a aplicar políticas de direita. Ir além das metas pode parecer uma ideia cautelosa, mas redunda apenas em ir além de um programa de direita traçado em Bruxelas.

A direita à direita do PS assume hoje aquela posição bipolar: acusa o governo apoiado à esquerda de praticar a austeridade - por cortar no SNS, nas escolas e na segurança, no investimento público, etc. - e grita que o "Estado está a falhar". Mas os deputados contorcem-se em resoluções que gostariam de aprovar no Parlamento em que se esquivam para não dizer que querem ainda mais "menos despesa" (caso do CDS) ou em que condenam o governo por "agravar a despesa corrente permanente do Estado", porque é feita sem um "qualquer exercício de racionalização da despesa corrente" (caso do PSD)...

Ora, ao ponto a que chegaram os serviços públicos ao fim de dez anos de austeridade, é impossível continuar com jogos: ou se quer "menos Estado" e, por isso, "menos despesa pública" e, por isso, "mais austeridade"; ou se quer "menos austeridade" e, por isso, "mais despesa pública" e, por isso, "mais Estado".

Mas esta esquizofrenia hipócrita é apenas um epifenómeno com causas profundas.

A direita e a direita do PS alimentam este falso dilema de curtas visões, porque querem evitar tocar na ferida do problema. E a ferida do problema é que essa política representa um mecanismo de transferência de rendimento - em cada país dos mais pobres para os mais ricos e, na Europa, dos países mais pobres para os países mais ricos, vulgo Alemanha - que está a favorecer a ascensão da extrema-direita e a fragilização da democracia.

E nada fazer para o evitar é levar a Europa ao abismo, com a cumplicidade até de um partido de esquerda. Como há décadas atrás. Mas talvez seja isso que se pretende, porque só isso justifica que se mantenha de pé todos os mecanismos que estão a alimentar essa vaga de fundo. Para quê mais democracia, se vai ser possível ter menos? "Mais Europa" vai significar "menos democracia".

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Emprego bom e emprego mau

O primeiro-ministro tem dois discursos, que não são incompatíveis.

No primeiro, António Costa elogia o tipo de emprego que a retoma tem criado. No último debate quinzenal de 2017, frisou que 75% dos empregos criados em 2016 e 2017 foram com contratos permanentes. Mas ao mesmo tempo, na sua mensagem de Natal, António Costa fixou para 2018 o ano a “vencer os bloqueios ao nosso desenvolvimento” e que, por isso, terá o emprego como cerne da política:
“O emprego está no centro da nossa capacidade de conquistarmos o futuro. Não apenas mais, mas sobretudo melhor emprego. Essa é a prioridade que definimos para o ano de 2018. Emprego digno, salário justo, oportunidade de realização profissional são condições essenciais para os jovens perspetivarem o seu futuro aqui connosco, em Portugal.”
O primeiro dos raciocínios parece ter como objectivo o combate de barricada, corpo a corpo. Trata-se de uma formulação que - ainda que decorra dos dados do INE - é imcompleta. E assim é porque apenas parte da criação líquida de postos de trabalho, nunca entrando em conta com o ritmo de criação e de destruição de contratos de trabalho, real indicador da precariedade do trabalho. O segundo dos raciocínios parece ser um olhar mais estrutural da realidade e que tem presente as dificuldades de uma aposta num emprego criado conjunturalmente, mas que - mais grave - tende a perpetuar-se como modelo de crescimento: trabalhos em actividades pouco produtivas que, por sua vez, remuneram mal e em baixas condições contratuais quem empregam.

É sobre este dilema que o mais recente barómetro do Observatório sobre Crises e Alternativas trata. Leia-se, porque é importante encontrar uma visão de futuro. E não necessariamente alguma reinvenção. Apenas outras políticas.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Tentações


Quando se aceleram os ritmos de trabalho na comunicação social, há coisas que ficam pelo caminho.

Uma delas é capacidade de resistir à tentação de ser ligeiro e rápido. E o risco que se corre é o de - na versão mais benigna - haver uma colagem ao sabor das ondas que passam pela comunicação social - e pelas estratégias político-partidárias - superficializando o jornal que se faz.

Títulos que se tornam autênticos editorais, opiniões que se duplicam e se complementam, na prática, numa estratégia de promoção partidária...

.. em que questões pertinentes que ficam arredadas do título - se houve concertação entre CDS e Marcelo Rebelo de Sousa ou a interpretação do CDS do discurso do PR em que o coloca como estando de acordo com a direita - são tapadas com discurso político que já se ouviu em toda a parte.

O dilema das Direcções Editoriais muito orientadas é que, mais dia menos dia, se tornam excessivamente presentes e acabam por colar a sua própria imagem à do jornal, até ao ponto em que os seus donos acharem que seja demasiado, porque degrada o produto. O seu destino fica então marcado com o destino do que se passa na conjuntura externa ao jornal. Ou não, mas nessa altura, tornam-se em algo completamente diferente do que aquilo para que foram criados.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Como se nada fosse

A comentadora económica da Antena 1 Helena Garrido deu um exemplo para explicar ideias do recém-nomeado Prémio do Banco Central da Suécia para as Ciências Económicas, o economista norte-americano Richard H. Thaler.

A ideia era mais ou menos esta:

Os modelos económicos dizem que se os trabalhadores aceitassem uma redução dos salários, o desemprego não subia tanto. Mas como os trabalhadores consideram que isso não é justo, não aceitam. E geram mais conflitualidade, prejudicando a vida das empresas. Por isso, é que se diz que os mercados devem ser flexíveis, para que possam gerar todos esses efeitos. Mas o pensamento das pessoas também tem um papel.

Ou seja, os trabalhadores tomam decisões irracionais - impedir que os salários desçam - porque acham que não justas. E essa decisão não seria justa porque estaria a impedir o emprego (barato!) do próximo. Por outras palavras, é apresentado aos trabalhadores um - falso - dilema, de forma a que a parte do capital no produto criado se mantenha constante...   

Na cabeça da Helena Garrido nem por sombras se questiona aquilo que ela designa por modelos. Todos os modelos - simplificações da realidade usadas para tentar prever o futuro - têm subjacentes pressupostos e sistemas de ideias, algumas mesmos ideológicas. Mas chamar-lhe modelos dá-lhe uma patine de universalidade e infalibilidade que esses ditos modelos estão longe de ter. Sobretudo quando as ideias subjacentes são aquelas em que Helena Garrido foi formada (Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa).

Veja-se a conjuntura de 2010 a 2013 em Portugal.

Os modelos aplicados tinham essa ideia precisamente: corte-se nos salários, desvalorize-se a remuneração do trabalho e a economia crescerá. Porquê? Essa parte não era totalmente dita: porque esse corte salarial se traduz numa apropriação pelas empresas de valor criado, e essa apropriação poderia - poderia... - gerar mais investimento.

E a vida das pessoas que recebem salários? E a desigualdade de rendimento? E mais não seja, o papel impulsionador da procura interna gerado pelos rendimentos do trabalho? Como crescer se a procura interna for deprimida?

Perguntas básicas e essenciais. Mas a Helena Garrido estava longe de as aceitar como tal. E por isso defendeu sempre o contrário. Vejam-se alguns exemplos:

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

"Precariedade" é um conceito bem-comportado

Fonte: Gráfico 1, Inquérito ao Emprego e Quadros de Pessoal, valores actualizados a preços de 2016; Gráfico 2: Inquérito ao Emprego (INE), desemprego em sentido lato (milhares) = desemprego oficial + subemprego + inactivos que querem trabalhar

Qual dos dois gráficos explica o outro?
1) O desemprego está a cair porque os salários estão a baixar? Menores encargos salariais e de despedimento aumentam a margem das empresas para contratar mais mão-de-obra de baixos salários. E, por isso, deve adoptar-se todos os dispositivos legais que impeçam os salários de subir;
2) Ou os salários estão a cair porque o desemprego nunca atingiu tanta gente? Ainda há um milhão de pessoas por empregar. Isto sem contar com a emigração. E isso quer dizer que os salários apenas subirão quando se absorver este desemprego crónico, que se prolonga há década e meia, reduzindo o potencial económico de Portugal, degradando as suas contas orçamentais e da Segurança Social e contaminando o nosso futuro ao empurrar para fora jovens especializados que apenas encontram empregos de baixos salários.

Claro que o aumento da margem de exploração das empresas contribui para um maior investimento. Mas essa subida até poderia ser maior se os trabalhadores fossem escravos.

Ou seja, por alguma razão essa não é uma opção aceitável: há limites à lógica de redução das condições laborais. Mas nesse caso, até onde se está disposto a prescindir de civilização? Será pois vantajoso - porque já nem se fala de justiça - que o emprego cresça, mas os salários desçam, em vez de subir? Como é possível que, mesmo numa conjuntura de recuperação, os trabalhadores não ganhem com isso? Como é possível viver sem revolta a velha máxima "é melhor ter um emprego mal pago do que estar no desemprego", que cria um falso dilema: coloca em cada trabalhador o fardo da responsabilidade, da culpa e do dever submisso, deixando incólume os excedentes das empresas e o papel das empresas em sociedade. E do Estado.

A precariedade contamina cada vez mais os ditos trabalhadores "protegidos", fragilizando vínculos contratuais, mesmo para os contratos permanentes de quem já tenha emprego, reduzindo salários, degradando vidas, envelhecendo populações por incapacidade desta de se rejuvenescer, ou de se renovar.

Isso só acontece porque se abraçou há décadas uma lógica que defende "quem cria emprego são as empresas". E essa lógica aceita - e a palavra é mesmo essa - que haja ainda um milhão de desempregados a exercer uma efectiva pressão sobre os assalariados.

Como é possível que um conceito que é uma degradação social, tenha uma forma de expressão tão civilizada, sem que as campainhas toquem?

É possível porque tudo foi propositado. Tudo foi pensado para ter este efeito. Vem da teoria seguida. Uma teoria errada.


sábado, 29 de julho de 2017

Dilemas de um arrumador de livros


Entrei numa livraria e, por curiosidade, decidi verificar em que secção se encontraria o «Economia com Todos». Dito de outro modo, dei por mim a pensar no eventual dilema que se terá colocado à pessoa encarregue de distribuir os livros pelas estantes, segundo critérios temáticos ou disciplinares, no momento em que olhou para o volume que tinha em mãos.

Fixando-se no título, a decisão terá sido bastante fácil: aquela peça encaixava seguramente na estante dedicada à «Economia e Gestão», apesar de a designação dos autores (Ladrões de Bicicletas) parecer estranha para uma ciência tão rigorosa e que leva tão a sério a sua identidade e as suas fronteiras. Perante esse dado, é possível que tenham nascido dúvidas no que antes parecia ser claro... Talvez o livro pertencesse à secção das «Ciências Sociais», onde cabem temas e disciplinas muito diversos e onde se costumam colocar as coisas que não se sabe bem onde arrumar.

Na incerteza, pode ter surgido a necessidade de folhear o livro, espreitar o índice ou ler um pedaço da introdução. Mas o mais provável é que isso não tenha ajudado muito a resolver o problema. Se alguns capítulos indiciavam estar-se perante um livro de Economia (tratando de assuntos como o neoliberalismo, os desequilíbrios macroeconómicos, o euro, a dívida ou a financeirização), outros apontavam para matérias de âmbito mais social (a globalização, a imprensa ou o emprego). E se outros capítulos sugeriam a secção de «Política» (Estado Social, desenvolvimento de capacidades produtivas ou as eleições em França), havia ainda dois que, de tão intrigantes, pareciam empenhados em não fornecer qualquer pista («Histórias do nosso futuro» e «Tornar possível o impensável»).

Tentando dissipar dúvidas e hesitações, pode ter surgido a ideia de olhar para a contracapa. Sim, estava lá um parágrafo que talvez ajudasse a identificar a estante onde o livro iria parar. Dizia assim: «este é um livro de economia, de política, de economia política e de política económica, escrito por autores que têm partidos e ideologias diferentes e divergentes, mas que convergiram ao longo da última década em torno de temas e valores essenciais, através de um blogue de referência em Portugal - Ladrões de Bicicletas».

Não é difícil imaginar a pessoa responsável pela arrumação taxionómica dos livros a levantar os olhos, a suspirar e a desistir. Talvez por isso eu tenha encontrado o «Economia com Todos» num daqueles expositores que ficam no meio das livrarias, a criar corredores entre as estantes «classificadas» das paredes. É isso mesmo, pensei, este livro fica bem em zonas de passagem, em espaços de circulação entre universos temáticos pretensamente delimitados e, já agora, entre universos de pensamento político distintos, à esquerda.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Draghi, Temer, Macron e Centeno

“As reformas estruturais que reforçaram a negociação salarial ao nível das empresas podem ter tornado os salários mais flexíveis para baixo, mas não necessariamente para cima.”

A afirmação não é de Manuel Carvalho da Silva, mas de Mario Draghi, na sua intervenção no Fórum do BCE, que se realiza até hoje na Penha Longa, em Sintra.

Há alguma ironia, como assina Sérgio Aníbal neste artigo do Público, de ver o presidente do BCE a criticar a excessiva moderação salarial. Mas a sua preocupação não tem directamente a ver com a vida desgraçada de quem recebe baixos salários, na sua vida em gueto social que força a um injusto adiamento do seu futuro, ou no futuro de países em desigualdade social, sem pleno emprego, em desequilíbrio constante e submisso por inerência.

Os macroeconomistas, uns certos macroeconomistas, têm esta carapaça associal que os faz aceitar a desgraça alheia sem revolta, porque supostamente as suas ideias serão melhores para esses desgraçados. A sua preocupação não está no desemprego que provoca esses baixos salários, mas no facto de que a retoma não está a traduzir-se em mais inflação, o que implicaria um fim mais rápido das polémicas medidas expansionistas (taxas de juro muito baixas e compra de dívida pública nos mercados).

Draghi até pode estar sinceramente tenso. Mas o problema é que esse tipo de reformas estruturais ainda se encontra em preparação por todo o mundo, como que conduzido por uma batuta geral, impregnada de uma filosofia vitoriosa. Não se trata de uma questão de eficácia económica e social, mas de uma questão de poder social, do enfraquecimento social de uma determinada visão do mundo, aquela que Corbyn gritou no festival Glastonbury como sendo possível caso a maioria da população lesada se mantenha unida.


É, aliás, significativo que aquilo que Draghi assinala - com punhos de renda - seja precisamente o que visam as reformas laborais defendidas por Temer, Macron (aprovada hoje) e até por... Mário Centeno, fosse ele ministro da área laboral. Aliás, resta saber se o adiamento para 2018 das mexidas na legislação laboral portuguesa não se prenderá, tanto com pressões comunitárias para nada mexer na reforma de 2012, como para evitar medidas mais gravosas, sem fazer perigar o entendimento parlamentar à esquerda.

Veja-se um resumo dos vários programas.

O que defende Temer?

domingo, 23 de abril de 2017

Em busca do bloco central francês?

Começaram as negociações em França para as eleições legislativas de 11 e 18 de Junho. E o que se espera não é nada de bom.

O ponto de partida é mau. Um decepcionante resultado eleitoral coloca os eleitores diante da opção impossível entre a extrema-direita e as políticas que a colocaram na final das eleições presidenciais. E isso até na política externa, que alimenta a imigração e o terrorismo jiadista, com vendas crescentes de armamento à Arábia Saudita. A direita e um PS rendido à direita, que foram os pais da actual situação, acabaram arrastados na lama. Macron pôde ganhar hoje, mas perderá daqui a 5 anos.

Quando se ouve os debates na TV5, parece que várias coisas se tornam claras:
1) o discurso de Marine Le Pen é poderoso, mas o das suas segundas linhas é muito mais do que diz e o que não diz não é nada agradável;
2) os vencidos - a direita e o PS - sonham recuperar nas legislativas e dão já o seu voto a Macron;
3) a esquerda apoiante de Mélenchon critica o falso dilema, o que os coloca sob ataque público;
4) os apoiantes de Macron sabem que o voto útil na 2ª volta não é suficiente para criar uma vaga política e, sem máquina partidária por detrás, terão de negociar já para impedir que as eleições legislativas fragilizem o presidente. François Bayrou, que já se aliou a Macron e que sempre defendeu que primeiro ganha-se a eleição presidencial e depois pede-se aos franceses (ao som da marcha presidencial), que se crie uma maioria em seu torno, deu mostras na TV5 de querer dialogar à direita, face à desconfiança dos apoiantes de Fillon.

No seu discurso e conhecendo já as sondagens que lhe dão a vitória daqui a 15 dias, Macron deu sinais disso: apelou a um rassomblement ainda mais largo. Bem pode, porque o seu discurso foi mole, sem emoção, pequeno. Entre palavras a tocar ao coração e a tentativa de esvaziar Le Pen, o seu objectivo real deverá ser o de conseguir um centrão, mais adiante. O que torna o seu discurso ainda mais sonso.
"O desafio é romper com o sistema que foi incapaz de resolver os problemas do nosso país". "É abrir uma nova página. Em França e a na Europa. É esse o nosso desafio". "É por isso, que quero desde já construir uma maioria nova, com novas faces, novos talentos, em que cada um terá a o seu lugar". Uma força que esteja "de acordo com a renovação, a segurança, libertar o trabalho, refundar as escolas, permitir a cada um de progredir na sociedade..." - e faz uma pausa, levanta a voz - "... e relançar a construção europeia!".
E a plateia aplaude fortemente. Que programa, que mistura, que palavras! Ouvi-lo soa a Hollande em falso e fraco. Mas diz a pivot da TV5: "Grave e lúcido". Percebe-se em quem votou a comunicação social. Aliás, Malika Sorel, ensaísta e apoiante de Fillon, afirmou que os tempos dados pela comunicação social a Macron foram iguais aos tempos juntos dos outros quatro principais. "A comunicação social fez esta eleição", afirmou ela...

Teme-se o pior.