quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Desfaçatez, cegueira e loucura

Estou a ouvir o debate do Programa do Governo e há coisas que me deixam perplexo.

Primeiro, a desfaçatez. Os deputados da coligação de direita dão o corpo ao manifesto pelos seus partidos e põem questões, como o fez Hugo Soares e Adão e Silva, sobre quantos vão ser os beneficiários da Segurança Social a perder benefícios sociais. Eles que nunca levantaram um dedo para impedir o corte de beneficiários do Complemento Solidário de Idosos, do RSI, do abono de família, mesmo dos pensionistas. Pelo contrário, sempre defenderam um modelo de apoio social que consagrou esses cortes.

Segundo, a cegueira. Ouvir os deputados falar de um país recuperado, com o rendimento a crescer e com o desemprego a descer, quando ainda existem 1,15 milhões de pessoas em desemprego ou no subemprego, com uma emigração sem cessar de subir que afecta a população activa e mesmo a população total e que, claro está, explica de sobremaneira a redução do desemprego; ouvir isto é, no mínimo, não perceber nada do que se está a passar em Portugal e como os portugueses estão a viver.  De 2011 até ao 3T 2015 a população activa perdeu 254,1 mil pessoas, enquanto o desemprego em sentido lato subiu 94 mil pessoas. Ou seja, apesar da forte emigração, o desemprego criado desde 2011 não foi ainda "absorvido" pelas actividades em Portugal ou estrangeiro.

Terceiro, a loucura. Ouvir a bancada social-democrata salientar, e repetir, e repisar que o actual governo é "socialista e comunista" é frisar que a coligação de direita é isso mesmo: de direita. Por cada vez que colam o epíteto "comunista" ao governo socialista, tentando cavalgar uma direita ressabiada, apenas se encostam cada vez mais à direita. E mais tarde ou mais cedo será o próprio PSD que sentirá necessidade de mudar de discurso. E de líderes. E de deputados.

5 comentários:

  1. Socialista e comunista versus direita.
    Nada mais claro!
    O resto é a treta que faz da protecção e justiça social valor inexistente na direita, mantra que encanta a esquerda e de que esta necessita em absoluta para capear de elevado valor moral a sua indigência mental!

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  2. "Por cada vez que colam o epíteto "comunista" ao governo socialista ..."
    Colar o epíteto "comunista"comunista é um insulto?

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  3. Caro José,
    Tenha paciência, mas olhe para os números e nunca mais fale de protecção social como valor da direita. Desta vez, contenha-se, não ponha tantos pontos de exclamação e, sobretudo, não escreva antes de pensar. Olhe para os números.

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  4. Desfaçatez sem limites! Nem que seja só o benefício de 1€, o que é preciso é dar início à inflexão. É ridículo que estes PaFs se queiram agora colar a pensionistas, trabalhadores, e à maioria que eles massacraram, na expectativa de encontrarem aliados. (Será que ainda os vamos ver em greves?). Bardamerda!

    Espero que permaneçam para sempre na sua loucura, e a ouvi-los dizer que “a coligação negativa de esquerda só tinha em vista o poder”… Um subterfúgio que pode atenuar as mágoas da direita, mas não colhe, pois a esmagadora maioria dos cidadãos quis correr com eles. Aliás, eles ainda não perceberam que esta convergência à esquerda resultou não só da iniciativa das direcções partidárias, mas também, e muito, da vontade dos diferentes eleitores. Foi inevitável, estava assim aberto um ciclo muito mais interessante de fazer política.

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  5. Caro João
    De há muito tenho pensado no 'princípio da confiança' que é algo como o seguinte: toda a asneira, todo o engano, todo o acto corrupto praticado pelos governos ou maiorias parlamentares constitui os seus beneficiados em titulares de direitos inalianáveis. O governo dá o que não pode para se manter no poder, o partido vota benesses para se fazer eleger, alguém terá que pagar que o direito esse permanece ad aeternum para os seus adquirentes.

    Num país de reformas majoradas, benefícios cegos e tolerâncias aberrantes, todo um rol de parvoeiras em direitos e garantias que nos mantêm na indigência, não raro os cortes são actos de justiça e de respeito intergeracional.

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