sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Meias verdades do Instituto +Liberdade: o crescimento da Irlanda

Nas últimas semanas, o Instituto +Liberdade tem publicado vários gráficos onde destaca o crescimento económico da Irlanda no período da pandemia (por exemplo, aqui ou aqui). Enquanto a maioria dos países ainda tem tido dificuldades em lidar com os impactos económicos das medidas de confinamento aplicadas ao longo dos últimos dois anos, a economia irlandesa surge como a mais bem-sucedida na recuperação da crise, apresentando números de crescimento na ordem dos dois dígitos. Olhando para os dados de 2021, o instituto nota que “a Irlanda destaca-se com o crescimento mais elevado de 21,9% face a 2019”.

No entanto, não deixa de ser curioso que os liberais não tenham prestado atenção à opinião do próprio Ministro das Finanças irlandês, que alertou recentemente para o facto de o PIB não espelhar o que tem acontecido na economia real do país desde o início da pandemia. Se o tivessem feito, perceberiam o motivo: os valores encontram-se significativamente inflacionados pelo impacto das mais de 1500 multinacionais que têm sede no país e que aí registam resultados.

Os resultados das maiores multinacionais têm um enorme impacto no PIB: em 2018, o FMI estimou que cerca de ¼ do crescimento irlandês se devia apenas às vendas globais de iPhones e aos valores que as restantes unidades da Apple pagavam à sede irlandesa. No ano seguinte, investigadores da mesma instituição publicaram um estudo sobre o Investimento Direto Estrangeiro onde mostram que a Irlanda é um dos países que mais beneficia de “investimento fantasma”, isto é, investimento que “passa por empresas fantasma vazias sem qualquer atividade real” no país, apenas para escapar aos impostos noutras paragens.

Foi isso que levou o ex-governador do banco central da Irlanda, Patrick Honohan, a publicar no ano passado um artigo com o título “A Irlanda é Mesmo o País Mais Próspero da Europa?”. A resposta de Honohan é simples: não. Aliás, o ex-governador considera que o PIB é “claramente enganador” como medida da atividade real do país, uma vez que os números são distorcidos pelos lucros registados por multinacionais que têm pouca atividade real no país.

Muitas das multinacionais sediadas na Irlanda têm registado um grande aumento da atividade desde o início da pandemia: é o caso das multinacionais tecnológicas, que se tornaram ainda mais presentes no dia-a-dia das pessoas devido ao teletrabalho e às novas formas de consumo online, tal como das grandes farmacêuticas, que têm registado lucros extraordinários. O crescimento das exportações destas empresas acabou por mascarar a quebra da atividade económica doméstica na Irlanda, mas o Ministro das Finanças lembrou que “este crescimento vem de um número muito reduzido de setores, que representa pouco emprego doméstico” e sublinhou que “o PIB não é uma medida adequada do que está a acontecer na economia irlandesa”.

Sem grande surpresa, os ganhos das multinacionais não têm chegado a todos os irlandeses: na verdade, a Irlanda possui níveis de desigualdade de rendimento particularmente elevados, apenas mitigados pelo sistema fiscal progressivo que garante alguma redistribuição. Além disso, a estagnação dos salários e o rápido crescimento dos custos com a habitação têm tornado as condições de vida mais difíceis para os jovens.

Nada disto pode ser encontrado nos gráficos do Instituto +Liberdade, que mostram apenas o crescimento do PIB sem qualquer explicação sobre as suas causas. Contar apenas metade da história não contribui para um debate informado.

1 comentário:

Jose disse...

Sem surpresas, os valores do PIB não traduzem necessáriamente a saúde das economias.
Sendo vendido como uma espécie de indicador de 'tensão arterial' pode não passar de um medidor de uma qualquer taquicardia.
Como valor seguro é-o, segundo as mais recente análises, para a percentagem da dívida.