quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Definir é preciso


Não consigo definir a poesia, mas consigo identificar um dos seus usos: fornecer definições incomparáveis, precisamente, com toda a precisão. Manuel da Fonseca definiu um domingo no fascismo; Manuel António Pina definiu uma casa; Manuel Gusmão foi ao encontro do encontro, definindo o Partido. Sim, Manuel, nome de pai. 

Andava meio deprimido, meio precário, a viver num sítio meio feio, com meio partido e assim. Era domingo, estava um céu plúmbeo, fui ao Pingo Doce com culpa, andava por um corredor com o carrinho e ouço no altifalante, “autoridade e propriedade privada, dois novos livros da Fundação Francisco Manuel dos Santos”. Como é? Viver sempre também cansa, dizia o outro. 

Voltei para casa rapidamente e li toda a tarde, devo ter escrito qualquer coisa por aqui, senti-me melhor. Sabia que o meu domingo não era o domingo do fascismo, longe disso. Tinha de lutar e de pensar mais e melhor na casa do povo, na soberania, estava visto. Não estava só, tinha camaradas e amigos e tudo e sem eles não há pensamento. 

E o Partido estava lá, continuava a reunir, teria provas disso em breve, mesmo que não o soubesse ainda, mesmo que já o tivesse sabido e esquecido. Num dia de sol, junto ao forte de Peniche, aquando da inauguração de um museu da resistência, surgirias de repente e dirias o teu nome. Irremediável só a morte e mesmo essa...

Notai bem. Roubei, uma vez mais, a inconfudível ilustração a Marta Nunes, que sabe como se desenha uma casa. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Leonard Cohen – Democracy


Mais-que-coisas

 

Acordei cedo no passado domingo, uma vez mais sobressaltado, a precisar de viajar de Coimbra a Penedono, a precisar de chegar à raiz de todas as relações, ao sítio inicial-sem-final, onde há castelo e castanheiros, paredes graníticas que escurecem e vidros limpos que deixam entrar a luz do sol, iluminando a passagem do tempo. 

Duplo sobressalto, entretanto: há uma pulsão governamental de morte, liberal autoritária, desmemoriada, tão contrária a este dia dos mortos. E eles estão dentro de nós, entre nós, vivem em nós, nos nossos, seus, termos. 

O dia 1 de novembro é um dia de memória, de cuidado, e logo de vida e da sua pulsão. Vai-se e, por uma vez, está-se: falo do cemitério, o sítio onde só se vai, dizia-nos Saramago. Está cheio de flores, um mar de cor, uma luta contra o tempo, contra o esquecimento. 

Lembro-me de Walter Benjamin, em 1940, pouco antes de ter colocado fim à sua vida errante e perseguida: «nem os mortos estarão seguros se o inimigo vencer». E o inimigo venceu, foi derrotado e venceu de novo, mas não de forma irremediável. 

É possível derrotá-lo, uma vez mais, como se viu ainda há pouco na luta contra o pacote laboral. Nunca se desiste, mesmo que os escombros se amontoem, quando o anjo é arrastado e olha para trás, de costas voltadas para o futuro. 

Não sei do anjo da história, mas olho e vejo trabalhadores, uma vez mais, a espancar trabalhadores, em cada vez maior escala, e ambos enfrentando a mesma questão da habitação. Neste dia, feito de gestos que se repetem, que têm de se repetir, devo de repetir uma frase que escrevi no blogue Ladrões de Bicicletas há mais de uma semana: 

Perante a complacência do Presidente da República, que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição, este Governo tenta levar o neoliberalismo mais longe. Resistir-lhe é uma obrigação de qualquer pessoa honrada. 

 E este dia primeiro é sobre o princípio da habitação, toda uma luta, todo um princípio aonde se pode regressar sempre. Como disse Manuel António Pina: «come agora um pão primeiro/sem o sabor de palavras estrangeiras na boca». 

Sim, temos todos um sabor de palavras amargas, dado por uma política governamental entreguista. E nós sabemos o que temos de fazer: da socialização da renda fundiária ao investimento público contínuo em habitação a preços acessíveis para a classe trabalhadora, passando pelos tetos às rendas, pelas limitações estritas ao alojamento local ou pelo fim das benesses fiscais regressivas aos inflacionados direitos de uma propriedade privada com deveres deflacionados, sobretudo à que esta cada vez mais concentrada. 

Mais à frente, sempre no seu livro Como se desenha uma casa, num outro poema, diz-nos Pina, o portuense invicto: «Há em todas as coisas uma mais-que coisa/fitando-nos como se dissesse: 'Sou eu'/algo que já não está lá ou se perdeu/antes da coisa, e essa perda é a coisa». 

E que alivio saber que há mais-que-coisas imperdíveis, por todo um país, sintetizadas numa nota do gabinete de imprensa do PCP e logo neste dia: «Exigindo-se o apuramento cabal das responsabilidades políticas da ação repressiva em curso, o que se impõe são soluções para os problemas, medidas que respondam aos problemas que atingem a vida da maioria do povo, designadamente o direito à habitação». 

Sim, é preciso acordar a casa, desenhá-la «como quem embala um remorso». Lembramo-nos, resistimos, habitamos. Nós, com eles, todos nós, vivos.

Artigo publicado no AbrilAbril, tomando como ponto de partida ocorrências registadas no blogue, seguindo um método de escrita democrática e patriótica.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Censor de cátedra


É irónico que os principais aliados dos ativistas sejam empresas privadas que se esforçam, para além do que permite a força humana, para amplificar os eventos. De forma bem enviesada, diga-se. As famílias Azevedo, Balsemão e o astronauta Mário Ferreira são os donos do megafone da agitação. Os ativistas já lhes devem uma estátua. 

Sob o manto diáfano da ironia, António Nogueira Leite, o maior super-administrador do país, catedrático-censor-mor na FEUNL, vulgo Nova SBE, apela a uma ainda maior vigilância, a um ainda maior enviesamento, por parte dos proprietários dos meios de produção ideológicos. Não esquecemos o caso Nova-EDP-Peralta e o seu papel: old new economics, indeed. Sim, Thomas Piketty tem razão nisto: o neoliberalismo é um neoproprietarismo.

Neste contexto, resgato um parágrafo de um artigo no Le Monde diplomatique – edição portuguesa: 

A ideologia proprietária televisionada afiança falsamente que o que é de todos não é de ninguém, o que significaria que poderíamos retorquir: será que os deveres que são de todos, sem os quais de resto não existiria propriedade privada, não são de ninguém? As televisões ditas privadas usam e abusam de um bem público licenciado pelo Estado — o espectro hertziano terrestre destinado à radiodifusão —, furtando-se aos seus deveres de formar e informar, sem que haja qualquer consequência: claramente, a ideologia dominante é a dos seus proprietários, num capitalismo televisivo sem freios e contrapesos, até pelo enfraquecimento do poder dos jornalistas. Sim, por todo o lado, as relações de propriedade são relações de poder. 

Os liberais até dizer chega sabem que não se aguentam num debate de igual para igual, dada pobreza confrangedora dos seus argumentos. Pelo menos, Leite ainda escreve os seus textos...

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Cumprir e fazer cumprir


“Finalmente o Presidente da República falou”, afiançou o indispensável voluptama. Disse então António Filipe: “Se até aqui era uma questão de respeito pelo direito à habitação, agora é mais que isso, é respeito por direitos fundamentais que estão a ser violados”. 

E António Filipe, já agora, publicou este ano um livro a não perder de história e teoria política da nossa Constituição da República Portuguesa: 

“[D]e forma organizada ou mesmo informal, a Constituição confere aos cidadãos um conjunto de mecanismos de intervenção cívica para defesa dos seus interesses legítimos, através dos quais podem exprimir o seu protesto, manifestar o seu direito informal à indignação, mas também apresentar propostas e lutar por alternativas” (p. 343).

Adenda. Só por uma questão de memória, um exercício sempre chato, lembro aos apoios declarados de esquerda a Seguro na primeira volta o que escrevi, aquando da segunda, no AbrilAbril: continua a ser imprescindível derrotar o consenso neoliberal, desde logo tendo presente que rejeitar Ventura não é apoiar as ideias de Seguro. Sim, presidenciais memoráveis.  

domingo, 1 de novembro de 2026

Todos nós


Acordo cedo, uma vez mais sobressaltado, preciso de viajar, de chegar à raiz de todas as relações, ao sítio inicial-sem-final. Duplo sobressalto: há uma pulsão governamental de morte, liberal autoritária, desmemoriada, tão contrária a este dia. 

Os mortos estão dentro de nós, entre nós, vivem em nós, nos nossos, seus, termos. Hoje é um dia de memória, de cuidado, e logo de vida e da sua pulsão. Vai-se e, por uma vez, está-se: falo do cemitério, o sítio onde só se vai, dizia Saramago. 

Olho e vejo trabalhadores, uma vez mais, a espancar trabalhadores, em cada vez maior escala, e ambos enfrentando a mesma questão da habitação. 

Neste dia, há gestos que se repetem. Tenho antes de repetir o que escrevi há uma semana: 

Perante a complacência do Presidente da República, que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição, este Governo levou o neoliberalismo até às suas últimas consequências. Resistir-lhe é uma obrigação de qualquer pessoa honrada, tal como aconteceu com o pacote laboral. 

E este dia é sobre o princípio da habitação, toda uma resistência, princípio aonde se pode regressar sempre. Como disse Manuel António Pina: “come agora um pão primeiro/sem o sabor de palavras estrangeiras na boca”. 

Mais à frente, sempre no seu livro Como se desenha uma casa, num outro poema, diz-nos o portuense invicto: “Há em todas as coisas uma mais-que coisa/fitando-nos como se dissesse: ‘Sou eu’/algo que já não está lá ou se perdeu/antes da coisa, e essa perda é a coisa”. 

Sim, vai ser preciso acordar a casa, desenhá-la “como quem embala um remorso”. Lembramo-nos, resistimos, habitamos. Nós, com eles, todos nós, vivos.

Notai bem. Roubei a ilustração a Marta Nunes, que ilustra vivamente a morte e a vida. 

sábado, 31 de outubro de 2026

Liberais, desmandos e truques


Algumas das figuras mais extremistas da ‘nossa’ direita libero-facha têm andado nestes últimos dias particularmente ativas na sua eterna missão, nunca inteiramente realizada, de espalhar desinformação, a propósito de um ‘faz anos que não sei quê’, outra vez a eternamente martelada vigarice histórica ‘o gatuno do Sócrates’. Aprendi com André Janones, não há link para elas. 

Isto acontece - será por acaso? - enquanto a imprensa dá nota de uma quadrilha de corruptos, que se encontram entre os piores que alguma vez flagelaram o país na sua longa História, ter escapado à justiça, visivelmente de classe. Todos os cabecilhas, sem exceção, liberais. 

Não nos esqueçamos nunca que esta quadrilha, nata da nata do cavaquismo, assaltou à vista desarmada o Banco Português de Negócios, o BPN. 

Cavaco Silva, por exemplo, primeiro-ministro à data de fundação da instituição financeira, vendeu, em 2003, ações que detinha do banco ao próprio banco, num negócio com obscenas mais-valias e realizado sem o escrutínio de mercado que o regime regulatório vigente impõe; uma negociata, afinal, entre amigos, antigos ministros seus e Joaquim Coimbra, um dos donos políticos do PSD de antanho. 

E isto, como se sabe, foi só uma muito pequena amostra do desmando ganancioso, corrupto e incompetente, cuja fatura ainda não encerrou e que custou ao país, em termos financeiros, um número difícil de averiguar com exatidão, mas que já superou os 6 mil milhões de euros. Deste rombo nas finanças públicas, deste aumento na dívida pública, nunca se queixam os liberais, claro. 

Lá está :‘culpa de Sócrates’. Sendo um truque de versatilidade assinalável que só beneficia as teses liberais e proscreve as alternativas, quase coincidentemente no tempo, também Centeno tinha há pouco vindo a público alimentar a patranha. 

Neste caso, o truque consiste, enquanto nos prende a atenção com o não existente despesismo de Sócrates e Montenegro, em evitar que se façam três perguntas. 

Primeiro, não se presta atenção ao estrago histórico que ele, Centeno, impôs ao investimento público, aos hospitais, às escolas, à habitação, aos transportes. Em todos os anos de Centeno como Ronaldo das finanças, foi sempre negativo o investimento subtraído do seu desgaste. Isto configura uma boa política orçamental? 

Segundo, também não se questionam as perdas de 2,5 mil milhões de euros incorridas no Banco (que não é)  de Portugal no período em que a instituição era por si governada. Aqueles que destas perdas beneficiaram incensam-no, claro. 

Terceiro, igualmente tenderá a ficar sem escrutínio suficiente o seu lugar na folha de pagamentos de um banco estrangeiro privado, quando ainda estão quentes as suas cadeiras no Ministério das Finanças e no Banco (que não é) de Portugal, posições que o colocaram na posse de informação crítica para o Estado português. “[N]omeado conselheiro independente do Abanca Vida e Pensões”, dizem eles quase com graça. 

Enfim, liberais e as suas tristes proezas. Não tem de ser assim.

Muito obrigado, Professor Francisco Louçã


Francisco Louçã vai passar a ser Professor Catedrático Jubilado do ISEG-UL, a minha alma mater, dado que fez setenta anos. É só uma formalidade, mas tem substância, incluindo a chamada última lição. 

Antes de irmos a essa substância, permitam-me que limpe o terreno inicial: Louçã sempre teve várias vidas, incluindo uma bem conhecida, a de militante político, marxista, consistentemente fiel a uma certa tradição trotsquista. Com ele tive e tenho convergências e divergências profundas, aproximações e afastamentos. Sim, isto também é político e pessoal, desculpai, é mesmo a vida toda. 

Quero então dar testemunho do Professor e do intelectual público, do Mestre, como se houvesse esferas separadas, como se a política não entrasse – entra, a questão é como entra. Tenho uma dívida intelectual, científica, impagável, a que só se reconhece. Aqui vai. 

Antes de ser seu aluno, li A Maldição de Midas, livro que muito me marcou por causa dos debates tão informados e bem sistematizados sobre socialismo, desenvolvimento e cultura num capitalismo que parecia avassalador. Antes de ser seu aluno, entrei em contacto e ele deu-me um conselho que segui à risca e pelo qual lhe estou eternamente grato: “estuda Karl Polanyi”. 

Depois fui seu aluno, em 1998/1999, e logo numa cadeira opcional chamada Metodologia da Economia. Foi um exemplo do que é um Professor com p grande: escrupulosamente objetivo, atualizado, sério ao ponto de os mais distraídos confundirem isso com distância, mobilizador das nossas parcas inteligências, ainda para mais logo de manhã, bem cedo. 

Ainda hoje me recordo das aulas, da entrada guiada no continente da filosofia da ciência económica, do positivismo de Milton Friedman ao realismo crítico de Tony Lawson. Afinal de contas, ele tinha escrito uma tese de doutoramento na área – Turbulência na Economia – e continuou a escrever entre a filosofia económica e a história económica, economia política, As Times Goes By... 

Eu e um dos meus melhores amigos, um dos que se fazem na faculdade e que são para o resto da vida, fizemos um trabalho a dois sobre Economics and Reality, livro de Lawson. Incentivados por Louçã, mandamos-lhe um email com perguntas e eu ainda não tinha grande hábito de o fazer. Lawson respondeu e isso enriqueceu o trabalho. 

António Avelãs Nunes, outro raro académico marxista, contou-me uma vez uma história, que ocorreu com o seu Mestre Teixeira Ribeiro: um estudante disse-lhe um dia que sabia, quando ainda não era tão conhecido, que era de esquerda, porque era o único professor que não fazia política na sala de aulas, verdadeira revelação de uma vocação a mimetizar nos dias de hoje. Esta história aplica-se a Louçã. 

Por tudo isto e por muito mais, incluindo o privilégio de com ele e com a imprescindível Ana Costa cocoordenar, desde 2019, o bem-sucedido e interinstitucional Doutoramento em Economia Política, digo: muito, muito, obrigado pelas lições, Professor Francisco Louçã.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Faltam 15 dias


O anti-Centeno


Aproveito o habitual ensejo irónico de Guilherme Rodrigues, um dos coautores da indispensável República dos Pijamas, para publicar um excerto de um artigo que Paulo Coimbra eu escrevemos para o Le Monde diplomatique - edição portuguesa de novembro, na próxima semana nas bancas, entitulado O anti-Centeno; procuramos refutar as teses expostas por este neoliberal, agora com uma sinecura num banco espanhol, num artigo inenarrável no Público:

Quando Centeno obscurece o papel do BCE na determinação da taxa de juro num artigo com o título «Montenegro destrona Sócrates», o que está a fazer é alimentar a tese falsa e sediciosa, segundo a qual Sócrates teria levado o país à bancarrota. Uma tese com o objetivo claro de fazer equivaler qualquer política orçamental minimamente expansionista com um alegado despesismo corrupto. Se Sócrates pode e deve, politicamente, ser acusado de alguma coisa é de, afirmando-se social-democrata, ter aplicado as políticas de ajustamento austeritário – cortes salariais, aumento de impostos e congelamentos e cortes nas prestações sociais – impostas pela UE, e por si vertidas nos Planos de Estabilidade e Crescimento, e de ter cortado a torto e a direito antes de ter caído no Parlamento pelas mãos de uma direita que se comprometeu a não cortar e cortou ainda mais.  

Somos todos Palestina


Roubado a Assel Rad, da Universidade de Cambridge, corajosa investigadora da manipuladora comunicação social ocidental dominante, a que está ao serviço do genocida colonialismo sionista. Esta imagem tem exatamente 26 anos, estávamos no início da segunda Intifada, lembro-me como se fosse hoje. A luta do povo palestiniano não pode ser esquecida, tem de ser objeto de permanente mobilização internacionalista: em cada cidade, em cada esquina, somos todos Palestina, gritam os povos.
 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O triste estado do orçamento


As tristes figuras televisivas de vários quadros do P sem S, alinhados com as direitas na Sociedade Indigente de Comunicação (SIC-N) e na Chega News Network (CNN), são reveladoras do estado em que se encontra esse P. Há ali quem minta, como se fosse fascista. Muito triste mesmo.

Em coerência, este P viabilizou ontem um Orçamento do Estado absolutamente conforme à UE que o determina em larga medida, e que contrai o investimento público, em geral, e na habitação, em particular; um OE que corta no SNS e aumenta o desperdício das despesas com a perigosa corrida armamentista. Muito triste mesmo.

Isto basta, mas há muito mais, incluindo a subida galopante da despesa com juros, obra do irresponsável BCE, também por via da sucursal que dá pelo nome de Banco que não é de Portugal. Os lucros dos grupos económicos, da banca à Galp de Amorim, esses batem recordes e, graças ao P e ao Chega-IL, o IRC já tinha descido e tudo. Muito triste mesmo.

Entretanto, do ponto de vista da tática, o P conta com a viragem para a direita, para a qual contribui; depois virá apresentar-se cinicamente como baluarte contra o Chega, com a chantagem miserável de sempre, quando as suas opções há anos que alimentam o monstro. Muito triste mesmo.

Alegre só mesmo a luta contra o estado a que se chegou, a mesma que derrotou o pacote laboral. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Leis, distribuições


Grande protesto ontem, em frente à Assembleia da República: haja casa para viver, resistir é avançar. Se a dinâmica da luta de classes democrática em Portugal tivesse leis, esta seria uma delas: quanto maior o protesto, quanto mais as massas se envolvem na luta, menor é a probabilidade de haver repressão policial. 

E insisto neste ponto: o medo está mesmo muito mal distribuído, tal como o rendimento e a riqueza. A sua redistribuição de baixo para cima diminuiu a prevalência deste sentimento; correlativamente, a riqueza e o rendimento fluirão de cima para baixo e aumentarão neste processo distributivo progressivo. 

Adenda. E, herança da história teorizada de forma prática, nós sabemos muito bem como distribuir de forma mais igualitária, antes e depois de processos de mercado mais circunscritos: da negociação coletiva tão centralizada quanto possível aos impostos progressivos sobre rendimento e riqueza, da alteração dos direitos e dos deveres associados à propriedade privada à nacionalização de setores estratégicos geradores de rendas e de super-lucros em mãos privadas, dos serviços públicos universais às prestações sociais que protegem quem trabalhou ou não pode ainda trabalhar, das taxas de juro nominais próximas de zero, para eutanasiar o rentista financeiro, digamos, à socialização do investimento, com um papel para a banca pública e para o orçamento, suportado pelo banco central se for necessário.    

Alegrai-vos


Alegrai-vos. Os alemães da Lufhtansa estão felizes: “Penso que é a primeira vez que compramos uma companhia aérea lucrativa”. É a especialidade dos luso-entreguistas: vender património valioso ao desbarato e conseguir sinecuras com isso. Deveria haver uma norma constitucional que proibisse esta pouca-vergonha. Já houve, a da irreversibilidade das nacionalizações, as que criaram novas empresas como a EDP, as que permitiram a construção de um Estado empreendedor. Foi removida por PSD-PS em 1989, o ano do fim da história. E Deus sabe como tantos quadros partidários lucraram desde aí.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Viva o povo brasileiro


Estavam a contar com uma pilhagem de recursos tão certa como a austeridade e a lei da bala que iriam impor. As contas saíram furadas aos especuladores. Tudo o resto são eufemismos ofuscadores e Deus sabe como até a melhor imprensa financeira é diabolicamemente ideológica quando chega ao Sul dito global. Este quer defender a sua soberania básica, pecado imperdoável.


A festa é realmente bonita, pá, mas só quando é poder do povo soberano, rumo à igualdade cidadã efetiva, à expansão, sempre coletiva, das liberdades a sério, a começar na autodeterminação nacional. E a beleza pode assumir diferentes formas institucionais na passagem do abstrato ao concreto. 


Tem a palavra António Nogueira Leite: “Com a vitória de Lula, o Brasil pode finalmente, resolver o problema da pobreza causado pelo capitalismo neo liberal dos últimos governos.  Parabéns e boa sorte”. Coitado, para lá da azia, é a ironia possível num economista neoliberal em fuga para a extrema-direita.


Entretanto, é preciso insistir contra os que confundem internacionalismo com cosmopolitismo: contra uma elite vira-latista, a bandeira nacional pertence às forças do progresso. Sim, o soberanismo, o patriotismo radical, o nacionalismo pela esquerda são a melhor bateria para alimentar a energia popular. 


Insistir sempre, persistir sempre. Contra os elitistas de demasiados partidos, só o povo salva a democracia: mulher, negra e de classe trabalhadora do Nordeste, este foi o último reduto de defesa da democracia brasileira, da luta de classes democrática, fazendo reeleger um antigo operário e sindicalista que perdeu um dedo num acidente de trabalho. 

Termino, por agora, com um insuspeito historiador e teórico político liberal chamado Jan-Werner Müller; no seu livro Democracy Rules escreveu – “os que estão à procura de uma lição da história devem tomar nota: não é o povo que decide prescindir da democracia, mas sim as elites”. 

Sim, viva o povo brasileiro.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Amanhã, concentração Casa para Viver, em frente ao Parlamento


Última, últimos

 
Hoje, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, às 17h, não será a última lição de José Manuel Pureza, certamente. E, de qualquer forma, os últimos serão os primeiros, como sabe o primeiro Professor Catedrático de Relações Internacionais da nossa faculdade, o que um dia perguntou: quem é o interesse nacional? 

Gratidão eterna


Minha gratidão eterna ao povo brasileiro, à juventude que tomou as ruas em defesa da democracia e a cada pessoa que fez um esforço imenso para votar e defender o futuro do nosso país. Vocês me emocionam e renovam minha esperança. Essa vitória é de um povo que acredita, que luta e que não desiste de construir um Brasil mais justo, soberano e democrático.

Brasil presente, Lula Presidente. Boa semana semana, antifascistas. 

domingo, 25 de outubro de 2026

Meia dúzia de frases à solta


1. Fotografia de Vasco Santos, Lisboa, 2026: isto não é, nunca foi, sobre imaginadas lutas de gerações, mas sim sobre reais lutas de classes. 

2. A pergunta que não quer calar: “e o PS vai deixar passar o Orçamento deste governo?”

3. “Há responsabilidade do Governo nesta ação desproporcional sobre a população”, de facto, parte da irresponsabilidade histórica das elites económico-políticas, as mesmas que colocaram Mussolini, Salazar ou Hitler no poder.

4. Sim, “hoje ficaremos a saber se temos um Presidente da República”, sendo que ainda existe uma Constituição da República Portuguesa de matriz antifascista.

5. Lembrete importante num dia como hoje, num país com 3% de habitação pública no total, dos valores mais baixos da UE: “nos liberalíssimos Países Baixos mais de 1/4 das famílias vivem em habitação subsidiada pelo Estado, ou seja, com rendas controladas”.

6. Não, a questão da habitação não é resolúvel no quadro dos constrangimentos euro-liberais da Zona Euro, dado o nosso ponto de partida.

Acordar


Acordo sobressaltado e vejo a desgraça absoluta: trabalhador a espancar trabalhador, quando ambos se confrontam com a questão da habitação. Perante a complacência do Presidente da República, que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição, este Governo levou o neoliberalismo até às suas últimas consequências fascizantes. Resistir-lhe é uma obrigação de qualquer pessoa honrada, tal como aconteceu com o pacote laboral.