quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Centeno e o arroz

Mário Centeno, o ex-ministro das finanças de um país periférico sintomaticamente apodado de Ronaldo das Finanças por Schäuble, o ordoliberal ministro das finanças de um poderoso país do centro e um dos principais ideólogos do ajustamento austeritário imposto na década passada a Portugal e à Grécia, estando há dias e dias, sem interrupção, com presença destacada nos media, veio ontem, mais uma vez, agora no formato coluna de opinião, presentear-nos com, veja-se lá, arroz, mais arroz, outra vez arroz. 


“Dizer que, apesar da crise que devastou o mundo, o nosso orçamento é equilibrado de há oito anos para cá e que estes sete anos de gestão estão encerrados com importantes saldos credores, é gabar-se de uma coisa quase ridícula – deveria ser sempre assim”. 

Lá está ainda uma outra vez, arroz. Uma preferência, pelos vistos, de homens que se querem providenciais.

Entre muitas afirmações a merecer comentário (fica prometido), neste texto circunscrito apenas chamo a vossa atenção para o título da coisa, ou melhor, para a estafada tese nela contida. A tese falsa, academicamente medíocre e, quando defendida na periferia da zona euro, sediciosa, tese que a Direita, demagogicamente, não se cansa de repetir e segundo a qual Sócrates teria levado o país à bancarrota.

Se Sócrates pode, politicamente, ser acusado de alguma coisa é de, afirmando-se social-democrata, se ter vergado, primeiro com alguma relutância, depois, com convicção, às imposições ordoliberais de ajustamento austeritário emanadas do centro da zona euro e por si vertidas nos Planos de Estabilidade e Crescimento e de ter cortado a torto e a direito antes de ter caído no parlamento pelas mãos de uma direita oportunista que se comprometeu a não cortar e - escudada na troika de entidades externas ao país e eufórica com a oportunidade para privatizar tudo e mais umas botas - cortou ainda mais. 

O país foi forçado a aceitar os termos impostos pela troika, termos convenientemente ignorados por todos os vende-pátrias da situação, porque foi chantageado com juros superiores a 16% para financiar uma dívida pública de cerca 114% do PIB, quando, menos de uma década depois, uma dívida superior em cerca de 20 pontos percentuais pagava, imagine-se, -0,25%. Leu bem. Juros negativos. 16% para um nível de endividamento e -0,25% para outro mais elevado. O que teve Sócrates a ver com isto? O que explica aquela diferença de juros? No primeiro período, a inação discricionária e golpista do BCE. No segundo período, a intervenção daquele BCE nos mercados secundários comprando dívida pública portuguesa, porque a crise era por uma vez simétrica, atingindo centro e periferia. 



Centeno, atente-se, é o homem da política orçamental que no período 2015-2019 fez recuar a despesa pública em 4,2 pontos percentuais; despesa pública essa que, em 2023, ainda sob a direção de um primeiro-ministro por si economicamente influenciado, se encontrava 7,8 pontos percentuais abaixo da média da Zona Euro. Centeno é o homem que julga que isto é bom de ter no curriculo. Isto e o menor investimento público líquido das últimas, pelo menos, três décadas. É obra. Ou mais ou menos, digamos. 

Enfim, vai passear, Centeno; voltarei, ou voltaremos, a este artigo.

Entretanto, hoje, para fechar, diria que um Centeno tão preocupado com despesa pública, podia bem explicar ao país, de forma que o país entenda, já agora, sem se escudar em falsas inevitabilidades e naturalizações de decisões que são eminentemente políticas, por que razão o Banco que não é de Portugal, durante o período em que o governou, sofreu perdas de 2,5 mil milhões de euros. Dois. Vírgula. Cinco. Mil. Milhões. De perdas. Só no Banco de Portugal, sem contar com o grosso da despesa que foi estacionada nas contas de um BCE onde Centeno também tinha assento, um BCE que, não actuando como tal, é uma instituição pública parcialmente portuguesa.

2 comentários:

  1. Apenas uma detalhe: não foram apenas os votos da "direita oportunista" que "apearam" Sócrates. Já que estamos a falar de rigor, importa ser rigoroso, certo ?

    JR

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  2. E ainda dizem que o Arroja, o Aguiar Conraria, o Santa Clara, o Alexandre, o Sarmento e restante tralha do + Liberdade são perigosos! São-no, de facto. Mas, perigosíssimos, mesmo, são o Brilhante Dias, o Constâncio, o Centeno e demais fauna do Rato porque se dizem "socialistas"...

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