quinta-feira, 7 de abril de 2011

Os donos do tempo

A noite televisiva do dia em que Portugal decidiu solicitar à Comissão Europeia "ajuda" externa (com aspas) colocou, uma vez mais, à disposição da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) material muito interessante para medir o pulso ao grau de pluralismo que o debate político-económico tem entre nós.

Excluíndo os comentários de representantes dos diferentes quadrantes políticos e dos jornalistas de Economia (residentes) dos vários canais televisivos, um zapping pelos programas que se dedicaram à discussão da decisão do governo e uma consulta das páginas de internet das diferentes estações poderão ser muito esclarecedores a respeito das vozes que colonizam o espaço mediático.

A RTP programou um Especial Informação (Portugal e o Futuro), alinhando num dos painéis principais (de comentário económico), Daniel Bessa (Economista), António Pires de Lima (Economista/Gestor de Empresas), Fernando Ulrich (Presidente do BPI) e Tomás Correia (Presidente do Montepio Geral). Sim, o lema do programa era «Portugal e o Futuro». Na página internet da RTPN, entre as 23.30h e as 24.00h, os destaques disponíveis de comentadores (para lá do universo da representação partidária e do jornalismo económico) são concedidos a: João Duque (Economista), António Saraiva (Presidente da CIP), João Vieira Lopes (presidente da CCP), Tomás Correia (Presidente do Montepio) e Fernando Ulrich (Presidente do BPI). Na TVI24, o Jornal da Noite deu a palavra a José Manuel Fernandes, Helena Matos e Silva Peneda, destacando a página internet deste canal as opiniões de António Saraiva (CIP), João Vieira Lopes (CCP) e «Sindicatos» («chapéu» usado para mencionar Carvalho da Silva e João Proença). Na passagem pela SIC Notícias, a edição da Noite integrou um debate entre Guilherme Silva (PSD) e Ruben de Carvalho (PCP), ou seja, enquadrado partidariamente, e o comentário de Sarsfield Cabral e Daniel Oliveira.

É claro que a identificação dos comentadores escolhidos não basta para o estudo aprofundado a que a ERC se deveria regularmente dedicar (embora algumas «onmipresenças» sejam já, por si só, muito significativas). Uma análise de conteúdo do discurso e de posicionamento face às questões essenciais que estão em jogo revelar-se-ia muito clara, dando seguramente conta de como são estreitas, na maior parte dos casos, as balizas do debate e de como se constroem os caminhos do pensamento único, por mais suicídas que, comprovadamente, demonstrem ser.

6 comentários:

  1. Artigo de Stiglitz sobre a desigualdade na Vanity Fair:

    http://www.vanityfair.com/society/features/2011/05/top-one-percent-201105?printable=true&currentPage=all

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  2. Por estes dias, a estreiteza do debate politico/económico reflecte a falta de apetência que temos para incorporar diferentes ideias, na politica, no futebol, na economia, sociedade em geral. Nós, portugueses, somos pessoas que não lidamos bem com a diferença e, sobretudo, não queremos sequer aprender a lidar com ela. Incomoda, Desestabiliza, é trabalhosa. É-nos muito mais cómodo ser estreitos e afunilados. Nas televisões, nos jornais, nos mass media... E lá se vai dedicando uma coluna de um outro jornal aos Daniel Oliveiras e aos Baptistas Bastos deste país... Um tempo de antena à contra-corrente... (Assim entretemos os pombos com milho)! Se calhar, na nossa história recente, as coisas poderiam ter sido diferentes, e poderão ser diferentes. Penso que um contributo precioso poderá vir do BE e PCP deixarem cair os mega chavões "Trotskysmo" "Leninismo" "Marxismo", e porra, dedicarem-se de uma vez por todas à análise real e objectiva da sociedade que temos hoje... Pergunta: BE e PCP reflectirão exactamente em acção politica os anseios dos seus votantes? Eles estão a prestar o contributo para o alargamento do espectro politico/economico que se espera deles? Poderão sempre viver com os seus "quase 20%" durante alguns anos, até aparecerem forças de esquerda renovadoras que capitalizem por completo o Alentejo, os libertinos, e os descontentes do PS... Continuar a ser cego na sua utopia e conservador na sua acção ou ser realmente progressista é o desafio das forças politicas BE e PCP, e o contributo maior que podem dar para ampliar o debate politico e económico em Portugal... Não basta referir Keynes, Stiglitz... É preciso mais! Muito mais! Estarão realmente preparados para a verdadeira luta democrática em Portugal? Amanhã já se começará a ver alguma coisa...

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  3. Concordo com o Fábio, existe um potencial eleitoral enorme para uma coligação se houver lugar a uma reformulação destes dois partidos, abandonando anacronismos e academismos, os seus dois maiores defeitos.

    O PS ganhou as últimas eleições roubando o lugar ao PSD e forçando-o a ir mais à direita.

    A consequência foi que o PS começa agora a perder credibilidade para quem é verdadeiramente de esquerda e não se consegue rever na forma actual do BE/PCP ao mesmo tempo que a direita mostra fortes sinais de união.

    O PCP/BE só se pode unir para responder a um PS auto-destrutivo e a uma mais que provável união das direitas.

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  4. Caro Nuno,

    A questão é muito simples. Provavelmente pela primeira na história recente de Portugal, o comando da esquerda está do lado das forças politicas BE e PCP. São eles que podem agora demonstrar a existência de uma verdadeira politica democrática e alternativa para o País. E podem, através do seu (RE)posicionamento, (re)colocar o PS nacional. BE + PCP = 18%. Ok. Se o BE e o PCP insistirem em arcaismos academicos e filosofias balofas continuarão contentes nas suas cadeiras parlamentares, mas talvez apenas com 13%/14%, a contestar as "politicas de direita", perante a descrença do povo maioritário de esquerda. Definharão nos próximos anos de austeridade, sem poder de decisão politico e a encher a boca nos comícios e nas Manif's da gente (cada vez mais) à rasca, nas Avenidas da Liberdade deste pais. Por outro lado, BE e PCP, antecipadamente, e a partir de amanhã podem "confessar-se" ao Deuses Marx, Engels, Lenine e Trotsky e pedir um "break" ideológico. É arriscado para o seu quintal? É! Bastante! Mas poderão fazer um enorme serviço ao Pais e à nossa maioria de esquerda (democrática) que desespera há anos... E que terá pela frente apenas desespero, se BE e PCP não fizerem isso, aqui e agora. JÁ!!! Depois disso, a questão do PS é muito simples. Ou se desprende também de alguns preconceitos que tem em relação à sua esquerda, ou verá definitivamente fugir-lhe eleitorado, já nestas eleições, para os próprios BE e PCP. E a partir daí poderemos falar de valores de mais de 20% (para e BE e PCP) e de um PS cada vez mais fraco, que terá na sua esquerda os unicos aliados possiveis, sendo que com maioria parlamentar, a direita limpará as botas em cima de qualquer outra força politica... Por muitos e maus anos, para todos nós.

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  5. Concordo totalmente, só acho que o risco para estes partidos não é assim tão grande- BE e PCP não têm nada a perder face ao descrédito total do centro e a evidente coligação de direita que vai acontecer.

    O PS, que enfrenta o exílio, já veio com o argumento dos "arcaísmos" e do "radicalismo", a arma de arremesso habitual que poucas vezes é contestada, incompreensivelmente.

    O socratismo tem tudo a perder com o surgimento de uma esquerda com um poder equivalente que obriga o PS a voltar à esquerda, se no meio de tantos jotas e ex-jotas sequiosos de tacho e históricos ressabiados ainda lá restarem socialistas.

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  6. O mocinho de recados já tem ideias:


    PSD quer "parceria" entre oferta pública e privada na educação, saúde e acção social
    Ontem

    O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, defendeu, quinta-feira, que deve haver o que apelidou de "parceria" entra a oferta pública e a oferta privada nos sectores da educação, saúde e acção social.

    Durante uma conferência na Universidade Lusófona, Passos Coelho deu como exemplo o que se passa actualmente com os alunos que optam pelo ensino superior privado, que considerou ser uma injustiça.

    "Aqueles que hoje estão no ensino público beneficiam de um custo, porque têm um pagamento beneficiado pelo Estado, que aqueles que precisam de recorrer ao ensino não público têm de enfrentar", apontou.

    "E então o absurdo é que Estado, em nome da igualdade de oportunidades e da garantia de que o próprio Estado deve dar de uma rede pública de ensino para que todos possam aceder à formação, acaba por estar a transferir dos impostos" de todos um benefício para alguns, disse, acrescentando: "é uma perversão" e "tem de ser alterado".

    Mais à frente na sua intervenção o presidente do PSD defendeu que deve haver "um contrato de parceria com a sociedade" e que essa "parceria" deve partir do princípio de que os serviços públicos não têm de ser desempenhados pelo Estado.

    Segundo Passos Coelho, na educação deve haver "uma rede nacional de ensino" que inclua as escolas públicas e as privadas, sendo essa oferta "vista em conjunto".


    http://www.jn.pt/PaginaInicial/Nacional/Interior.aspx?content_id=1825453

    XXXXXXXXX

    cOLÉÉÉÉÉÉÉÉÉ gas...

    O que é isso de Parcerias é uma metáfora, eufemismo, "analfase"???

    Se uma pessoa quiser ir para a privada por opção então que a pague. Queria ir para uma pública tivesse estudado mais. Então agora temos de andar a pagar aos privados para cobrir a falta de estudo de alguns? Passos Coelho também tirou o curso numa Universidade privada, a Lusófona. Sentiu-se injustiçado foi? É como eu já disse: Tivesse estudado mais. Não venha agora prejudicar os mais trabalhadores, que tiveram melhores notas do que o senhor dando os nossos impostos a privados que muitas vezes não fornecem o ensino de qualidade para o merecerem.

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