segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Intrigas institucionais

O problema não é de saúde pública. 

Tão-pouco se trata de uma tentativa política de ilegalização do congresso do PCP, iniciativa que traz consigo aquelas tristes ressonâncias históricas do regime fascista de ilegalizar o PCP e os movimentos sociais por si patrocinados ou apoiados. 

A tentativa é bem mais curta. É a de usar aqueles anti-corpos salazaristas aos partidos políticos agora tão em voga (sobre isso ler o post de Porfírio da Silva, deputado do PS) para criar tensão entre o Governo e os seus parceiros parlamentares. E nisso de intrigas, Marcelo Rebelo de Sousa tem décadas de treino.  

As hostilidades começaram, de facto, por si. Numa declaração pública, o presidente de "todos os portugueses" e juramentado defensor da Constituição, achou por bem dizer o seguinte

“É verdade que a lei prevê expressamente que as actividades políticas e sindicais não podem ser atingidas pelo estado de emergência. Está lá um artigo. Mas também é verdade que a percepção (já falei nisso muitas vezes) é que aquilo que é determinado para uns é também determinado para todos”. 

Esta estranha posição de um presidente que gosta de ir além dos poderes que a Constituição lhe confere, teve óbvia repercussão na comunicação social. E teve-a igualmente no principal jornal diário - Público. A sua ex-editora da secção Política, Leonete Botelho - que por acaso é presidente da Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas - tem, ultimamente, colado os seus escritos ao discurso do presidente da República. Poderia mostrar-se inúmeros casos, mas para já fica apenas este já abordado neste blogue. 

Recorde-se que Leonete Botelho era a editora de Política que recebeu a chamada telefónica de Miguel Relvas, então ministro de Passos Coelho, em que este, aborrecido com as demasiadas perguntas da jornalista da mesma secção Maria José Oliveira sobre as secretas, a ameaçou dizendo que, se ela continuasse, divulgaria aspectos da sua vida privada. A jornalista soube da ameaça pela editora (a qual não a considerou relevante) e denunciou o caso ao Conselho de Redacção do jornal. Mas a Direcção Editorial do jornal dividiu-se sobre o que fazer: proteger a jornalista e denunciar o ministro; ou proteger uma fonte da editora que era... Miguel Relvas. Optou pela segunda opção e a jornalista demitiu-se do jornal. O caso, porém, descontrolou-se quando se tornou pública a acta da reunião do Conselho de Redacção em que o caso fora abordado. Miguel Relvas entrou num turbilhão político e mediático que - juntamente com outros casos - levaria à sua demissão. O jornal acabaria por ir a reboque do turbilhão e... publicou aqueles aspectos que o ministro ameaçara denunciar! A Entidade Reguladora para a Comunicação Social - nomeada pela maioria PSD/CDS - fez um parecer em que "não deu como provado" que "o ministro tenha ameaçado divulgar na internet um dado da vida privada da jornalista", isto apesar de ter sido a própria editora a dizê-lo à jornalista... E que, por isso, "não se verificou a existência de um condicionamento da liberdade de imprensa"!

Agora, volte-se ao caso "Congresso PCP". A mesma jornalista Leonete Botelho faz uma peça desequilibrada em que respalda uma iniciativa política do PSD - através de Paulo Mota Pinto - com a audição de um outro constitucionalista que corrobora a mesma tese. O outro constitucionalista é José de Melo Alexandrino, professor da Faculdade Direito de Lisboa.

Sobre a Faculdade de Direito, talvez conviesse ler primeiro uns posts que António Garcia Pereira escreveu (aqui e aqui). Depois, saber que Melo Alexandrino foi autor de um livro com Marcelo Rebelo de Sousa. O jurista tem criticado o Governo, nomeadamente a ministra da Saúde ou a retirada de medicamentos (novamente um artigo de Leonete Botelho), foi autor de um parecer crítico ao apoio público à comunicação social para a Entidade para a Comunicação Social e voltou a apoiar recentemente a decisão de Marcelo de colocar os confinamentos obrigatórios no âmbito da restrição do direito de liberdade (em mais um artigo de Leonete Botelho). 

Mas sobre a biografia do professor citado pelo Público convirá atentar num pormenor: foi autor de uma edição dos escritos completos de Rolão Preto, uma das figuras controversas do fascismo português. 

Rolão Preto foi um dos grandes fundadores do Integralismo Lusitano e do Movimento Nacional Sindicalista, inspirado no fascismo italiano, tendo - segundo Fernando Rosas - "a sua actividade de 1918 a 1934, data da ilegalização do nacional-sindicalismo, dominada pela tentativa de subtrair a classe operária portuguesa ao socialismo, anarco-sindicalismo e, mais tarde, ao comunismo". Apoiante do golpe 28 de Maio de 1926 que derrubou o parlamentarismo, Rolão Preto associou-se ao movimento fascista e criou um grupo milicial de apoio ao golpe, com fim de implantar uma Ditadura. Depois, chegou a intentar diversos golpes contra Salazar até o seu movimento ser ilegalizado, passando à oposição ao regime, tendo sido apoiante da candidatura de Norton de Matos, Quintão Meireles e Humberto Delgado. Depois do 25 de Abril, foi dirigente do PPM. 

A liberdade intelectual é uma coisa linda, já os ídolos escolhidos são mais discutíveis. Tal como são bastante discutíveis os critérios editoriais da jornalista do Público e presidente da Comissão da Carteita Profisional dos Jornalistas. Mas é destas malhas que a intriga de Marcelo se tece.

5 comentários:

  1. Parabéns pela amálgama. Não percebi nada, excepto a tentativa de atirar o barro à parede para ver se cola, que é mais ou menos do jaez da tentativa de atacar o PCP pela realização do congresso.

    Já se percebeu que o João Ramos de Almeida gosta da teoria de que isto anda tudo ligado... Olhe que isso é pior do que chamar o James Bond à colação, esse ao menos é uma personagem de ficção completa...

    Já agora, o argumento de que o PCP faz crescer a impressão de que existe uma regra para os políticos e outra para o resto da população, ao não se solidarizar com os sacrifícios dela, é perfeitamente verdadeiro. Mais, é da elementar prudência que todos os encontros que envolvem dezenas ou centenas de pessoas devem ser evitados (Fátima, fórmula 1, etc, etc, incluídos). Foi aliás por isso que o PS e o BE adiaram os respectivos congressos.

    Fazer-se política às vezes implica abdicar de direitos para não se passar por arrogante e casmurro...

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  2. Um post muito elucidativo
    Tanto como o facto de Jaime Santos não perceber nada. Ou dizer que não percebe

    Já agora

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  3. Como a campanha para as presidenciais se aproxima e dado que a probabilidade de andarmos ainda todos a jogar às escondidas com o COVID-19/20 é alta, é necessário fazer agora o máximo o ruído possível, para que a opinião pública fique saturada e ninguém faça caso dos do que se vai passar a seguir.

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  4. Caro Jaime,
    O julgamento político da vantagem ou não de realização do congresso é perfeitamente razoável. Pode ter vantagens e inconvenientes. E com certeza que o PCP terá feito as suas contas.

    Outra coisa é achar-se que, a cavalo de um julgamento político, se pode subverter a lei. Ou - pior! - como não se pode, que se pode mudar a lei e criar outra com fotografia! E aí o caso pia mais fino.

    Mais fino ainda pia quando se trata de um estado de emergência e a tentação deste presidente é a de provocar ao máximo quem pode. No início, provocou os sindicatos, limitando o direito à greve ou mesmo o direito às participação na elaboração da legislação laboral! Acha normal? Até parece que, mesmo que houvesse o argumento da pandemia (que era a propósito disso que se fixava o estado de emergência) essa participação não pudesse ser feita ... por email! :-) Agora, como não pode mais e aquilo não caiu muito bem, provoca o PCP... no momento da aceitação do OE.

    Tudo neste presidente parece ser feito com uma ideia diferente daquela que é apregoada. Tem um pendor securitário e desproporcionado, sempre para um dos lados (os mais fracos), mesmo que todos os cuidados com pandemia sejam poucos. Cuidados esses que ele nem teve quando os bichos andavam, já aí a circundar.

    E, de facto, há coisas que andam ligadas. Estas estão. Se são importantes ou simplesmente casuais, logo se verá.

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  5. Jaime Santos não percebe nada. Está como Bernardo Ferrão, outro leonético comissário, que do discurso de António Costa no sábado também não percebeu nada. Diz bué de si - há gente que nem com boneco.

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