sábado, 16 de dezembro de 2017

Note-se

Sinceramente, não compreendo como é que se pode andar por aí a saudar as decisões das agências de notação, mesmo que seja por oportunismo. O movimento recente de melhoria da notação da República dá jeito, eu bem sei. Note-se, no entanto, que quem não tem memória e quem aceita as estruturas financeiras por reformar, até pode ganhar alguma coisa no curto prazo, mas perde também sempre qualquer coisa no curto prazo e tudo no médio e no longo.

Note-se que estamos a falar de instituições que tiveram responsabilidades pela crise financeira, iniciada em 2007-2008, validando todo o lixo financeiro que a ganância sem trelas regulatórias relevantes conseguiu inventar até aí. Esta crise tramsmutou-se na zona euro em crise da dívida que não era, e que continua a não ser, soberana, dado que está denominada em moeda estrangeira. Neste caso, as agências validaram toda a especulação contra os elos periféricos mais fracos.

Enfim, é importante relembrar o movimento de opinião e de contestação que por cá se gerou em torno da acção destas instituições, cujo poder é, em larga medida, efeito do lugar que os poderes públicos lhes atribuem. Entretanto, nada mudou, note-se, porque a UE está feita para aprofundar e não para mudar a lógica neoliberal. É claro que para Estados monetariamente soberanos os danos que estes oligopólios norte-americanos podem inflingir são menores. Na realidade, estas anti-democráticas agências dançam ao ritmo do pós-democrático BCE, o soberano da zona. Os povos dos Estados, claro, não são tidos nem achados.

É por estas e por muitas outras que falar de uma próxima crise financeira não é nada descabelado. Afinal de contas é uma previsão que assenta num padrão recorrente desde que a liberalização financeira se generalizou nos anos oitenta.

8 comentários:

Geringonço disse...

Por volta de 2000 as agências de notação insistiam que uma das maiores eléctricas do mundo, a Enron, era uma empresa sólida que valia cada tostão investido, passado pouco tempo essa empresa faliu...
Tal como a banca falida e parasitária, a Enron foi mais um caso de polícia.

Memória, há quem insista em não a ter.

Jose disse...

«que continua a não ser, soberana, dado que está denominada em moeda estrangeira»... uma subtileza para iniciados nos mistérios.

Todo o poder das agências resulta de a sua opinião tornar capitais inacessíveis ou caros.
Nada que interesse a verdadeiros soberanistas que se governam com o que produzem.

Anónimo disse...

Falar de uma próxima crise financeira não é descabelado, mas dá-la por certo a curto prazo não é apenas uma precipitação descabelada, uma confusão de possibilidades conjunturais com necessidades a prazo que pode ser bastante mais longo, uma confusão de riscos com certeza, é sim uma cretinice. Um bom exemplo de previsões furadas, que anunciava a crise até ao final de 2016 (no parágrafo final):

https://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/01/18/uma-nova-crise-nao-e-um-risco-e-uma-certeza/

A.R.A revolução disse...

Desde de 31 de Dezembro de 1992 que nos passámos a achar o máximo, cheios de urbanidade entrando no "jogo" com 3000 pontos e com muita vontade de "jogar" com os Big Dogs da finança e, aos poucos, aquilo que ainda dava pelo nome de economia real passou num ápice a denominar-se numa economia de subsidio e de cotas a cumprir.

Depois temos as agências de notação a distribuir as fichas do "jogo" e a definir os "players" para as respectivas mesas de "jogo" determinando o seu nível de acesso ao el dourado dos mercados.

Só que esta economia de casino baseia-se num "jogo" de azar onde, por defeito, a percentagem maior dos ganhos sai sempre a casa que vive do incentivo ao endividamento para aumentar a sua percentagem dos lucros através de crises cíclicas determinantes para que o "jogo" continue mas, para tal, haverá sempre a necessidade de criar uma banca paralela de aprovisionamento dos ganhos sem que os endividados lhes possam ter acesso tributário e assim as offshores (ex. Luxemburgo gate) e ou engenharia financeiras (ex. Panamá papers) são o verdadeiro banco do casino.

Portanto, e em estilo de conclusão, as agências de notação são uma parte do problema mas não o problema em si pois se existir realmente vontade politica atacando o "banco do casino" era um golpe de morte para o "jogo" ou pelo menos mudar as regras do mesmo, contudo, continuamos mui urbanos e cheios de fezada de continuar a ir a "jogo" ou não tivessem os Portugueses 21% do PIB em Offshores.

Jaime Santos disse...

Não vale a pena como é óbvio embandeirar em arco. Agora, que uma subida da notação é boa porque muito provavelmente significa juros mais baixos, o que permite a libertação de recursos para outros fins mais nobres, isso é verdade. Quanto à possibilidade de uma próxima crise, pois com certeza, resta saber se quem a anuncia deseja com isso evitá-la (julgo que é esse o caso de Francisco Louçã) se se regozija pelo contrário com a sua ocorrência...

Mário Reis disse...

É corajoso e consequente o trabalho do João Rodrigues e de muitos outros que questionam como construir um bem maior e mais justo. É um incentivo à organização de vontades para que se estude este mundo cada vez mais desigual, se fomente vigilantes conscientes do logro, desmontadores das falácias e das ideologias castradoras da justiça e bem estar e funcione como grupo de pressão de uma reconstrução ética da vida com o outro.
Do outro lado, ‘(…) estão os casulos que dão poder a quem neles habita. Estes conhecem antecipadamente os métodos a utilizar e os percursos a palmilhar, não têm de aprender novas técnicas e dialogar. A linha do horizonte está desenhada: Tudo depende deles, todos têm de se vergar à sua imprescindibilidade. O futuro será a continuidade do passado, mesmo que estes sejam de mais dias ou anos que o possível e necessário.’

Anónimo disse...

Jaime Santos por favor, não vire o bico ao prego.
Parece um daqueles sujeitos matarruanos que quando a meteorologia chama a atenção para a proximidade de um tufão e este acontece, culpa do sucedido a meteorologia

Anónimo disse...

"Todo o poder das agências resulta de a sua opinião tornar capitais inacessíveis ou caros".

Esta frase é um exemplo perfeito da coisa anódina que o é apenas para esconder o essencial

Bem vistas as coisas o poder pode-se definir desta forma. Todo o poder do poder resulta da opinião do poder ter consequências concretas..

Desta forma se escamoteia como se alcança tal poder, a sua génese, quem detém o poder e a quem serve o poder. Rasura-se e esconde-se tudo o que este excelente e oportuno post diz sobre as agências de notação, para que servem e a quem servem. Joga-se com as palavras num exercício malabarista que tresanda a cumplicidade. Com as agências e com o sistema em que se enquadram.


A prova, se necessário fosse, está na conclusão final: "Nada que interesse a verdadeiros soberanistas que se governam com o que produzem".

O desejo confessado e pueril que estes temas não sejam alvo nem do interesse, nem do debate.

Para, claro, ficar tudo em família, perdão, rimani tutto in famiglia