quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Os intelectuais progressistas e o sistema imperialista


Dos nomes que subscrevem a carta nem-nem das duas tesouras no social-liberal The Guardian e que eu conheço, destaco o que mais me tinha surpreendido e desiludido: Mumia Abu-Jamal, prisioneiro político nos EUA. 

Soube-se depois que o nome de Mumia Abu-Jamal tinha sido lá colocado sem o seu conhecimento, ainda não se percebe bem como e porquê, o que levanta questões bem pertinentes sobre as origens e motivações de tal carta. 

Aparentemente, este antigo Pantera Negra escreveu no verso de dois pratos de plástico uma mensagem que inclui a seguinte formulação: “O Irão está a ensinar ao mundo, em especial ao Terceiro Mundo, como se combate o Império”. 

Uma carta destas é o seu contexto. E o contexto é de agressão mortífera ao Irão por parte dos EUA-Israel, os dois países mais ameaçadores do mundo. Confundir as prioridades políticas cria alianças objetivas perturbadoras. Perante a saudavelmente violenta reação anti-imperialista, vários subscritores já retiraram os seus nomes da tal carta. Corrigir, aprender.

Soube de tudo isto pelo historiador Vijay Prashad, diretor de um oásis intelectual anti-imperialista chamado Instituto Tricontinental. Escreveu uma resposta à tal carta, oportunamente traduzida pelo AbrilAbril, ponto central:

“O Irão não começou esta guerra. Os Estados Unidos e Israel é que o fizeram. O Irão está a resistir a um ataque armado contra o seu território e o seu povo. Este facto elementar deve determinar o momento, a linguagem e as responsabilidades políticas de qualquer pessoa que escreva sobre o Irão neste período. É nesse contexto que li a vossa carta aberta aos presos políticos do Irão.” 

Entretanto, o Governo chinês já criticou, uma vez mais e em termos claros, a agressão, agora com escalada no campo económico, contra o Irão, afirmando: “A cooperação entre a China e o Irão sempre foi conduzida no quadro da lei internacional e não deve ser alvo de interferências ou de disrupções”. Quem mais defende hoje o quadro da ONU, quem é?

Há uma parte do chamado campo progressista, a mesma do nem-nem, que nega ou subestima o alcance histórico da ascensão chinesa, quer do ponto de vista interno, quer do externo, lançando a tese absurda dos dois imperialismos. 

É como se a ascensão pacífica da China nas últimas quase quatro décadas pudesse ser confundida com os milhões de mortos causados pelo sistema imperialista, com centro nos EUA, no mesmo período (mais de 5 milhões em resultado de sanções económicas, só entre 2010 e 2021); como se o brutal Consenso de Washington pudesse ser confundido com a defesa do soberanismo por uma China dotada de uma flexível e robusta economia mista: nunca tantos viram a sua vida melhorar tanto, tão rapidamente e durante tantas décadas na história da humanidade, creio (os 10% mais pobres da população chinesa viram o seu rendimento crescer cerca de 7% ao ano em quatro décadas, segundo dados de Piketty em Capital e Ideologia)

E isto só para dar dois exemplos, sendo que há muitos mais, claro, incluindo os que mergulham numa história anterior, em que a revolução chinesa de 1949 se inscreve no grande levantamento anticolonial, sem o qual, com tantos avanços e tantos recuos, o difícil parto em curso de uma ordem multipolar seria impensável.  

Relembro a síntese de Domenico Losurdo, num dos seus excelentes livros editados no Brasil, onde praticamente toda a vasta obra deste filósofo-historiador está disponível (podem adquiri-los, por exemplo, na livraria Travessa, em Lisboa; o marxismo é hoje por cá, editorialmente e não só, uma visão quase marrana): 

“Com o seu desenvolvimento – que continua sendo amplamente dirigido pelo poder político e que ainda hoje busca subordinar aos fins gerais a habitual caça ao lucro dos setores privados da economia –, a China é o país que mais do que qualquer outro põe em discussão a divisão internacional do trabalho imposta pelo colonialismo e pelo imperialismo e que promove o fim da época colombiana, um facto de alcance histórico e progressivo.” 

Se também falo da China é porque o objetivo final do imperialismo é a destruição de tudo o que faz a República Popular. O Irão é em parte uma passagem nessa direção. Por isso, todo o apoio, sem prescindir da capacidade crítica, com a humildade de quem tem de aprender com a principal esperança organizada da humanidade.

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