quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A defesa do protectorado


Um dos exercícios mais divertidos que vejo na televisão matinal é a racionalização à posteriori das pequenas variações dos índices bolsistas feita pelas televisões nas suas ligações às redacções da imprensa económica: “Hoje o PSI-20 abriu a descer 0.02% devido às perspectivas de recessão no Luxemburgo”. Existe sempre uma qualquer explicação. Agora, com as taxas de juro dos títulos de divida pública nacionais a não sofrerem alterações depois das medidas anunciadas, Jorge Costa faz o mesmo exercício: as taxas de juro não se alteraram porque o orçamento pode não ser viabilizado e há a possibilidade do governo mudar de ideias durante o próximo ano. Tal não passaria de um inútil palpite se não escondesse uma agenda política. Argumenta Jorge Costa que a solução passaria por recorrer já ao fundo de estabilização europeu. Para conseguir financiamento mais barato para o Estado? Sim, mas sobretudo para colocar a nossa política orçamental sobre a alçada do governo alemão. Garantia de um orçamento “muito mais duro”. A democracia é uma chatice, não é?

Jorge Costa pode defender o protectorado, mas convém ser um bocadinho mais honesto quando tenta convencer-nos que se adoptarmos o “alemão” e muito duro plano de austeridade se “começar(á) a infundir recuperação de confiança e substituir a necessidade do Fundo; suficientemente virtuosas para – eventualmente – produzir a almejada diminuição dos custos de financiamento”. Assim, sei lá, como na Grécia, não?

Pois bem, depois do recurso ao financiamento europeu e dos duros planos de austeridade impostos aos gregos (nós estamos sempre um passo atrás) os juros cobrados nos títulos de divida grega são agora de mais de 10%. Aumentaram quase exponencialmente. E agora é a minha vez de ser o oráculo dos mercados: com a economia em contracção abrupta (menos 4% do PIB este ano, menos 2% no próximo) não parece que a Grécia vá conseguir cumprir os pagamentos da sua divida. Os “mercados” cobram assim um premio de risco que antecipa um default.

Nós estamos sempre um passo atrás... A não ser que aprendamos com os trambolhões de quem vai à nossa frente.

2 comentários:

  1. isso é que é fé

    se não aprendemos durante os últimos 20 anos

    a bolha de 91 no Reino Unido

    e a bolha imobiliária de 2005/06 nada nos ensinaram

    e dois anos após as ameaças do big crash
    continuamos na mesma

    e as ameaças do Dubai e da Grécia

    são problemas dos outros

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  2. Salada religiosa, nós até aprendemos. Quem não aprende é a elite que nos governa.

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