sábado, 29 de agosto de 2026

Iluminismo radical


As declarações de Sebastião Bugalho merecem ser registadas: «Somos o único Estado da UE sem participação na sua rede nacional»; «mais de metade [dos Estados] tem mais de metade de participação pública na sua rede eléctrica nacional»; «seria importante nos sectores estratégicos o Estado [português] assumir outra pujança». São realidades que é importante que alguém do PSD reconheça, mas que a serem encaradas com seriedade e consequência o que exigiriam era a nacionalização da REN e de outras empresas estratégicas nas mesmas condições – ANA, CTT, PT, EDP, GALP. Que tenha sido o PSD, com o PS, a privatizar essas empresas é outro facto que agora se deve registar, já que destes não ouviremos uma autocrítica ou um pedido de desculpas pelos estragos que as suas opções trouxeram ao país.

Assim começa mais um informativo artigo de Manuel Gouveia no AbrilAbril. Seja sobre a REN, a TAP, a CP, a Brisa ou a Ana/Vinci não encontram melhor análise concreta da situação concreta em empresas cruciais. 

É parte de uma cultura política que está a produzir dossiês, sob a forma de livros, sobre os desgraçados processos de privatização e liberalização, indissociáveis da influência da UE realmente existente nesta periferia, com a tão decisiva quanto prestimosa colaboração de um verdadeiro bloco central dos interesses. 

Tive a oportunidade, no início de março, de apresentar em Évora, graças à generosidade militante de João Andrade Santos, o dossiê-livro mais geral, precisamente na companhia de Manuel Gouveia (e de André Carmo). Entretanto, há mais, com estudos mais específicos, incluindo o mais recente sobre ferrovia, lançado esta semana: Dossier: Desastre na Ferrovia - 35 anos de Liberalização

Na altura, defendi que não havia melhor dossiê geral sobre o tema, começando por seguir a definição do dicionário: “Coleção de documentos referentes a certo processo, a determinado assunto, ou a certo indivíduo, etc”. A informação e análise tão detalhadas do livro não deixam dúvidas e os resultados destes processos estão à vista, dos serviços degradados ao controlo estrangeiro de setores estratégicos, num país que tem das mais baixas percentagem de ativos empresarias em percentagem do PIB na UE. 

Concluí da seguinte forma: embora a ideia de economia mista continue a ter dignidade constitucional, parte do ideal democrático de subordinação do poder económico ao poder político, todos sabemos que esta relação foi invertida, com todo o cortejo de casos de corrupção. Esta é sistémica e em parte foi legalizada e designada por “lobby”, como já denunciou de resto Gouveia. 

Entretanto, quem não quiser falar de privatizações deve calar-se sobre a falta de autoridade do Estado democrático, o que nos torna menos livres (e descobri que há quem trabalhe este tema crucial, a partir da filosofia política, no Departamento de Ciência Política da Universidade de Chicago; Chiara Cordelli escreveu também a recente entrada sobre capitalismo na Stanford Encyclopedia of Philosophy, e, já agora, uma sintética crítica geral ao capitalismo). A economia sempre tão política é demasiado importante para ser deixada aos economistas, um facto que ainda é demasiado ignorado em Portugal. 

Vira-latismo, mandonismo, sucateamento de empresas: o Brasil tem vocabulário útil para nos ajudar a ver o comportamento dominante da nossa elite do atraso, livrando-nos da praga dos anglicismos...

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