Na boa lógica da reciprocidade, se insiste em regredir e em voltar a tratar-me por “os ladrões”, agora no debate do sistema de pensões, eu passo a tratá-lo por Pedro Santa Claude, até para voltar a sublinhar o mau exemplo para a juventude das suas práticas atuais de “escrita”.
Estou convencido, os leitores dirão se tenho ou não razão, que basta romper um elo da sua cadeia para tudo o resto soçobrar, até porque foi o mesmo que chegou a achar, em anterior polémica, que o Estado entra em bancarrota ou que gasta PIB. Já não acha.
Diz agora Santa Claude: “A diferença é que um [sistema de capitalização] diversifica o risco através de ativos produtivos; o outro [sistema de repartição] concentra-o na demografia, nos salários e na capacidade fiscal futura do país”.
Isto é lero lero, serve apenas para mascarar a realidade. Ambos os sistemas de pensões dependem em termos macroeconómicos exatamente das mesmas três variáveis, por ordem alfabética: demografia, emprego e produtividade; nem mais, nem menos.
Um professor de finanças da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, com a cátedra Millenium BCP e tudo, sabe certamente isto, sabe certamente que não há almoços grátis em termos agregados na esfera da circulação financeira, não precisa de ser marxista para o reconhecer.
E um praticante de finanças tem de saber que há uma diferença avassaladora entre a ilusão, passível de modelização, do risco (probabilístico) e a realidade histórica da incerteza radical, em que o futuro não é uma continuação estatística do passado (lembro só 2007-2008, 2020, quiçá 2026...).
Neste contexto, dados os incentivos, pode não querer saber o seguinte: o sistema de repartição é menos desigual, é mais transparente no enfrentamento das escolhas políticas, é um redutor da incerteza, não tem parasitas a desviar parte dos fluxos de rendimento e coloca alguma areia macroeconómica na engrenagem da finança desgraçadamente liberalizada e tão propensa a crises e a contribuições para gigantescas destruições de capital.
O que os chamados neoliberais – liberais há muitos, onde andam por cá os discípulos de Keynes ou de Beveridge? – apodaram de “repressão financeira” foi (em países como a China ainda é) outro arranjo redutor da incerteza, feito de controlos de capitais, em muitos casos de banca pública robusta, regulação contrária a certas práticas de mercado ou subordinação do banco central ao tesouro. Contribuiu para a estabilidade financeira, para o pleno emprego e para o crescimento da produtividade com ganhos mais partilhados (basta olhar para história do Atlântico Norte do pós-guerra aos anos 1970-80; em Portugal, este arranjo durou até ao início dos anos 1990).

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