Interrompo uma longa pausa na escrita só para repescar um dos meus temas de eleição, parte da explicação para o declínio deste país turistificado: o porno-riquismo, o consumo conspícuo na era das desigualdades pornográficas.
Marido de Paula Amorim, filho de um fundador do Ritz, Miguel Guedes de Sousa, em entrevista ao Público, faz a queixinha habitual do capitalismo medíocre e dos seus apaniguados ideológicos, dos que que sentem que o mundo lhes deve sempre algo: “há muitos preconceitos quanto à riqueza neste país e são eles que nos tornam cada vez mais pobres”.
Não há qualquer preconceito em relação à riqueza, mas gostaria que houvesse um conceito mais adequado em relação à sua distribuição, tão desfasada dos trabalhadores, os seus verdadeiros criadores, o que implicaria alterar as relações sociais que regem a produção. O que esta gente quer é alterações ainda mais regressivas, com um único fito: ter uma força de trabalho barata e facilmente descartável.
De resto, a prova da absoluta falsidade desta afirmação liberal está logo na primeira “pergunta” dos jornalistas do Público, depois de um elogio descarado na abertura: “foi sempre, desde pequeno assim determinado e persistente ou são características que foi construindo?” Haja respeitinho.
Na Teoria dos Sentimentos Morais, finalmente traduzido e bem traduzido, Adam Smith já dizia que a adulação dos ricos era parte findamental da corrupção dos sentimentos morais.
Em Portugal, esta corrupção está bem avançada.
Eles podem e comem tudo, têm todos os aparelhos ideológicos e o Governo ao seu serviço e não estão satisfeitos: é da natureza do capital sem freios e contrapesos. Não têm medo, nem vergonha, nem decoro. Têm dinheiro, também graças aos superlucros do capitalismo fóssil, e julgam que compram tudo, todo o poder. Julgam mal, como sempre.
