Tive de pegar no carro para me deslocar ao Porto – “se há um camarada à tua espera, não faltes ao encontro e sê constante”, cantava Zeca Afonso. Passo pelos distritos de Leiria e de Coimbra na autoestrada: milhares de árvores derrubadas, armazéns e postes destruídos, material espalhado, num cenário desolador durante dezenas de quilómetros. Desacelerei.
Cheguei ao Porto antes da hora, ao Centro de Trabalho do PCP, à Boavista, onde nunca tinha ido. Soube que o Centro de Trabalho da Marinha Grande estava aberto à população, fornecendo gratuitamente alguns serviços úteis neste contexto, incluindo refeições. É de facto um dos partidos que sabe: fim do mundo, fim do mês, a mesma luta.
Foi uma sessão participada no Porto. Fiz o que gosto de fazer neste contexto e que uma tia minha, na apresentação do livro anterior sobre neoliberalismo, resumiu com graça como “uma aula, um comício e uma missa”. Falei de fascismo e de antifascismo, tentando manter o coração a ferver e a cabeça a gelar. Falámos.
A conversa continuou em São João da Madeira, às 21h, numa sessão realizada no auditório do museu da chapelaria que se prolongou até à meia-noite, com dezenas de pessoas também. Revi antigos alunos de relações internacionais e conheci pessoalmente leitores generosos de sempre.
A certa altura, fui interpelado, em resposta à hipótese de que ainda temos muito que perder: “estes cinquenta anos foram os melhores cinquenta anos da história do país”, “eu tinha 19 anos no dia 24 de abril e estava a preparar-me mentalmente para ir para a guerra e no dia seguinte estava livre e foi isto”.
Foi, sem dúvida, respondi e complementei, como pude, dizendo que a nossa tarefa é terrivelmente difícil politicamente, mas interpelante: crítica radical do que existe, defesa radical do que merece ser defendido no que existe. E o testemunho da viva vivida e pensada é mesmo importante, sobretudo quando se tem uma aguda consciência social, ou seja, uma consciência da dependência que o eu sempre tem do nós.
E no meio da simpatia generalizada ofereceram-me um livro e tudo: Unhas Negras, da autoria de João da Silva Correia (1886-1973). Não conhecia. Disseram-se que se correspondeu com Ferreira de Castro. Parece ser a versão sanjoanense do marcante A Lã e a Neve da Covilhã, mas tenho de confirmar a ligação entre estes dois pontos geográficos de referência na construção da classe trabalhadora portuguesa.
Regressei fisicamente cansado, mas moralmente retemperado, a Vila Franca de Xira, já de madrugada: as memórias do que aprendi alimentaram-me durante a viagem e para lá dela.


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