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domingo, 21 de novembro de 2021

Querido diário - as poupanças "libertadas" não geraram emprego...


À medida que se somam décadas de estagnação da economia portuguesa, sem que os actuais enquadramentos institucionais europeus permitam a sua resolução, torna-se cada vez mais gritante o falso debate que o PSD colocava em 2012 e que, criminosamente, a velha direita, com as suas novas roupagens, insiste em achar que é - ainda! - o grande dilema de Portugal:
"O aviso é claro: o PS tem de “optar entre ter aumento de impostos e reduzir a despesa pública”. Para o PSD, o partido de António José Seguro tem hoje três opções: ou aceita discutir a redução de quatro mil milhões de euros na despesa e evita novos aumentos de impostos; ou recusa reduzir e então tem de assumir que admite mais impostos; ou nenhuma destas e então tem de explicar aos portugueses como se cumprem as metas orçamentais e o memorando a que o próprio se comprometeu com a troika." (Jornal Público de há 9 anos)
Mais criminoso ainda, quando - face a esse falso dilema - a estratégia do PSD/CDS foi cortar na despesa pública. E, por estranho que parecesse nas suas cabeças, os recursos públicos libertados não serviram para dinamizar a economia - como hoje defendem as mentes envelhecidas e desmemoriadas dos dirigentes da IL que macaqueiam aquilo que foi martelado em 2012.

Os cortes na despesa pública, a busca de um superávite orçamental que libertasse as poupanças privadas para que fossem canalizadas para o investimento produtivo contribuíram, sim, para uma imensa recessão. E essa recessão levou a uma histórica fuga de jovens qualificados e uma explosão do desemprego que levou o poderoso ministro das Finanças - sempre citado a dizer em Conselho de Ministros "Qual é a parte da frase não há dinheiro que não entende?" - a fugir do Governo em Julho de 2003 para e voltar a emergir... no FMI.


Na verdade, é tudo ao contrário: em regra, um défice orçamental transfere recursos para o sector privado, contribuindo para a sua expansão que, por sua vez, transforma despesa de uns em rendimentos de outros, expandindo ainda mais esse sector privado. E caso o PIB cresça mais rapidamente do que os encargos da dívida até é capaz de gerar mais recursos públicos e fazer reduzir a dívida pública... Procurar um défice mais curto e mesmo um superávite - como imagem das Contas Certas - é apenas uma forma de, ideologicamente, abrir novas áreas de negócio a meia dúzia de pessoas, que, com elevada probabilidade, serão aliás investidores estrangeiros. E ao mesmo tempo fazer crescer o desemprego para forçar à baixa salarial e fornecer mão-de-obra qualificada para as economias do centro europeu.

É este o "grande" sentido patriótico da direita nacional actual - servir os interesses materiais dos investidores estrangeiros. Pode não se chamar corrupção, porque o fazem à borla, mas nem sei se não será ainda pior este programa de subserviência e vassalagem desta burguesia sem visão.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Leituras


«Não tendo estado pessoalmente envolvido na polémica dos contratos de associação com as escolas privadas, não me resta senão concluir que o Público desistiu do seu (suposto) dever de informar. (...) Não foi preciso estar lá para perceber, pelas imagens da TV, que a manifestação pela escola pública teve várias dezenas de vezes mais pessoas do que as inacreditáveis 2 mil "noticiadas" pelo Público, e que a manifestação pelos contratos de associação dificilmente terá contado com metade das 40 mil que "noticiaram" na ocasião. Não deixa de ser intrigante que tenha sido também "noticiado" que no palco da manifestação pela escola pública estavam Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, quando todos os relatos que vi, ouvi e li desse evento referem que essas duas pessoas nunca estiveram no palco.»

Eduardo Basto, Notícias?

«O mesmo "Público" que agora quis colocar os seus leitores perante o aflitivo dilema dos 80 mil dos organizadores ou os 15 mil da "polícia" e que, neste comunicado, salienta que a contagem de manifestantes suscita sempre polémica, já aquando da manifestação dos colégios privados assumiu como bons e incontroversos os números fornecidos pelos organizadores e não colocou nenhum dilema numérico aos seus leitores. E, hoje mesmo, na peça da sua página 17, há uma legenda de fotografia que volta à vaca fria e onde se pode ler : "Manifestação foi convocada no mesmo dia em que os colégios levaram à rua cerca de 40 mil".»

Vítor Dias, A direção do Público sopra na palha para esconder o grão

«Tudo tem um contexto. E, no caso da Clara Viana, estamos a falar de uma jornalista que decidiu fazer uma peça (e o seu jornal dedicar meia página da capa ao tema) dizendo que o Tribunal de Contas dava razão aos colégios no diferendo com o Governo. Isto a propósito de um documento de trabalho do Tribunal de Contas com quase dois anos. O resultado é conhecido. O Tribunal de Contas nem duas horas esperou para publicar um (inédito?) comunicado desmentindo o Público. Nesse dia, refira-se, também houve um parecer da PGR que validava argumentos jurídicos do governo. Esse teve duas ou três linhas no Público. Curiosamente, o documento verdadeiro, e que nunca foi desmentido, mal é noticiado.»

Pedro Sales, «Alguns» manifestantes, «demasiados» erros

«Vá, não desviem a conversa. O problema essencial, no que concerne ao episódio jornalístico do fim-de-semana, não é com os números da manifestação (discutíveis dentro de alguma razoabilidade), nem com os/as jornalistas que a cobriram (com direito a errar e a corrigir o erro). É com escolhas editoriais, sentido das prioridades e respeito pelos leitores.»

Rui Bebiano (facebook)

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Entre a democracia e a ditadura 2

Tirado do sítio do BCE

Sobre o tema do anterior post, os comentadores ouvidos pela RTP - Helena Garrido e Manuel Carvalho, director do Público - acharam "natural" esta ênfase do BCE na subida brutal das taxas de juro, dada a sua missão independente do poder político. Dizem eles: como o único instrumento que o BCE tem para cumprir a sua única missão - que é a de controlar a inflação (porque não é a de garantir o pleno-emprego?) - então o BCE só pode fazer subir a taxa de juro. "Subir a 2% não é dramático", diz o director do Público. Os governos - como diz o BCE -  "têm é de fazer políticas selectivas, não para toda a gente", diz Manuel Carvalho. Não há nada a fazer, dizem, mesmo que o BCE dê cabo da economia e da vida das pessoas. Sim, mas "controlar a inflação gera sempre dor", frisa Helena Garrido! 

Onde foi que já ouvimos isto (e até na voz de Helena Garrido?). 

Ah! Foi em 2010. Nessa altura, Helena Garrido defendia os efeitos benéficos de uma "boa recessão"!... Na realidade, a política seguida - elogiada por Helena Garrido - viria a provocar uma taxa de desemprego em sentido lato de 25% da população activa!   

 

Jornal de Negócio 22/4/2010  - Portugal precisa de uma boa recessão 

Os excessos financeiros [de quem?] só [só?!] se resolvem com uma recessão económica que agrava a situação financeira e lança o pânico entre os credores. Quando não se tem uma garantia financeira. É este o problema de Portugal, como o da Grécia e de Espanha.

(...)

Não é a primeira vez que os portugueses [quais portugueses? O sector financeiro?] enfrentam a dura realidade de serem mais pobres do que pensavam depois de euforias consumistas [euforias?! de quem?]. Nos dois últimos episódios, o Fundo Monetário Internacional entrou pelo País a dentro e determinou as medidas para garantir o financiamento da divida. [e com muito sucesso sempre, trazendo por arrasto uma agenda condicionada bem clara de desvalorização salarial e desarme do Estado Social!]

A grande diferença em relação ao tempo do Fundo é o euro, que nos deu mais tempo para fazer asneiras [quem fez asneiras? Os portugueses?] e que agora nos [a todos, não é?] vai fazer pagar caro os disparates [de alguns]. Fomos avisados, é verdade que baixinho, por muitos economistas quando entrámos no euro e enquanto fomos alimentando alegremente a nossa fúria consumista [de Portugal que tem... 4 milhões de pobres!]. Mas, como os mercados, ninguém queria ouvir. Como a dívida [pública ou do sector privado?] que o uso irresponsável do euro permitiu, é mais elevada e como não temos menos instrumentos de reequílibro que no passado [mas não foi anunciado como uma vantagem?], a resolução do problema vai ser muitíssimo mais dolorosa [para todos, não é?]. E só não é mais grave porque vamos [quem?] apanhar boleia da Alemanha, tal como os gregos [que viveram felizes para sempre, como se viu...]. 

Se hoje fôssemos deixados ao abandono, entraríamos em colapso financeiro à islandesa , contagiando toda a Zona Euro [e lá se fechavam uns bancos]. E os bem comportados [?!] do euro, como os alemães [?!], pagavam também parte da factura do nossa [nossa?] irresponsabilidade [?!]. Incentivar a irresponsabilidade dos almoços grátis ou condenar o País ao colapso financeiro e desacreditar o euro é o dilema que enfrenta a Alemanha [?! o dilema era outro: deixar ou não falir os bancos alemães e franceses enterrados em Portugal - ver aqui, aqui e aqui]. Factura por factura, contamos que saia mais barato a Berlim ajudar as irresponsáveis [ou os seus bancos, colocando todos os portugueses a pagar esse esforço por uma dívida que não era sua]. 

O que se está a passar expõe a fragilidade da arquitectura da moeda única. Como disse o presidente do Banco Central Europeu, à UEM falta o E de Económica, um E que imponha a disciplina financeira e que retire soberania aos irresponsáveis. Quando um país fica sem financiamento externo, o FMI troca a sua garantia de crédito pela imposição de medidas duras de correcção dos desequilíbrios. É este o poder que tem de se dar às instituições europeias. Quem não é responsável tem de ser tratado como irresponsável. 

O melhor que poderia acontecer a Portugal era um plano à FMI imposto pela União. Em vez desta morte lenta, teríamos uma violenta, boa e rápida recessão. Para voltarmos de novo a crescer com saúde.

 

E aí está! A "boa" solução para todos!  

 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Crise do euro, crise do social-liberalismo


António Costa renunciou à presidência da Câmara Municipal de Lisboa para ocupar a tempo inteiro as funções de secretário-geral do PS. Não falta quem diga que a afirmação do partido nas sondagens foi prejudicada pelo atraso nesta decisão. Porém, há algo de mais profundo que escapa ao folclore dos noticiários, algo que liga episódios tão diversos como a pesada derrota do PS na Madeira, o descalabro do PS francês, o declínio do PSOE em Espanha e a crise do Partido Democrático italiano, para não falar do desaparecimento do PASOK na Grécia. Salta à vista que a crise da zona euro é também a crise da social-democracia europeia, na sua versão social-liberal, após Mitterrand ter substituído o socialismo democrático pelo europeísmo ordoliberal.

Antes de mais, o confronto entre o governo grego e a troika (agora “Grupo de Bruxelas”) clarificou os limites da tolerância dos nossos credores relativamente à política orçamental e não deixou dúvidas quanto ao que se deve entender por “reformas estruturais” a promover nos países da zona euro, sobretudo na periferia endividada. É relativamente às reformas no sistema de pensões e à legislação laboral que se trava um braço-de-ferro nas negociações com o governo grego, ao mesmo tempo que este é sufocado financeiramente pelo BCE. Qualquer que seja a escolha do governo liderado por Alexis Tsipras, ruptura ou capitulação, uma coisa é certa: a social-democracia europeia participou neste processo de chantagem sobre um governo com programa social-democrata que foi legitimado pelo voto para suspender as medidas de austeridade. Como há muito viu Dani Rodrik (“Greek Elections, Democracy, Political Trilemma, and all that”), a integração económico-financeira supranacional é incompatível com o exercício da democracia. António Costa sabe que não pode prometer aos portugueses outra política económica, ou sequer um modelo de desenvolvimento com alguma fundamentação realista. Os portugueses vão percebendo que afinal não há luz ao fundo do túnel, e isso vê-se nas sondagens.

Depois, mesmo que o impacto da saída da Grécia seja contido pela intervenção enérgica do BCE nos mercados financeiros, a sobrevivência da zona euro está longe de garantida. Com a proibição da política orçamental, mesmo com o desemprego ao nível da Grande Depressão, não há instrumentos de política económica que permitam enfrentar a gravíssima crise de procura produzida pelo fim do endividamento externo fácil da periferia. Antes de a crise de 2008 atingir a Europa, na ausência do risco de desvalorização com a adopção do euro, os spreads das taxas de juro quase desapareceram, pelo que o crédito dos países ricos se tornou muito acessível aos bancos dos países menos desenvolvidos.

Por conseguinte, a financeirização das periferias foi obra conjunta de credores e devedores e, embora os bancos credores tenham até agora sido poupados aos prejuízos decorrentes dos elevados riscos que assumiram, isso não significa que os seus países consigam escapar aos efeitos da bancarrota que ajudaram a criar. António Costa e a sua equipa de economistas deviam meditar nestas palavras de Michael Pettis:
“Depois de muitos anos a negar a insolvência, e muitos anos de promessas de que as reformas seriam implementadas e conduziriam a um crescimento suficiente para resolver o endividamento, os decisores políticos de países como Espanha serão forçados a mudar de posição ou serão demitidos pelo voto – simplesmente porque as condições económicas se terão deteriorado tão drasticamente que uma reestruturação não poderá ser adiada por mais tempo.” (“When do we decide that Europe must restructure much of its debt?”)

Assim, os partidos do social-liberalismo da periferia estão confrontados com um dilema vital: renegar a moeda única para recuperar a política económica da esquerda, ou desaparecer como corrente política relevante. Do meu ponto de vista, a ideologia social-liberal, e os interesses que envolvem estes partidos, impedem o reconhecimento do dilema tornando-os irreformáveis. Este é o drama da social-democracia europeísta. 

(O meu artigo no jornal i)

domingo, 3 de maio de 2020

O dilema


A ministra da Saúde não podia ter sido mais clara, isenta e consistente. Questionada na SIC sobre «porque é que em Fátima, que é um espaço muito maior que a Alameda, em Lisboa, não se podem aplicar estas regras das filas bem separadas e as pessoas afastadas umas das outras», Marta Temido respondeu: «É possível aplicar essas regras (...), se essa for a opção de quem organiza as celebrações, de organizar uma celebração do 13 de maio onde possam estar várias pessoas, desde que sejam respeitadas as regras sanitárias. (...) Agora, cada organizador tem que fazer um juízo de valor sobre aquilo que entende que são os riscos que vai correr. (...) O estado de emergência, o estado de calamidade não é uma emergência totalitária».

Aparentemente, a Igreja Católica, que já tinha decidido não manter a peregrinação de 13 de maio, ficou surpreendida com estas declarações, estando agora a «reunir todos os elementos para tomar uma posição» sobre as celebrações de 12 e 13 de maio em Fátima. Como a decisão está evidentemente nas suas mãos (tal como o a decisão do 1º de maio esteve nas mãos da CGTP), coloca-se um dilema: mantendo a sua posição inicial, corre o risco de defraudar a expetativa de muitos crentes (que se apercebem agora que não é o Governo a impedir, sob determinadas condições, a realização do 13 de maio); revertendo a sua posição inicial, esvazia de sentido as críticas de discricionariedade e de imprudência e irresponsabilidade que têm sido feitas, mesmo no seu seio, à celebração do 1º de Maio na Alameda.

Adenda: A forma como Rodrigo Guedes de Carvalho conduziu a parte inicial da entrevista a Marta Temido converte-a num recurso interessante de «pedagogia pela negativa» para cursos de jornalismo e comunicação social. Não pelas questões colocadas, de indiscutível pertinência e acuidade, mas sim pelo tom agressivo e inaceitavelmente acintoso com que se dirigiu à entrevistada.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

A República dos Peritos


Cada vez mais entidades independentes ao comando (leia-se, isentas do sufrágio popular) : primeiro os governadores dos bancos centrais, depois outras entidades reguladoras, por fim comissões de sábios para decidir tudo e mais alguma coisa.

Tudo isto poderia fazer algum sentido se estas entidades “independentes” fossem dotadas de um conhecimento que lhes permitisse chegar a conclusões incontestáveis. Sugere-se muitas vezes que os “peritos” têm efectivamente esse conhecimento. Os economistas, por exemplo, teriam uma espécie de bola de cristal chamada análise custo-benefício que os tornaria infalíveis nas decisões acerca de muita coisa, inclusivamente grandes projectos de investimento público.

Mas quem já participou em exercícios de análise custo-benefício sabe como é fácil transformar desacordos políticos em desacordos metodológicos: a técnica de medição mais apropriada, o parâmetro x, as dimensões a ter em conta… Neste caso, o exercício técnico não é mais do que o prolongamento da política por outros meios. Mas há ainda pior: a manipulação pura e simples do método para obter conclusões encomendadas.

Para compreender as limitações da análise custo-benefício segue um exemplo:
Temos de escolher entre duas campanhas de vacinação. A campanha A custa 500 mil € e permite salvar um milhão de vidas, a campanha B custa 3 milhões e salva dois milhões e meio. Por um lado a campanha A é melhor do que a B (a A é mais barata), por outro lado a B é melhor do que a A (salva mais vidas). É um dilema.
O que significa aplicar a análise custo-benefício à resolução deste dilema: atribuir um valor monetário às vidas, somar parcelas e comparar.
Admitamos que 1 milhão de vidas vale 500 mil euros. Teríamos então:

Campanha A: Custo = 500 mil; Benefício = 500 mil; Benefício Líquido = 0
Campanha B: Custo = 3 milhões: Benefício = 2,5 milhões; Benefício Líquido = - 500 mil
Conclusão: a campanha A deve ser escolhida.

A pergunta agora é: como atribuir um valor monetário à vida humana? Responde o analista: Há vários métodos; de acordo com o Manual de Economia Pública de Stiglitz (2ª ed. P. 263) num deles “estimamos o que o indivíduo teria ganho se tivesse ficado vivo (até até à sua idade “normal” de morte)”.

Mas isto é horrível - oiço dizer: nesse caso a vida de um rico valeria mais do que a de um pobre.
Pois é. A implicação seria que uma campanha de vacinação que “não compensa em África”, pode compensar na Europa.

Comentário final do analista (pela voz do Stiglitz de 1988 que pode não ser o mesmo Stiglitz de 2009): “Por muito controversas que as estimativas do valor da vida possam ser, é provável que continuem a ser úteis na avaliação de projectos que afectam a probabilidade de morte”.
A análise custo-benefício está cheia de problemas. Tenho dificuldade em compreender a sua utilidade, pelo menos em casos em que estão em causa valores que dificilmente têm preço.

Significa isto que estou a sugerir que não se façam contas? De modo nenhum. Devem-se fazer as contas possíveis. Mas não se dê um preço ao que não é uma mercadoria. Significa isto que não se devem ouvir os peritos? De maneira nenhuma. O que não vale é passar para eles as decisões políticas. Quem aceitou que isso acontecesse uma, duas vezes, não se pode admirar que lho venham exigir uma terceira.

Significa isto que se deve decidir no silêncio dos gabinetes? Claro que não. Uma decisão participada só pode ser mais inteligente, mais bem justificada.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Factos e ficções sobre a dívida pública


Quanto mais o tempo passa, mais razão dá a quem afirma que a reestruturação da dívida pública portuguesa é urgente e inevitável.

A chamada equação da dinâmica da dívida pública diz-nos que a evolução da dívida pública (expressa em percentagem do PIB) num determinado ano é igual à soma de duas componentes. A primeira dessas componentes é o saldo orçamental primário (i.e., excluindo os juros sobre a dívida), também ele expresso em percentagem do PIB. A segunda componente é igual ao stock da divida existente no início do ano, multiplicado pela diferença entre a taxa de juro média associada a essa mesma dívida e a taxa de crescimento do PIB nominal.

Trocado por miúdos, isto quer dizer que se a taxa de juro implícita for igual à taxa de crescimento do PIB, então o aumento do stock da dívida será directamente proporcional ao défice orçamental primário. Se, em contrapartida, o saldo orçamental primário for perfeitamente equilibrado (=0) no ano em questão, então o stock da dívida pública aumentará ou diminuirá consoante a taxa de juro associada à dívida existente seja superior ou inferior à taxa de crescimento da economia. Os aumentos decorrentes desta segunda parcela – não resultantes da acumulação de défices orçamentais primários adicionais mas da existência de uma diferença entre os juros suportados e o crescimento da economia – são aquilo que se costuma designar pelo “efeito bola-de-neve”.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

A esquerda num impasse


"Assim sendo, enquanto o PS mantiver o apoio popular que as sondagens mostram, a direita não terá acesso ao governo. Com a entrada em cena do Chega, o BE e o PCP estão condenados a apoiar o PS até ao fim da legislatura, mesmo que não gostem do resultado das negociações." (Escrito a 27 Janeiro 2021, aqui).

Quando escrevi isto tinha a clara consciência de que o eleitorado das esquerdas temia a ascensão da extrema-direita e o regresso da austeridade selvagem. Mesmo que estivesse pouco satisfeito com o governo, o eleitorado das esquerdas olhava para o BE e o PCP como o suporte do PS para travar a direita; não via (e não vê) estes partidos como alternativa. O PCP e o BE tinham caído numa situação em que estavam obrigados a apoiar orçamentos neoliberais, de que globalmente discordam, por não terem sido capazes de, atempadamente, construir uma posição minimamente sustentável fora da geringonça.

Desde o início que os partidos da esquerda não perceberam que aquela solução política foi apenas um expediente de emergência para a derrota do PS em 2015, uma solução política conjuntural, embora muitos nela depositassem a esperança num frentismo de outros tempos. Acreditavam que, com António Costa, o PS podia entender-se com a esquerda por mais tempo. Na verdade, o PS é um partido social-liberal, bom-aluno europeísta, e só pretendia fazer as cedências estritamente necessárias para manter a primeira legislatura. Depois, adeus à 'geringonça'.

Para mim, foi penoso ver o encantamento das esquerdas com a respeitabilidade adquirida a partir do acordo-'geringonça'. Foi penoso ver a insistência na disponibilidade para novos acordos com o PS. E foi penoso ver, com a rejeição do Orçamento de 2022, que (aparentemente) não perceberam a gravidade do dilema com que estavam confrontados.

Absorvidos pela dinâmica parlamentar do compromisso, descuravam a crítica pedagógica à retórica das contas certas, não conseguiam (não queriam) constituir uma frente comum para negociar com o PS, e julgavam que para ter credibilidade política bastava falar de salários, pensões, saúde e outros temas sectoriais sem os enquadrar num projecto de sociedade alternativo ao neoliberalismo da UE. Sobretudo no BE, o discurso evita o tema do euro apesar de ele estar subjacente a quase tudo, como se viu nos debates.

A direita que mais cresce não tem qualquer pudor em afirmar-se neoliberal e anti-sistema. Assume que é alternativa ao "socialismo"(!!) de António Costa e dos que o apoiaram. A direita tem uma ideologia bem conhecida e um modelo de sociedade individualista e desigual que não tem pejo em defender, mesmo depois do que fizeram com a troika. E a esquerda? Qual é a sua ideologia? Que modelo de sociedade propõe? A única vez que durante a campanha ouvi algo desta natureza foi pela voz de Pedro Nuno Santos, no comício de Aveiro.

Naquele mesmo post escrevi: "As esquerdas têm a obrigação de oferecer uma interpretação alternativa para o caminho que fizemos até aqui e para os obstáculos que impedem o nosso desenvolvimento. A meu ver, têm de oferecer um projecto de sociedade que seja mobilizador, capaz de trazer para o seu lado uma parte importante do voto dos desiludidos com o que a democracia lhes deu, além de outros. E isto exige muitíssimo mais do que trabalho parlamentar; exige diálogo unitário e exige militância de base ao lado dos que ficaram para trás em todo o país. Espero que ainda haja tempo."

Confesso que estou céptico quanto à capacidade de mudança das esquerdas que temos. Se expressões como "não baixar os braços" ou "estamos cá para a luta" significam uma atitude de resistência e que nada de fundamental vai mudar, então o destino da nossa esquerda será o da esquerda de outros países da UE, em particular na Itália e na França.

Mais do que nunca, alternativa de esquerda, precisa-se.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Tem os dias contados


O povo do Reino Unido decidiu Brexit. Foi um dia histórico porque marca o início do fim da UE.

Pelo que li, há uma grande correlação entre o voto pelo Sair e a condição sócio-económica dos eleitores. Nada para admirar já que o agravamento da desigualdade, a precariedade do trabalho, os empregos com salários de pobreza, a privatização e degradação dos serviços públicos, e de outros de interesse geral (transportes, energia), as dificuldades no acesso à habitação, etc. são o resultado da política neoliberal que os governos trabalhistas e conservadores aplicaram consistentemente nas últimas décadas. Os Tratados da UE, e as suas políticas ao serviço da finança, sempre foram apresentados como o caminho do progresso numa Europa perfeitamente integrada na globalização. As elites neoliberais do RU (conservadores, trabalhistas e outros, de mãos dadas), e a classe média sem dificuldades, estavam do lado do Ficar. Os eleitores "de baixo" não se enganaram quanto aos responsáveis pelo seu mal-estar ("It is the jet-set graduates versus the working class, the metropolitans versus the bumpkins—and, above all, the winners of globalization against its losers").

A imigração desregulada também faz parte do modelo fundador da UE: livre circulação de mercadorias, de capitais... e de trabalhadores. Porém, ao contrário do que previa a teoria económica do neoliberalismo, a desigualdade na UE agravou-se, entre países e dentro dos países. Os da periferia endividaram-se e, encurralados na zona euro sob tutela da austeridade germânica, vão perdendo os seus trabalhadores mais dinâmicos que, por salários muito mais baixos, concorrem com os trabalhadores britânicos (nos anos 50 do século passado, Gunnar Myrdal estudou bem estes processos). Outros, ainda mais periféricos e recém-chegados à UE, fornecem redes criminosas que trabalham na economia paralela do RU. Tudo isto agravado por uma política de laissez-faire no que toca à imigração das ex-colónias, o que permitiu a criação de enclaves étnico-culturais que suscitaram o discurso xenófobo. Recordando os anos trinta do século passado, a estrutura da crise é a mesma: políticas de esmagamento do trabalho e nomeação de bodes expiatórios, nessa altura os judeus, hoje algumas comunidades de imigrantes. Com a participação activa dos economistas (da esmagadora maioria).

O Labour está numa encruzilhada: ou Jeremy Corbin assume em definitivo os anseios das classes trabalhadoras, dos jovens precarizados e das regiões deprimidas, e ainda pode ganhar as eleições no Outono, ou o Labour expulsa Corbyn e iniciará um declínio inexorável. Aliás, o mesmo dilema espera os socialistas de outros países, com destaque para França, Espanha e Portugal.

Tendo em conta que as políticas da UE não serão alteradas no essencial, já que isso é do interesse das elites alemãs e da tecno-burocracia de Bruxelas-Frankfurt, tudo se conjuga para que as tensões sociais e políticas se agravem nos próximos anos. O BCE bem pode continuar a proteger a moeda única nos mercados financeiros, mas seguramente não pode impedir novos referendos nem a eleição de governos de ruptura. O desastroso projecto da UEM tem os dias contados. Os ratos podem começar a abandonar o navio.

sábado, 29 de julho de 2017

Dilemas de um arrumador de livros


Entrei numa livraria e, por curiosidade, decidi verificar em que secção se encontraria o «Economia com Todos». Dito de outro modo, dei por mim a pensar no eventual dilema que se terá colocado à pessoa encarregue de distribuir os livros pelas estantes, segundo critérios temáticos ou disciplinares, no momento em que olhou para o volume que tinha em mãos.

Fixando-se no título, a decisão terá sido bastante fácil: aquela peça encaixava seguramente na estante dedicada à «Economia e Gestão», apesar de a designação dos autores (Ladrões de Bicicletas) parecer estranha para uma ciência tão rigorosa e que leva tão a sério a sua identidade e as suas fronteiras. Perante esse dado, é possível que tenham nascido dúvidas no que antes parecia ser claro... Talvez o livro pertencesse à secção das «Ciências Sociais», onde cabem temas e disciplinas muito diversos e onde se costumam colocar as coisas que não se sabe bem onde arrumar.

Na incerteza, pode ter surgido a necessidade de folhear o livro, espreitar o índice ou ler um pedaço da introdução. Mas o mais provável é que isso não tenha ajudado muito a resolver o problema. Se alguns capítulos indiciavam estar-se perante um livro de Economia (tratando de assuntos como o neoliberalismo, os desequilíbrios macroeconómicos, o euro, a dívida ou a financeirização), outros apontavam para matérias de âmbito mais social (a globalização, a imprensa ou o emprego). E se outros capítulos sugeriam a secção de «Política» (Estado Social, desenvolvimento de capacidades produtivas ou as eleições em França), havia ainda dois que, de tão intrigantes, pareciam empenhados em não fornecer qualquer pista («Histórias do nosso futuro» e «Tornar possível o impensável»).

Tentando dissipar dúvidas e hesitações, pode ter surgido a ideia de olhar para a contracapa. Sim, estava lá um parágrafo que talvez ajudasse a identificar a estante onde o livro iria parar. Dizia assim: «este é um livro de economia, de política, de economia política e de política económica, escrito por autores que têm partidos e ideologias diferentes e divergentes, mas que convergiram ao longo da última década em torno de temas e valores essenciais, através de um blogue de referência em Portugal - Ladrões de Bicicletas».

Não é difícil imaginar a pessoa responsável pela arrumação taxionómica dos livros a levantar os olhos, a suspirar e a desistir. Talvez por isso eu tenha encontrado o «Economia com Todos» num daqueles expositores que ficam no meio das livrarias, a criar corredores entre as estantes «classificadas» das paredes. É isso mesmo, pensei, este livro fica bem em zonas de passagem, em espaços de circulação entre universos temáticos pretensamente delimitados e, já agora, entre universos de pensamento político distintos, à esquerda.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Um dilema grego?


“Ficar na eurozona, diz Varoufakis, requereria uma reestruturação radical do modo como funciona todo o sistema da moeda única. Regressar ao Dracma … requeria uma desvalorização da moeda muito difícil que poderia levar a um corte enorme do PIB Grego de um só golpe”.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Tentações


Quando se aceleram os ritmos de trabalho na comunicação social, há coisas que ficam pelo caminho.

Uma delas é capacidade de resistir à tentação de ser ligeiro e rápido. E o risco que se corre é o de - na versão mais benigna - haver uma colagem ao sabor das ondas que passam pela comunicação social - e pelas estratégias político-partidárias - superficializando o jornal que se faz.

Títulos que se tornam autênticos editorais, opiniões que se duplicam e se complementam, na prática, numa estratégia de promoção partidária...

.. em que questões pertinentes que ficam arredadas do título - se houve concertação entre CDS e Marcelo Rebelo de Sousa ou a interpretação do CDS do discurso do PR em que o coloca como estando de acordo com a direita - são tapadas com discurso político que já se ouviu em toda a parte.

O dilema das Direcções Editoriais muito orientadas é que, mais dia menos dia, se tornam excessivamente presentes e acabam por colar a sua própria imagem à do jornal, até ao ponto em que os seus donos acharem que seja demasiado, porque degrada o produto. O seu destino fica então marcado com o destino do que se passa na conjuntura externa ao jornal. Ou não, mas nessa altura, tornam-se em algo completamente diferente do que aquilo para que foram criados.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Paulo Pedroso sobre a negociação política

"O PS e o Governo têm duas opções perante a mão que Jerónimo e o PCP continuam a estender-lhe após seis anos a permitir-lhes governar sem interferir drasticamente com a agenda do PS, aceitando ter ganhos de causa sem os reivindicar (aumentos extraordinários de pensões, creches gratuitas, progressividade no IRS) e a ser penalizado eleitoralmente:

a) forçam o PCP a não conseguir nenhum dos pontos da sua agenda que conflitue com o PS e forçam-no ao dilema entre a suprema humilhação e derrubar o governo num momento mau para toda a esquerda;

b) cedem uma vez, seis anos depois, a algo que é da agenda do PCP e não é da agenda do PS e continuam a governar, provavelmente até ao fim da legislatura.

A escolha está nas mãos de António Costa e é tão importante como aquela inicial, que fez dele Primeiro-Ministro, de acabar com o “arco da governabilidade”. Estarão António Costa e o PS prontos para verdadeiramente deixar o PCP avançar uma das suas causas que não partilhem, depois de seis anos em que o PCP quase nada pediu?

Se escolher não o fazer, António Costa contrai a obrigação de tentar ganhar as eleições antecipadas com maioria absoluta ou dar lugar a alguém que no PS se queira entender com a esquerda parlamentar." (Post no Facebook)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

"Precariedade" é um conceito bem-comportado

Fonte: Gráfico 1, Inquérito ao Emprego e Quadros de Pessoal, valores actualizados a preços de 2016; Gráfico 2: Inquérito ao Emprego (INE), desemprego em sentido lato (milhares) = desemprego oficial + subemprego + inactivos que querem trabalhar

Qual dos dois gráficos explica o outro?
1) O desemprego está a cair porque os salários estão a baixar? Menores encargos salariais e de despedimento aumentam a margem das empresas para contratar mais mão-de-obra de baixos salários. E, por isso, deve adoptar-se todos os dispositivos legais que impeçam os salários de subir;
2) Ou os salários estão a cair porque o desemprego nunca atingiu tanta gente? Ainda há um milhão de pessoas por empregar. Isto sem contar com a emigração. E isso quer dizer que os salários apenas subirão quando se absorver este desemprego crónico, que se prolonga há década e meia, reduzindo o potencial económico de Portugal, degradando as suas contas orçamentais e da Segurança Social e contaminando o nosso futuro ao empurrar para fora jovens especializados que apenas encontram empregos de baixos salários.

Claro que o aumento da margem de exploração das empresas contribui para um maior investimento. Mas essa subida até poderia ser maior se os trabalhadores fossem escravos.

Ou seja, por alguma razão essa não é uma opção aceitável: há limites à lógica de redução das condições laborais. Mas nesse caso, até onde se está disposto a prescindir de civilização? Será pois vantajoso - porque já nem se fala de justiça - que o emprego cresça, mas os salários desçam, em vez de subir? Como é possível que, mesmo numa conjuntura de recuperação, os trabalhadores não ganhem com isso? Como é possível viver sem revolta a velha máxima "é melhor ter um emprego mal pago do que estar no desemprego", que cria um falso dilema: coloca em cada trabalhador o fardo da responsabilidade, da culpa e do dever submisso, deixando incólume os excedentes das empresas e o papel das empresas em sociedade. E do Estado.

A precariedade contamina cada vez mais os ditos trabalhadores "protegidos", fragilizando vínculos contratuais, mesmo para os contratos permanentes de quem já tenha emprego, reduzindo salários, degradando vidas, envelhecendo populações por incapacidade desta de se rejuvenescer, ou de se renovar.

Isso só acontece porque se abraçou há décadas uma lógica que defende "quem cria emprego são as empresas". E essa lógica aceita - e a palavra é mesmo essa - que haja ainda um milhão de desempregados a exercer uma efectiva pressão sobre os assalariados.

Como é possível que um conceito que é uma degradação social, tenha uma forma de expressão tão civilizada, sem que as campainhas toquem?

É possível porque tudo foi propositado. Tudo foi pensado para ter este efeito. Vem da teoria seguida. Uma teoria errada.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Para que não se diga "os economistas dizem"...

Nuno Garoupa, destacado economista do direito e da direita intransigente, queixa-se do suposto oligopólio da lucidez sobre o erro deste euro atribuído a João Ferreira do Amaral por jornalistas pouco rigorosos. Como Garoupa tem o mau hábito de ser demasiado vago, preferindo quase sempre prescindir de nomes, suponho que está a referir-se à informada entrevista feita por Ana Sá Lopes e Nuno Aguiar. Os jornalistas introduzem bem a questão: “Foi das poucas pessoas fora da área do PCP que criticaram a adesão ao euro.” De facto, tirando mesmo Carlos Carvalhas ou Octávio Teixeira, por exemplo, lembro-me de Francisco Louçã e de poucos mais economistas. Os economistas académicos da direita com intervenção pública sobre esta matéria andavam com os da esquerda dita moderna a fazer estudos por encomenda sobre os amanhãs europeus que cantariam. Quem foram então os numerosos economistas portugueses de que fala Garoupa? Nomes e textos, por favor. Fora de Portugal, a coisa era diferente, claro. Em Portugal, o consenso era de tal ordem que Pedro Pita Barros, que tem obrigação de ser um bom conhecedor destes assuntos, atribui o monopólio a Ferreira do Amaral: “Do que me recordo apenas João Ferreira do Amaral era convictamente contra a entrada no euro.” Têm de falar na SEDES sobre isto.

Ao contrario de Garoupa, acho que o debate nacional sobre a questão europeia tem vindo a melhorar muito ligeiramente, também só podia porque, como bem sublinha, acabou o romance europeu. Não concordo com a separação artificial política-economia que faz. A decisão de instituir o euro também foi uma decisão de economia política numa época onde a crença na convergência real, induzida pela convergência nominal e pelas forças de mercado, toldou o juízo a muita gente. Além disso, sabia-se que a regulação assimétrica da UE colocaria, mais tarde ou mais cedo, todo o peso do ajustamento no Estado social e no mundo do trabalho. Era sobre isto que se falava e fala entre demasiados economistas, sobre a necessidade de aprofundar utopias liberais. De resto, o BCE ou a “constituição económica” da UE, exemplos de federalismo de mercado, parecem saídos de um manual de economia política neoliberal.

Esqueceram-se mesmo de alguns detalhes: crises financeiras causadas pela ordem neoliberal, desequilíbrios comerciais sem mecanismos decentes de correcção, polarização social e regional, relação umbilical entre moeda e Estado soberano, etc. O dilema europeu só se resolve com acção política que mude o enquadramento institucional, mas as forças sociais que a poderiam levar a cabo não se vêem por aí e parece tudo trancado institucionalmente. Enfim, vamos então andar entre a austeridade, a especulação, a deflação e a reestruturação da dívida por tempo indefinido? Seja como for, isto é bem visto: “O jornalismo português deu palco e voz apenas a um punhado de economistas que pontificavam desde as sinecuras bem remuneradas do regime sobre as maravilhas do euro para a economia portuguesa, sistematicamente ignorando os problemas que se acumulavam.” O mesmo se passa com a discussão sobre a austeridade...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Resistir

Será que estamos perante o toque de finados antes do incumprimento e da saída da Grécia do euro? Costas Lapavitsas parece achar isso, até porque o povo grego, no quadro de um debate aberto gerado por um referendo improvável, poderia maioritariamente recusar a destrutiva austeridade imposta de fora, a que muitos tolos ainda apodam de ajuda no nosso país, e demonstrar mesmo a sua vontade soberana de sair deste euro. Daí também o pânico das elites europeias perante a possibilidade da escolha democrática directa impulsionada por um primeiro-ministro pressionado pela sua contraproducente subordinação perante os ditames externos. Um primeiro-ministro que poderá cair entretanto, substituído por um governo de “unidade nacional” pensado para continuar uma austeridade que é, em última instância, incompatível com “perturbações” eleitorais e com a ordem constitucional democrática. Elites europeias que não conseguem conceber alternativas à autodestruição do euro pela austeridade. Na realidade, a democracia poderia servir para descredibilizar as ameaças do centro europeu, até porque a saída deste país do euro nunca foi do interesse de quem comanda a economia política europeia. Se o financiamento externo cessar, cessa o serviço da dívida e aí é que eu quero ver o que acontece aos credores. É claro que a racionalidade dos actores é complexa e os interesses do capital financeiro não são o única guia para a acção política, até porque já foram muitos os bancos que se livraram da dívida grega. No caso da saída da Grécia por “expulsão” ou decisão soberana, a crise aprofunda-se na zona euro e este país até poderá ser quem mais rapidamente recuperará. Seja como for, e por muito que isso custe, temos mesmo de nos preparar para todos os cenários. Isto também é assim, do ponto de vista ético-político, para quem defende seriamente a reestruturação da dívida por iniciativa e no interesse das periferias. Estas mostrariam assim a sua indisponibilidade para continuar a ser pilhadas, o que, obviamente, tem a vantagem de ser uma das alavanca para se superar o dilema europeu: para cima ou para baixo...

segunda-feira, 30 de abril de 2018

O folclore e a fragilização da democracia

Há dias foi a votos no Parlamento o Programa de Estabilidade do Governo.

Espanta que, ao fim de dez anos sobre o desencadear da crise internacional, ainda se pugne por mais austeridade. E no entanto é isso que a direita e a direita do PS sustentam como programa. E mais tarde ou mais cedo vão ter de assumi-lo.

A direita do PS terá de assumi-lo porque essa é consequência prática da ideia vazia de quem quer "mais Europa", a qual se baseia nas vantagens do cumprimento estrito do Tratado Orçamental, até que alguém poderoso o reforme. Em privado, são capazes de se lastimar, mas em público aplaudem essas regras que mais não representam do que o dispositivo que força governos de esquerda (por muitos votos que tenham) a aplicar políticas de direita. Ir além das metas pode parecer uma ideia cautelosa, mas redunda apenas em ir além de um programa de direita traçado em Bruxelas.

A direita à direita do PS assume hoje aquela posição bipolar: acusa o governo apoiado à esquerda de praticar a austeridade - por cortar no SNS, nas escolas e na segurança, no investimento público, etc. - e grita que o "Estado está a falhar". Mas os deputados contorcem-se em resoluções que gostariam de aprovar no Parlamento em que se esquivam para não dizer que querem ainda mais "menos despesa" (caso do CDS) ou em que condenam o governo por "agravar a despesa corrente permanente do Estado", porque é feita sem um "qualquer exercício de racionalização da despesa corrente" (caso do PSD)...

Ora, ao ponto a que chegaram os serviços públicos ao fim de dez anos de austeridade, é impossível continuar com jogos: ou se quer "menos Estado" e, por isso, "menos despesa pública" e, por isso, "mais austeridade"; ou se quer "menos austeridade" e, por isso, "mais despesa pública" e, por isso, "mais Estado".

Mas esta esquizofrenia hipócrita é apenas um epifenómeno com causas profundas.

A direita e a direita do PS alimentam este falso dilema de curtas visões, porque querem evitar tocar na ferida do problema. E a ferida do problema é que essa política representa um mecanismo de transferência de rendimento - em cada país dos mais pobres para os mais ricos e, na Europa, dos países mais pobres para os países mais ricos, vulgo Alemanha - que está a favorecer a ascensão da extrema-direita e a fragilização da democracia.

E nada fazer para o evitar é levar a Europa ao abismo, com a cumplicidade até de um partido de esquerda. Como há décadas atrás. Mas talvez seja isso que se pretende, porque só isso justifica que se mantenha de pé todos os mecanismos que estão a alimentar essa vaga de fundo. Para quê mais democracia, se vai ser possível ter menos? "Mais Europa" vai significar "menos democracia".

domingo, 23 de abril de 2017

Em busca do bloco central francês?

Começaram as negociações em França para as eleições legislativas de 11 e 18 de Junho. E o que se espera não é nada de bom.

O ponto de partida é mau. Um decepcionante resultado eleitoral coloca os eleitores diante da opção impossível entre a extrema-direita e as políticas que a colocaram na final das eleições presidenciais. E isso até na política externa, que alimenta a imigração e o terrorismo jiadista, com vendas crescentes de armamento à Arábia Saudita. A direita e um PS rendido à direita, que foram os pais da actual situação, acabaram arrastados na lama. Macron pôde ganhar hoje, mas perderá daqui a 5 anos.

Quando se ouve os debates na TV5, parece que várias coisas se tornam claras:
1) o discurso de Marine Le Pen é poderoso, mas o das suas segundas linhas é muito mais do que diz e o que não diz não é nada agradável;
2) os vencidos - a direita e o PS - sonham recuperar nas legislativas e dão já o seu voto a Macron;
3) a esquerda apoiante de Mélenchon critica o falso dilema, o que os coloca sob ataque público;
4) os apoiantes de Macron sabem que o voto útil na 2ª volta não é suficiente para criar uma vaga política e, sem máquina partidária por detrás, terão de negociar já para impedir que as eleições legislativas fragilizem o presidente. François Bayrou, que já se aliou a Macron e que sempre defendeu que primeiro ganha-se a eleição presidencial e depois pede-se aos franceses (ao som da marcha presidencial), que se crie uma maioria em seu torno, deu mostras na TV5 de querer dialogar à direita, face à desconfiança dos apoiantes de Fillon.

No seu discurso e conhecendo já as sondagens que lhe dão a vitória daqui a 15 dias, Macron deu sinais disso: apelou a um rassomblement ainda mais largo. Bem pode, porque o seu discurso foi mole, sem emoção, pequeno. Entre palavras a tocar ao coração e a tentativa de esvaziar Le Pen, o seu objectivo real deverá ser o de conseguir um centrão, mais adiante. O que torna o seu discurso ainda mais sonso.
"O desafio é romper com o sistema que foi incapaz de resolver os problemas do nosso país". "É abrir uma nova página. Em França e a na Europa. É esse o nosso desafio". "É por isso, que quero desde já construir uma maioria nova, com novas faces, novos talentos, em que cada um terá a o seu lugar". Uma força que esteja "de acordo com a renovação, a segurança, libertar o trabalho, refundar as escolas, permitir a cada um de progredir na sociedade..." - e faz uma pausa, levanta a voz - "... e relançar a construção europeia!".
E a plateia aplaude fortemente. Que programa, que mistura, que palavras! Ouvi-lo soa a Hollande em falso e fraco. Mas diz a pivot da TV5: "Grave e lúcido". Percebe-se em quem votou a comunicação social. Aliás, Malika Sorel, ensaísta e apoiante de Fillon, afirmou que os tempos dados pela comunicação social a Macron foram iguais aos tempos juntos dos outros quatro principais. "A comunicação social fez esta eleição", afirmou ela...

Teme-se o pior.

sábado, 10 de setembro de 2011

Está na hora de fazer o debate todo

Michel Husson publicou um artigo, traduzido pelo esquerda, em que procura superar um dilema potencialmente anulador da unidade popular e das convergências políticas necessárias para a criar – sair do euro ou apostar tudo numa “harmonização utópica” –, indicando como um debate aberto sobre estas questões, indispensável em Portugal, pode permitir fazer evoluir e afinar posições.

Husson parte de uma posição favorável a uma coordenação com escala europeia. Se for comparada com a posição aparentemente mais “soberanista” de um Jacques Sapir, que muitos de nós seguem com especial atenção, concluir-se-á que as divergências económicas, centradas na questão da importância da variável cambial e da capacidade de encontrar soluções decentes que a substituam numa Zona Euro atravessada por tão grandes desníveis de apetrechamento económico, podem ser, até certo ponto, politicamente conciliáveis. Conciliáveis em parte porque Sapir sabe bem o que a saída do euro implica em termos de transformação institucional profunda da economia para almofadar uma ruptura que surge como uma das alternativas ao impasse neoliberal europeu e às políticas recessivas. Isso leva-o a convergir com Husson, por exemplo, na questão dos controlos de capitais, da socialização do sector financeiro ou da reestruturação da dívida que são requeridas pela situação.

Tanto Husson como Sapir indicam-nos que uma melhor articulação nacional-europeia terá de partir da acção de governos nacionais progressistas, sozinhos ou em aliança com outros, que comecem por desafiar as regras europeias neoliberais, bloqueadoras do controlo do sector financeiro ou da política industrial, só para dar dois exemplos, e que estejam dispostos a ir até às últimas consequências nesse desafio porque, uma coisa é certa, não são possíveis políticas progressistas, políticas civilizadas, políticas de saída da crise, nesta configuração do euro, mesmo que Husson considere que já se ultrapassaram com facilidade obstáculos “formais” que há pouco tempo pareciam intransponíveis.


Ir até às últimas consequências é então aceitar a formulação de Husson e usá-la abertamente na intervenção política: “não se exclui um braço de ferro e usa-se a ameaça de saída do euro”, tal como aqui temos defendido e tal como Sapir defende, até porque na ausência de mudanças europeias relevantes, que aqui também tempos apontado, a saída do euro é o que resta a qualquer governo, periférico ou não. Mas continuemos a dar a palavra a Husson: “Este esquema reconhece que não se pode condicionar a implementação de uma ‘boa’ política à constituição de uma ‘boa’ Europa. As medidas de retaliação de qualquer espécie devem ser antecipadas por meio de medidas que, efectivamente, fazem apelo ao arsenal proteccionista. Mas não se trata de proteccionismo no sentido habitual do termo, porque este proteccionismo protege uma experiência de transformação social e não os interesses dos capitalistas de um dado país face à concorrência dos outros. É pois um proteccionismo de ampliação, cuja lógica é desaparecer a partir do momento em que as ‘boas’ medidas forem generalizadas.”

Tenho pelo menos duas questões prévias: interesses capitalistas internos, como sabemos, há muitos e as suas contradições estão mesmo muito longe de estar convenientemente exploradas do ponto de vista político; interesses capitalistas externos divergentes nem se fala: as economias têm desníveis de desenvolvimento e diferentes necessidades de recorrer à variável cambial para ajudar nas políticas de transformação estrutural. O capital não pode ser pensado, a um nível de abstracção relevante para as políticas públicas de transformação, como realidade homogénea num país e fora dele. Nenhuma estratégia ganhadora de governo progressista pode deixar de incorporar activamente sectores do empresariado industrial/produtivo/exportador que, ao contrário do que se possa pensar, não esgotou as suas capacidades. Os verdadeiros adversários políticos de um amplo bloco social transformador são o capital financeiro, os grandes grupos rentistas que com ele estão imbricados e os seus ideólogos, ou seja, os que vivem da “expropriação financeira” e da pilhagem de bens comuns e os que as legitimam à sombra de romances de mercado. Husson e todos os que querem construir uma aliança progressista “anti-liberal” devem ter isto em conta.

Entretanto, veja-se também a resolução do Partie de Gauche sobre o euro. Este partido integra, com o PCF, uma Front de Gauche que tem em Jean-Luc Mélenchon um candidato presidencial forte. As marcas deste debate francês, que a esquerda portuguesa que não desiste faria bem em transpor com toda a intensidade para a realidade nacional, estão aí bem patentes, assim como o necessário trabalho colectivo de reflexão, por exemplo, para pensar também em soluções intermédias de moeda comum, entre a moeda única e o regresso às moedas nacionais, para as quais Jacques Sapir tem igualmente chamado a atenção.

terça-feira, 26 de março de 2013

A breve calma antes da tempestade


É sabido que fazer previsões a curto prazo não é normalmente boa ideia, pois arriscamo-nos a ser rapidamente confrontados com as insuficiências da nossa análise. Mas uma coisa é certa: a crise bancária cipriota está neste momento, digamos, no intervalo – e a segunda parte vai ser animada.

Coloquemo-nos no lugar de um titular (cipriota ou estrangeiro) de uma conta (com menos ou mais de 100.000 Euros) num banco cipriota, com um mínimo de capacidade de movimentar o montante depositado assim que o banco reabrir – que é como quem diz, quando o acesso às contas for descongelado. Sabemos que: i) o Estado cipriota não dispõe da capacidade de garantir por si próprio os depósitos existentes (68 mil milhões de Euros), nem sequer os de montante inferior a 100.000€ (30 mil milhões de Euros); ii) o primeiro bail-out (resgate) europeu, negociado durante o fim-de-semana, tem uma componente significativa de bail-in (penalização dos credores, neste caso depositantes) –  e, no plano inicial, por diversas razões aliás bem interessantes, nem os pequenos depositantes eram poupados, o que estabeleceu um precedente; iii) todos os outros depositantes do mesmo banco têm esta mesma informação; e iv) quando as contas forem descongeladas, os primeiros a transferirem os montantes depositados para local seguro (para a Holanda, para fora do zona Euro, para debaixo do colchão,…) mantê-los-ão intactos, enquanto aqueles que demorarem a fazê-lo serão apanhados num novo congelamento de contas e sujeitos aos termos de um novo bail-in. O que é que você faria?

A confiança no sistema bancário é um dilema do prisioneiro clássico – e a forma como a crise cipriota foi gerida politicamente empurrou o “jogo” para a solução não-cooperativa. É neste momento bastante provável que o sistema bancário cipriota entre muito brevemente em novo colapso iminente e, se isso acontecer, ou o BCE/União Europeia “nacionaliza” federalmente a banca cipriota, o que muda totalmente as regras do jogo daqui para a frente, ou Chipre vê-se obrigado a sair do Euro. Tudo isto por causa dos 5,8 mil milhões de Euros com que o Eurogrupo exigiu que os depositantes participassem no resgate – um montante tão insignificante à escala europeia, mas aqui com consequências potenciais de tal magnitude, que das duas uma: ou o Eurogrupo é de uma incompetência inimaginável, ou estamos perante um primeiro ensaio, deliberado, de uma saída da zona Euro na modalidade caótica e provocada pelas autoridades europeias. 

Em qualquer dos casos, os dados estão lançados.