terça-feira, 29 de novembro de 2011

É sistémica

Rui Tavares assinala, na sua crónica de ontem no Público, que as análises «sistémicas» são as que permitem compreender uma crise que foi sempre do euro e que só se começa a superar com a sua reforma profunda, cada dia mais improvável, ou com o seu fim. Nem todos os «sistémicos» são de esquerda, mas não pode haver análise de esquerda sobre esta questão que não seja sistémica. As análises moralistas, nacionalmente autocentradas, só serviram para justificar a austeridade e a a intensificação da neoliberalização das periferias, ou seja, o alastrar da crise. Estas foram acompanhadas por uma sempre medíocre psicologia dos povos, as «preferências» do centro e da periferia de um Vítor Bento, por exemplo, que favorecem intelectualmente a ditadura de Merkozy, de que falou Freitas ontem. Os moralistas olham para um gráfico sobre a posição de investimento, sobre os activos e passivos dos vários países, e concluem pela virtude do centro, face à irresponsabilidade de uma periferia a controlar. Deixo um excerto de um artigo que escrevi recentemente onde enquadro os desequilíbrios, tentando evitar moralismos, ou seja, imoralidades:

Na literatura de economia política crítica há muito que a natureza assimétrica da integração europeia, consolidada com o euro, está identificada, bem como o «neoliberalismo disciplinar» que dela resulta. De facto, os Estados democráticos prescindiram de atributos centrais da sua soberania, como a moeda e a possibilidade de recorrerem ao financiamento por parte do seu Banco Central, transferindo-os para instituições europeias muito menos democráticas e perdendo instrumentos vitais de política orçamental ou industrial nesse processo, até porque à escala da União não foram criados instrumentos adequados de compensação. Apenas existe moeda única sem orçamento, fiscalidade e dívida pública comuns; regras do mercado interno que impedem políticas industriais nacionais de protecção; liberdade dos capitais, que beneficiou em especial o capital financeiro e as fracções mais extrovertidas do capital industrial, que passaram a poder arbitrar entre distintos regimes sociais e laborais, favorecendo a sua erosão. Estas são algumas das expressões da assimetria que as instituições europeias se encarregaram de acentuar.

Os países que participaram neste processo tinham distintos pontos de partida em termos de apetrechamento económico e distintas correlações de forças sociais; distintas variedades de capitalismo, em suma. Não admira que tenham reagido de forma diferenciada a este processo de integração. Vários mecanismos e forças trabalharam assim para a consolidação de uma fractura económico-política: países do «Norte» com superávites permanentes na sua balança corrente a que tinham de corresponder, dadas as relações equilibradas com o exterior da Zona, países do «Sul» com défices estruturais. A integração monetária, com a desaparição do risco cambial e a liberalização financeira associada, favoreceu e alimentou o correspondente afluxo de capitais do «Norte» para o «Sul», sob a forma de financiamento essencialmente privado e intermediado por bancos ainda com imbricações nacionais, até porque as suas actividades são garantidas pelos Estados, como a crise haveria de revelar. A hipótese dos mercados eficientes, segundo a qual os preços dos activos incorporam toda a informação relevante, dominante entre os decisores políticos durante o período, legitimou este processo de endividamento, descrevendo-o como a resposta globalmente racional dos agentes económicos às novas condições criadas por um euro que teria relaxado, ou mesmo eliminado, as restrições que impendiam sobre as balanças de pagamentos nacionais e que assim favoreceria a convergência.

A história encarregar-se-ia de demonstrar a inanidade desta tese e os custos que as periferias europeias teriam de pagar por terem abdicado da capacidade de controlar as suas economias, assim imitando, em novos e mais intensos moldes, o padrão de que tantos países do «Sul Global» já tinham sido vítimas: liberalização financeira, afluxos de capitais, bolhas especulativas oleadas por um endividamento numa moeda que não se controla, sobreapreciação cambial, crise, problemas de financiamento e os tais «rígidos programas de estabilização» impostos pelos credores. Estando os ajustamentos cambiais ausentes por definição, a Zona Euro, como assinalou Yannis Varoufakis, reproduz de forma acentuada um dos problemas da economia mundial: a inexistência de um mecanismo automático decente de «reciclagem dos excedentes» que permita gerir e atenuar os desequilíbrios nas relações económicas internacionais, incluindo através do apoio ao relançamento e apetrechamento dos países deficitários necessitados, já que os mercados financeiros liberalizados sempre se revelaram incapazes de desempenhar essa função, gerando antes uma grande crise, que, tal como a de 1929, tenderá a vitimar os processos de integração monetária internacional que se revelem demasiado rígidos: o padrão-ouro no século anterior, o euro neste.

5 comentários:

Diogo disse...

Ainda sobre o vosso post: «Ainda a recapitalização da banca»

http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2011/11/ainda-recapitalizacao-da-banca.html

Caro Ricardo Reis,

Estou a dizer isso mesmo. Eu sou licenciado em Gestão de Sistema e Tecnologias de Informação. E, embora, no curso se tenha aflorado que os depósitos à ordem criam dinheiro, o assunto nunca foi desenvolvido, e, ainda menos, tiradas conclusões.

Ricardo Reis - a) Os bancos não tinham de pedir dinheiro a outros bancos.

a) Os empréstimos são normalmente a muito curto prazo: uma semana ou de um dia para o outro e destinam-se tão só a acertos de contas diários.
E se não fosse assim, para que seriam necessários leilões semanais do BCE e os empréstimos overnight, onde este recebe o dinheiro que emprestou na semana ou dia anterior, e volta novamente a emprestar no dia seguinte?


Ricardo Reis - b) Os bancos tenham lucros consistentemente superiores a 100%.

b) Que sabemos nós dos lucros dos bancos? Quantas contabilidades paralelas podem ter? O caso BPN não é paradigmático? É tão fácil afirmar que um investimento correu mal e que o dinheiro se evaporou…


Ricardo Reis - c) Nenhum banco iria à falência ou teria de ser intervencionado pelo Estado, excepto no caso de uma corrida ao banco.

c) Hoje, todos os bancos fazem parte de um monopólio bancário mundial. Os bancos hoje não vão à falência. O que acontece é que esse monopólio decide - «para criar crises financeiras» - fechar um ou mais dos seus balcões. Crise de uma coisa que é criada a partir do nada (out of thin air)? Se você tivesse uma máquina de falsificação de dinheiro, ia à falência?


O sistema de reservas fracionário é, e de que maneira, uma galinha dos ovos de ouro. Acima, coloquei um comentário, transcrito literalmente do livro - Política Monetária e Mercados Financeiros, que o descreve bem. Porque não o desmonta? Ou porque não lhe aponta os dificuldades.

vírgulas adversas disse...

Na literatura de economia política crítica(,) há muito que a natureza assimétrica da integração europeia, consolidada com o euro(,?) está identificada,

está?

blabla disse...

...belos livros em belas universidades onde as questões «económicos e bagaceiras» transbordam e borbulham chega a parecer até uma espécie de ciência coisa e tal…contudo não passa de blabla...os bancos já há muito abandonaram na prática o seu core-business…comprar e vender dinheiro já era... facturar agora é no que eufemísticamente chamam ‘desintermediação’ whatever...claro que a desintermediação não passa de pura casinada que neste momento abriu com o anuncio de fachada «divida soberana» onde outrora piscava um «subprime» e amanha apostarão em «cagalhões cor de limão» quando a actual veia se esgotar...a rapinagem à clientela é feita no essencial via comissionamento e em completa desregulação ou melhor uma regulação by (…)self com os preçários bancários a subirem à velocidade da luz…de hora a hora...não…não é ficção é mesmo assim...quanto à questão 'bpn' ela é extensiva na prática - mais coisa menos coisa - a toda a banca…sim toda… trapalhadas daquelas conheço-as eu inside em todos eles e de estalo...os lucros publicados pura ficção… de real têm muito pouco...de facto nada mudou na banca desde o estalar da «crise» …os bancos continuam hoje as mesmas práticas cretinas…impávidos e serenos ...para esta análise não li toneladas de livros nem encharquei a tola de teorias gráficos e outros blablas por muito eruditos...apenas me enterrei neles durante 38 anos e fui assistindo ao filme com um guião cheio de foguetório economês feito à medida e just in case… claro que a banca está de rastos mas o real prb chama-se crédito - bem parado - que aumenta todos os dias exponencialmente na medida que se cortou o financiamento às empresas e se aumentou a rapinagem da comicharia e se impôs a celebérrima e digna «austeridade»…a banca agora… passa o tempo a varrer coisas para debaixo do tapete…empurrar assuntos para as calendas e por aí fora… a (in)justiça portuga dá uma boa mãozinha… há alturas em que o reset é a melhor solução …assim creio - sem apelo nem agravo – na inevitável nacionalização da banca e toda - claro - quanto mais depressa melhor…

Diogo disse...

Não recebi nenhuma explicação dos senhores doutores deste blogue, especialistas em economia e finanças, ao que é dito no excelente livro - Política Monetária e Mercados Financeiros.

Qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe que estamos em presença de uma fraude de proporções inimagináveis. Será assim tão difícil aos talentosos escribas deste blogue desmontar esta «teoria da conspiração»?

Repito o que comentei há uns posts atrás. Repito porque, infelizmente, os blogues não são a melhor forma de debate e os comentários vão ficando lá para trás.

O livro, síntese da experiência de ensino ao longo dos últimos dez anos dos autores Emanuel Reis Leão, Sérgio Chilra Lagoa e Pedro Reis Leão, na área da economia monetária e financeira, que nos explica, de forma muito simples, a forma como os bancos comerciais, em conluio com o Banco Central Europeu, perpetram diariamente um roubo de proporções inimagináveis às famílias, às empresas e aos Estados.

Logo no primeiro capítulo do livro este processo é descrito de forma magistral:

a) Um banco concede crédito a uma família no valor de 100.000€ para a compra de uma casa, creditando a conta de depósitos à ordem dessa família no montante de 100.000€.

b) Para essa operação, um funcionário do banco altera os números que estão registados informaticamente na conta à ordem da família, somando 100.000€ ao valor que lá se encontrava anteriormente.

c) Esse dinheiro não existia antes em lado nenhum. O banco cria-o a partir do nada - algum funcionário do banco altera os números que estão registados informaticamente na conta à ordem da família, somando 100.000€ ao valor que lá se encontrava anteriormente.

(CONTINUA)

Ricardo Amaral disse...

Mas os governos auto-intitulados patrióticos só nacionalizam os prejuizos,ao contrário da europa merkozy que manda os prejuizos para a periferia europeia!
http://portugalnonevoeiro.blogspot.com/2011/12/europa-merkozy.html