segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Perguntou a Rainha: “Como é que ninguém viu aproximar-se a crise?”


Em Novembro do ano passado, numa sessão solene realizada na London School of Economics, a Rainha Isabel II lançou a seguinte pergunta aos economistas aí reunidos: “Como é que ninguém viu aproximar-se a crise?”

Robert Skidelsky comentou há dias no Financial Times este episódio e reflectia sobre o estado do ensino da economia nas universidades britânicas. Na mesma onda, algumas semanas antes, um colunista do The Washington Post questionava:

“Um intrigante sub-enredo da crise económica é a incapacidade de a maioria dos economistas tê-la previsto. Eis-nos perante a mais espectacular crise económica e financeira em muitas décadas – provavelmente desde a Grande Depressão – e um grupo que passa a maior parte do tempo em que está acordado a analisar a economia na prática não deu por ela. Sim, alguns economistas podem reclamar com legitimidade alguma previsão. Mas são um pequeno punhado. A maioria ficou tão surpreendida quanto o resto da população.”

Além de identificar o limitado reconhecimento da retroacção entre a esfera financeira e a esfera real da economia nos modelos mais divulgados, o autor destaca a flagrante ausência da história na formação dos economistas:

“Regra geral os economistas pouco se interessam pela história. Os livros de introdução à economia gastam pouco tempo, se algum, a explorar os ciclos económicos do século XIX. Toda a atenção vai para os “princípios da economia” (título de grande parte dos manuais básicos), como se a maior parte fossem eternos. Dedicaram o seu esforço a construir modelos matemáticos elegantes. “Durante anos os economistas teóricos usufruíram de elevado estatuto”, escreveu o historiador da economia Barry Eichengreen da Universidade da Califórnia em Berkeley. “Eram os membros mais prestigiados da profissão.”

Como recorda Niall Ferguson de Harvard, “a história é complicada e feita de constante mudança. Flui com as instituições, tecnologias, leis, valores culturais e religiosos, governos, crenças populares e muito mais. A construção de modelos e a teorização por vezes conseguem fazer simplificações que permitem entender alguma coisa. No entanto, os pressupostos dos modelos tendem a afastar-se tão radicalmente da realidade que as suas conclusões se tornam inúteis.”

Com a honrosa excepção também aqui divulgada, o debate sobre o estado da disciplina em Portugal é pobre não sendo de admirar o silêncio sobre um texto recente em que 10 economistas britânicos deram um contributo adicional sobre a questão colocada por Sua Majestade. A dado passo afirmam: “Os modelos e técnicas são importantes. Mas dada a complexidade da economia global, torna-se necessário um leque alargado de modelos e técnicas governados por muito maior respeito pela realidade substantiva, e muito maior atenção aos factores históricos, institucionais, psicológicos, e outros altamente relevantes.”

Comentando este debate no Reino Unido, Tony Lawson de Cambridge escreveu recentemente um artigo que vale a pena ler (acesso restrito) onde, em linha com o que vem defendendo há muito, afirma que o problema da economia não é o da escolha dos modelos matemáticos mais adequados. O dedutivismo matemático praticado pelos economistas [enquanto profissão] é que é o problema. Diz Lawson: “O problema fundamental da moderna economia, tal como o vejo, é a insistência do pensamento dominante em que a modelização matemática é a única forma, útil e adequada, para praticar economia.”

Interrogo-me sobre quanto tempo (quantas crises) teremos de viver para que o pensamento dominante em Portugal tome consciência que a exigência de pluralismo científico e responsabilidade social interpelam seriamente os departamentos de economia, e muito em particular aqueles que atribuem grande valia a “working papers” sobre os quais Mark Blaug, com apropriada ironia, poderia dizer: “Por favor, realidade aqui não. Somos economistas.”

16 comentários:

CN disse...

Tanto esforço para ignorar os "austríacos". Mises tem um texto escrito em 1928.

Prever as crises (e as bolhas que as antecedem) deve primeiro partir da lógica das coisas e só depois da observação e modelos.

São os períodos de taxa de juro real baixa e aumento quantitattivo de moeda e crédito que fazem as bolhas as quais necessariamente têm de acabar em crise no momento em que o sistema monetário reduz o ritmo de crescimento da expansão de crédito, dado que se o mantiver, a inflação acelerará.


Seja com for os sinais de bolha e previsão de inevitabilidade de crise foram uma constante nos economistas austríacos, em especial os mais ortodoxos.

E ver Peter Schiff em 2006 e 2007 contra tudo e todos na CNBC

Peter Schiff Was Right 2006 - 2007 (2nd Edition)
http://www.youtube.com/watch?v=2I0QN-FYkpw&feature=video_response

Anónimo disse...

A economia planificada também tem bolhas?

Anónimo disse...

a economia planificada bolhas não terá , mas terá buracos , como é evidente , anónimo anterior. planifica com homens e possível rentabilidade ( imagine que ficam todos com gripe suína , ou que como é óbvio , não rendem todos o mesmo , ou lhes dá por fazer outra coisa ) e com recursos que também não são certos ( que tal um terramoto ou uma seca ou uma praga ou uma nova tecnologia ou sei lá mais o quê). planificar tendências , ainda vá , mas deixe lá o resultado em aberto , é capaz de ser mais sensato. não lidam nunca com dados e comportamentos certos , o grau de incerteza é grande .fabriquem bussolas e mapas , contem com possiveis tempestades , dias sem vento ...e talvez cheguemos a bom porto , e se o barco fôr sólido. contar com mar calmo é de ingénuos perigosos que nunca foram ao mar nem leram relatos de viagens passadas.

ricardo schiappa disse...

"...Tony Lawson de Cambridge escreveu recentemente um artigo que vale a pena ler (acesso restrito) onde, em linha com o que vem defendendo há muito, afirma que o problema da economia não é o da escolha dos modelos matemáticos mais adequados. O dedutivismo matemático praticado pelos economistas [enquanto profissão] é que é o problema..."

o texto é interessante mas não percebo ao certo o que defende o tony lawson (e sendo de facto um artigo de acesso restrito, poderia ser interessante fazer um post a desenvolver as ideias nele apresentadas?).

vejamos, se "a matemática é que é o problema" se refere à construção da teoria económica num cenário axiomático que mais lembra a matemática pura do que as ciências naturais (necessariamente de base experimental), então muito bem.

mas se "a matemática é que é o problema" se refere à matemática em geral, então não me parece fazer qualquer sentido. as afirmações estatísticas associadas a comportamentos e tendências medidas são um problema? os estudos baseados em fenómenos críticos que permitem a didier sornette perceber o surgimento das bolhas é um problema? et cetera... pergunto-me mesmo o que será fazer economia sem matemática: nem sequer podemos falar de crescimento ou diminuição?

se quiser desenvolver o tema, fico grato!

Jorge Bateira disse...

Caro Ricardo,

Não se trata de deitar fora a matemática. Trata-se de a usar no quadro de uma metodologia informada por um entendimento realista dos fenómenos sociais. É preciso conhecer as potencialidades e os limites dos metodos matemáticos no processo de explicação de fenómenos dinâmicos com organizacão muito complexa. Mais ainda quando se trata de fenómenos com dimensao simbólica, inerentes à natureza humana.
Não esqueça que a economia, a sociologia, a ciência politica, a antropologia, … apenas estudam parcelas de uma mesma realidade, a realidade social. A Ciência Social tem como objecto de estudo essa realidade muito diversa. Ao contrário do que muita gente pensa, a economia é apenas uma sub-disciplina da Ciência Social, a que estuda o modo de provisão das nossas comunidades. Os métodos de abordagem à realidade empírica têm de ser os adequados ao objecto de estudo em causa (quantitativos, qualitativos, narrativas, história comparada, triangulações de métodos) .
Para entender a crítica do Tony Lawson aos abusos da econometria tradicional, para além dos livros que encontra numa pesquisa na Amazon, para começar sugiro-lhe estes 2 artigos apenas pela facilidade de acesso:

http://www.questia.com/googleScholar.qst?docId=5000282254

http://www.ipss.go.jp/publication/e/r_s_p/no.10_p155.pdf

Boas leituras.

ricardo schiappa disse...

obrigado pelos artigos!

O Puma disse...

Economia um

resto do mundo

zero

A questão que alguns colocam

será sempre

ao serviço de quem?

Anónimo disse...

Que eu saiba um banco é uma empresa como outra qualquer, o fim de uma empresa é NUNCA falir.
Ora como nisto, os bancos, são diferentes, de todas as outras empresas, lidam por isso somente no dinheiro, essa vil mercadoria.
Quem é que está a dizer que estamos a olhar para uma crise? Será que não são os próprios bancos?
Na Europa, um dos países fundadores da actual União Europeia, que começou por ser onde esses países utilizavam somente Aço e Carvão como medida de trocas económicas, dizia eu, que no ano passado, um dos bancos mais ricos do mundo, que estavam entre os dez mais valorizados, foi de um dia para o outro nacionalizado.
Crédito para saber que a crise está a ser atingida às pessoas simples e modestas?
Na tasca onde diariamente vou, vejo tudo menos crise, as pessoas vivem no seu dia a dia, e não sentem nenhum problema sobre o dinheiro que pagam para o seu almoço. Agora se olharmos para um banco, veremos as coisas de uma maneira totalmente diferente, os banco não teem dinheiro, e portanto estão cheios de fome.


A crise começa nos cartões de crédito. O seu banco tem dinheiro suficiente para cobrar o que deve? Pense nisso, e depois vai ver que a crise é um actual ataque cardíaco* dentro dos bancos.
Ah só para dizer, que se todas pessoas fossem ao mesmo tempo ao mesmo banco, os banco de um dia para o outro acabariam por se extintir.
Quanto dinheiro é que teem no banco?

Anónimo disse...

Qual crise ? Os EUA imprimiram do nada 1750 biliões de dólares, se não fossem os bancos centrais mundiais a aceitar os dólares impressos do nada, neste momento o dólar valeria quase zero . A verdadeira crise ainda está para chegar.

Anónimo disse...

Gostei muito do post!

João Marco disse...

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Anónimo disse...

A verdade é que, como alguém já disse, a economia é importante de mais para estar a cargo dos economista.!
Ou terá sido que a politica é importante de mais para ficar entregue aos politicos.!?
Olha.! Não sei bem: mas qualquer das afirmações me parecem verdadeiras.

João Costa disse...

E estes ricalhaços viram chegar a crise? Pergunto eu....

http://www.mannadey.in/UserFiles/listaX.pdf

Anónimo disse...

porque não leram Vasquez Montalban ? no El prémio (1996) já avisava no que iria dar a globalização. E , não sei , mas não é preciso ser um ás para ter percebido há uma dúzia de anos atrás que crédito à habitação cá e empregos a voar para lá ia dar tragédia da grossa , 1º cá e depois lá , lá também , porque vendiam cá.
E ainda não percebo como ninguém vê que importar alimentos só faz lucrar os que vendem petroil. brum, brum , aviões para lá e para cá , camiões idem aspas. E terrinhas tão boas nativas ao abandono. ai , a visão futurista é assim um bocadinho pró pretensiosa e cegueta.

Rui Fonseca disse...

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Se uma nova crise ocorrer dentro de pouco tempo muitos culparão os economistas de não preverem as crises. E mesmo alguns economistas acusar-se-ão mutuamente como se lhes tivesse sido atribuída alguma competência divina para prevenir a pulhice humana.
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vd. artigo na íntegra em
http://aliastu.blogspot.com/2009/08/by-walter-hamilton-los-angeles-times-in.html

Tomás Vieira disse...

O problema não é quando vier a próxima, já que a actual está ainda longe de terminar.

Preparam-se mais bolhas para rebentar nos EUA e não só (mercado imobiliário comercial, mercado accionista); o fiat money que tem sido injectado nos diversos países e respectivas economias como tentativa ignorante de estimular a economia, terá como ultimo estágio a hiper-inflação; os países continuam a endividar-se cegamente; as taxas de juro ridiculamente e artificialmente mantidas baixas ou mesmo nulas irão mais tarde ou mais cedo aumentar para tentar combater a inflação, quando isso acontecer assistiremos mais uma vez a falências de empresas e a pessoas ficarem em grandes dificuldades; e por ai adiante, ficávamos aqui a noite toda.

Existem pessoas que conseguiram prever todas as crises do ultimo século, com décadas de avanço. Utilizando a lógica e a correcta teoria ecónomica (praxoelogia), analisando os fundamentais ignorados e marginalizados pela actual economia mainstream, foi possivel prever esta crise, é possivel entender as proporções da acutal crise, e como será a nova geografia económica mundial.

Esta crise já deveria ter acontecido com um impacto menor, o mercado agora limita-se a tentar (mas mesmo assim existem resistências titânicas) corrigir os erros provocados pela falácia de assumir que meia dúzia de pessoas possui capacidade para determinar constantemente o equilíbrio de mercado, ditado pela acção de milhões e milhões de pessoas, num processo dinâmico que faz com que a economia tenda para o equilíbrio mas nunca o alcance. Estes erros são justificados pelas decisões baseadas numa muito limitada informação em comparação com a informação total que o mercado possui.