quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Isto não é um diário


Vila Franca de Xira, sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Passei toda a manhã a corrigir exames. Fui almoçar, a convite de Jorge C., ao Centro de Trabalho do PCP de Vila Franca de Xira, mesmo ao lado de casa. Depois de um belo estufado, ouvi Gonçalo Tomé falar como só um marxista consegue, ligando pontas em várias escalas, com poder de síntese: dos ganhos locais conseguidos, graças à luta e à negociação coletivas, na Câmara Municipal até à violência imperialista internacional, passando pelo dever antifascista nacional em tempos sombrios, o do dia 8 de fevereiro. 

Tive de pegar no carro para me deslocar ao Porto – “se há um camarada à tua espera, não faltes ao encontro e sê constante”, cantava Zeca Afonso. Passo pelos distritos de Leiria e de Coimbra na autoestrada: milhares de árvores derrubadas, armazéns e postes destruídos, material espalhado, num cenário desolador durante dezenas de quilómetros. Desacelerei. 

Cheguei ao Porto antes da hora, ao Centro de Trabalho do PCP, à Boavista, onde nunca tinha ido. Soube que o Centro de Trabalho da Marinha Grande estava aberto à população, fornecendo gratuitamente alguns serviços úteis neste contexto, incluindo refeições. É de facto um dos partidos que sabe: fim do mundo, fim do mês, a mesma luta. 

Foi uma sessão participada no Porto. Fiz o que gosto de fazer neste contexto e que uma tia minha, na apresentação do livro anterior sobre neoliberalismo, resumiu com graça como “uma aula, um comício e uma missa”. Falei de fascismo e de antifascismo, tentando manter o coração a ferver e a cabeça a gelar. Falámos. 

A conversa continuou em São João da Madeira, às 21h, numa sessão realizada no auditório do museu da chapelaria que se prolongou até à meia-noite, com dezenas de pessoas também. Revi antigos alunos de relações internacionais e conheci pessoalmente leitores generosos de sempre. 

A certa altura, fui interpelado, em resposta à hipótese de que ainda temos muito que perder: “estes cinquenta anos foram os melhores cinquenta anos da história do país”, “eu tinha 19 anos no dia 24 de abril e estava a preparar-me mentalmente para ir para a guerra e no dia seguinte estava livre e foi isto”. 

Foi, sem dúvida, respondi e complementei, como pude, dizendo que a nossa tarefa é terrivelmente difícil politicamente, mas interpelante: crítica radical do que existe, defesa radical do que merece ser defendido no que existe. E o testemunho da viva vivida e pensada é mesmo importante, sobretudo quando se tem uma aguda consciência social, ou seja, uma consciência da dependência que o eu sempre tem do nós. 

E no meio da simpatia generalizada ofereceram-me um livro e tudo: Unhas Negras, da autoria de João da Silva Correia (1886-1973). Não conhecia. Disseram-se que se correspondeu com Ferreira de Castro. Parece ser a versão sanjoanense do marcante A Lã e a Neve da Covilhã, mas tenho de confirmar a ligação entre estes dois pontos geográficos de referência na construção da classe trabalhadora portuguesa. 

Regressei fisicamente cansado, mas moralmente retemperado, a Vila Franca de Xira, já de madrugada: as memórias do que aprendi alimentaram-me durante a viagem e para lá dela.

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