quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

De cimeira em cimeira até ...


Da minha coluna no jornal i:

Segundo, à crise do euro junta-se uma crise política de consequências imprevisíveis. A Alemanha quer refundar a UE à luz dos princípios do ordoliberalismo, a versão do liberalismo económico teorizada por economistas alemães entre os anos 30 e 50 do século passado. Esta corrente de pensamento pretende substituir a intervenção política na condução da economia por regras que entende serem apolíticas. Normas jurídicas, algumas de nível constitucional, e a intervenção de tribunais para aplicar sanções aos prevaricadores garantem nas melhores condições o respeito pelos direitos de propriedade, a concorrência e o valor da moeda. O ideal ordoliberal é a redução da democracia ao estado de direito, ou seja, uma democracia com deliberação política mínima. Por isso, a política monetária deve ser conduzida por um banco central independente e a política orçamental deve ter regras que limitem a acção do governo.

Crente do ordoliberalismo, a Sr.a Merkel exigiu um governo económico do euro constituído por regras tanto quanto possível isentas de deliberação política no plano europeu. Através do visto prévio dos orçamentos, pretende liberalizar as leis do trabalho e formatar as instituições do estado-providência segundo o seu modelo, mesmo que isso signifique o desmantelamento da identidade institucional e cultural de cada estado-membro. Exigiu também, através de uma norma de nível constitucional, a eliminação da política orçamental nos períodos de recessão, mesmo que o modelo do “estado espectador” signifique o afundamento na depressão. Em rigor, e com excepção do Reino Unido por más razões, a Alemanha convenceu os governos dos estados-membros da UE a celebrarem um pacto de suicídio por fora do Tratado. Neste momento até os especuladores percebem que este caminho não tem saída. Vem aí outra cimeira.

3 comentários:

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Merkel, Cameron e 25 Chamberlains.

Zuruspa disse...

Antes ordoliberalismo que neoliberalismo. À conta do 1.o a Alemanha é a potência que é, à custa do 2.o os EUA e RU säo as ex-potências que säo.

E quando o ordoliberalismo estiver constitucionalizado, a Merdkel logo tem que aceitar as eurobrigaçöes.

Até porque com a pequeno-burguesizaçäo grassante na Europa, näo há maneira de implementar para já aquela coisa experimentada a partir de 1917:











a social-democracia nórdica! Implementada em 1917 e ainda näo repudiada, nem pelo actual PM neoliberal, porque ele sabe que os suecos näo säo de todo parvos!

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Liberais, neoliberais, ordoliberais, austríacos, marxistas, neomarxistas, keynesianos, neokeynesianos... Por mim, estou convencido que as melhores soluções para a crise actual terão que se fundar em modelos keynesianos; mas nunca me ocorreria constitucionalizar estes modelos nem quaisquer "regras de ouro" que deles decorressem, porque ao fazê-lo estaria a ilegalizar todos os outros. E ilegalizar ideias é sempre desastroso.