"Assim sendo, enquanto o PS mantiver o apoio popular que as sondagens mostram, a direita não terá acesso ao governo. Com a entrada em cena do Chega, o BE e o PCP estão condenados a apoiar o PS até ao fim da legislatura, mesmo que não gostem do resultado das negociações." (Escrito a 27 Janeiro 2021,
aqui).
Quando escrevi isto tinha a clara consciência de que o eleitorado das esquerdas temia a ascensão da extrema-direita e o regresso da austeridade selvagem. Mesmo que estivesse pouco satisfeito com o governo, o eleitorado das esquerdas olhava para o BE e o PCP como o suporte do PS para travar a direita; não via (e não vê) estes partidos como alternativa. O PCP e o BE tinham caído numa situação em que estavam obrigados a apoiar orçamentos neoliberais, de que globalmente discordam, por não terem sido capazes de, atempadamente, construir uma posição minimamente sustentável fora da geringonça.
Desde o início que os partidos da esquerda não perceberam que aquela solução política foi apenas um expediente de emergência para a derrota do PS em 2015, uma solução política conjuntural, embora muitos nela depositassem a esperança num frentismo de outros tempos. Acreditavam que, com António Costa, o PS podia entender-se com a esquerda por mais tempo. Na verdade, o PS é um partido social-liberal, bom-aluno europeísta, e só pretendia fazer as cedências estritamente necessárias para manter a primeira legislatura. Depois, adeus à 'geringonça'.
Para mim, foi penoso ver o encantamento das esquerdas com a respeitabilidade adquirida a partir do acordo-'geringonça'. Foi penoso ver a insistência na disponibilidade para novos acordos com o PS. E foi penoso ver, com a rejeição do Orçamento de 2022, que (aparentemente) não perceberam a gravidade do dilema com que estavam confrontados.
Absorvidos pela dinâmica parlamentar do compromisso, descuravam a crítica pedagógica à retórica das contas certas, não conseguiam (não queriam) constituir uma frente comum para negociar com o PS, e julgavam que para ter credibilidade política bastava falar de salários, pensões, saúde e outros temas sectoriais sem os enquadrar num projecto de sociedade alternativo ao neoliberalismo da UE. Sobretudo no BE, o discurso evita o tema do euro apesar de ele estar subjacente a quase tudo, como se viu nos debates.
A direita que mais cresce não tem qualquer pudor em afirmar-se neoliberal e anti-sistema. Assume que é alternativa ao "socialismo"(!!) de António Costa e dos que o apoiaram. A direita tem uma ideologia bem conhecida e um modelo de sociedade individualista e desigual que não tem pejo em defender, mesmo depois do que fizeram com a troika. E a esquerda? Qual é a sua ideologia? Que modelo de sociedade propõe? A única vez que durante a campanha ouvi algo desta natureza foi pela voz de Pedro Nuno Santos, no comício de Aveiro.
Naquele mesmo post escrevi:
"As esquerdas têm a obrigação de oferecer uma interpretação alternativa para o caminho que fizemos até aqui e para os obstáculos que impedem o nosso desenvolvimento. A meu ver, têm de oferecer um projecto de sociedade que seja mobilizador, capaz de trazer para o seu lado uma parte importante do voto dos desiludidos com o que a democracia lhes deu, além de outros. E isto exige muitíssimo mais do que trabalho parlamentar; exige diálogo unitário e exige militância de base ao lado dos que ficaram para trás em todo o país. Espero que ainda haja tempo."
Confesso que estou céptico quanto à capacidade de mudança das esquerdas que temos. Se expressões como "não baixar os braços" ou "estamos cá para a luta" significam uma atitude de resistência e que nada de fundamental vai mudar, então o destino da nossa esquerda será o da esquerda de outros países da UE, em particular na Itália e na França.
Mais do que nunca, alternativa de esquerda, precisa-se.