quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Três derrotas

1. Juntem austeridade e globalização, inscritas no europeísmo realmente existente e criadoras de fracturas sociais e nacionais cada dia mais intensas, adicionem ataques terroristas e a vertigem securitária subsequente, aparentemente validadora da narrativa de uma extrema-direita que hegemoniza a insegurança social e nacional justamente sentida pelas classes populares, e têm o prato que foi servido nas eleições regionais de Domingo: a Frente Nacional é de novo o maior partido francês. Entretanto, as esquerdas francesas, em geral, e a dupla Hollande-Valls, em particular, e só podemos falar de “esquerda” neste último caso com aspas, são uma desgraça sem fim. No país que se orgulha de ter inventado a soberania popular, importa repetir a pergunta dirigida aos que deixaram o terreno nacional-popular livre, refugiando-se nos europeísmos inanes, esquecendo grande parte da sua história: como é que se diz depois queixem-se em francês?

2. Estava para escrever sobre a pesada derrota da esquerda bolivariana nas eleições legislativas venezuelanas, mas os comunistas portugueses dizem muito do que eu queria dizer. Acrescento só que a linha dominante na imprensa nacional é escandalosamente enviesada, sendo inspirada na imprensa internacional mais reaccionária no que à América Latina diz respeito: estranha ditatura esta em que a oposição ganha eleições participadas e plurais; apesar das dificuldades, é preciso lata para falar do caminho para a miséria no contexto do processo bolivariano, já que este país foi um caso de progresso social até à crise, graças aos triunfos eleitorais do chavismo. O que esta crise deixou à vista foi a fragilidade de um modelo ainda demasiado dependente da renda do petróleo, cujo preço colapsou, o que juntamente com erros de política cambial explica o essencial da crise. É, no entanto, melhor um modelo de redistribuição dessa renda do que a alternativa antes do saudoso Chávez, bem mais desigual e pauperizadora. De resto, a esquerda bolivariana ainda não está acabada, já que controla a presidência, o poder executivo.

3. Interrompida por via eleitoral foi também a experiência Kirchner na Argentina, até porque Cristina não pôde recandidatar-se à Presidência, depois de dois mandatos consecutivos, deixando o poder com níveis de popularidade recorde. O candidato de continuidade não conseguiu beneficiar disso face a uma direita neoliberal revigorada. A experiência de recuperação económica e social soberana depois do desastre neoliberal do início do milénio foi globalmente muito positiva, incluindo na capacidade de passar incólume até agora pela crise internacional, graças à mobilização de todos os instrumentos de política económica. Apesar do revés, também é cedo para dizer que o kirchnerismo está acabado. Cristina andará por aí e não há como a passagem dos neoliberais pelo poder, com a sua abertura à finança internacional e às crises, para avivar memórias. Dito isto, a excessiva dependência de lideranças carismáticas nas experiências nacional-populares é obviamente sempre uma fraqueza a prazo, como ficou à vista.

7 comentários:

Jose disse...

Percebi.
Sem uma autarcia organizada em centralismo democrstico nada funciona bem, nem tão pouco dura.

Já ouço isso desde que me conheço e ainda não vi um caso de sucesso.


Luís Lavoura disse...

os comunistas portugueses dizem muito do que eu queria dizer

Olha que surpreendente!

Eu diria que isso acontece quase sempre.

Antonio Cristovao disse...

Ia para recomendar uma viagem um pouco prolongada pelos bairros de Paris, Marselha, Toada a Belgica e Holanda e Birmigham, mas perante as considerandos sobre o chavismo penso que é inútil. Pena que as ambições de 1935 e o que temos hoje em todo o mundo, excluindo Coreia não se adapte o discurso à realidade.
Talvez não seja assim tão estranho admitir que exista gente com o discurso dos islamitas radicais; estranho é que a direita em Portugal considere que os votos dos comunistas não valem, igual ao que dizem os comunistas dos votos da FN em França.
Mentecaptos ou demasiado inteligentes?

Anónimo disse...

Foram derrotas difíceis de assistir, mas conseguiu colocar algum optimismo nos pontos 2 e 3. Obrigado!

Manuel Silva disse...

Uf!
O homem marcou o ponto ao 1.º minuto do dia 10.
Pontual e muito cumpridor dos deveres.
Paga a conta, Passos... e não bufes.
Çolaboradores assim há poucos, especialmente nos tempos de deserção que se avizinham.

Anónimo disse...

Três derrotas? Não diria tanto.
Na Argentina, na Venezuela a experiencia das ditas novas vias politico/sociais sem sair do sistema anterior, são isso mesmo –“experiencias” cujas, integradas no contexto geopolítico global serão efémeras. Não são carne nem peixe!
Acresce que com o povo não se deve brincar. Ademais, fazer de um País uma espécie de “laboratório” providenciario deveria ser considerado crime contra a humanidade.
Na França, a questão e´ muito antiga, vem de longe.
A história da França, e sua situação geográfica na Europa, falam por si. Ela deixou de ser o “centro do mundo ocidental” para passar a´ periferia e os franceses sentiram-no bem.
Depois, ter no governo francês troca-tintas como François Holland não favorece. Como dizia o velhinho – e´ tudo farinha do mesmo saco — de Adelino Silva



Anónimo disse...

LLLLLLLLLLLOOOOOOOOLLLLLLLLL, voces sao ridiculos!! Eu trabalho com um Venezuelano na Irlanda e o que ele diz destes comentarios e artigo e que voces nao sabem nada! Bando de ignorantes, voces vivem na lua. Algum de voces ja esteve na venezuela para estarem a falar? Impressionante como conseguem desculpar grandes barbaridades feitas so porque sao de esquerda. Ganhem humildade primeiro antes de falarem.